Derrotado | Guilherme Pontes Coelho | Digestivo Cultural

busca | avançada
53121 visitas/dia
2,0 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Projeto lança minidocumentário sobre a cultura do Gambá na Amazônia
>>> Cinema itinerante leva sessões gratuitas a cidades do Sudeste e do Sul
>>> Artistas abrem campanha de financiamento para publicação de graphic novel
>>> Projeto que une cultura e conscientização ambiental traz teatro gratuito a Minas Gerais
>>> Show da Percha com Circo do Asfalto
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Jô Soares (1938-2022)
>>> Casos de vestidos
>>> Elvis, o genial filme de Baz Luhrmann
>>> As fezes da esperança
>>> Quem vem lá?
>>> 80 anos do Paul McCartney
>>> Gramática da reprodução sexual: uma crônica
>>> Sexo, cinema-verdade e Pasolini
>>> O canteiro de poesia de Adriano Menezes
>>> As maravilhas do modo avião
Colunistas
Últimos Posts
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
>>> Oye Como Va com Carlos e Cindy Blackman Santana
>>> Villa candidato a deputado federal (2022)
>>> A história do Meli, por Stelleo Tolda (2022)
>>> Fabio Massari sobre Um Álbum Italiano
>>> The Number of the Beast by Sophie Burrell
>>> Terra... Luna... E o Bitcoin?
>>> 500 Maiores Álbuns Brasileiros
>>> Albert King e Stevie Ray Vaughan (1983)
Últimos Posts
>>> Direitos e Deveres, a torto e a direita
>>> Os chinelos do Dr. Basílio
>>> Ecléticos e eficazes
>>> Sarapatel de Coruja
>>> Descartável
>>> Sorria
>>> O amor, sempre amor
>>> The Boys: entre o kitsch, a violência e o sexo
>>> Dura lex, só Gumex
>>> Ponto de fuga
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Cisne Negro: por uma inversão na ditadura do gozar
>>> Filosofia teen
>>> Extraordinary Times
>>> O melhor programa cultural
>>> As estrelas e os mitos
>>> Open Culture
>>> Conselheiros não se aconselham
>>> Sartre e a idade da razão
>>> O filósofo da contracultura
>>> O Presépio e o Artesanato Figureiro de Taubaté
Mais Recentes
>>> A guerra doa botões de Louis Pergaud pela Ediouro (1994)
>>> A árvore que dava dinheiro de Domingos Pellegrini pela Moderna (1982)
>>> A árvore que dava dinheiro de Domingos Pellegrini pela Moderna (1983)
>>> A árvore que dava dinheiro vol. 3 novela de Domingos Pellegrini pela Ática (2002)
>>> Artemis fowl de Eoin Colfer pela Record (2008)
>>> A estranha Madame Mizu de Thierry Lenaín pela Companhia das Letrinhas (2003)
>>> Sherlock Holmes em: Os seis bustos de napoleão e outras histórias de Arthur Conan Doyle pela L&PM Pocket (1999)
>>> Universidade das crianças/Cientistas explicam os enigmas do mundo de Ulrich Janben e Ulla Steuernagel pela Planeta (2008)
>>> A formulação de objetivos de ensino de Robert F. Mager pela Globo (1980)
>>> Avaliação institucional da universidade de Antônio Amorim pela Cortez (1992)
>>> O estudante de Adelaide Carraro pela Global (2003)
>>> Símbolos Antigos e Sagrados - Biblioteca Rosacruz XXIII de Ralph M Lewis F.R.C. pela Renes (1979)
>>> Ab-reação Análise dos Sonhos, Transferência de C. G. Jung pela Vozes (1999)
>>> Leitura de Estudo: ler para aprender a estudar e estudar para aprender a ler de Leda Tessari Catello Pereira pela Alínea (2003)
>>> Pfuenprinzessin de Indu Sundaresan pela Fischer (2005)
>>> Espiritualidade e Transcendência de C. G. Jung pela Vozes (2007)
>>> Deuses Americanos de Neil Gaiman pela Intrínseca (2016)
>>> Amaldiçoado de Joe Hill pela Arqueiro (2015)
>>> As Paixões da Ciência Estudo de História das Ciências de Nilton Japiassu pela Letras & Letras (1991)
>>> Corra, Alex Cross de James Patterson pela Arqueiro (2014)
>>> Manual da Felicidade de José Hermógenes pela Universo paralelo
>>> Amaldiçoadas de Jessica Spotswood pela Arqueiro (2014)
>>> Despertada - Série House Of Night 8 de P. C. Cast + kristin Cast pela Novo Século (2017)
>>> Doutrinados de Trisha Leaver; Lindsay Currie pela Gutenberg (2016)
>>> Mestre das Chamas de Joe Hill pela Arqueiro (2017)
COLUNAS

