Segunda-feira,
24/3/2003 A última salsicha iraquiana Eduardo Carvalho
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Para ainda acreditar que seria possível uma solução pacífica para desarmar Saddam Hussein é necessário uma combinação absurda de ingenuidade infantil e desinformação crônica. Enquanto pacifistas, no Brasil e no mundo, se unem, em coro unânime e inútil, para protestar contra a Guerra, o debate internacional sério discute as opções de ataque e de futuro governo em Bagdá. Os dois lados estão rigidamente decididos, e nenhum voltará atrás: os Estados Unidos e a Inglaterra pretendem arrancar Saddam Hussein do Iraque; Saddam Hussein já declarou que prefere a morte ao exílio. Que morra, então.
O que é mais preocupante e assustador, no caso dessa Guerra, é a incansável insistência, de quem não tem a menor idéia do histórico do conflito, de opinar ativamente sobre o assunto. Há, neste caso, duas verdades patentes, nas quais são baseados quase todos os argumentos contra a Guerra: Bush realmente é um líder ignorante; e guerra é, sempre, uma situação que deve ser evitada. Mas é uma inocência obtusa acreditar que Bush, sozinho, é capaz de declarar guerra apenas por motivos pessoais, para completar o trabalho que seu pai iniciou. Ninguém considera Collin Powell, por exemplo, analfabeto ou despreparado: e, com seu conservadorismo realista, Powell é o homem incumbido da missão diplomática americana. E qualquer guerra deve, até o último momento, ser evitada, porque acarretará necessariamente em mortes, e seu desfecho é, muitas vezes, inesperado. É exatamente por isso que a Guerra contra o Iraque foi, até o último recurso, postergada: mas o problema é que o último recurso, como vários anteriores, não funcionou - por culpa de Saddam Hussein, e não de Bush.
Saddam Hussein conhecia perfeitamente a Resolução 687 da ONU, que, em 1991, quando encerrada a Guerra do Golfo, foi apresentada ao seu país: ele estava impedido de produzir armas de destruição em massa. Nunca, porém, durante os 12 anos que se passaram, esse acordo foi cumprido. O Iraque continuou desenvolvendo armas nucleares, químicas, biológicas e mísseis, solenemente desprezando a Resolução. Saddam impôs, em seu país, uma ditadura genocida, que já matou entre 200 e 300 mil iraquianos. Saddam já promoveu massacres aos curdos e já invadiu o Kuait. Qualquer ameaça de oposição interna, no Iraque, é violentamente torturada e imediatamente exterminada. Em novembro de 2002, mais uma vez, a Resolução 1441 determinou que Saddam apresentasse um relatório de seu arsenal, mas, em seu lugar, foi entregue uma coleção de comprovadas mentiras. A Resolução 1441 - assinada por Inglaterra e Estados Unidos, e, vale lembrar, também China, França e Rússia - era o último recurso: se descumprida, estavam previstas "sérias conseqüências". Ou seja, em português: invasão bélica, para derrubar Saddam e desarmar o Iraque.
Não há dúvida de que o regime de Saddam é desumano - e que, se deposto, e sucedido por uma administração competente, a população iraquiana será a principal beneficiada. O interesse americano em derrubar Saddam deveria, então, ser respeitado, por três motivos: o ataque americano está apoiado em decisão estabelecida pelo Conselho de Segurança da ONU, a Resolução 1441, ao contrário do que é amplamente divulgado; o Iraque, do jeito que está, representa um perigo iminente aos Estados Unidos, porque tem, comprovadamente, relação com organizações terroristas, como a Al-Qaeda; e Saddam é um ditador fascínora, que, com aterrorizante sadismo, assassina e tortura iraquianos, inclusive mulheres e crianças, para controlar e prolongar seu mandato. Os Estados Unidos pretendem encerrar a gestão de Saddam porque, para quem não se lembra, Manhattam foi, no ano passado, quase destruída - o que exigiu, de modo urgente, uma posição americana mais atenta e agressiva, para prevenir futuros atentados ou conflitos. E Saddam é, principalmente para os Estados Unidos, uma ameaça potencial evidente: ninguém, afinal, financia um poderoso e secreto programa armamentista para enfeitar armazéns desocupados.
