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Quarta-feira, 24/11/2004
Muros em Berlim, quinze anos depois
Daniela Sandler
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+ 1 Comentário(s)

No último dia 9 de novembro, um pedaço do Muro de Berlim reapareceu em pleno centro reunido da capital alemã, cortando novamente leste e oeste no antigo Checkpoint Charlie. Desta vez, a barreira foi erigida não por um governo autoritário, mas por um museu democrático. O museu do Checkpoint Charlie construiu a réplica atual para marcar os quinze anos da Queda do Muro. Reviver o Muro para lamentá-lo - a estratégia pode parecer paradoxal, mas é ubíqua em Berlim. Expor histórias incômodas, resgatar sinais de crimes passados, marcar na paisagem a própria culpa: tudo isso faz parte da notória e autocrítica obsessão com o passado na Alemanha. O Muro revivido é apenas o exemplo mais recente, e em certo sentido mais extremo, em meio a campos de trabalho escravo redescobertos e placas informativas postadas diante de edifícios desaparecidos.


Novo Muro de Berlim:
instalação no antigo Checkpoint Charlie
(Imagem: AP/Der Spiegel)

Memorializar por meio da reconstituição vívida e factual do passado - em vez de, por exemplo, reinterpretações subjetivas em esculturas ou instalações - tem múltipla função. Primeiro, o memorial é testemunha histórica, fornecendo evidência dos acontecimentos (que, por vergonhosos, convidam à negação ou esquecimento), e ativando a memória do público - fazendo lembrar o que aconteceu. Em segundo lugar, o memorial comove, apelando não somente para a objetividade do conhecimento histórico, mas também a emotividade diante de fatos extremos. A recriação desses fatos é um golpe nas entranhas; provoca ira, tristeza, revolta, luto. Por fim, esse tipo de memorial é didático, imprimindo narrativas históricas no espaço urbano para instruir, informar, educar; para levar conhecimento a novas gerações com mensagens mais ou menos explícitas. No caso do Muro renascido, a mensagem é o repúdio ao autoritarismo, a crítica ao regime da Alemanha Oriental, e a defesa da liberdade.

O novo Muro é uma instalação temporária. A direção do museu Checkpoint Charlie queria que fosse permanente, mas a cidade de Berlim concedeu permissão limitada. O memorial tem atraído público e mídia, ambos fascinados pela reconstrução realista e gritante. Críticos compararam o resultado a uma espécie de Disneylândia, ou seja, uma encenação falsa, cenário artificial baseado em aparência e carente de substância ou matéria autêntica. De fato, o espírito de Disneylândia histórica é uma praga onipresente na Europa e nos Estados Unidos, combinando nostalgia e comercialismo e renegando a força de documentos e objetos originais. No entanto, o caso do novo Muro é mais complicado, e não pode ser julgado apenas como falsificação kitsch. Se a intenção fosse simplesmente memorializar o original, a acusação seria legítima. Mas o novo Muro não quer apenas remeter ao antigo: tão ou mais importante é a intenção de marcar o esquecimento presente, a falta de sinais permanentes, a rapidez com que o Muro foi apagado da paisagem berlinense. O novo Muro é uma crítica não só à Alemanha Oriental, mas também à Alemanha unificada que deseja remover a cicatriz da divisão.

Simplismo e necessidade

A recriação do Muro é, em muitos aspectos, kitsch, enganosa, simplista e ingênua. O novo Muro reduz a complexidade da divisão e as tensões do governo comunista a uma parede de concreto, que não evoca o emaranhado de eventos, objetos e conceitos abstratos de que se faz a História. O Muro reconstruído ao pé-da-letra combina a abordagem literal a clichês de representação, com cruzes de madeira espalhadas ao redor para sinalizar as 1,065 pessoas que morreram tentando cruzar o original. Por fim, o novo Muro confunde, e, para muitos visitantes, passa por autêntico. Apesar de tudo isso, o Muro novo é louvável, eficaz, e até mesmo necessário. Não em sua referência ao original, mas em seu comentário e participação no presente. A atenção de visitantes, críticos e jornalistas tem permitido a discussão pública sobre a forma adequada de memorializar o passado de trauma, separação e violência.

