William Faulkner e a aposta de Pascal | Martim Vasques da Cunha | Digestivo Cultural

busca | avançada
107 mil/dia
2,4 milhões/mês
Mais Recentes
>>> “Sempre mais que um” tem apresentações no Teatro Alfredo Mesquita
>>> Projeto Memória leva legado de Lélia Gonzalez a 7 capitais
>>> '1798 - Revolta dos Búzios' chega ao cinemas
>>> IV Cinefestival International de Ecoperformance divulga sua programação
>>> O Shopping Praça da Moça debuta com show exclusivo da Família Lima
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
>>> Garganta profunda_Dusty Springfield
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Todas as artes: Jardel Dias Cavalcanti
>>> Soco no saco
>>> Xingando semáforos inocentes
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Esporte de risco
>>> Tito Leite atravessa o deserto com poesia
>>> Sim, Thomas Bernhard
Colunistas
Últimos Posts
>>> Comfortably Numb por Jéssica di Falchi
>>> Scott Galloway e as Previsões para 2024
>>> O novo GPT-4o
>>> Scott Galloway sobre o futuro dos jovens (2024)
>>> Fernando Ulrich e O Economista Sincero (2024)
>>> The Piper's Call de David Gilmour (2024)
>>> Glenn Greenwald sobre a censura no Brasil de hoje
>>> Fernando Schüler sobre o crime de opinião
>>> Folha:'Censura promovida por Moraes tem de acabar'
>>> Pondé sobre o crime de opinião no Brasil de hoje
Últimos Posts
>>> A insanidade tem regras
>>> Uma coisa não é a outra
>>> AUSÊNCIA
>>> Mestres do ar, a esperança nos céus da II Guerra
>>> O Mal necessário
>>> Guerra. Estupidez e desvario.
>>> Calourada
>>> Apagão
>>> Napoleão, de Ridley de Scott: nem todo poder basta
>>> Sem noção
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A Poética do Extravio, Júlio Castañon Guimarães
>>> Armazém de secos e molhados
>>> Uma nova aurora para os filmes
>>> Jornal da Cultura - 17/11/2014
>>> Páginas e mais páginas da vida
>>> No final do telejornal tinha um poeta...
>>> No final do telejornal tinha um poeta...
>>> Máfia do Dendê
>>> CaKo Machini
>>> Alberto Dines sobre a Copa
Mais Recentes
>>> Drawing On The Right Side Of The Brain de Betty Edwards pela Souvenir Press (2024)
>>> Noção de gerenciamento de Portos de Guilherme Accioly Fragelli pela Clube Naval (2000)
>>> Subterra de Baldomero Lillo, Luisa Rivera, José Miguel Vara pela Liberalia (2010)
>>> A Canoa de Papel - tratado de Antropologia Teatral de Eugenio Barba pela Hucitec (1994)
>>> Poesia Indianista: Obra Indianista Completa : Poesía E Dicionário Da Língua Tupi de Antônio Gonçalves , 1823-1864 Dias pela Martins Fontes (2000)
>>> Era Uma Vez Tiradentes - coleção viramundo de Julieta de Godoy Ladeira pela Moderna (1992)
>>> Noite Na Taverna / Macario - Portugues Brasil de Alvares De Azevedo pela Martin Claret (2011)
>>> Livro Introdução A Economia: Princípios e Ferramentas de Arthur O'sullivan, Steven M. Sheffrin, Marislei Nishijima pela Pearson (2004)
>>> Iracema de José De Alencar pela Melhoramentos (2012)
>>> UNO Educação, Ensino Médio - Gramática Nº 9, 10, 11 e 12 de Vários Colaboradores pela Bercrom (2023)
>>> A Escrava Isaura de Bernardo Guimarães pela Sol90 (2004)
>>> Livro Textos, Compreensão, Interpretação e Produção 21 de Antonio Simplicio Rosa Faria e Produção pela Livro Técnico (1986)
>>> Os Lusíadas - Coleção L de Luiz Vaz de Camões pela L PM Pocket (2015)
>>> Livro Números Irracionais e Transcendentes de Djairo Guedes de Figueiredo pela Sbm (2002)
>>> UNO Educação, Ensino Médio - Literatura Nº 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22 e 24 de Vários Colaboradores pela Bercrom (2023)
>>> Livro Do Novo Mundo Ao Universo Heliocêntrico de Luiz Carlos Soares pela Hucitec (1999)
>>> Revolução E Democracia. 1964-... - Volume 3 Das esquerdas no Brasil de Jorge Ferreira e Daniel Aarão Reis pela Civilização Brasileira (2007)
>>> Fazer Pesquisa na Abordagem Histórico Cultural Metodologias Em Construção de Maria Teresa de Assunção Freitas; Bruna Sola Ramos pela Ufjf (2010)
>>> Raul Prebisch - 1901-1986: A construção da américa latina e do terceiro mundo de Edgar J. Dosman pela Contraponto (2011)
>>> Liderando Com Metas Flexíveis de Niels Pflaeging pela Bookman - Grupo A (2009)
>>> Vocabulário Da Psicanálise de Jean-bertrand Pontalis; Laplanche pela Martins Fontes (2001)
>>> Saude E Servico Social de Maria Ines Souza Bravo; Outros autores pela Cortez Edi (2006)
>>> Serviço Social E Saúde: Formação E Trabalho Profissional de Ana Elizabete Mota pela Cortez Edi (2009)
>>> O Mito Da Assistência Social: Ensaios Sobre Estado, Política de Ana Elizabete Mota pela Cortez (2008)
>>> Frankie - Um Homem Desiludido. Um Gato Procurando Um Lar. Uma História Comovente Sobre Uma Amizade E de Maxim Leo; Jochem Gutsch pela Faro Editorial (2024)
COLUNAS