Não é, evidentemente, a crueldade com que é imposto o regime de Saddam que estimula a invasão americana. Não é exatamente pela democracia que essa Guerra está acontecendo: é pela segurança; pelo perigo que um regime sanguinário e totalitarista, com ambições imperiais e relações terroristas, significa, especialmente para os Estados Unidos. A democracia, se implantada, com tempo e cuidado, no Iraque, é conseqüência. Uma conseqüência indiscutivelmente positiva, que, aliás, pelo mundo inteiro, recebe votos de exilados iraquianos. E ninguém sabe, melhor do que eles, o que é viver sob o domínio de Saddam Hussein: é por isso que, de vez em quando, um imigrante iraquiano estapeia um pacifista alemão. A única preocupação, no caso de Guerra, de iraquianos que moram fora do Iraque, é com a família que ficou no país. Que eles prefiram o risco de familiares serem bombardeados pelos americanos à estender indefinidamente a ditadura de Saddam é uma prova incontestável de que o regime precisa acabar. E acabar logo. O reinado de Saddam desagrada e preocupa iraquianos e americanos, por motivos, de certa forma, diferentes: mas o legítimo interesse de afastar do poder Saddam é precisamente o mesmo.
Enquanto isso, pelas beiradas, multidões, no Brasil e no mundo, manifestam-se contra a Guerra. Se os Estudos Unidos, antes de 11 de setembro, atacassem o Afeganistão, o barulho seria igual. E, mesmo assim, quando atacou, recebeu acusações conspiratórias, dos mesmos pacifistas de hoje, de que o interesse era exclusivamente o petróleo afegão. Como foi, aliás, quase idêntico, quando forças da OTAN invadiram Kosovo, sem apoio da ONU, para capturar Milosevick. Sempre o discurso pacifista repete os mesmo chavões - e, entre eles, destacado como principal motivo, o de que "os americanos querem roubar (sic) petróleo alheio". Não é bem assim, mais uma vez. Interessa, de fato, aos Estados Unidos, uma administração confiável e estável no Iraque, onde encontra-se a segunda maior reserva petrolífera do mundo, para aumentar a produção e enfraquecer a OPEP. O desempenho da economia mundial não pode mais depender de tiranos imprevisíveis, como Saddam Hussein, e nem eles mesmos merecem o destaque geopolítico que possuem: a população iraquiana, que deveria se beneficiar com o petróleo extraído em seu país, tem direito a um líder competente e honesto. A verdade, por sinal, pouco anunciada e nunca discutida, não é que a Guerra está acontecendo por causa do petróleo iraquiano, mas justamente o contrário: França e Rússia, que se exibem como defensores da paz, estão preocupados é com os gigantescos investimentos de seus empresários em sociedade com o governo iraquiano.
Do mesmo modo, portanto, que França e Rússia se comportam, defendendo interesses egoístas para manter um regime sanguinário, a maioria dos pacifistas internacionais escondem suas idéias reais enquanto desfilam sentimentos simpáticos. É o caso, por exemplo, dos jovens manifestantes brasileiros, que não são, em nenhuma hipótese, pacifistas: são, na verdade, anti-americanistas, o que é bem diferente. Vestem camisetas com Che Guevara, um assassino compulsivo, estampado, e pintam a palavra "Paz" na testa. Tudo muito divertido e muito bonito, com apoio de intelectuais e políticos, e com a inabalável certeza de que estão "lutando por um mundo melhor". Distribuem imagens de Bush com bigodinho de Hitler e acreditam na Revolução Russa. Bush não é, de maneira alguma, um presidente exemplar, e muito menos para esses "pacifistas": Bush é, para eles, o "verdadeiro ditador nazista"; e Saddam, este sim, um líder admirável, que, com seu exército esfarrapado, desafia as "forças imperialistas". Quem é contra a invasão americana, - conscientemente ou não, intencionalmente ou não - acaba a favor da permanência de Saddam no poder iraquiano.
Todos os instrumentos diplomáticos possíveis já foram esgotados. Saddam continua se armando - e agarrado no poder. Saddam transformou o Iraque em um frigorífico humano. Que ele, agora, seja o último pedaço de carne processado pelo sistema que criou. Só lembrem, pelo menos, de raspar o bigode antes de transformá-lo em salsicha.
Caro Eduardo,
Seu sonho de uma democrocia no Orinete próximo é tão bobo quanto dos manifestantes pacifistas brasileiros. O valor democrácia é algo ocidental e não da região do conflito
Não diga que o Japão antes da Segunda guerra tinha democracia e agora tem. Até que ponto existe a uma democracia japonesa nos moldes ocidentais?( a base seja, mas atitudes não)
Outra coisa que me espanta em sua argumentação é entender a retórica do governo bush a justificativa vamos atacar antes para ser atacado. Isso abre um prescedente enorme. A partir disso podemos estrapolar e imaginar que uma besteira dita aqui pelo nosso governo ( algo com grandes chances de acontecer) pode colocar mísseis norte-americanos apontados para Brasília.