É preciso notar que, apesar das muitas reclamações sobre esquecimento histórico, há sinais do Muro em Berlim. Um memorial oficial foi construído próximo ao centro de Berlim - um quadrado minimalista composto por duas paredes paralelas de concreto, feitas com porções originais do Muro, e duas paredes de aço. No meio, um espaço inacessível, que o visitante espia por frestas no concreto, ou observa de uma torre localizada no centro de pesquisa e informação sobre o Muro. O espaço cercado evoca não apenas a configuração do Muro (composto por dois muros paralelos entremeados por uma "faixa da morte" patrulhada por guardas armados), como também a sensação de aprisionamento, imobilidade e isolamento comum aos alemães orientais, mesmo vivendo longe do Muro concreto.


Memorial do Muro
(Imagem: Daniela Sandler)



Memorial do Muro,
espaço cercado visto por fresta
(Imagem: Daniela Sandler)

Há outros memoriais. Em vários pedaços centrais de Berlim, o antigo traçado do Muro foi remarcado com paralelepípedos embutidos no asfalto ou depressões rasas na calçada, e placas metálicas também embutidas no chão identificando o Muro e sua duração. Em Potsdamer Platz, um dos espaços mais centrais e movimentados da cidade, uma fatia de Muro original e grafitado foi encaixada no traçado, diante de um painel com textos e fotos. Não muito longe dali, entre o famoso Portão de Brandenburgo e o parlamento alemão (Reichstag), uma fileira de cruzes brancas nomeia vítimas que morreram tentando cruzar a barreira que passava por ali. Além disso, há inúmeros passeios guiados por historiadores que traçam o caminho do Muro (parte dele) e contam sua história em detalhes.


Linha de paralelepípedos
marca antigo traçado do Muro
(Imagem: Daniela Sandler)



Pedaço de Muro colocado
no meio de Potsdamer Platz em 2004
(Imagem: Daniela Sandler)

Também não é verdade que o Muro desapareceu por inteiro. Sobraram resquícios em recantos periféricos de Berlim - terrenos baldios, vazios urbanos entre vias expressas e trilhos de trem, canteiros de obras. Um pedaço considerável foi transformado na "Galeria do Lado Leste", em que a superfície original foi coberta por grafites de artistas convidados depois da reunificação. É preciso notar que a imagem do Muro grafitado e colorido se refere a uma parte pequena da estrutura. Como dito antes, o Muro era composto de dois muros paralelos. Apenas a face adjacente a Berlim ocidental podia ser grafitada. O resto era permanentemente vigiado, e, dentro de Berlim oriental, as zonas próximas ao Muro - ruas e apartamentos - eram estritamente controladas. Mas a fama do Muro se fez com sua face colorida, divulgada em jornais, televisão, livros, filmes - às vezes de forma memorável, como em Asas do Desejo, de Wim Wenders. Esse pedaço pequeno tem notável centralidade simbólica, mas não deve ser tomado pela totalidade do objeto histórico. Muita gente visita a "Galeria do Lado Leste" e acredita estar diante de grafites originais, protestos históricos realizados num contexto de polarização política e luta por liberdade. Os grafites presentes não são protesto nem luta - são comemoração. A superfície na qual foram pintados era nua e cinza durante toda a era comunista.

Ainda é pouco?

