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Segunda-feira, 2/12/2002
Viver para contar - parte 2
Marcelo Barbão

+ de 4200 Acessos
+ 1 Comentário(s)

(Começa aqui)

O ano de 1948 pode ser considerado um marco na Colômbia, era o começo de uma violência que vem se arrastando, com poucas exceções, até os dias de hoje. Enquanto se realizava a Conferência Paranamericana (precursora da Organização dos Estados Americanos) na cidade de Bogotá, o principal líder liberal, Jorge Eliécer Gaitán, foi assassinado.

Era o dia 9 de abril de 1948 e o início de um período extremo. Em poucos dias, milhares de pessoas são mortas, seus corpos empilhados nas ruas da capital. Gaitán era um populista amado pelas massas, o que explica esta reação. Os enfrentamentos entre o povo e o exército são constantes.

O governo conservador de Ospina Pérez era visto como responsável pelo assassinato. O episódio ficou conhecido como o "Bogotazo" e serviu como pretexto para um reação conservadora violentíssima que levou a 15 anos de perseguições, assassinatos e formação de guerrilhas liberais. Todo este período histórico colombiano, conhecido como "La Violencia", só terminou em 1953, quando os militares deram um golpe e conseguiram um armistício parcial com alguns grupos da guerrilha.

Toda essa situação foi um preâmbulo para o ressurgimento da guerrilha na década seguinte quando os camponeses radicalizados, influenciados pelo maoísmo e pelo guevarismo, deram origem a vários grupos que atuaram até os anos 80/90, além dos dois exércitos guerrilheiros que continuam ativos até hoje: as FARC e a ELN.

Em 1958, depois de cinco anos de regime militar, liberais e conservadores unem-se para a volta ao regime democrático. Mas era uma democracia controlada. Os partidos revezavam-se e dividiam o poder. Um dos motivos para a opção pela guerrilha era este regime fechado que impedia o crescimento e a participação de qualquer outro partido político.

E o incrível de tudo isso é que Gabriel García Márquez estava em Bogotá exatamente no dia 9 de abril de 1948, perto do restaurante El Gato Negro, onde Gaitán foi assassinado, e testemunhou toda a violência que aconteceu depois.

Gabo ainda não era jornalista, muito menos um ativista político, e conta que ficou assustadíssimo com tudo o que via. As imagens ficaram gravadas para sempre, inclusive uma estranha figura que Márquez, agora, vê como um dos principais agitadores que levaram o povo a protestar no Palácio de Governo. As suspeitas de que tudo aquilo foi uma armação (muito provavelmente dos próprios conservadores para reprimir os liberais) o perseguem desde então. Mas, os conservadores acusaram dois participantes da Conferência Panamericana pelo assassinato e violência decorrentes: o chanceler da Guatemala, Luis Cardosa y Aragon e o ativista estudantil Fidel Castro.

E "La Violencia" pode ser um marco, porque a fuga de García Márquez para Cartagena significa o início de sua carreira jornalística, antecessora da literária.

Os anos passados na região caribenha da Colômbia foram importantes para Márquez. Além do trabalho jornalístico em alguns periódicos regionais como El Universal ou o El Heraldo da vizinha cidade de Barranquilla. Longe da violência que assolava o resto do país, Márquez conseguiu dar os primeiros passos, tímidos e confusos, é verdade, na carreira literária.

Não podemos esquecer que o jovem escritor já havia publicado alguns contos em revistas literárias de Bogotá durante sua curta estadia. Mas é durante este longo verão caribenho que ele produz sua primeira novela (que, por acaso, não foi publicada no Brasil) chamada La Hojarasca. É durante este período que Gabo vive a aventura que abre seu livro de memórias: a viagem com a mãe até a cidade natal de Aracataca para a venda da propriedade dos avós. Não é à toa que Gabriel García Márquez abre suas memórias com este "retorno": a influência da região caribenha na sua vida literária é mais do que evidente. O mar, plantações de banana, Macondo, as lendas e costumes da região povoam suas histórias de realismo fantástico.

Pode ser este o momento onde tudo começa. Mesmo assim, o jovem jornalista, boêmio e festeiro, ainda sentia-se perdido e pouco confiante em sua capacidade. Uma timidez que permanecerá mesmo depois de se tornar um jornalista famoso. E isso acontece quando, de volta a Bogotá, ele começa a escrever para o famoso El Espectador.

Mas, o sucesso jornalístico não se reverte em sucesso na área literária e seu original de La Hojarasca é rejeitado pela famosa editora Losada de Buenos Aires. E dizer que isso não desanimou Márquez seria uma mentira. A vantagem daquele tempo (perdido nos dias de hoje) é que os jornais não eram dominados pela ditadura dos manuais de redação e da padronização "por baixo", assim os repórteres eram considerados escritores e podiam desenvolver seus temas e sua escrita. Quantos Garcías estão sendo assassinados diariamente nas "linhas de montagem" das redações dos jornais da nossa época?

E é com uma bagagem que inclui: um livro, muitos contos e milhares de idéias na cabeça que Gabriel García Márquez embarca para a Europa. Com o objetivo de permanecer duas semanas, acaba ficando alguns anos.

E aqui, para infelicidade de todos, termina o primeiro volume das memórias de García Márquez. Haja paciência para esperar o próximo.

Para ir além
Vivir para contarla
Gabriel García Márquez
Editorial Sudamericana - Buenos Aires
579 páginas


Marcelo Barbão
São Paulo, 2/12/2002


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
30/6/2006
15h58min
Simplesmente adorei a resenha sobre este maravilhoso livro e, mais particularmente, a segunta parte. Acabei de comecar minha faculdade e nunca consegui colocar em palavras tao perfeitas algo sobre o jornalismo de hoje como voce fez. Tambem estou impaciente para o proximo livro!
[Leia outros Comentários de Paulina Vespasiano]
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