A novíssima arquitetura da solidão | Marta Barcellos | Digestivo Cultural

busca | avançada
33888 visitas/dia
993 mil/mês
Mais Recentes
>>> JOALHERIA BRASILEIRA, HISTÓRIA, MERCADO E OFÍCIO
>>> Visita temática apresenta uma das Casas-Museu mais bonitas de São Paulo
>>> Pátio Alcântara celebra aniversário de São Gonçalo com programação especial
>>> Estação Plural traz uma conversa com a irreverente atriz Grace Gianoukas
>>> West Shopping recebe exposição gratuita 'Ontem, hoje e sempre...Rock'
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Notas de leitura sobre Inácio, de Lúcio Cardoso
>>> O jornalismo cultural na era das mídias sociais
>>> Crítica/Cinema: entrevista com José Geraldo Couto
>>> O Wunderteam
>>> Fake news, passado e futuro
>>> Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo
>>> Da varanda, este mundo
>>> Estevão Azevedo e os homens em seus limites
>>> Séries da Inglaterra; e que tal uma xícara de chá?
>>> A fotografia é um produto ou um serviço?
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
Últimos Posts
>>> Caracóis filosóficos
>>> O mito dos 42 km
>>> Setembro Paulista
>>> Apocalipse agora
>>> João, o Maestro (o filme)
>>> Metropolis e a cidade
>>> PETITE FLEUR
>>> O fantasma de Nietzsche
>>> O batom
>>> Dinheiro não tem cheiro
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Leonardo da Vinci: variações sobre um tema enigmático
>>> 29ª Bienal de São Paulo: a politica da arte
>>> Blog, o último furo jornalístico
>>> Blog, o último furo jornalístico
>>> Roubalheira vai parar o Brasil
>>> Alberto da Cunha Melo e as tocaias da poesia
>>> Alberto da Cunha Melo e as tocaias da poesia
>>> Mens sana in corpore sano
>>> Only time will tell
>>> A peça que faltava no seu projeto
Mais Recentes
>>> Almanaque Anos 70
>>> Almanaque 1964
>>> Enciclopédia do Estudante
>>> O futuro da arquitetura
>>> Manual Completo Do Automovel
>>> Passagens
>>> A Crise Dos 25
>>> A Proteção Do Sagrado
>>> Lições De Trevas
>>> Biblioteconomia No Brasil
>>> Crônicas De Vinho - In Vino Veritas
>>> Escrevendo Pela Nova Ortografia
>>> Vem, Senhor Jesus- Um Estudo do Livro de Apocalipse
>>> Elos da mesma corrente
>>> A Taça De Ouro
>>> Londres Chama
>>> Relações
>>> Turismo E Legado Cultural
>>> A Jornada Volume 2 - Caminhada Diária Com Deus
>>> Aquele mundo de Vasabarros
>>> Balada Do Pensamento
>>> O Menino Da Rosa
>>> Joana e os três pecados
>>> Responsabilidade No Trabalho
>>> Euclides Da Cunha: Da Glória Literária À Morte Trágica
>>> Pedaço Do Meu Coração
>>> Gerência Administrativa
>>> Nos ombros do cão
>>> Que Cara Tem O Aroeira?
>>> Pesquisas Em Relações Econômicas Internacionais
>>> B2b Application Integration
>>> A Grécia Antiga
>>> Aprenda A Usar O Computador E A Internet Através De Imagens
>>> Freakonomics - O Lado Oculto De Tudo Que Nos Afeta
>>> Spirit Nº 2
>>> Lendas Do Índio Brasileiro
>>> Introdução À Botânica Sistemática Vol. 1
>>> Jornalismo E Literatura
>>> Monitores De Mídia
>>> O mundo Pitoresco - Tomo 2 (China e Manchúria...)
>>> O mundo Pitoresco - Tomo 6
>>> Enciclopédia de estudos sociais - Geografia do Brasil, Moral e Civismo - Volume 2
>>> Juanribe pagliarim ( o evangelho reunido)
>>> Enciclopédia de estudos sociais - História do Brasil, Moral e Civismo - Volume 4
>>> Juanribe pagliarin (Jesus a vida completa )
>>> Enciclopédia de estudos sociais - História do Brasil, Moral e Civismo - Volume 3
>>> Reader's Digest, Seleções de livros/ Águas de fronteira - O lugar de uma mulher - Transplante - A guerra dos inocentes
>>> Reader's Digest, Seleções de livros/ Ilha do medo - Para sempre - Reação em cadeia - O solar de tia Harriet
>>> Reader's Digest, Seleções de livros/ Tempo de matar - O falcão da neve - Páreo dura - Dona Julia diz o que pensa
>>> Desmascarando o Espírito de Jezabel
COLUNAS

