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Terça-feira, 22/8/2017
Jerry Lewis, um verdadeiro louco
Relivaldo Pinho

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Na primeira sequência de O mensageiro trapalhão (1960), um homem meio canastrão, que se diz produtor executivo da Paramount, diz: “antes de lhes mostrar este filme eu gostaria de explicar uma coisa. O filme que estão prestes a assistir não é um filme normal, como os que o público se acostumou a ver nos cinemas”. Ele explica que decidiram fazer um filme divertido, que “não tem história, nem enredo, um filme que “mostra algumas semanas na vida de um verdadeiro louco”.

Jerry Lewis pertenceu a uma época, as décadas de 1950-60, memorável para o show business, conseguiu fazer muitos filmes – alguns realmente tão “tolos”, porque a proposta era o entretenimento –, contracenar com artistas célebres e formou uma das maiores duplas do cinema com Dean Martin (Martin – o homem dueto –; ele formaria outra dupla célebre com Sinatra).

Dean sempre sendo ele mesmo, conquistador, romântico e valente, e, Lewis, o seu Hyde, sendo medroso, fraco, pouco hábil com as mulheres, com a casa, com as pessoas, o motivo que o leva a criar o seu oposto, O professor aloprado, de 1963. Mas, nessa proposital desassociação, estava um dos elementos que o definiam, se aproximando daquilo que constituía a razão e o gênio em Chaplin.

Truffaut, no prefácio do livro Charles Chaplin (2000), relembra essa característica ressaltada por André Bazin. “Quando Bazin explica que Carlitos não é antissocial, mas associal, e que aspira ingressar na sociedade, define, quase nos mesmo termos que Leo Kanner, a diferença entre o esquizofrênico e a criança autista: ‘Enquanto o esquizofrênico tenta resolver seu problema abandonando um mundo do qual fazia parte, nossas crianças chegam progressivamente ao compromisso que consiste em tatear com prudência um mundo do qual estavam alheias desde o início’”.

Essas características em Chaplin e Lewis não são apenas afinidades eletivas. Em Carlitos ela é certamente vital, e, em Lewis, ela é uma dominante. Lembremos da cena inesquecível de O meninão (1955), na qual ele “finge” ser um barbeiro, quando ele submete Dean Martin às mais desastradas situações sentado na cadeira da barbearia. A cadeira é aí um instrumento que deveria servir de auxílio (medium), mas ela, após o barbeiro louco, pode ser qualquer coisa, virar para trás quase derrubando seu ocupante, chacoalhar com ele, ou elevar-se, repentinamente, até o teto. Lewis finge ser alguém, porque, imagina-se poder, tateando, atabalhoadamente, se encaixar, funcionar normalmente.

Truffaut retoma a argumentação juntando agora uma observação de Bruno Bettelheim, de A fortaleza vazia (1967): “a criança autista tem menos medo das coisas e talvez atue sobre elas, já que os personagens, e não as coisas, parecem ameaçar sua existência. No entanto, o uso que faz das coisas não é aquele para o qual elas foram concebidas”.

E, em seguida, cita o próprio Bazin: “parece que os objetos só aceitam ajudar Carlitos à margem do sentido que a sociedade lhes atribuiu. O mais belo exemplo desses descompassos é a famosa dança dos pãezinhos, em que a cumplicidade do objeto explode numa coreografia gratuita”.

Em O rei do laço (1956), em uma cena clássica, Dean Martin (Slim Mosely Jr.) está na sala contando uma heroica história e, ao lado, escondido, Lewis (Wade Kingsley Jr.) escuta. A cada ato narrado, Lewis encena, imitando a história jocosamente. Em Bancando a ama seca (1958), quando Lewis (Clayton), em uma única sequência, tenta arrumar a antena no telhado, acaba pendurado, tenta controlar uma mangueira desgovernada e quase destrói a vizinhança.

Lewis, a quem chamávamos “o doido” quando seus filmes passavam à tarde, nós ansiosos espectadores, consegue, muito mais que Chaplin, a cumplicidade dos objetos, do mundo. Seus personagens exerciam exatamente esse tipo de desajustamento quase infantil, que quer, primariamente, imitar, desbravar o mundo e domar as coisas, mesmo de forma vacilante e, por vezes, subvertendo os objetos (instrumentos), invertendo a sua razão.

Um verdadeiro louco. A normalidade, nesse mundo fílmico, está alheia à realidade dos filmes de Jerry Lewis. Sua loucura é aquela que nega uma vida moldada em perfeição e, em sua confusa subversão, prefere zombar do sentido das coisas, porque, em sua fantasia, ele, defendendo-se, escarnece das coisas, do seu pretenso e harmonioso significado.


Relivaldo Pinho é pesquisador e professor.


Texto publicado em O Liberal, 22 de agosto de 2017, p. 2.


Postado por Relivaldo Pinho
Em 22/8/2017 às 16h47


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