Um brasileiro no Uzbequistão (VIII) | Arcano9 | Digestivo Cultural

busca | avançada
84710 visitas/dia
2,6 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Relacionamentos amorosos com homens em cárcere é tema do espetáculo teatral ‘Cartas da Prisão’, monó
>>> Curso da Unil examina aspectos da produção editorial
>>> “MEU QUINTAL É MAIOR DO QUE O MUNDO - ON LINE” TERÁ TEMPORADA ONLINE DE 10 A 25 DE ABRIL
>>> Sesc 24 de Maio apresenta Música Fora da Curva: bate-papos sobre música experimental
>>> Música instrumental e natureza selvagem conectadas em single de estreia de Doug Felício
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
Colunistas
Últimos Posts
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> Cultura ou culturas brasileiras?
>>> DevOps e o método ágil, por Pedro Doria
>>> Spectreman
>>> Contardo Calligaris e Pedro Herz
>>> Keith Haring em São Paulo
>>> Kevin Rose by Jason Calacanis
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
Últimos Posts
>>> Gota d'agua
>>> Forças idênticas para sentidos opostos
>>> Entristecer
>>> Na pele: relação Brasil e Portugal é tema de obra
>>> Single de Natasha Sahar retrata vida de jovem gay
>>> A melancolia dos dias (uma vida sem cinema)
>>> O zunido
>>> Exposição curiosa aborda sobrevivência na Amazônia
>>> Coral de Piracicaba apresenta produção virtual
>>> Autocombustão
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Picasso versus Duchamp e a crise da arte atual
>>> Usina
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Web 2.0 reloaded
>>> Lendas e mitos da internet no Brasil
>>> A loucura das causas
>>> Queen na pandemia
>>> Nerd oriented news
>>> 13 de Agosto #digestivo10anos
>>> O cão da meia-noite
Mais Recentes
>>> Vidas que nos Completam de Américo Simões pela Barbara (2011)
>>> Uma O Tau. Um Sinal Espiritualidade de Mariano Bigi pela Vozes (2004)
>>> Diálogo Com A Cidade de Cardeal Dom Cláudio Hummes pela Paulus (2005)
>>> Patologia das Fundações de Jarbas Milititsky, Nilo Cesar Consoli, Fernando Schnaid pela Oficina de Textos (2005)
>>> Escrita chinesa de Viviane Alleton pela L&Pm (2010)
>>> Caderno de revisão Química Conecte de M. Esther Nejm et al pela Saraiva (2014)
>>> A Igreja. 51 Catequeses do Papa Sobre a Igreja de Felipe Aquino pela Cleofas (2004)
>>> O Sono dos Hibiscos de Lygia Barbiere Amaral pela Lachatre (2005)
>>> Paris: uma história de Yvan Combeau pela L&Pm (2010)
>>> Vem!... de Cenyra Pinto pela Lachatre (1993)
>>> Plano diretor do Mercado de Capitais - Parceria Público-Privada de Sucesso de Ney Carvalho pela Publit Soluções Editoriais (2014)
>>> Cartas extraviadas e outros poemas de Martha Medeiros pela L&Pm (2009)
>>> Maigret E A Morte Do Jogador de Georges Simenon pela L&Pm (2009)
>>> Milagres a luz do espirito Aloha de Carmem Balhestero pela Madras (2014)
>>> Madeira de ponta a ponta - O caminho desde a floresta até o consumo de Sérgio Adeodato, Malu Villela, Luciana Stocco Betiol, Mario Monzoni pela FGV Rae (2011)
>>> Matemática Caderno de Competências de Conecte pela Saraiva (2014)
>>> Orgulho e preconceito de Jane Austen pela L&Pm (2010)
>>> Filho Herói de Elisa Medhus pela Paulus (2005)
>>> Maigret E O Sumiço Do Sr. Charles de Georges Simenon pela L&Pm (2009)
>>> Tragédias gregas de Pascal Thiercy pela L&Pm (2009)
>>> Controle de Custos de Implantação de Projetos Industriais de Sérgio Conforto & Mônica Spranger pela Taba Cultural (2016)
>>> Livro do Catequista: Fé, Vida de Vários Autores pela Paulus (1994)
>>> King Kong - O gorila mais conhecido em todo o mundo de Edgar Wallace pela Record (1977)
>>> Viagem por Mundos Sutis de Trigueirinho pela Pensamento (2011)
>>> Coisas da vida de Martha Medeiros pela L&Pm (2009)
COLUNAS

