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Sexta-feira, 6/5/2005
Mais que palavras
Julio Daio Borges

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Digestivo nº 226 >>> Secretário do livro e da loucura (como amigos, fraternalmente, o chamavam), morreu Waly Salomão. E a nação tratou de esquecê-lo a.s.a.p. (as soon as possible). (Ou foi impressão?) Não Juarez Maciel, que vinha gestando, com Salomão, composições que só agora vêm à luz. No CD Nove Cores, o primeiro não instrumental de sua carreira de músico. Foi Leandro Carvalho, o genial violonista, que uma vez confessou seu pendor – talvez inevitável – para a canção. É quase sina de quem compõe temas sem letra no Brasil. Mais dia menos dia, vai ter de enfrentar a tradição verbal do cancioneiro brasílico. E Juarez Maciel o fez muito bem. Pegando mestres da letra, como Waly, pegando seu irmão, Pedro, poeta, pegando outros craques como Guilherme Mansur. Além da tradição das bem-feitas capas de Guto Lacaz, que nortearam seus precedentes álbuns, Juarez manteve a cama tão agradável, eximiamente arranjada e despretensiosa de suas experiências solo e com o Grupo Muda. Só por isso, o CD já valeria a pena. Mas ele também canta. Sobressai-se com desenvoltura de delicadas armadilhas que seus parceiros preparam: “Pirâmides do Egito/ Quinta Avenida/ Machu Picchu/ Trafalgar/ Cataratas/ Manhattan” (com Waly Salomão); “Cédulas de zero cruzeiro, cordões,/ Anéis de ouro e areia, rodos,/ Malhas da liberdade, porta-bandeira/ Estojo de geometria, obscura luz, e ainda:/ Loucura razão, dados, ku kka ka kaka.../ Ô, vais querer um sermão da montanha?” (com Guilherme Mansur). São bem-humorados quebra-cabeças que, a princípio, assustam. Mas, na segunda ou terceira audição, vão caindo na cadência sóbria e constante de Juarez Maciel. E, à maneira de instrumentistas que palpitavam na porção palavra da composição, deve haver seu dedo biográfico em, por exemplo, “Máquina zero”, narrando passos nostálgicos pelas strasse de Berlim – onde morou muitos anos. Há alguns poucos, aliás, trocou impressões, no idioma de Goethe, com Luís Antônio Giron (este queixando-se de não ter com quem praticar...). Brincadeiras à parte, Juarez encara com a mesma fleuma e com o mesmo entusiasmo os altos e baixos da indústria fonográfica nacional. Ele se move na mesma inspiração daqueles cujas obras o público, pouco amadurecido (ainda infantilizado), não aprecia direito mas que, como semente, vingam e frutificam. Pois “cedo madruga/ pra acordar presente”.
>>> Juarez Maciel
 
Julio Daio Borges
Editor

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