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Quarta-feira, 1/9/2004
Ser brasileiro nas Olimpíadas
Daniela Sandler

+ de 3400 Acessos

“Que reação exemplar”, repetia, admirado, o apresentador da rede de televisão norte-americana NBC. Na tela, o maratonista Vanderlei Lima percorria o estádio olímpico com um sorriso enorme e alternando gestos de alegria: acenando para a multidão, abraçando gente nas arquibancadas, imitando aviãozinho com os braços abertos. Lima acabava de completar a maratona em terceiro lugar – conquistando medalha inédita para o Brasil – após liderar a prova em quase toda a sua extensão. E após ter sido empurrado para fora da pista, no meio da corrida, por um manifestante lunático.

O apresentador no estúdio e o repórter no estádio trocavam frases entusiasmadas sobre a alegria e o espírito olímpico de Lima. Em vez de desistir da prova após o incidente, em vez de fazer escândalo ou entrar em paranóia de segurança, Lima voltou à pista e ainda ganhou medalha. Talvez os apresentadores norte-americanos tivessem em mente a histeria de seu próprio país, em que mínimas suspeitas de brechas possíveis na segurança levam a reações extremas e exageradas de punição e vigilância. Ou talvez pensassem na mania de processo dos Estados Unidos, em que qualquer deslize que prejudique ou interfira remotamente na vida de alguém – de acordo com os preceitos radicais tanto do politicamente correto quanto do conservadorismo de direita – é motivo para entrar no tribunal. Nesse estado de espírito beligerante e desconfiado, deve ter sido uma surpresa enorme ver Lima correndo e comemorando.

Nem tanta surpresa assim. A julgar da cobertura norte-americana das Olimpíadas, o Brasil é uma terra de gente emotiva e passional, exuberante e pitoresca. Durante o jogo de vôlei feminino entre Brasil e Cuba, disputando a medalha de bronze, o comentador definiu as brasileiras como “emocionais”, em referência às lágrimas de uma jogadora na quadra, em plena semifinal. Na final do vôlei de praia masculino, a cobertura deu destaque ao “super-herói do Brasil” – assim mesmo, em chamada no canto da tela. Marcelo, o torcedor embalado em macacões colantes e sungas apertadas, nas cores berrantes da bandeira brasileira, apareceu dançando e rebolando na arquibancada, tornado personagem pelo olhar curioso da tevê americana. Imagens de Marcelo em jogos anteriores, finalizando com entrevista durante a final. A repórter abraça Marcelo. Contato físico e demonstrações afetivas não são exatamente parte do comportamento americano, mas a jornalista quer entrar no clima brasileiro. Marcelo manda sua mensagem: “Power and happiness”. Os apresentadores norte-americanos repetem, focando na felicidade. É a cara do Brasil: uma peruca cacheada verde-bandeira e amarelo-canário, sorriso, abraço e felicidade.

O estereótipo não é tão ruim assim, e, como todo lugar-comum, tem seu fundo de verdade. Nosso temperamento é mesmo diverso do norte-americano, ou do europeu: somos mais expansivos e menos formais. Até aí, notar diferenças culturais é chover no molhado. E por que não sorrir diante da imagem simpática, ainda que às vezes um pouco ridícula, que fazem de nós os povos do norte?

O povo cordial

Essa nossa imagem, sob a capa inocente da benevolência, é conveniente demais para quem a constrói. Isso não é novidade. Do homem cordial ao comentário de Charles de Gaulle (“O Brasil não é um país sério”), até as esculhambações contemporâneas de Diogo Mainardi, muitos brasileiros e estrangeiros já notaram que a nossa irreverência se presta a mais interesses que a pura diversão. Vantajosa para iniqüidades internas, aceitas com pouca resistência pela população; lucrativa para opressões externas, em que o país acede à sua própria exploração. Quando o país tenta mudar seu peso – como nas recentes e sucessivas disputas contra concorrência desleal no comércio internacional –, países economicamente dominantes como Estados Unidos e Canadá reagem com virulência desmedida. Essa ordem de poderes econômicos e preconceitos culturais nos reserva o papel carnavalesco do povo que sofre, mas sorri; pobre, mas feliz.

O exemplo de Lima é revelador. O corredor é atacado, empurrado para o meio da platéia, no momento que talvez seja o mais importante de sua carreira até então. Dá a volta por cima e, como os apresentadores não cansam de repetir, sorri e está feliz. O ataque, realizado por um ex-padre maluco que já havia se metido no meio de uma corrida de Fórmula 1, é representado quase que como um cataclisma natural, uma inevitabilidade que se pôs no meio do caminho de Lima como um acaso infeliz, um azar – e Lima que se vire com ele. É com alívio que os apresentadores interpretam o bom-humor do maratonista – com alívio e exagero, ao dizer que o sorriso significa que o próprio corredor reconhece que o ataque não alterou seu curso na corrida nem influenciou o resultado. Alívio: ninguém vai contestar a medalha de prata norte-americana, ninguém vai dar escândalo ou reclamar compensação pela segurança falha.