Mas, para muitas pessoas, esses sinais renitentes - sejam as sobras de Muro, sejam os memoriais espalhados - não são suficientes. As sobras são quase inacessíveis e ignoradas; os memoriais são pequenos demais. O memorial do Muro citado acima, apesar de bordear o bairro central do Mitte, fica numa área ainda externa ao circuito turístico usual, removida do agito de novos restaurantes e bares, e próxima a uma enorme obra viária que interrompe o tecido urbano e parece um pouco um fim-de-mundo, deserta e inóspita. A maioria dos turistas conhece e visita apenas o museu do Checkpoint Charlie, que, além de central, é divulgado intensamente, ao contrário do memorial do Muro. A Galeria do Lado Leste, relativamente conhecida, não se dedica a representar em primeiro plano a história de repressão e morte, que fica latente; o foco é na arte presente. A direção do Museu de Checkpoint Charlie não está sozinha ao demandar um monumento central, proeminente e significativo para o Muro de Berlim.

A necessidade de um tal marco tem ressonância política, histórica e cultural. O Muro sumiu de Berlim com extraordinária rapidez. É fácil entender por quê: o Muro era a barreira odiada por 28 anos, que cortou a cidade, separou famílias, matou mais de mil pessoas, e encarnou concretamente a imagem da Cortina de Ferro. Natural que, depois da luta por liberdade, alemães de ambos os lados tenham se entregado a martelar e erodir o símbolo e instrumento de opressão. O Muro sumiu também, obviamente, por motivos urbanísticos. A cidade reunida precisava restabelecer o fluxo de carros, pessoas, cabos elétricos e telefônicos, linhas de metrô e canos de água. Derrubar o Muro também era necessário para reconectar a cidade visual e espacialmente. Por fim, razões econômicas: parte do Muro foi reciclada para reconstruir as rodovias esburacadas da Alemanha Oriental; seções enormes foram vendidas a colecionadores privados ou instituições públicas (pedaços de Muro estão exibidos, por exemplo, em espaços públicos de Washington e outras cidades americanas, ou saguões de empresas como a Bausch&Lomb); e pedacinhos garimpados de tamanhos diferentes ainda são vendidos como souvenirs, sozinhos ou em cartões-postais e chaveiros.

Essas necessidades e contingências (práticas e simbólicas) explicam e, até certo ponto, legitimam o sumiço do Muro. Mas outro fator, tão importante quanto, é mais complicado: o esquecimento histórico e a repressão da memória. Os motivos são muitos: membros do governo comunista, para quem o Muro era lembrança e prova de conivência com o regime autoritário e abusivo ("reprimir" o Muro é o paralelo simbólico da queima de arquivos concreta e vergonhosa que muitos ex-funcionários e informantes do governo fizeram no fuzuê que se seguiu à queda do regime); parentes de vítimas, fugitivos, oponentes do regime e gente que sofreu de todo jeito com a barreira, desejosos não apenas por eliminar uma estrutura vil, mas também por esquecer o próprio sofrimento; alemães ocidentais para quem o Muro era o símbolo de um regime derrotado, um objeto de mau-gosto, o sinal de um erro histórico; e investidores interessados em especulação imobiliária no terreno recém-aberto do Leste.

Recalque coletivo

Esquecimento e repressão são problemáticos porque levam a revisionismo histórico e à negação de culpa e responsabilidade. O esquecimento ofende a memória e a dor presente das vítimas e libera os culpados; a repressão soterra tendências sociais destrutivas que, latentes, retornam mais tarde, ainda que com outra face. O filósofo alemão Theodor Adorno, escrevendo sobre o Holocausto numa época em que a Alemanha tinha dificuldade imensa de admitir e lidar com o passado nazista, criticou a visão comum segundo a qual esquecer é saudável e necessário à progressão do futuro, e lembrar é ficar preso e paralisado no passado. Para Adorno, o esquecimento nunca é completo: apenas varre a sujeira pra baixo do tapete. Em vez de assumir as conseqüências dos próprios atos, indivíduos ou grupos sociais que "esquecem" passam impunes por questionamentos morais, e portanto continuam capazes de cometer atos iguais. Adorno falava de tendências sociais: ainda que o ex-nazista não fosse ele mesmo remontar um campo de concentração, as tendências racistas e beligerantes que ele compartilhava (presentes em valores sociais e culturais, coletivos) sobreviviam, transmitidas implícita ou literalmente em comportamentos e comentários. Essa permanência do mal é também o tema do romance Black Dogs, de Ian McEwan, que, aliás, costura a trama entre os horrores nazistas dos anos 40 e a Queda do Muro em 1989. O texto de Adorno, "The Meaning of Working Through the Past", ganha sentido renovado em relação ao Muro.

