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Segunda-feira, 25/10/2004
Em defesa da Crítica
Andréa Trompczynski

+ de 13300 Acessos
+ 12 Comentário(s)

"Uma tolice dita por um gênio continua a ser uma tolice"
(Bertrand Russel)

O jornalista gaúcho Juremir Machado da Silva foi convidado a retirar-se do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, porque escreveu um comentário que dizia "estou indeciso entre comprar meias ou um livro do Luís Fernando Veríssimo para presentear um amigo no Natal". Veríssimo zangou-se e pediu para que o Zero escolhesse um dos dois. Adivinhem quem saiu?

Veríssimo é engraçado, inteligente, genial. Mas está padronizado. Alguns autores encontram uma fórmula de sucesso e usam-na exaustivamente, chamam-na estilo. As domingueiras de LFV distribuídas pela Agência O Globo poderiam facilmente ser substituídas por coisa muito melhor, porém escritas por mortais indignos de "améns" e "hosana nas alturas". Então: foi escrito pelo Veríssimo? Ah, é um gênio, sem comentários, nem precisamos criticar, que heresia.

Hoje todo mundo é escritor e o mau-gosto, o "ser engraçadinho" e a pesquisa googleniana são considerados cultura (eu ouvi, com esses ouvidos que a terra há de comer, uma jornalista do SBT dizendo que estudou tal assunto "a tarde inteira no Google"). Engole-se qualquer coisa porque o crítico é chamado de um "escritor (ou jornalista ou autor ou escultor ou pintor) que não deu certo", portanto, "não sabe escrever e muito menos criticar".

Um leitor reclamava na Gazeta do Povo (jornal do Paraná, de 17 de outubro) de dois professores e críticos de arte que tiveram a ousadia de reclamar que faltava um músculo na escultura do Davi de Michelangelo, e terminava a carta com a "primorosa" frase a obra será sempre lembrada, o crítico logo esquecido.

Alguém tinha que falar, o músculo não estava lá e ponto final.

Outra celebridade sem críticos, Carlos Heitor Cony, no último domingo na Folha: Não tenho certeza, mas foi em 1972 ou 1973, quando o barril de petróleo chegou a US$34, Também não tenho certeza, mas no embargo.... Não tem certeza? Pelo menos a jornalista do SBT tinha procurado no Google. Juremir Machado escreve muito, muito melhor. Mas tem certezas, o que não está muito na moda.

Hemingway, o homem
Por quem os sinos dobram é mediano comparado a O sol também se levanta e Adeus às armas, mas é o melhor da literatura-reportagem de Ernest Hemingway. Ele cobria e -pasmem- lutava voluntariamente nas trincheiras da Guerra Civil Espanhola em 1938, a carnificina.

Robert Jordam é um inglês perito em bombas que deve explodir a ponte que possibilitava o acesso dos nacionalistas à cidade. Apaixona-se por Maria, a mulher bonita e educada que havia sido torturada em Valladolid e salva pelos rudes ciganos. Maria era diferente, culta, delicada, a "fêmea". Jordam balança em suas antigas convicções e passa a questionar a idéia da guerra pela paz, e estes são os melhores momentos do livro, seus pensamentos. Hemingway escreve de maneira "seca" e é explicável as cenas das matanças ficarem para sempre na memória: ele escrevia apenas o que havia vivido.

Era um homem, e como homem, um poço de defeitos. O espantoso é descobrir depois de ler suas obras que o autor tinha uma personalidade odiosa. Seus biógrafos têm aversão à ele. Um invejoso, quando seu melhor amigo Scott Fitzgerald publica o Grande Gatsby, humilha-o solenemente, chamando-o débil, um talento desperdiçado. Beberrão, espojou-se na lama, raspou a cabeça, fez escândalos. E Fitzgerald, masoquista que só ele, perdoava "Papa" Hemingway: Há um complexo de inferioridade que surge quando alguém sente que não faz tudo o que poderia. Ernest bebe exatamente por isso.

Profecias para Fernando Sabino
Em cinquenta anos O Encontro Marcado, O Grande Mentecapto e O Menino no Espelho ainda serão lidos. A dor com a morte do pai que Eduardo Marciano sofre em O Encontro Marcado foi a mais perfeita descrição da angústia (verdadeira angústia) que já li em toda minha vida. Seu livro Zélia, uma paixão, dito infeliz e oportunista pelos críticos será esquecido e seus clássicos lembrados. Mas que foi infeliz e oportunista, ah, isso foi.