Quarta-feira, 2/3/2011
Derrotado
Guilherme Pontes Coelho

+ de 5000 Acessos
+ 4 Comentário(s)

Eu fui derrotado por um livro. Não gosto quando isso acontece. Não gosto quando a expectativa que crio em torno de um livro evanesce a cada parágrafo lido. Por isso respiro fundo e tento continuar. Coço os olhos, alongo pernas e braços, estalo os dedos, como uma fruta, bebo água e volto à leitura, na esperança de que o problema seja comigo, não com o livro. Devo continuar lendo. Não devo parar só porque um trecho do volume não me agradou. Devo continuar a leitura, porque algumas páginas adiante aquele prazer de ler vai voltar, o autor fará o agonista mergulhar num novo mundo, o qual tentará entender, e eu seguirei o acompanhando página a página, como um anjo invisível, em sua jornada.


Poppy Berry / Corbis ©


Páginas depois, a sensação de que eu tenho de fazer tudo novamente, o alongamento, a fruta, o copo d'água. Respiro fundo, coço os olhos. Há algo de errado comigo. Continuo.

Mais adiante, evito ter de passar por tudo novamente, o alongamento, a fruta, a água. Fecho o livro. Algo de errado comigo, amanhã eu continuo.

No dia seguinte, vejo a capa do livro, bonita, vejo onde o marcador está, além da metade, e resolvo "respirar a leitura" um pouco. Tomo outro livro. "Volto àquele quando acabar esse outro", penso. Leio o livro substituto em pouco tempo, converso sobre ele com minha esposa ou algum amigo, posso até escrever uma resenha a respeito. E, sem querer, acabo lendo outro, não aquele, e depois outro, e mais outro.

Então eu me lembro daquele livro que havia deixado pela metade. Lembro que tenho expectativas. Lembro que as primeiras vinte, trinta, quarenta páginas são ótimas. Lembro que fiz algumas anotações às margens (todas a lápis). Lembro que há coisas interessantes nele. Vou lê-lo! E não, não vou recomeçar de onde parei. Há algumas semanas de hiato. É melhor recomeçar do zero.

Recomeço a leitura, a partir da primeira página. A memória daquele prazer que só a leitura proporciona, o de viajar por vidas e ideias, reacende em minha mente. Você sabe o que é isso. Aquele senso de vivência compartilhada, de comunhão com agonistas, antagonistas, narradores. E aquelas dezenas de páginas interessantes, que fisgaram você quando da primeira leitura, voltam até mais interessantes, são redescobertas ― assim como as anotações que você fez da primeira vez também são redescobertas, e você acaba fazendo anotações de anotações, comparando o seu eu leitor de antes com o de agora, e você fica maravilhado com a mágica que é reler um livro.

Aquelas cinquenta, sessenta, setenta páginas já conhecidas passam voando, e você continua lendo, feliz por chegar à primeira centena de páginas e sentir que desta vez você está bem para ler este livro, que ele é ótimo (como você imaginava), que você só precisava de tempo.

Mas aí, depois de cento e dez, cento e vinte, centro e trinta páginas, você sente que chegou a hora de fazer o ritual curador, o ritual que dispersará as nuvens sobre sua leitura, que mostrará a você que é só um cansaço, que o livro é ótimo, que você só precisa se alongar, tomar uma água, ou um suco, para variar, e comer uma fruta, ou experimentar um chocolate. Que venha o ritual!

Depois do rito, a decepção. Ele não adiantou de nada. Você até tentou, conseguiu ler umas dez páginas ainda, à força de algum senso de dever. A leitura emperrou como da primeira vez, só que mais forte. Mas, antes de pensar em refazer o ritual curador, lhe acontece a ideia salvadora. "Vou respirar um pouco a leitura", você pensa. Então você procura outros livros, devora a todos eles, como numa festa, como se tivesse acabado de sair da prisão em pleno carnaval pernambucano.

E o tempo passa, você tem conversas animadíssimas sobre os outros livros a hora do almoço e do jantar, você escreve resenhas sobre os outros livros, você envia e-mails para seus amigos comentando os outros livros ― e seus amigos respondem aos seus e-mails, eles dizem que gostaram também dos outros e você fica contente, porque poucas coisas são tão boas quanto conversar sobre (os outros) livros.

Um dia, porém, enquanto você arruma as estantes, enquanto você tenta reorganizar o tanto de livros espalhados pela casa (banheiro, corredores, quartos, escritório e até no quarto da sua filha!), um dia você se depara com aquele livro. Ele estava bem ali, no criado-mudo, ao seu lado o tempo todo, ouvindo sua respiração quando você dorme, observando seu corpo quando troca de roupa, ouvindo todos os sons e sentindo todos os cheiros toda vez que você faz amor. Ele estava bem ali, imóvel, estático, sólido, silencioso.

