A sordidez de Alessandro Garcia | Guilherme Pontes Coelho | Digestivo Cultural

busca | avançada
24629 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Red Bull Station estreia exposições de letrista e de coletivo feminino em julho
>>> Alaíde Costa e Toninho Horta mostram CD em parceria na CAIXA Cultural São Paulo
>>> O Julgamento Secreto de Joana D'Arc com Silmara Deon estreia no Teatro Oficina
>>> Novo app conecta, de graça, clientes a profissionais e prestadores de serviço
>>> Inauguração da Spazeo com show do Circuladô de Fulô - 28/07
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Entrevista com a tradutora Denise Bottmann
>>> O Brasil que eu quero
>>> O dia em que não conheci Chico Buarque
>>> Um Furto
>>> Mais outro cais
>>> A falta que Tom Wolfe fará
>>> O massacre da primavera
>>> Reflexões sobre a Liga Hanseática e a integração
>>> A Fera na Selva, filme de Paulo Betti
>>> Raio-X do imperialismo
Colunistas
Últimos Posts
>>> Eleições 2018 - Afif na JP
>>> Lançamentos em BH
>>> Lançamento paulistano do Álbum
>>> Pensar Edição, Fazer Livro 2
>>> Ana Elisa Ribeiro lança Álbum
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
>>> Conceição Evaristo em BH
>>> Regina Dalcastagné em BH
>>> Leitores e cibercultura
>>> Sarau Libertário em BH
Últimos Posts
>>> Tempo & Espaço
>>> Mão única
>>> A passos de peregrinos ll
>>> PRESSÁGIOS. E CHAVES IV
>>> Shomin-Geki, vidas comuns no cinema japonês
>>> Con(fusões)
>>> A passos de peregrinos l
>>> Ocaso
>>> PRESSÁGIOS. E CHAVES I
>>> Sob o mesmo teto
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O Brasil que eu quero
>>> Pensar sem memória
>>> A Fera na Selva, filme de Paulo Betti
>>> O Digestivo e o texto do Francisco Escorsim
>>> Restos, por Mário Araújo
>>> A maçã de Isaac Newton
>>> O que é um livro?
>>> Cisne Negro: por uma inversão na ditadura do gozar
>>> Lui Liu
>>> Sociedade dos Poetas Mortos
Mais Recentes
>>> Lia e o Sétimo Ano
>>> Quero ser Belo
>>> O Cão dos Baskervilles
>>> Feminismos, identidades, comparativismos: vertentes nas literaturas de língua inglesa Vol. IV
>>> A Saúde brota da Natureza
>>> Quatro Quartetos
>>> Quem é Você? Construindo a Pessoa à luz do Eneagrama
>>> Mecânica Vectorial para Engenheiros - Dinâmica (6ª ed.)
>>> O cachorro Skoz - Cão ao mar
>>> O cachorro Skoz - Passeio no ar
>>> Seu cliente pode pagar mais - 3ª edição
>>> O Pássaro Azul
>>> Zagreb
>>> The Rough Guide to Turkey
>>> Prague
>>> Dados Sobre a Coréia
>>> The Rough Guide to Morocco
>>> Lonely Planet - Argentina
>>> Lonely Planet - Bermuda
>>> Lonely Planet - Zimbabwe
>>> Hill Country
>>> Guatemala Sensacional
>>> Nova York no Meu Bolso
>>> Itália by Train
>>> Buenos Aires de A a Z
>>> Badajoz
>>> Imigrantes da Bessarábia - Jornada em Terras Tropicais
>>> Let's Visit Thailand
>>> The Man Who Deciphered Linear B - the Story of Michael Ventris
>>> Jean-Pierre Mocky
>>> Dialoguer Avec Son Ange - Une Voie Spirituelle Occidentale
>>> La Société de Consommation de Soi
>>> Cadernos de Lanzarote - Diário 1
>>> Marcelo Caetano - O Homem Que Perdeu a Fé
>>> A Construção da Beleza
>>> História dos Conceitos - Debates e Perspectivas
>>> Cidadania Proibida - O Caso Herzog Através da Imprensa
>>> Cleo e Daniel
>>> Children and Television
>>> Cholera and the Ecology of Vibrio Cholerae
>>> The Encyclopedia of Ancient Egypt
>>> Maravilhas do Conto de Aventuras
>>> Reproposta - a Revista da Terceira Idade para Todas as Idades
>>> Scribes, Warriors and Kings - The City of Copan and the Ancient Maya
>>> O'Neill - Long Day's Journey Into Night
>>> The Fall of Constantinople 1453
>>> Morality
>>> Collaboration in the Holocaust - Crimes of the Local Police in Belorussia and Ukraine, 1941-44
>>> Gandhara - The Memory of Afghanistan
>>> Tales, Speeches, Essays and Sketches
COLUNAS