Sexta-feira, 4/11/2011
A novíssima arquitetura da solidão
Marta Barcellos

+ de 3300 Acessos

Não sei aí onde você mora, mas o Leblon está em obras. Não é a Prefeitura, nem o governo do Estado, ninguém preocupado com a Copa. O fenômeno, que deve se repetir em outros lugares onde o metro quadrado tornou-se ouro, começa quando o feliz proprietário acorda, pensa na grana que vale hoje o seu apartamento e fica um pouco incrédulo. Será? Valerá mesmo tudo aquilo que o vizinho comentou, que o jornal noticiou? Na dúvida, raspa a poupança, tira as economias do fundo de investimento que não está rendendo nada, e vai aplicar no apartamento. Se ele ficar bem branquinho, com menos paredes e mais tomadas, será mais fácil de acreditar.

É aí que tudo começa - e não termina mais. Os transtornos serão permanentes, pois os benefícios - reza a moderna arquitetura - são sempre passageiros. Logo outra modernização será necessária, especialmente depois de uma olhadela na sala nova do vizinho; quem será seu arquiteto? O bate-estaca de um inferniza o outro, que logo planeja a sua vingança: uma obra ainda mais devastadora. Entulho e mais entulho sairá do prédio em sacos carregados por trabalhadores que moram longe e não sabem para que tanta tomada. Mania de rico, tanto detalhe reluzente, perfeição que estraga logo.

O entulho vai enchendo a caçamba na calçada, na medida em que as paredes lá de cima vão abaixo. As paredes parecem estar em baixa desde 1957, eu me espanto, lendo uma crônica daquele ano escrita por Rubem Braga, o inspirador deste modesto texto (haja modéstia, ao citar Rubem Braga; nem vou chamar o meu texto de crônica):

"Um amigo meu quis reformar seu apartamento e chamou um arquiteto novo.

O rapaz disse: 'Vamos tirar esta parede e também aquela; você ficará com uma sala ampla e cheia de luz. Esta porta podemos arrancar; para que porta aqui? E esta outra parede vamos substituir por vidro; a casa ficará mais clara e mais alegre'. E meu amigo tinha um ar feliz.

Eu estava bebendo a um canto, e fiquei em silêncio. Pensei nas casinhas que vira na revista e na reforma que meu amigo ia fazer em seu velho apartamento. E cheguei à conclusão de que estou velho mesmo.

Porque a casa que eu não tenho, eu a quero cercada de muros altos, e quero as paredes bem grossas e quero muitas paredes, e dentro da casa muitas portas com trincos e trancas; e um quarto bem escuro para esconder meus segredos e outro para esconder minha solidão."

Fico pensando se Rubem Braga já imaginava que a solidão se tornaria tão démodé, agora que todo mundo tem centenas de amigos no Facebook. De qualquer forma, as paredes continuaram vindo abaixo desde aquele tempo, dependendo do dinheiro do brasileiro para contratar o arquiteto novo. Com as paredes, vão-se as portas e os trincos; e mesmo para o banheiro com tranca há quem leve o celular.

Mas saiamos do banheiro modernizado (existem boxes sem porta, Rubem, juro!) e voltemos às calçadas. Ao entulho que um dia foi parede. De madrugada, há que se sumir com os vestígios daquilo que um dia guardou a solidão, e é nessa hora que aparecem os caminhões para trocar as caçambas abarrotadas. O caminhão se faz anunciar balançando suas partes soltas e metálicas, que irão içar a caçamba. No seu sono você pensa: não, não vou acordar desta vez. Não, não vou odiar o feliz proprietário que inferniza o seu vizinho durante o dia e todo o quarteirão durante a noite. Ele precisa quebrar as paredes, coitado. Não tem segredos.