Paternalismo

Isso foi antes de Lima declarar, em entrevista, que o ataque custou-lhe o ouro; antes de a Federação Brasileira solicitar uma medalha de ouro para o atleta (a competição teria dois vencedores no primeiro lugar). Nesse hiato, os jornalistas americanos se sentiram livres para fazer comentários paternalistas sobre a reação exemplar de Lima – “What an attitude!”. O comentarista – que supostamente entende algo do esporte – repetiu com candura inacreditável que o ataque não pode ter tido nenhuma influência no bronze de Lima, já que claramente os dois corredores que o ultrapassaram demonstraram muito mais energia no final da prova. Ora, qualquer um que sabe um pouquinho apenas sobre maratonas e outras provas de longa distância sabe também que não apenas preparo físico é essencial, como também disposição mental. O desempenho depende de concentração, de prestar atenção ao próprio corpo, administrando velocidade e energia sem deixar que o cansaço se transforme em desespero. Saber até onde explorar os próprios limites sem extingui-los. Numa modalidade em que o corpo se desgasta absurdamente, perder a cabeça é perder a prova. Imagine-se o que passou pela cabeça de Lima ao ser atacado – fisicamente agredido, sem saber se o ataque era pessoal ou político, se era ato terrorista ou palhaçada, se o atacante queria só dar um empurrão ou se teria feito mais. Voltar à prova com a consciência da vulnerabilidade e da insegurança, com quilômetros pela frente onde outros ataques poderiam ocorrer.

Quem já sofreu agressão física, mesmo leve – como ter a carteira batida, levar um empurrão ou ser bolinado – sabe como é fácil ficar atordoado depois do tranco, mesmo que o corpo esteja intacto, e perder por instantes a dimensão prática e imediata. Lima não apenas não perdeu, como fez muito mais – retornou à maratona ateniense, considerada por muitos atletas como o percurso mais difícil até hoje. Finalmente, o corpo sofre quando o exercício físico prolongado é interrompido subitamente – e sofre de novo para retomar o ritmo. É razoável supor que tudo isso tenha custado no mínimo os dois minutos de diferença entre o ouro e o bronze de Lima.

Mas o comentarista repetiu bobamente que o ataque não fez diferença. Houvesse sido um americano a vítima, já teriam acionado o alerta de terror vermelho-vinho e os advogados junto ao comitê olímpico não só para conceder medalha de ouro, como para obter indenização à altura. E, quando vieram a versão de Lima – e o pedido, negado, da Federação Brasileira –, os apresentadores calaram rápidos seus comentários anteriores.

A questão, é claro, vai além da medalha de ouro. É impossível saber se Lima teria vencido a maratona sem o ataque – impossível, porque não aconteceu. É provável que tivesse vencido, sim – mas, ainda que acreditemos, como Lima, que esse seria o caso, uma prova esportiva não pode ser baseada em credo, mas apenas em fato. O contrário é uma ofensa tanto ao talento de Lima quanto ao feito do italiano que terminou a prova primeiro. Podemos considerar que o feito de Lima foi ainda maior – ser atacado, interrompido, e ainda assim completar a prova em terceiro lugar. Mais difícil que ganhar o ouro tranqüilo. Nesse caso, um prêmio especial faz sentido – ainda que o prêmio de fair play e espírito olímpico concedido ao brasileiro tenha um ranço de consolação. O atacante maluco privou Lima de algo mais precioso que a medalha de ouro – privou-o de saber se teria vencido ou não.

Já a atitude do jornalismo norte-americano (que, no geral, reflete a atitude da maioria da população e do governo) revela condescendência e o desejo de manter os outros (nós, e os demais) no silêncio sorridente do conformismo. Sem resistência, sem contestação, sem ameaça. Talvez o Comitê Olímpico não tivesse negado tão imediatamente um pedido similar de dupla medalha de ouro se o pedido tivesse sido feito pela Federação Norte-Americana. Talvez o Comitê tivesse assumido com mais veemência sua própria falha na organização do evento (ainda que alguns digam que um incidente desse tipo teria sido inevitável).

Ser brasileiro

A delegação brasileira, por sua vez, não fez feio. Sim, muitas vezes cumpriu-se a “profecia” de Mainardi, que, há algumas semanas, definiu o atleta típico brasileiro como aquele que se esforça, vence dificuldades sociais, financeiras, etc., dá tudo na prova e morre na praia. Sim, o temperamento emotivo dos brasileiros custou-lhes medalhas – como no caso de Daiane dos Santos, que admitiu ter sido prejudicada pelo próprio nervosismo. Não chegamos nem perto dos países no topo do ranking, e talvez a nossa comemoração do número inédito de medalhas de ouro em uma Olimpíada (quatro) seja desproporcional se comparada às conquistas da Rússia, Estados Unidos e outros “gigantes” olímpicos. Mas fechamos os jogos com chave de ouro – com o perdão do trocadilho, com a atitude de nobre de Lima, que, além de ser atacado, voltar à prova, terminar, ganhar bronze, sorrir, celebrar e demonstrar alegria, não abaixou a cabeça aos afagos paternalistas e reiterou o que qualquer apresentador de televisão norte-americana com direitos exclusivos de cobrir a Olimpíada devia saber.

Espírito olímpico

"We are Americans! We are Americans! They will surrender! We won't!" (Do senador John McCain, durante a convenção do Partido Republicano norte-americano, em 30/08, sobre a guerra contra o terrorismo.)


Daniela Sandler
Rochester, 1/9/2004


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