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Quarta-feira, 2/1/2013
Dreadlocks
Guilherme Pontes Coelho

+ de 4500 Acessos

Eu adoro dreadlocks. Sempre me atraiu a suposta naturalidade do penteado. É rústico e desafiador. Uma pessoa de dreadlocks encarna aquele verso do Cazuza, um dos poucos bons: "Disparo contra o sol, sou forte, sou por acaso". Uma pessoa de dreads é livre e tem aquele charme meio marginal. Mesmo que seus dreads sejam meticulosamente produzidos em salões de beleza para dondocas, a pessoa, homem ou mulher, terá sobre a cabeça um penteado que é sinônimo de atitude, de uma atitude cheia de significados característicos: rudeza controlada, pelo aspecto dos cabelos, e paciência trabalhada, pelo tempo de cultivo que o cabelo exige. Há também o inegável sex appeal dos dreadlocks. Tanto faz se você gosta de mulheres ou de homens. Dreads são sexy. Talvez por isso eu os quisesse na minha cabeça.

"Adorei o cabelo, Bob." É o que penso quando vejo uma foto de Bob Marley, o único elogio que consigo fazer a ele. Eu nada tenho contra Marley, mas é que toda a retórica rastafári, com Jah e suas fumaças, me dá uma preguiça descomunal, quando não enjoo mesmo. Além disso, e esta talvez seja a parte mais crítica da coisa toda, reggae é um saco (talvez não quando cantado por Gilberto Gil). A simbologia rastafári não me cativou. Me refiro a que chegou ao nosso mainstream, não à original do rastafarianismo, um estilo de vida pintado com cores religiosas. Eu mesmo não conheço quem pratique o rastafarianismo afrocentrista, antiocidental, monoteísta e entorpecido em nome de Jah. Mas, desde fumar maconha a xingar o Ocidente de "Babilônia!", as práticas "rasta" disseminadas por aí são do conhecimento de todo mundo. Uma delas, os dreadlocks, que têm fundamento na Bíblia, o livro cristão: "Todos os dias do voto do seu nazireado sobre a sua cabeça não passará navalha; até que se cumpram os dias, que se separou ao SENHOR, santo será, deixando crescer livremente o cabelo da sua cabeça." Números, capítulo 6, versículo 5.

Eles, os dreadlocks, eram a única coisa que me interessavam nisso tudo. Reggae é sacal, maconha é imbelicilizante e Jah não seria minha escolha religiosa. Eu só queria desfilar com dreadlocks. Dreadlocks loiros, de preferência.

Antes de chegar a eles, um pouco de maconha. Já percebeu o quão retardada, no sentido mais mecânico possível, fica uma pessoa chapada de maconha? Um emaconhado não é engraçado como, por exemplo, até certo ponto, um bêbado, sobretudo se este bêbado não bebe com frequência. Um emaconhado não é um bom parceiro de xadrez ou pôquer, nem alguém com quem você possa conversar sobre o que acabou de ler ou de assistir. Um emaconhado faria feio ao seu lado na balada, com todo aquele papo lento e aquele cheiro indisfarçável - e talvez você não escolhesse uma pessoa emaconhada como alvo pelos mesmos motivos. Se você tiver de passar a madrugada na biblioteca, estudando para uma prova de Econometria I, ou de Processual Civil II, ou Mecânica dos Sólidos I ou II, um colega de estudos sob efeito de Jah é a última coisa que você vai querer. Mas você pode preencher esta e as cenas anteriores com outra droga. Algumas cenas com álcool, moderadamente, outras, quase todas, com cafeína ou tabaco. (Para dar fim à digressão, não imaginarei cenários com outras drogas. Por esclarecimento, das drogas citadas, e não-citadas também, consumo apenas cafeína e algum álcool em família. Sou careta.) Uma pessoa emaconhada perde o juízo de forma pouco lisonjeadora. Voltemos aos dreadlocks.

Para ter meus dreadlocks, teria de deixar o cabelo crescer e ultrapassar quinze centímetros. Haja paciência. Eu poderia fazer aplique de dreads: colar ou trançar nos meus cabelos já "dreadados" longos dreads de cabelos reais e de origem desconhecida. Poderia também fazer alongamento: dreads fictícios e bonitinhos de lã, nas cores que eu quisesse. Mas queria a tal naturalidade, queria meus próprios cabelos "dreadados". Então os deixei crescer. Tenho cabelos castanhos, mas queria meus dreads loiros. Descolorir os cabelos seria insano (mas fazer dreads não, sei lá por quê), então os pintei num tom mais claro que o natural, um tom que tinha um nome muito bonitinho na embalagem da tinta e que acabei esquecendo. Fiz a coloração em casa, aos olhos interrogativos da minha filha. Eu só "dredaria" o cabelo dez dias depois deste procedimento, e ninguém percebeu, nem minha esposa, a nova tonalidade que exibi neste tempo todo.

Então chegou o dia. Fui ao salão-residência da dreadmaker, para quem eu ligava quase toda semana para fazer as perguntas mais absurdas ("Meu cabelo tá com sete centímetros, já dá?"). O entrelaçamento dos fios seria o "mais natural", agulhas de lã. Não queria cera de abelha ou qualquer gosma na minha cabeça. Queria o "natural", por isso escolhi esta moça em particular. O método da agulha é simples, consiste em entrelaçar o cabelo, coisa que o cabelo crespo faz naturalmente. Ao vivo, eu ouviria da dreadmaker a observação que, na verdade, foi o que me impediu de ter cometido este crime capilar na adolescência: "Ixe, seu cabelo é bom". Minha mãe também dizia isso. "Você tem o cabelo bom." Uma observação intrigante, visto que cabelo não faz mal ou bem. É bom ter cabelo, independentemente de como ele é, e a falta dele pode virar um estilo, vide Bruce Willis, mas não sei se cabelo faz bem. Um dia, há muitos ciclos evolutivos, talvez tenha sido necessário. Hoje temos bonés. Cabelo também não faz mal, daí tampouco entender, quando mais jovem, a expressão "cabelo ruim". "Qual o mal que o cabelo do Pelé tá fazendo a ele?" era mais ou menos o que me perguntava quando consegui associar "cabelo ruim" a cabelo crespo.