É apenas o começo, porque a operação pode durar dezenas de intermináveis minutos metálicos. E se repetirá na caçamba da calçada em frente, dali a uma hora. Você se levanta e vai para a sala. Acha um canto e só não bebe porque são três da madrugada. Pensa na reforma que não vai fazer e na silenciosa companhia de Rubem Braga, arquiteto das palavras, finalizando A casa:

"Pode haver uma janela alta de onde eu veja o céu e o mar, mas deve haver um canto bem sossegado em que eu possa ficar sozinho, quieto, pensando minhas coisas, um canto sossegado onde um dia eu possa morrer.

A mocidade pode viver nessas alegres barracas de cimento, nós precisamos de sólidas fortalezas; a casa deve ser antes de tudo o asilo inviolável do cidadão triste; onde ele possa bradar, sem medo nem vergonha, o nome de sua amada: Joana, JOANA! - certo de que ninguém ouvirá; casa é o lugar de andar nu de corpo e de alma, e sítio para falar sozinho.

Onde eu, que não sei desenhar, possa levar dias tentando traçar na parede o perfil de minha amada, sem que ninguém veja e sorria; onde eu, que não sei fazer versos, possa improvisar canções em alta voz para o meu amor; onde eu, que não tenho crença, possa rezar a divindades ocultas, que são apenas minhas.

Casa deve ser a preparação para o segredo maior do túmulo."

Termino de ler a crônica intrigada: onde estão as pessoas tristes, gritando Joana, JOANA!? Onde elas terão se escondido para escrever versos ridículos e andar nuas, se já não há paredes grossas? Talvez tenham aprendido a esconder seus segredos fora dos quartos claros e envidraçados - e eu, que estou velha mesmo, por força da nostalgia tente em vão encontrá-las nos lugares de antes.

Ou talvez elas estejam todas medicadas, e não fiquem mais tristes. Por isso os quartos escuros tornaram-se desnecessários.

Pensando bem, Rubem, vou beber alguma coisa, no meu canto sólido e inviolável, mesmo sendo três da madrugada.



Marta Barcellos
Rio de Janeiro, 4/11/2011


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O bom e velho formato site de Fabio Gomes
02. Alice in Chains, por David De Sola de Luís Fernando Amâncio
03. O Quixote de Will Eisner de Celso A. Uequed Pitol
04. A noite em que Usain Bolt ignorou nosso Vinicius de Elisa Andrade Buzzo
05. Meu querido mendigo de Elisa Andrade Buzzo


Mais Marta Barcellos
Mais Acessadas de Marta Barcellos em 2011
01. A internet não é isso tudo - 14/1/2011
02. Entre livros e Moleskines - 11/2/2011
03. Somos todos consumidores - 8/4/2011
04. A novíssima arquitetura da solidão - 4/11/2011
05. Em busca da adrenalina perdida - 4/3/2011


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




MODERN PHYSICS AN INTRODUCTORY SURVEY
ARTHUR BEISER
ADDISON-WESLEY PUBLISHING COM
(1968)
R$ 30,00



O ÚLTIMO PORTAL
ELIANA MARTINS E ROSANA RIOS
CIA DAS LETRAS
(2003)
R$ 14,02



EU, ZUZU ANGEL, PROCURO MEU FILHO
VIRGNIA VALLI
RECORD
(1987)
R$ 57,00



AS SEIS LIÇÕES
MISES, LUDWIG VON
JOSÉ OLYMPIO EDITORA
(1986)
R$ 40,00



DROGA DE AMERICANA
PEDRO BANDEIRA
MODERNA
(2014)
R$ 10,00



THE PHANTOM OF THE OPERA
JENNIFER BASSETT
OXFORD UNIVERSITY PRESS
(2007)
R$ 29,00



LA BELLA Y LA BESTIA - PIEL DE ASNO (LITERATURA INFANTO-JUVENIL)
ANÔNIMOS
GLOBUS
(1993)
R$ 25,00



POR CAUSA DA NOITE
JAMES ELLROY
COMPANHIA DAS LETRAS
(2003)
R$ 12,00



O RESTAURANTE NO FIM DO UNIVERSO (VOLUME DOIS DA SÉRIE O MOCHILEIRO DAS GALÁXIAS)
DOUGLAS ADAMS
SEXTANTE
(2009)
R$ 21,00



TRANSPORTES, CAOS URBANO, MENTIRAS, POLUIÇÃO E MORTE(TENOLOGIA PESADA)
LUIZ AUGUSTO RODRIGUES DA LUZ
AGBOOK
(2011)
R$ 47,00





busca | avançada
33888 visitas/dia
993 mil/mês