Segunda-feira, 10/11/2003
Um brasileiro no Uzbequistão (VIII)
Arcano9

+ de 3800 Acessos


A madrassa Shar Dor, do Registan, ao sol do anoitecer

Samarkand, 08.06

O sol das sete e vinte da noite tem uma personalidade instável, mas empresta magia a tudo que ilumina. Incide sobre os mosaicos, e os transforma. A cada minuto, a luz se enfraquecendo passa de branca a amarela, de laranja a vermelha, de roxa a azul escura, à cor da noite estrelada. O processo molda o Registan. É como se a cada segundo existisse um novo conjunto de prédios. Os olhos não fecham, e se isso se torna inevitável, qualquer piscada parece demorar demais.

O Registan. Para muitos, o mais perfeito conjunto arquitetônico muçulmano do planeta. O símbolo de Samarkand são essas três madrassas ao redor de uma praça de mais ou menos 200 metros quadrados. Duas das madrassas estão frente a frente, e a terceira está entre elas, fazendo um quadrado incompleto cujo centro é a praça. Cada madrassa tem um alto portal coberto por mosaicos coloridos. Quando é amanhecer, o sol incide diretamente sobre a primeira e mais antiga delas, a madrassa Ulugubek, construída em 1420. Quando é meio-dia, o sol fica de frente à madrassa do meio, a Tilla-Kari, de 1660. Por fim, no anoitecer, o prisma da luz amarela, laranja, vermelha e roxa é a terceira, a Shar Dor, de 1636. Seus portais têm aproximadamente 20 metros de altura, o suficiente para te deixar com câimbra de olhar para cima. Por ironia, não foi obra do sanguinário Tamerlão - que fez de Samarkand sua jóia mais preciosa, o seu maior legado, seu maior orgulho. Foi obra de seus sucessores, filhos, netos, que fizeram valer a frase que ordenou que fosse escrita em um dos portões da cidade: "Se duvidais de nossa potência, contemplai nossa arquitetura". O vento quente sopra.

Contemplo. Detalhe folheado a ouro do interior da madrassa Tilla-Kari

Havíamos chegado a Maracanda (como Alexandre, o Grande, chamava a cidade) por volta das 18h, ao final de quase um dia inteiro dedicado à jornada de ônibus a partir de Bukhara. Embarcamos às 11h da manhã, em um ônibus em estado lastimável, com janelas quebradas, imundo. Acho que o estado do coletivo me chamou mais a atenção desta vez do que quando fizemos a viagem de Urgench a Bukhara, porque daquela vez era de noite e estava cansado. Com o dia claro e radiante, percebi como o nosso estava mal, mas por incrível que pareça, encontramos outros no caminho ainda piores. Por isso mudei de idéia, e comecei a ver a viagem diferentemente: a partir de então, nosso ônibus era um bólido de fabricação húngara, novíssimo e ágil, engolindo quilômetros entre duas das principais cidades da Ásia central.

Estrada monótona, contudo: paisagens rurais, como as do interior do Brasil. Áreas de cultivo de algodão se estendendo por quilômetros, pessoas muito pobres trabalhando a terra, vacas curtidas pelo sol do Deserto do Kyzylkum. A imensa quantidade de bloqueios policiais e outdoors com frases do presidente Islam Karimov também foi um lembrete constante de que o Uzbequistão é um país à beira de um ataque de nervos, à beira de uma explosão social. Karimov zela pela triste tradição no país - que as pessoas não saibam o que não devem saber, e que saibam que está tudo ótimo. Seus cartazes carregam as cores nacionais do país, verde, azul e branco, e sua foto. Estão não apenas nas estradas, mas também em hospitais, mercados, madrassas, prédios históricos e escolas. Em ambientes com estudantes, ele é sempre o grande professor. Suas frases mostram que está preocupado com o fato de que a juventude tem a missão de manter o país no curso glorioso que ele estabeleceu. Curso glorioso: esmolando verbas americanas em troca do estabelecimento de bases militares em seu território. Deixando a tuberculose devastadora tomar a região do moribundo Mar de Aral. Mantendo taxas altíssimas de analfabetismo e domando descontentes com centenas de soldados nas estradas e ruas, com metralhadoras em punho. Prendendo oposicionistas, acusando-os de serem extremistas islâmicos. Os problemas do Uzbequistão não chegam perto dos problemas do Brasil. Mas, se há um ponto em comum, é a qualidade das estradas: esburacadas, sem iluminação, com placas caindo aos pedaços.