Quarta-feira, 28/1/2004
William Faulkner e a aposta de Pascal
Martim Vasques da Cunha
+ de 7000 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Acabei encarando a desmedida;
Medi minha coragem e meu cansaço
E não lhes dei ouvidos, dei partida.
Disse-me: "Vai, ou não terás espaço
Para um só verso, vai!". E foi assim
Que eu "fui", como amparado pelo braço
De alguém - ou algo - tão a igual a mim
Que talvez fosse eu mesmo.


Bruno Tolentino, "Travessia", in: O Mundo Como Idéia

Quando William Faulkner morreu, em 1962, a sua situação na literatura mundial era igual a de sua personagem Lena Grove: sentado junto ao caminho do condado mítico de Yoknapatawpha, contemplando a sua obra forjada na astúcia, na solidão e no exílio do Sul americano, ele pensou: "Venho do Mississipi. Boa caminhada. Toda a estrada a pé, desde o Mississipi". Ainda não fez sessenta e quatro anos que ando e já estou mais longe de casa do que nunca. Estou mais longe de Oxford, minha cidade natal, do que já estive alguma vez desde os meus doze anos. E foi assim que Faulkner se foi, talvez sem saber que, quarenta e dois anos após a sua partida definitiva do caminho sulista, ele seria o exemplo perfeito do que um verdadeiro escritor é capaz quando assume o risco de fazer a aposta de Pascal.

Mas qual é a relação entre um escritor americano e um dos maiores pensadores religiosos de todos os tempos? Faulkner é sempre retratado como um escritor do desespero que, mesmo com seus tons dourados, tipicamente sulistas, seria uma espécie de irmão gêmeo dos existencialistas Sartre e Camus; já Blaise Pascal é o maior apologista do Cristianismo na modernidade, um dos poucos opositores às loucuras solipsistas de Montaigne e Descartes e o autor daquele livro que provoca um terremoto na alma de cada leitor que o lê - Pensamentos. Dois sujeitos díspares, se forem vistos apenas na superfície. Nada mais errado.

Faulkner e Pascal têm muito em comum porque ambos praticaram o mesmo Cristianismo agonizante que moldaria também os espíritos de sujeitos como Kierkegaard, W.H.Auden, Miguel de Unamuno e Graham Greene. Essa expressão "Cristianismo agonizante" não é um mero pleonasmo. Muitas vezes, a repetição é necessária, principalmente numa época em que o anti-cristianismo se tornou uma instituição, seja no aspecto cultural ou no político. Obviamente, a agonia é uma das características centrais da religião cristã e o fato de que, junto com a incerteza, ela provoca uma perturbação na alma humana que será resolvida somente com uma verdadeira metanóia, cria um mal-estar na civilização ocidental que ultrapassa qualquer conceito freudiano e atinge a essência de uma outra vida, diferente da econômica, psíquica ou sexual - uma vida secreta.