Quarta-feira, 9/2/2011
A sordidez de Alessandro Garcia
Guilherme Pontes Coelho

+ de 4900 Acessos

Ele é um escritor que se dedicou ao pequeno em sua primeira obra solo. Ele já participou de algumas coletâneas. Agora, escreveu um livro de contos, chamado A sordidez das pequenas coisas (Não Editora, 2010, 176 págs.). São vinte contos e, para ser mesquinho, para ser pequeno, especifico que três quartos do livro são uma ótima leitura, onde o pequeno faz toda a diferença ― mas permanece, como nos acostumamos experimentar no cotidiano, pequeno.

Amor, memória, morte. Grandes motivos da experiência humana, os mais importantes, talvez, em todos os níveis da vida. Tudo o que criamos está relacionado a um desses totens, senão aos três, simultaneamente, sendo o próprio criar uma manifestação, perdoem a pieguice, do amor. Mas o grande é acachapante, é onisciente, é irrespirável, e viver dele e com ele o tempo todo pode ser a opressão absoluta ― e é partir desta constatação tão bem-vinda quanto nefasta que o pequeno é abraçado em regozijo, que o medíocre é recebido com festa e piadinhas sem graça, e me faz pedir perdão ao leitor por mencionar a palavra "amor", que não vai em itálico mas entre aspas, para lhe mostrar a estranheza que ela causa.


Issara Willenskomer ©


Pois Alessandro Garcia fala do pequeno. Daquele pequeno como mancha, poluindo o que temos de nobre. Como alerta, advertindo a consciência de que, apesar de tudo a que aspiramos, a sordidez é uma companhia pertinaz. Ele fala também do pequeno como a outra face do que tentamos fazer pelo amor, pela memória, pelo medo do fim; e do irremediavelmente pequeno, como no sétimo conto, "Subúrbio", onde as "histórias que as velhas contam umas para as outras (considerações repletas de maldade sobre o que andava fazendo a vizinha no fim da tarde passada) têm que ser narradas aos gritos, porque seus filhos estão berrando na parte dos fundos dos quintais, imersos nos tanques de concreto de lavar roupa, brincando com garrafas plásticas de refrigerante de dois litros, competindo por recordes de mais tempo sem respirar e porque volta e meia o mesmo caminhão de gás gira na quadra e retorna com sua cantilena musical, entoando por alto-falantes a música do mascote da empresa, um tal cachorrinho azul em que se pode confiar".

Nós temos bons autores na área do pequeno (o paradoxo é inerente ao binômio pequeno-grande) e não é de hoje. Principalmente do grande que foi diminuído, apequenado, um traço do nosso humor, devo informar, muito anterior à era dos 140 caracteres. "Marcela amou-me por quinze meses e onze contos de réis; nada menos." O grande apequenado também está nos contos de Garcia. O oitavo conto, "Selmara", foi saborosamente temperado com Nelson Rodrigues, nosso maior mestre em escrever a vileza das supostas bondades e a nobreza dos despudorados. "Selmara", um dos melhores contos do volume, tem muito do amor ao qual nenhum outro qualificativo é apropriado senão o de quase-amor ― uma desqualificação da que se pretende a mais nobre das virtudes. Um casal, Selmara e o narrador, convivem. Apenas. "Sem troca de palavras muito profundas, íamos sempre e sempre nos entendendo, nos usando, servindo um do outro, naquela troca sem fim e, parecia, sem grandes conseqüências."

Contudo, a pergunta, que deveria preceder ao julgamento que sentencia "este casal não se ama", é: há magnanimidade nesta entrega sem brilho mas plena? (Veja aí o protagonismo do amor pequeno.)

"Epifania", o décimo quinto conto, é o pior. "Florencio", o sexto, é o meu predileto. Um conto que, aparentemente, como mais um ou dois do volume, se eleva ao espectro do pequeno e, falando de Florencio, um artista célebre, se veste de testemunho pelo narrador para fazer uma análise da recepção das obras de Florencio pela crítica e como os críticos negociam a apreciação das obras florencianas com a vaidade deles e do artista. "Como separar do meio de uma horda de fraudes intelectuloides aquele que não pretende engambelar o público com meia dúzia de ideias prontas, com meandros enganosos, com meias-voltas confusas e soluções forçadas?" ― pergunta o narrador. Mas Florencio, no fundo, parece ser um artista honrado, que sempre "optou pela mediação, por aceitar ― não com passividade, comiseração ou demagogia, mas como opção mesmo ― as outras possibilidades analíticas sobre a sua obra".