Uma metáfora. Para chegar à Eldorado do Centro da Ásia, é preciso vencer os quilômetros que separam o ocidente do oriente. Que separam o facilmente acessível do remoto, obscuro, aparentemente inalcançável. Quilômetros difíceis, quilômetros confusos, quilômetros que intimidam - mas quilômetros dourados, cujo resplandecer atravessou séculos de mistério, que não diminuiu depois da morte de Tamerlão, com a decadência da rota da seda, com Stálin ou Karimov. Mistério cantado em verso em 1913:

We travel not for trafficking alone,
By hotter winds are fiery hearts fanned.
For lust of knowning what should not be known,
We take the Golden Road to Samarkand.

- Elroy Flecker, The Golden Road to Samarkand

* * *

Samarkand conjures no earthly city. It is a heart-stealing sound. Other capitals of Islam - Cairo, Damascus, Istanbul - glow with an acessible, Mediterranean magnificence. But Samarkand inhabits only the edge of geography. It rings with a landlocked strangeness, and was the seat of an empire so remote in its steppe and desert that it only touched Europe to terrify it.
- Colin Thubron, The Lost Heart of Asia

Khiva tem cor de barro seco, com sua muralha grandiosa protegendo a herança do império de Khoresm em Ichon-Qala. Bukhara tem a mesma cor, mas também o azul celeste da Madrassa Mir-i-Arab ou os mosaicos dos prédios ao redor da Labi-Hauz. Samarkand é o estagio final da transição: o azul nas cúpulas transmuta-se no multicolorido dos mosaicos e no dourado dos interiores como se tudo fizesse parte do mesmo tecido em dégradé. Se Khiva é a cidade dos mercadores de escravos e Bukhara, o "Pilar do Islã" dos persas samanidas, Samarkand é obra de um só homem: Tamerlão. Nascido em Shakhrisabz, não longe da cidade, o sábio sanguinário ergueu seu império das cinzas deixadas por Genghis Khan. Samarkand surgiu por volta do século V a.C., já era um centro desenvolvido, cercado por uma muralha, por ocasião da chegada de Alexandre, o Grande, em 329 a.C. Pouco sobrou da então Maracanda, algumas ruínas escavadas por arqueólogos, mas é difícil imaginar o que pode ter levado Alexandre a ter dito sua frase que, hoje, carrega igual peso histórico e mítico. O conquistador teria dito que "tudo o que ouvi sobre Maracanda é verdade, exceto pelo fato de que é ainda mais bonita do que eu jamais imaginei".

O domínio sucessivo de vários clãs e povos foi encerrado por Genghis Khan no século XIII, mas se o mongol transformou em pó tudo que existia de glorioso em Samarkand até então, foi apenas abrindo caminho para Tamerlão, que escolheu a cidade para ser a capital de seu império, em 1370. Numa espetacular seqüência de batalhas que durou nove anos, ele chegou a controlar, em 1395, o território correspondente hoje ao Irã, Iraque, Síria, Turquia oriental, a região do Cáucaso e o norte da Índia. Embora tenha seguido o estilo aterrorizante de Genghis Khan ao supervisionar pessoalmente as cidades que conquistava virarem ruínas e as cruéis execuções e pilhagens, duas coisas o diferenciaram bastante de Genghis. A primeira era a sua própria origem - Tamerlão era de uma tribo de origem turca, sedentária, e não mongol, povo essencialmente nômade. Isso pode ter colaborado com seu interesse por arquitetura e artes em geral, a segunda diferença entre os dois conquistadores. Se Genghis era um sanguinário impiedoso, o mesmo não pode ser dito de Tamerlão, porque se sabe que ele ao menos poupava da morte os artesãos. Quando os encontrava, mandava-os para Samarkand, para usar os seus talentos na edificação de um tesouro que iria imortalizá-lo como o maior de todos os líderes. A duplicidade assassino/mecenas é paradoxal, mas é essa ambivalência a maior definição do que é Samarkand.