A aposta de Pascal leva em conta justamente o problema de como se atinge essa vida secreta. O raciocínio é muito simples: existem pessoas que não se importam com a imortalidade da alma e sequer se importam se existe realmente um outro reino além deste mundo. Para Pascal, elas não podem ser chamadas de apóstatas, o que seria um título demasiadamente pomposo para uma óbvia imbecilidade. Contudo, ele também era um apologista, mas um apologista que precisava provar que o Cristianismo é a verdade através da lógica e da razão. Assim temos a necessidade da aposta: se o sujeito permanecer na sua vida medíocre, sem se preocupar com os assuntos divinos, ele não perderá nada. Continuará com sua medíocre existência, com sua acomodada boçalidade. Mas, se ele se dedicar aos assuntos divinos e comprovar, com suas experiências, que eles existem e levam à verdade do Cristianismo, seu ganho foi nada mais, nada menos do que a vida eterna. Logo, a possibilidade de ganhar na aposta é tanto de 50% para que sua vida não mude e continue na mesma toada de mediocridade, como de 50% para que a verdadeira vida do Espírito ilumine a existência humana até o fim dos tempos. Realmente, uma aposta irrecusável pois, como diria Bob Dylan, "when you´ve got nothing, you´ve got nothing to lose".

William Faulkner foi o exemplo encarnado do escritor que aceita a aposta de Pascal até as últimas conseqüências - e que, no final, saiu vitorioso. Seu Cristianismo agonizante era a do "salve, Cristo, esses pobres filhos-da-puta", a de homens e mulheres que, por mais que sofressem, sempre suportariam o fardo dos seus destinos porque sabiam que a condição humana é de agüentar o máximo a cruz que lhes é imposta. Essa é a única escolha possível para um personagem de Faulkner: abraçar a incerteza e tentar ser um pardal que acompanha um falcão, uma vez que estes têm mais chance de escaparem ilesos das pedradas da vida e dos trovões de Deus. Obviamente, Faulkner fez a mesma coisa na sua vida e sua biografia deveria ser um modelo para os escritores brasileiros, adoradores do patrocínio estatal e ansiosos por um sucesso postiço. Faulkner sabia que, para ser um escritor, não precisa ser rico. A literatura não é uma profissão. É um exorcismo, é uma luta interior em que o artista, depois de ter lutado com seus segredos mais demoníacos, transcende tudo isso com uma obra-de-arte. O trabalho com as palavras, na busca pela linguagem secreta do Sagrado, é a mais implacável das vidas secretas. De certa forma, o escritor é uma espécie de imitatio Christi: only drowning men could see him, diria um certo Leonard Cohen. Ele nunca deve duvidar das suas capacidades para escrever; só precisa de um emprego que dê teto e comida pois, como disse o próprio Faulkner em uma entrevista memorável:

"O escritor não precisa de liberdade econômica. Tudo de que precisa é de lápis e papel. Eu nunca soube que algo bom em literatura tivesse se originado da aceitação de uma oferta gratuita de dinheiro. O bom escritor nunca pede auxílio a uma instituição cultural. Está ocupado demais escrevendo alguma coisa. Se não é um escritor de primeira classe, ilude-se dizendo que não tem tempo ou liberdade econômica. Pode surgir arte boa de assaltantes, contrabandistas ou ladrões de cavalos. As pessoas na verdade têm medo de descobrir que podem suportar muita adversidade e pobreza. Têm medo de descobrir que são mais resistentes do que pensam. Nada pode destruir o bom escritor. A única coisa que pode alterar o bom escritor é a morte. Os bons não têm tempo para pensar no sucesso ou em ganhar dinheiro. O sucesso é feminino e como uma mulher; se você se curva diante dela, ela passa por cima de você. Então o jeito de tratá-la é dar-lhe as costas da mão. Aí, talvez, ela venha a rastejar".

E ele cumpriu cada palavra que disse. Faulkner trabalhou como carteiro, vendedor de carros, lavador de pratos e segurança enquanto escrevia os romances que o transformariam em um dos maiores nomes do modernismo, junto com Joyce, Pound e Eliot - The Sound and the Fury (1929), As I Lay Dying (1930), Light in August (1932), Absalom, Absalom! (1936) e Wild Palms (1938). Nestas cinco obras-primas, o Cristianismo agonizante aparece num virtuosismo técnico e num questionamento filosófico que não deixa pedra sobre pedra. Faulkner narra como o niilismo corrói toda uma família (The Sound and the Fury e Absalom, Absalom! - dois dos livros mais impenetráveis da literatura mundial), como a esperança vive lado a lado com o desespero (Light in August, um romance que este humilde escriba daria as duas mãos para escrevê-lo), como a família, muitas vezes, pode ser seu maior obstáculo (As I Lay Dying, impecável em sua técnica de monólogos interiores) e como o verdadeiro amor entre um homem e uma mulher só pode existir se ambos se entregarem à incerteza da existência (Wild Palms, a grande paródia que Faulkner fez do seu amigo, Ernest Hemingway).