Talvez a guerra aconteça porque temos no poder uma pessoa tão ignorante quanto um Saddan. W Bush pensa o mundo de forma simples, ou você é meu amigo e inimigo.
Espero que a guerra seja curta e que o mundo consiga encontrar um novo equilíbrio na região e que você repense em seu apoio ao "Alfred Neummam", tanto ele quanto o Tio Saddam são farinhas do mesmo saco, só muda a região do plantio do trigo
Ivan Lessa diria pro Eduardo: "Bobinho!" À Claudia perguntaria: "O que é que o Guy Debord tem a ver com o raciocínio rumsfeldiano do articulista?" E ao Otavio recomendaria tomar algumas aulas de português. Eu, modestamente, limito-me a dizer "bullshit".
Que o regime de Saddam é sanguinário todos sabem. Principalmente com seu próprio povo. Só que até agora ninguém conseguiu provar que o Iraque possui armas de destruição em massa ou ligações com Al-Qaeda. Isso é só pretexto para essa guerra. Aliás, qualquer guerra é infundada, pois quem sempre sai prejudicado nessa situação é a população civíl. Eu queria ver se a corja do Bush e cia. invadissem o Brasil a troco de água e destruissem a sua casa, seu carro, ou matassem seus filhos você ainda teria esse pensamento tolo.
Eduardo, deve ser desanimador gastar algumas horas para escrever um texto e receber criticas tão "eloqüentes" como as que eu vi aqui. Um acha que, como não há armas de destruição em massa, Saddam pode continuar com sua rotina sanguinária (deve ter consultado os iraquianos). Outro apela pro lugar mais do que comum da crítica ao alegado altruísmo, sem lembrar que durante um incêndio, não quero saber se o bombeiro está fazendo aquilo apenas porque recebe um salário. Quero é me ver livre da merda. O argumento mais completo, que cobriu todas as perspectivas foi o vastíssimo "bullshit". Impressioante!
Caro Eduardo
Primeiro uma correção: não se trata de uma guerra, mas de uma invasão.
Mas queria falar sobre a sua ingenuidade. Ela realmente, ao que parece, não tem limites. Você então acha que a invasão ao Iraque se deu em consequência de ser, o ditador Saddam Hussein, um "sanguinário"; um opressor do seu povo; alguém que não respeita a oposição ou a democracia etc. Faça-me o favor!
Você realmente acha que os EUA, os nossos "anjos da guarda" na Terra, estão preocupados com qualidade de vida de todos os povos deste planeta, e que estão demonstrando tamanha benevolência neste momento, com o povo iraquiano!
Entenda o seguinte: você tem um espaço propício para a reflexão. É uma oportunidade. Que tal usá-lo de maneira mais responsável. Qualquer reflexão advém evidentemente, da formação, do histórico, das apreensões de cada um de nós. Um texto de caráter político, está baseado no ideário ideológico de quem o escreve. Mas é essencial, uma fundamentação. No seu texto você apenas escancarou o seu viés ideológico e parou por aí. O resto, foi uma feira livre de simplificações ingênuas. Dê-nos algo mais encorpado, até para que possamos comentar e se for o caso, discordar.
César de Paula.
Ao César de Paula: "Não é, evidentemente, a crueldade com que é imposto o regime de Saddam que estimula a invasão americana. Não é exatamente pela democracia que essa Guerra está acontecendo: é pela segurança; pelo perigo que um regime sanguinário e totalitarista, com ambições imperiais e relações terroristas, significa, especialmente para os Estados Unidos." Será que eu preciso, para cada comentarista, explicar de novo o que já expliquei no texto? Leiam, por favor, com mais cuidado. Abraços,
Eduardo
Na The Economist, a melhor revista informativa do mundo, de 12 de abril, para quem não se deu o trabalho de ler: "Mr Bush did not launch this war on behalf of the people of Iraq. He went to war because, after September 11th, the propect that a man such as Saddam Hussein would keep his outlawed chemical and biological weapons, or obtain nuclear ones, seemed too big a danger for America to live with."
E do meu artigo, publicado antes - e acusado, pelos desinformados, de superficial -, quase uma tradução literal: "Não é, evidentemente, a crueldade com que é imposto o regime de Saddam que estimula a invasão americana. Não é exatamente pela democracia que essa Guerra está acontecendo: é pela segurança; pelo perigo que um regime sanguinário e totalitarista, com ambições imperiais e relações terroristas, significa, especialmente para os Estados Unidos."
Eu queria saber: a que tipo de leitura essas pessoas se dedicam? Abraços,
Simplesmente parabéns pela coragem de enfrentar a onda esquerdista. Mas agora a máscara dos "pacifistas" caiu com o silêncio em relação aos recentes acontecimentos em Cuba.