Então, depois do último ponto-período ― "(...) uma multidão que parece não ter mais fim de ansiosos fãs, verdadeiramente cheios de vontade de, em abraços, beijos e afagos, resumir toda a felicidade que somente a obra de Florencio é capaz de lhes proporcionar." ―, é que o leitor percebe que hora alguma o métier de Florencio fora mencionado. Na escala das pequenas coisas, a sordidez alimentada pelas vaidades do mercado subjetivo das artes acaba sugando a energia das manifestações artísticas, a ponto de não fazer diferença se a obra é um livro ou um quadro, uma escultura ou um espetáculo de dança.

O décimo sétimo conto, "Um tio", pode ser considerado o mais representativo do volume. O conto trata dos três grandes temas, amor, memória e morte, como se o narrador, Bajo, estivesse se equilibrando na corda da futilidade ao tentar narrar a morte de um tio com quem mal tinha contato. Bajo encontra a morte mediante o falecimento do tio. Quer exercitar a criação registrando em narrativa o enterro dele. Mas a falta de amor ao defunto obscurece o processo criativo. Os três temas interligados.

O conto também mostra uma das maiores influências do autor, compartilhada por vários contemporâneos, que é David Foster Wallace. É por meio desta influência carregada de metaliteratura que Alessandro Garcia, não direi como, mostra a própria sordidez, às claras, e faz dela criação literária. Um bom livro. Leia.
Para ir além






Guilherme Pontes Coelho
Brasília, 9/2/2011


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O Vendedor de Passados de Marilia Mota Silva
02. Nobel, novo romance de Jacques Fux de Jardel Dias Cavalcanti
03. Dos sentidos secretos de cada coisa de Ana Elisa Ribeiro
04. O pai da menina morta, romance de Tiago Ferro de Jardel Dias Cavalcanti
05. Sebastião Rodrigues Maia, ou Maia, Tim Maia de Renato Alessandro dos Santos


Mais Guilherme Pontes Coelho
Mais Acessadas de Guilherme Pontes Coelho em 2011
01. A sordidez de Alessandro Garcia - 9/2/2011
02. Pequenos combustíveis para leitores e escritores. - 7/9/2011
03. Cisne Negro - 16/2/2011
04. Churchill, de Paul Johnson - 2/2/2011
05. Derrotado - 2/3/2011


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A UTOPIA ANTROPOFÁGICA
OSWALD DE ANDRADE
GLOBO
(2011)
R$ 145,00



VICENTE DE CARVALHO VIVO
CASSIANO NUNES
LEP
(1953)
R$ 60,00



MEMÓRIAS DE UM OPERADOR DE HOME BROKER
ALEXANDRE LUIZ MAZZEI DA COSTA
CIÊNCIA MODERNA
(2008)
R$ 29,00



BANDEIRANTES E PIONEIROS - PARALELO ENTRE DUAS CULTURAS
VIANNA MOOG
GLOBO
(1959)
R$ 30,00



NO LIMIAR DO TEXTO: LITERATURA E HISTÓRIA EM JOSÉ SARAMAGO
GERSON LUIZ ROANI
ANNABLUME
(2002)
R$ 9,30



TERRA À VISTA. HISTÓRIAS DE NÁUFRAGOS DA ERA DOS DESCOBRIMENTOS
EDUARDO SAN MARTIN
ARTES E OFÍCIOS
(1998)
R$ 10,00



MANGÁ HITMAN - A SEGUNDA TEMPORADA 2
HIROSHI MUTO
SAMPA ARTE / LAZER
(2012)
R$ 14,90



MORTE NA ALTA SOCIEDADE
GEORGES SIMENON
CÍRCULO DO LIVRO
R$ 7,00



DOMINGO O RABINO FICOU EM CASA - 2ª EDIÇÃO
HARRY KEMELMAN
COMPANHIA DAS LETRAS
(2002)
R$ 13,00



CURRÍCULO NA EDUCAÇÃO INCLUSIVA: ENTENDENDO ESSE DESAFIO
MARIA DE FÁTIMA MINETTO
IBPEX
(2003)
R$ 19,00





busca | avançada
24629 visitas/dia
1,1 milhão/mês