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COLUNAS

Quarta-feira, 13/7/2005
Tomara que eu esteja errado sobre o Live 8, Bob
Arcano9

+ de 1600 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Não. Acho que não sou parte da massa, porque não acredito que tenha sido convencido pelo que vi. Não me entenda mal – compreendo e acho louvável seu objetivo, mas acho que acima de tudo segunda-feira é um dia como outro qualquer, sir Bob Geldof. E na segunda-feira as pessoas voltam à sua rotina, que prezam tanto, e sinceramente os líderes do G-8, também, voltam à rotina de tomar decisões pensando em quem os elegeu, não nos que desesperadamente precisam que eles tomem uma atitude. Você pode dizer “I Don’t Like Mondays” até a morte, pontualmente a cada 20 anos, que acho que não vai adiantar nada. Quem realmente acha que a Etiópia será o novo Luxemburgo dentro de algumas décadas? Ou mesmo um Estado de São Paulo? Eu, não. Sorry. A África vai continuar do jeito que está hoje por muito tempo, até que encontre sozinha, como parte de seu amadurecimento democrático, a saída para as armadilhas da instabilidade política e da corrupção. Não adianta esmola. Veja toda a esperança que tínhamos no Live Aid.

Não sei o que você esperava, se esperava que todos sem exceção ao meu redor naquela tarde encoberta e abafada captassem a essência do sofrimento africano vendo Youssou D’our enfiando sua voz entre uma e outra frase no “Thank You” da adorável Dido. Não foi um dos momentos baixos do show, diga-se de passagem – as cerca de 200 mil pessoas ao meu redor no Hyde Park não tiraram o olho do palco. Não foi como a Mariah Carey esperando o pedestal para o microfone que sua escrava-assistente demorou tanto para trazer, ou como aquele isqueiro chupado pelo Pete Doherty naquele dueto no mínimo estranho com o Elton John. Esses foram momentos baixos. Mas não muito baixos.

Porque, é inegável, você venceu. Este foi o maior show que este planeta já viu.

Deu duas da tarde, estava todo mundo na Piccadilly, cara, todo mundo indo para o parque. E eu me pergunto onde estava o pessoal do Brasil que não vive em Londres (sobrou alguém no Brasil?). A magia que você conseguiu reunir, o feitiço que conseguiu conjurar, simplesmente arrasou com as leis da física.

Primeiro, veio a viagem no espaço – e os fãs ocuparam vários lugares ao mesmo tempo. Estavam no meio da galera em Berlim. Em Tóquio. Em Johannesburgo. Depois, quando o Hyde Park já estava tremendo, na Filadélfia. Em Paris. Em Moscou. Em Barrie, perto de Toronto. Na Cornualha. Em Roma. Durante todo o show em Londres, a multidão no Hyde Park não ficava quieta. A cada intervalo, os telões voltavam a transmitir flashs de outros shows, em outras cidades. Chame isso de um show verdadeiramente globalizado. Depois, veio a viagem no espaço. Deu 13h58, e os telões mostraram aquelas imagens do Estádio de Wembley. Você tinha menos rugas. O mundo era menos acostumado aos megahipersuperconcertos para megamultidões, e quem era mestre nisso – e bota mestre nisso – era aquele fantástico Freddie Mercury, que matou a chineladas a preguiça dos caras. E eis que, ao meu redor, a galera treme de novo por ele. E grita. E chora. Freddie Mercury voltou, por um minuto. Engraçado que ele morreu de Aids, a mesma doença que agora mata zilhões na África que ele queria ajudar. De novo, ele tenta ajudar.

O Beatle veio a seguir. Ele se encarnou de novo, voltando aos anos 60, voltando às origens. Imagino como seja raro hoje em dia ele ter saco para cantar de novo essas músicas, deve preferir cantar coisas novas, que se encaixam melhor na sua voz que envelhece e se aprimora para longe dos gritos, para perto dos sussurros. Mas topou o desafio. Sua voz falhou claramente em trechos mais agudos de "Sgt. Peppers". Nada que tenha ficado marcado, pelo contrário, a falhada da voz foi puro efeito dramático. Mais perfeito, impossível. O acompanhamento de Bono foi um bônus para os fãs. “The atmosfere is amazing”, disse depois o irlandês. “Molecules in the air round here are vibrating a little faster than normal”.