Uma das cúpulas da mesquita Bibi-Khanyn

Ainda hoje Samarcanda estonteia por sua beleza única e perfeição das formas criadas pelos gênios das artes plásticas. Cada construção era supervisionada por Tamerlão, dotado de um gosto magnífico. Pesava as variações de diferentes ornamentos, atentava para a delicadeza do desenho e limpeza do traço. Em seguida, lançava-se outra vez no sorvedouro de novas expedições, em carnificinas: sangue, fogo, gritos.
- Ryszard Kapuscinski, Imperium

Ao lado do bazar de Samarkand, um monumento em ruínas seria ironicamente o maior orgulho de Tamerlão - ou melhor, de sua esposa chinesa, Bibi-Khanyn. Trata-se de uma mesquita do século XIV, que tem todos os elementos da arquitetura do conquistador - as cúpulas azuis, os mosaicos. A diferença, nesse caso, é que tudo parece ter sido projetado quase duas vezes maior do que o normal. O portal, por exemplo, tem 35 metros de altura. Recentemente reformado com a ajuda da Unesco, ele é tão alto que e difícil acreditar que existisse tecnologia e conhecimento suficientes para fazer uma obra dessas há quase 700 anos.

A história por trás da mesquita Bibi-Khanyn explica a atmosfera de melancolia que se sente ao ver tantos recursos desperdiçados e destruídos, numa edificação que teria sido tão grandiosa. A Bibi-Khanyn nunca foi terminada. Há paredes que guardam espaços vazios para mosaicos grandiosos, inscrições árabes estilizadas, e o azul celeste de Tamerlão. Mas não há nada - só o vácuo, paredes nuas, cúpulas ocas e etéreas que ecoam o vento e o barulho distante do bazar. Acredita-se que Bibi-Khanyn tenha encomendado a construção da colossal mesquita - certamente a maior de todo o Uzbequistão e uma das maiores do mundo - como uma surpresa para seu marido, enquanto ele estava viajando. Ela encarregou um arquiteto de projetar a mesquita e lhe explicou o que queria. Durante o processo, quando Bibi ia pessoalmente supervisionar as obras, o arquiteto teria se apaixonado por ela. E, quando as obras estavam entrando na reta final - quando só faltavam os detalhes artísticos nas paredes e nos tetos, ele se recusou a continuar. Disse a Bibi que só completaria a obra se ela lhe desse um beijo. E foi atendido. Aparentemente, porém, o beijo fez a cabeça do arquiteto flutuar pelas nuvens. Ele se descuidou, não sumiu com as evidências, e Tamerlão, ao retornar, descobriu o que havia ocorrido. Não se sabe se o conquistador usou ou não as vísceras do pobre infeliz como adubo para as rosas no pátio interno da mesquita, mas o arquiteto não teve muita chance de se explicar. A obra foi então paralisada. E Bibi, a amada rainha que só queria fazer uma surpresa a seu marido, foi forçada a usar véus pelo resto da vida. Ela foi enterrada num monumento em frente à mesquita incompleta - e bem longe de Tamerlão, o conquistador traído pela arte que tanto protegeu.

(Continua aqui)


Na estrada dourada para Samarkand



Arcano9
Londres, 10/11/2003


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Minha biblioteca de sobrevivência de Julio Daio Borges


Mais Arcano9
Mais Acessadas de Arcano9 em 2003
01. Quem somos nós para julgar Michael Jackson? - 10/2/2003
02. Um brasileiro no Uzbequistão (V) - 8/9/2003
03. Um brasileiro no Uzbequistão (III) - 28/7/2003
04. Um brasileiro no Uzbequistão (I) - 30/6/2003
05. Um brasileiro no Uzbequistão (II) - 14/7/2003


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Quando a Cristandade Morre
Emmanuel Mounier
Paz e Terra
(1972)



Dias de Guerra no Atlântico Sul
Paulo de Q. Duarte
Biblioteca do Exército
(1968)



Pequenas Licões
Legrand
Soler
(2008)
+ frete grátis



It Girl Garota Inesquecível
Cecily Von Ziegesar
Galera Record
(2009)



Milagres de Amor e Amizade
Yitta Halberstam; Judith Leventhal
Butterfly
(2005)



O Garanhão das Praias
José Mauro de Vasconcelos
Melhoramentos
(1969)



Starters
Lissa Price
Novo conceito
(2012)



Cenas de um Casamento
Ingmar Bergman
Círculo do Livro
(1975)



Cavalo Encilhado Não Passa Duas Vezes
Antonio B. Carrelhas
Peirópolis
(2010)



O Inédito Viável
Emerson Weslei Dias
D Livros
(2013)





busca | avançada
84710 visitas/dia
2,6 milhões/mês