Crussificados, O Show do Gongo
Crussificados iria fazer dois anos e foi uma das idéias mais engraçadas da internet. Sua missão era julgar, criticar e rotular blogs, e eram muito bons nisso. Tanto que os criadores perceberam que deveriam sair antes de tornarem-se repetitivos e entediantes. Venderam o blog, mudaram de assunto, mas ainda escrevem seu humor "escracho" e sem segundas intenções, em outro endereço: Cada Um Com Seus Problemas.

Justus, o aprendiz de Trump
Roberto Justus apresentará em novembro, na Record, a versão brasileira de O Aprendiz, de Donald Trump. O ganhador desse reality show, terá um emprego de pelo menos um ano com Justus, ano em que receberá R$250.000. Os princípios esperados que o candidato tenha são os mesmos de O Benfeitor: não ter princípios.

Espero que Justus não tenha que usar o mesmo penteado de Trump.

Para ir além






Andréa Trompczynski
São Mateus do Sul, 25/10/2004


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01. As novas estantes virtuais de Luis Eduardo Matta


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
25/10/2004
10h54min
é decepcionante ler uma noticia assim sobre LFV, nao acompanhava integralmente suas publicaçoes, mas conheço alguns textos. Assumir uma postura desta diante de uma crítica, para um escritor, é triste. Então, acima do bem e do mal, a aquisiçao de uma obra dele é inquestionável? Até um político sabe lidar com campanhas que desaconselhem (utilizando o melhor dos termos) o voto nele! é supreendente essa atitude do LFV (nao espero dele a perfeiçao, pois é humano e ponto, mas ele já possui toda uma trejetoria e parecia estar longe de ser ignorante em um aspecto como esse), um escritor, aquele que trabalha no incrível mundo das idéias e da palavra...
[Leia outros Comentários de beatriz]
25/10/2004
12h09min
Na verdade, o motivo da saída de Juremir Machado da Silva da Zero Hora foi um ataque a Érico Veríssimo, o pai de Luis Fernando. Juremir já vinha criticando FLV há algum tempo, sem receber resposta. Então, ele desencavou um manifesto favorável à invasão da Abissínia pelas tropas de Mussolini, que Erico Verissimo teria assinado nos anos 30. LFV considerou isto um ataque baixo à memória do seu pai e exigiu uma retratação de Juremir, ou se demitiria da ZH. Como Juremir não aceitou se retratar, a corda, obviamente, arrebentou do lado mais fraco. Ou seja, ninguém é totalmente santo nesta história.
[Leia outros Comentários de Flávio]
25/10/2004
18h35min
Caro Flávio: também na verdade, em entrevista à Rede Paraná Educativa, há cerca de dez dias, Juremir contou a história como eu contei acima. Sobre essa acusação à Érico, acredito que um jornalista como ele, que checa fontes, entrevista incansavelmente e investiga muitas vezes um fato (como você pode ver no livro dele "Getúlio", o romance) não seria capaz de inventar algo assim apenas para conseguir uma polêmica. No mínimo, algum fato suspeito sobre isto deve existir. Acho ainda que é um caso de pura vaidade ferida. Em tempo: nunca conheci em minha vida este senhor, mas claro que o admiro muito.
[Leia outros Comentários de andrea trompczynski]
26/10/2004
00h52min
Andrea, moro em Porto Alegre e acompanhei através da imprensa daqui a briga entre LFV e Juremir. Não questionei a veracidade do manifesto assinado por Erico Verissimo, só quis dizer que Juremir havia dado outras estocadas em LFV, mas este só reagiu quando seu pai foi atingido. Juremir Machado da Silva é conhecido no RS por suas tentativas de criar polêmicas gratuitas, imitando seus ídolos Paulo Francis e Diogo Mainardi. Muitas vezes ele força a mão, mas nem por isso deixo de apreciar seus textos. Assim como também admiro Francis e Mainardi...
[Leia outros Comentários de Flávio]
26/10/2004
13h44min
bom...nada como uma boa polêmica!
[Leia outros Comentários de andrea trompczynski]
29/10/2004
09h59min
Apenas como comentário: os textos de Juremir são muito inferiores aos de Luís Fernando Veríssimo, Paulo Francis e até mesmo aos de Diogo Mainardi.
[Leia outros Comentários de Juca Azevedo]
29/10/2004
10h03min