Bono e The Edge continuaram com “Beautiful Day”, “Vertigo”, “One” e muito engajamento na causa. Depois vieram Coldplay (os bardos da Grã-Bretanha e seu som agridoce que, por aqui infelizmente, já estão começando a dar nos nervos como um dia o Oasis deu), Elton John (poderíamos ter ficado sem o tal do namorado da Kate Moss chupando o isqueiro, mais tudo bem), Dido e Youssou D’our, Stereophonics (que ainda vai agradar e irritar como o Coldplay), REM (aquela faixa azul pintada no rosto do cara? Foi marca de atropelamento, acho, ou uma tentativa de esconder sua identidade...), Keane, Miss Dynamite (meio enferrujada depois de dar à luz), Travis e Bob Geldof (por que esse dueto? Por quê? Ah, entendi, a multidão amou...), Annie Lennox (tocante), UB40 (nada de novo no front), Snoppy Dogg (fonte da metade das mais de duzentas reclamações que a BBC recebeu por causa de palavrões ditos pelos artistas durante o show; a outra metade veio de Madonna e Geldof), Razorlight, Madonna (a rainha, de branco puro e virginal, ainda é a rainha, mas há quem esperasse um pouco mais de ousadia. Ok. É bom lembrar que ela agora é mãe de família e se dedica à cabala), Snow Patrol (como? Eles já tocaram? Mesmo?), Joss Stone (que pena que a platéia já estava ficando cansada após quase seis horas), Scissor Sisters, Slash (Ooops. Era Velvet Revolver o nome do grupo...), Sting (o pessoal cantou com ele. Nem todo mundo estava dormindo), Mariah (meu Deus), The Killers, Robbie Williams (para acordar a galera... ninguém, mas ninguém mesmo, chegou perto do quanto esse cara conseguiu levantar a multidão. Deve estar nos genes dos britânicos gostar desse cara, assim como gostar da Kyle Minogue...), The Who (22h55) e, finalmente, Pink Floyd, antes de Paul McCartney e o adeus final.

Não vou falar muito do milagre que você conseguiu, sir Geldof, ao reunir Roger Waters com seus comparsas. Os primeiros acordes de “Breathe” praticamente silenciaram a multidão. Eu imaginava que os mais velhos fossem cantar as músicas, e assim o fizeram, ao meu redor. O que eu não esperava é que os mais jovens se juntassem a eles em “Wish You Were Here”. Foram contaminados. Eu não esperava mais ver eles juntos, sir Geldof. Faço minhas as palavras do próprio Waters: como é bom estar ao lado desses caras, depois de todos esses anos. (Engraçado o comentário de um jornal no dia seguinte: O Pink Floyd, no show, foi como o Coldplay vai estar daqui a 30 anos. Ahahahah.)

Quando a maratona terminou era já mais de meia-noite, e há muito alguns já tinham desencanado, decidindo ir para casa mais cedo, com o metrô ainda aberto e meio vazio. Mas milhares, milhões, zilhões (ouvindo pelo rádio, vendo pela TV) só puderam fechar os olhos com o senhor, sir Geldof, e seus amigos mais pacientes lotando o palco e convocando a marcha em Edimburgo. Eu estava cansado, meus pés, doloridos, meus olhos, doendo. Acho que todo mundo estava assim e quem ouviu sua convocação para a luta, seu gentil lembrete de que estávamos lá por uma causa justa, falou amém e não pensou muito mais nisso. E volto a insistir, acho que as lembranças são preciosas, o show foi maravilhoso, mas realmente acho que não adianta nada. Daqui há 20 anos, estamos de volta.

(Tá bom, Bob. Estou jogando a toalha. Cansei de ser pessimista. Tomara que eu esteja errado, e que o Live 8 não tenha sido em vão. Valeu pelo sábado.)


Arcano9
Londres, 13/7/2005

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
19/7/2005
07h49min
como disse um jornal aqui da Europa: "Idealismo sim, Simplismo nao". A África tem sido ajudada como poucas outras regioes do planeta nos ultimos anos ou décadas, mas padece tbém de um sistema corrupto que -a meu ver- nao desmerece nenhuma ajuda humanitária, mas a deve tornar cuidadosa...
[Leia outros Comentários de daniella z.]
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