O Muro, afinal, era um corte na cidade, um corpo estranho que feriu a trama física e social de Berlim, estancou suas duas partes em regimes rivais. A cicatriz do Muro é quase invisível, sob a onda de gentrificação que lentamente iguala prédios e lojas, pessoas e coisas, na cultura contemporânea de consumo, turismo e entretenimento. Mas, se a cicatriz sumiu, a ferida ainda não sarou. Os alemães usam o termo "Muro na cabeça" para descrever a diferença muitas vezes profunda entre ocidentais e orientais, cujo comportamento, desejos, valores e ideais são muitas vezes opostos. Uma fatia da população oriental, especialmente mais jovem, se integrou com facilidade. E muitos alemães orientais conseguiram prosperar na economia de mercado. Muitos jovens ocidentais, por sua vez, se mudam para o Leste e embarcam em "Ostalgie". Mas a maior parte da Alemanha Oriental não se integrou de fato. Os benefícios da unificação, como infra-estrutura, foram financiados com recursos do Oeste. Indústrias orientais foram desmanteladas, e as cidades do Leste encolhem com desemprego, depressão econômica, e êxodo. A desigualdade continua. Agora, no entanto, em vez da compaixão por ter de aturar uma ditadura, alemães orientais são acusados de incompetência ou preguiça. Não se fala nas razões mais profundas, estruturais da desigualdade - resultado de meio século de um sistema econômico falido, mas também da disparidade do capitalismo atual.

Onde a realidade grita

O novo Muro do museu de Checkpoint Charlie pode ter seu lado Disneylândia, mas tem o mérito de ter colocado no centro do debate público as questões expostas acima. Inquietou gente o suficiente para possibilitar outras iniciativas. Quanto ao novo Muro em si, não é - na minha visão - o memorial mais adequado. As feridas da divisão alemã estão abertas ainda na periferia da cidade, em locais muitas vezes afastados do muro - bairros se esvaziando, conjuntos habitacionais gigantes cada vez mais desabitados, redutos de desemprego, desolação e neonazismo. Talvez seja lá o lugar de memorializar o Muro de uma forma que não se restrinja só ao lamento do passado, mas que aponte problemas presentes e possibilite algo melhor. Um memorial mais significativo é preciso, mas um memorial a mais no centro de Berlim vai apenas congestionar ainda mais a overdose de História da área, em que se concentram museus, memoriais, placas informativas e comemorativas, sinais e monumentos. Além do sufoco histórico, o centro de Berlim é o espaço por excelência de concentração de recursos, de turismo e comércio, de consumo e marketing da própria cidade - fatores que distraem da desigualdade e agravam a pobreza dos locais periféricos. Um monumento central seria mais um adereço na promoção de Berlim. Já um memorial periférico atrairia recursos e atenção onde há mais necessidade. Que não se perca tempo chorando o Muro demolido enquanto pedaços originais permanecem em contexto autêntico - ainda.


Daniela Sandler
Riverside, 24/11/2004

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
26/11/2004
12h39min
Parabenizo pelas visoes explicitas, concordando. Pois, morando em Berlim, se tem esta divisao economica, no dia-a-dia... Ate mesmo na hora de procurar um bairro para morar, deve-se estar atento 'a marginalizacao a que estamos expostos e 'a posicao politica que se assume, de acordo com a decisao (que, logico, financeiramente nos divide em pos-comunistas e capitalistas eternos).
[Leia outros Comentários de Adriane Queiroz]
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