Dreadlocks. Para fazê-los, dois passos. O primeiro, pentear com um pente finíssimo mechas da ponta à raiz, contra o fio, para "encrespar" o "cabelo bom"; o segundo, entrelaçar os fios encrespados com a agulha de lã. Depois de uma hora e meia de sofrimento, de sentir minha massa encefálica sendo extirpada do meu crânio toda vez que a dreadmaker me puxava um tufo de cabelo, finalmente eu tinha dreadlocks. Vinte e cinco dreads. Pelo resto da noite, meu crânio doeria loucamente e, não fosse pelo sono causado pelo delay do horário de verão, eu não teria conseguido dormir. Meu couro cabeludo doía muito. É claro que esta dor não se compara a de ter ouvido reggae por noventa minutos, durante toda a tortura. Por minha cabeça doer, tolerei os sentimentos ambíguos que tive quando percebi meu novo penteado no espelho. Tais sentimentos me acompanhariam pelas próximas vinte e quatro horas.

Acordei na manhã seguinte, terça-feira, 23 de outubro de 2012, sentindo, como poucas vezes a gente sente, o peso da irreversibilidade. A gente só sente isto quando algo não sai como a gente gostaria. O espelho me mostrava uma visão terrível. Contudo, minha cabeça ainda doía, logo, deveria ser por causa disso que aquele cabelo não me agradava. Prossegui com meu dia. Filha na escola, trabalho, isso e aquilo. Depois de um almoço em família, durante o qual meu penteado causou uma certa impressão, levei a filha ao médico e tirei o dia para fazer um test drive capilar, passeando com a criança pelo shopping.

Era como se eu estivesse fantasiado. Meu novo penteado era a coisa mais não-eu que eu poderia ter adotado. Enquanto meus dreadlocks eram ruminados por meses em minha imaginação, eu os via de outra forma. Meus dreads imaginários eram incríveis, soberbos, sublimes, maravilhosos. Mesmo curtos, eram mais transcendentais que os de Bob Marley, eram mais viris que os de Jason Momoa, eram mais desafiadores que os de Zach De La Rocha e exalavam mais zum-de-besouro-ímã que os de Djavan. Na minha imaginação.

Na realidade, eles eram horríveis. Vinte e cinco dreads espetados me deram uma aparência meio cômica, e o aspecto geral da coisa não era agradável. Meu cabelo não transmitia saúde e eram feios. Há uma questão de competência envolvida também: outra dreadmaker profissional analisou o serviço na minha cabeça e me deu opiniões interessantes. Talvez tivesse sido melhor recorrer à cera de abelha, já que, como esta outra também colocou, "seu cabelo é bom". A aparência dos meus dreads não tinha nada de "rudeza controlada" ou "paciência trabalhada", mas de "negligência mendicante".

Em suas quase trinta horas de vida, meus dreads quase galegos fizeram sucesso com as crianças. As crianças riam e apontavam e riam ainda mais. Foi bonito. Mesmo que isso me traga algum conflito doméstico, preciso dizer que os dreads fizeram sucesso com as mulheres. Em um único dia, elas buzinaram, me fecharam no trânsito, me abordaram sem dizer "boa tarde" e uma até tentou segurar um dread no metrô, e tudo isso teve minha filha e uma aliança no anelar esquerdo como testemunhas. Foi assustador. Me senti um beatle. E minha cabeça continuava doendo.

A verdade irretorquível me ocorreu vinte e quatro horas depois: o novo penteado foi uma péssima ideia. Todos nós mudamos de aparência durante a vida, muitas vezes por querer. Roupas, penteados, narizes, algumas coisas nós podemos alterar, em vários níveis de intervenção. Podemos mudar de estilo completamente e continuar sentindo sermos quem somos (se você tem mais de trinta, compare-se a si mesmo numa foto de dez anos atrás). Mesmo que você não se importe com a roupa que veste, com o cabelo que mostra, com o corpo que é, isso tudo faz o seu estilo, compõe o personagem que você vive. Mas algumas "mudanças", algumas presepadas, não se encaixam no vasto leque estético-cosmético que temos como opções para o nosso espelho. As mulheres entenderão isso melhor, sobretudo as que tiveram de retornar ao salão de beleza no dia seguinte a uma outra má ideia. Meus dreadlocks, péssima ideia.

Ainda tentei me convencer a usá-los por mais tempo, mas dreads exigem uma dedicação que eu não estava nem um pouco a fim de dar, ainda mais porque àquela altura eu os odiava. Pedi à minha esposa que os cortasse antes de sua trigésima hora de vida. Na manhã seguinte, quarta-feira, a cabeça ainda doía. Não melhorou nem depois que fui ao barbeiro, mas pelo menos tinha meus cabelos de volta. Cabelos naturais. Dreads não são para mim.

Enfim, embora a voz e a música do Bob Marley continuem terríveis, a verdade é que os cabelos dele estão cada dia mais bonitos.


Guilherme Pontes Coelho
Brasília, 2/1/2013


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