Lí uma crônica de Antonio Callado em que ele citava o fato do Padre Anchieta perder a indicação para canonização, em virtude de um certo pescoço. Eu explico: havia um prisioneiro sob tortura em estado lastimável; com pena do moribundo, o Padre recomendou que seria melhor dar a morte que impor tamanho castigo ao tal prisioneiro. Decapitaram o coitado... como alguém como Juremir levantou o véu e lembrou da história: o Anchieta de hoje dançou, não pode ser Santo. O LFV deveria saber que ninguém é santo... e isso não diminuiu a grandeza do trabalho de Anchieta, nem sua importancia no ministério da fé etc. O Tempo e o Vento mostrarão que o Érico Veríssimo escritor está acima destas polêmicas. Mas o homem Érico Veríssimo: quem se importa com quantos "pescoços" ele já se deparou na vida?
[Leia outros Comentários de Edmilson Paes]
29/10/2004
10h51min
Eu continuo adorando saber a vida privada de escritores. É feio? Não sei, mas é bom ler suas opiniões, erros, fracassos pessoais ou vidas canonizadas pelo público. E assinaturas em prol de Mussolini, então, wow!, que escândalo! Não acredito mais em "estrelas" intocáveis. É bom questionar. Acho sim que as crônicas surrealistas do Veríssimo às vezes são muito ruins, mas leio, fazer o quê, cinco minutos da minha vida não é tanto tempo assim. Cony também erra um domingo sim, dois não. E Diogo Mainardi tem sua legião de súditos repetindo as mesmíssimas palavras, nem sei se leio Mainardi ou os seus adorardores... Tá, escreve muito bem, mas não tem mais ninguém? Quem sabe seja uma boa idéia ler "O Tempo e o Vento" de novo, talvez tenha idéias mais novas do que na multidão seguidora de Mainardi, Francis e tantos outros papagaios de pirata que só repetem o que eles falam.
[Leia outros Comentários de andrea trompczynski]
30/10/2004
18h58min
Achei ótimo o seu texto. Na minha área de atuação, também achava que os melhores pesquisadores fossem modelos de pessoas... Me surpreendi muito quando conheci e comecei a trabalhar com alguns deles. Na verdade eu aprendi que sucesso, qualidade intelectual, capacidade de reflexão não tornam uma pessoa necessariamente agradável ou mesmo honesta. Uma coisa é independente da outra. Eu aprendi a ler os livros sem me preocupar com quem escreve, como admirar os teoremas de Gauss sem ligar para a personalidade odiosa do homem. Com o tempo, a importância das coisas diminuiu... O que é ser eterno? Fama? Deixar uma marca? Acho que é mais simples. Fazer o que se gosta, com prazer. Isto fica com você, e não é só depois da lápide que irá sentir o gostinho... Se você tem o temperamento para viver em sociedade, ouvir um obrigado ou sentir a gratidão das pessoas por você, é tão prazeiroso quanto escrever uma tese... E com o tempo você percebe que todas as pessoas, tenham elas este ou aquele caráter, dividem com você suas dores, dúvidas, alegrias e tristezas.
[Leia outros Comentários de Ram]
3/11/2004
15h56min
Quê isso, gente!? É claro que não é possível pensar num livro sem pensar em quem o escreveu. Não só por coisas óbvias, como a época e o contexo no qual foi escrito (que tem muito a dizer sim), mas o caráter do sujeito também. Veja bem um exemplo, o Sarney é da Academia Brasileira de Letras, mas nunca ouvi falar de alguém que leu livro dele. A questão é: por quê? Gente, o que um cara desses tem a dizer, por mais que seja coisa boa, realmente não importa.
[Leia outros Comentários de Víktor Waewell]
3/11/2004
22h12min
O Elio Gaspari costuma elogiar os romances do Sir Ney, mas creio que ele não pode ser considerado um leitor isento, já que é amigo do nosso ilustríssimo ex-mandatário. Certa vez, li uma crítica na Veja (acho que era do Diogo Mainardi) comparando o estilo literário de Sarney com o de outro acadêmico oriundo do Maranhão: Jousé Montello. Conclusão do crítico: ambos são muito ruins...
[Leia outros Comentários de Flávio]
7/11/2004
09h02min
Andréa, por conta das eleições aqui e nos EE.UU., somente hoje li seu artigo. Gostei, gostei muito! Lembrou-me uma tese desenvolvida por um excelente jornalista brasiliense que trata da arrogância. E para mim, entre tantas, a arrogância intelectual e a arrogância da humildade venceram as outras.
[Leia outros Comentários de Fernando Lyra]
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