Esses livros foram a razão principal para Faulkner vencer o surpreendente Prêmio Nobel em 1949, mas, mesmo assim, ele não parou em seu trabalho. O universo mítico do condado de Yokapatawpha se expandia em trabalhos singulares como Requiem for a Nun, The Hamlet, The Town, The Mansion, The Reivers e tinha suas idiossincracias como a mal-sucedida alegoria cristã A Fable, que transpunha a paixão de Cristo para um motim militar na Primeira Guerra Mundial. É bem provável que a velhice e o sucesso do Nobel arrefeceram um pouco a fúria criativa de Faulkner. Seus romances da maturidade não mostram mais a tendência de querer provar para si mesmo do que era capaz com sua técnica e seu estilo. Ainda assim, mesmo o pior de Faulkner é mil vezes melhor do que qualquer linha escrita por Paulo Coelho.

No ano de sua morte, William Faulkner estava relativamente esquecido. Somente agora, em um tempo em que as pessoas procuram escapar da incerteza como o diabo foge da cruz, que sua literatura difícil e exigente começa novamente a incomodar as pessoas com aquele aguilhão que apenas a grande arte faz. E é também nesse momento que a aposta de Pascal se torna mais importante como nunca, pelo simples motivo de que as pessoas esqueceram como fazer a escolha certa e suportar suas conseqüências doloridas. Elas desejam o sucesso como fim, a felicidade como meio, mas esqueceram que não importa a meta, o que vale é a travessia. A obra de Faulkner e o seu exemplo como escritor para as gerações futuras, sejam brasileiras ou não, e a beleza da vida secreta que motiva a aposta de Pascal deveriam ser ensino obrigatório para nossos jovens. Pois, sem dúvida nenhuma, William Faulkner sabia que, sentado em seu caminho, contemplando o trabalho de sua vida, nunca teria dado uma caminhada tão longa e tão boa se não tivesse arriscado uma aposta que somente um verdadeiro escritor teria a coragem de fazer.


Martim Vasques da Cunha
Campinas, 28/1/2004

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Música e humor de Carla Ceres


Mais Martim Vasques da Cunha
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
28/1/2004
17h06min
Caro Martin, foi um prazer ler seu belo artigo. É um aviso àqueles que pensam que ser artista é colocar sobre a cabeça um enfeite/rótulo - simples álibe para uma busca de status. parabéns! jardel
[Leia outros Comentários de jardel]
22/3/2007
18h44min
Martim, que belo artigo sobre a obra de William Faulkner, realmente um exemplo prático da "Aposta de Pascal". Alguém já disse que é o Artista que provoca mudanças, enquanto o cientista apenas as explica. Parabéns!
[Leia outros Comentários de Jamir Mendes Monteir]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Livro Didático Projeto Presente História Ciências Humanas 3
Ricardo Dreguer e Outros
Moderna
(2018)



Melatonina - O poder milagroso da cura
Neil Stevens
Madras
(1998)



Oficina de História - História do Brasil
Flavio de Campos
Moderna
(2000)



Darien - Império De Sal
C. F. Iggulden
Record
(2023)



Princípios de Economia Política 1 e 2
Alfred Marshall
Nova Cultural
(1988)



Kit com livros pocket - 10 Volumes
Agatha Christie
Lpm
(2009)



Livro De Bolso Antropologia Cultura Um Conceito Antropológico
Roque de Barros Laraia
Zahar
(1986)



Insólita Vol.2 – A Máscara de Prata
Julia de Passos Ramalho; Ursula Antunes (org)
Luva
(2021)



Livro Sociologia Cidade Digital - Infoinclusão Social e Tecnologia em Rede
Evandro Prestes Guerreiro
Senac Sp
(2006)



Solidão, Quem é Você?
Simone Martins
Butterfly
(2002)





busca | avançada
107 mil/dia
2,4 milhões/mês