Respirar fundo é a reação imediata. "Eu preciso ler este livro", você pensa. Um senso distorcido de honra obriga você a pensar assim. "Ler é bom", você se justifica.

Pela terceira vez você recomeça a leitura daquele livro, que é de uma autora de quem você gosta, que é publicado por uma editora que você admira, que é traduzido por uma profissional que você respeita, que tem um projeto gráfico atraente, que tem uma apresentação lisonjeadora, que foi premiado com um Pulitzer. Você prepara uma ocasião especial para leitura. Você, de novo, cria um ambiente de respeito para o livro, você se apresenta a ele de banho tomado, com roupas limpas, bem alimentado, sereno. Você é só boa-fé e aceitação. Você espera chegar hora silenciosa para começar a leitura.

E a recomeça. Aquelas primeiras setenta, oitenta, noventa páginas passam voando, voando como numa tediosa viagem rotineira a trabalho. Você ultrapassa a metade do livro sem nenhum encanto, mas mantém a esperança de que "aquilo" você está fazendo dará certo. Você continua a leitura. Você sente algo errado, mas continua a leitura. Você percebe que, naquela viagem, a paisagem bonita ficou lá trás, mas continua lendo. Você se dá conta de que seus companheiros de viagem são monótonos e enfadonhos, mas continua lendo. Você sente um desejo urgente de que o trem em que você está deveria descarrilar, de que o maquinista deveria dormir e causar uma catástrofe, de que você deveria pular pela janela e sair correndo, sentindo a liberdade em cada músculo do seu corpo e o coração, finalmente!, palpitando. Mas você continua lendo.

E num impulso joga o livro longe! Viagem encerrada.

Depois de viajar por dois terços do livro, você, exausto, não tem disposição, nem coragem, nem, muito menos, tesão para continuar. Você agradece pela liberdade recém-adquirida comendo uma fruta, ou um chocolate; você toma um chá, ou um suco, e solta uma gargalhada de felicidade, tão alta a ponto de acordar sua filha. Você vai ao quarto dela e a acaricia, ela adormece, e você também, enrolado num cobertor da Puka.

Mas na manhã seguinte, a ressaca livresca. Eu não gosto disso. Fui derrotado por um livro.


Guilherme Pontes Coelho
Águas Claras/Brasília, 2/3/2011


Mais Guilherme Pontes Coelho
Mais Acessadas de Guilherme Pontes Coelho em 2011
01. A sordidez de Alessandro Garcia - 9/2/2011
02. Cisne Negro - 16/2/2011
03. Churchill, de Paul Johnson - 2/2/2011
04. Pequenos combustíveis para leitores e escritores. - 7/9/2011
05. Derrotado - 2/3/2011


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
10/3/2011
12h39min
Eu já fui derrotado por vários livros: "Tieta do Agreste", do péssimo Jorge Amado; o ridículo "Ulisses", de Joyce; "Sodoma e Gomorra", do inverossímil Proust... Quando começo a me perguntar por que estou lendo "aquilo" é sinal de derrota na certa. Só que não me sinto derrotado, simplesmente me dou por feliz em não perder mais tempo com tal porcaria.
[Leia outros Comentários de Gil Cleber]
19/3/2011
05h44min
Só me recordo de ter sido derrotada por um livro uma única vez. Sou valente! ;) (mas sim, estou ciente de que muitas dessas minhas vitórias foram enormes perdas de tempo...) Genial seu texto!
[Leia outros Comentários de Carolina Costa]
28/7/2011
09h25min
Fiquei curiosíssima para saber qual livro fez isso com você.
[Leia outros Comentários de Candice Lindner]
28/7/2011
23h28min
E quando, ainda assim, TEMOS que terminar o livro? Dupla derrota!
[Leia outros Comentários de Ivan]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O Primeiro Amor e Outros Perigos
Marçal Aquino
Ática
(1999)



Ecologia
Regina Yolanda
Studio Nobel
(1996)



Princípios de Administração Financeira
Lawrence J. Gitman
Harbra
(1978)



O Tempo Saquarema
Ilmar Rohloff de Mattos
Hucitec
(2004)



Infância Coleção Folha - Grandes Escritores Brasileiros 16
Graciliano Ramos
Folha de S Paulo
(2008)



X-Men Nº 128
Marvel
Panini Comics
(2012)



Escolha o Caminho Mais Fácil (lacrado)
Julia Rogers Hamrick
Best Seller
(2017)



Muito Obrigada! Coletânea de Cartas
Osório Martins Fagundes
Não Informado
(1978)



As Portas da Percepção Céu e Inferno
Aldous Huxley
Globo Antigo
(2002)



Vida, universo e sabe lá o que mais
Douglas Adams
Brasiliense
(1988)





busca | avançada
53121 visitas/dia
2,0 milhão/mês