Festa ou casamento? | Daniela Sandler | Digestivo Cultural

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Quarta-feira, 16/3/2005
Festa ou casamento?
Daniela Sandler

+ de 14100 Acessos

Já faz algum tempo que se diz, em colunas de comportamento, pesquisas demográficas e demais "barômetros" sociais, que os jovens de hoje são conservadores. Que, depois dos anos de amor livre, pílula e feminismo, depois do questionamento de valores tradicionais e estruturas patriarcais, hoje os jovens querem tradição. Véu, grinalda, igreja, arroz, papel passado, chá de cozinha, lua-de-mel, curso de noivos. Eu, sempre desconfiada dos arautos de tendências sociais e suas profecias tão bombásticas quanto generalizadas, no começo achei a idéia coisa de jornalista querendo notícia fácil. Afinal, meus próprios círculos sociais, nos Estados Unidos como no Brasil, me davam uma amostra muito mais variada, e menos careta: muitos casais juntados, com filhos e sem papel; outros que festejaram com irreverência, ao ar livre, com ou sem padre, só com juiz de paz ou com amigo oficiando; e uns outros tantos, sim, casados na igreja, que afinal eu disse que a amostra tinha variação. Mas onde estariam as legiões de carolas com pais hippies se torcendo de desgosto diante do "retrocesso"?



Tardiamente, agora tenho de admitir: estão ao meu redor, por toda a parte - pelo menos aqui nos Estados Unidos. Há não somente uma cultura, como um verdadeiro culto do casamento com pompa e circunstância. Há revistas e mais revistas dedicadas a noivas e casamentos - não só revistas femininas, que devotam números ao tópico, como periódicos cujo tema perene e exclusivo é casamento. Canais de televisão exploram o filão de todas as maneiras: um especial sobre os casamentos de famosos, apresentado por uma das notórias recém-casadas (a atriz Tori Spelling, do finado seriado Barrados no Baile); programas que "ajudam" pessoas comuns a organizar seus casamentos, documentando a preparação e a festa; outros shows mais especializados, que seguem a noiva na busca do vestido ideal ou patrocinam pedidos de casamento estrambólicos. Até mesmo a Food Network, canal cujo tema exclusivo é comida, preparou um programa em que um casal felizardo, vencedor de uma promoção, terá todo o catering da festa concebido e realizado por chefs famosos, tudo pago pela rede de televisão. E, claro, o hit Newlyweds (Recém-casados), da MTV, já em seu terceiro ano, seriado de reality TV que segue o cotidiano do casal de cantores Jessica Simpson e Nick Lachey.

Além disso, há os filmes. Casamento, obviamente, é um dos temas mais comuns de filmes e novelas, seja como culminação do enredo, seja como fonte de drama ou comédia. Mas falo aqui da enxurrada de filmes dos últimos anos em que o casório assume papel principal: de O Casamento do Meu Melhor Amigo (My Best Friend's Wedding, 1997, com Julia Roberts), a O Casamento dos Meus Sonhos (The Wedding Planner, 2001, com Jennifer Lopez), e, mais novo na safra, The Wedding Date (2005, com Debra Messing). Isso para não mencionar aqueles filmes em que o casamento é o mote, como Quero Ficar com Polly (Along Came Polly, 2003, com Jennifer Aniston) ou Entrando Numa Fria (Meet the Parents, 2000, com Ben Stiller).



"Complexo industrial do casamento"

Uso a mídia, aqui, não como inocente ilustração, pois a relação entre mídia e cultura, ou entre cultura de massa e sociedade, é muito mais complexa. Os meios de comunicação ao mesmo tempo refletem a tendência social, e contribuem para promovê-la. De fato, a overdose de filmes, produtos e textos configura uma promoção massiva não tanto da instituição do casamento quanto do seu comércio. A autora Anne Kingston, em seu novo livro The Meaning of Wife (O Sentido da Esposa), fala de um "complexo industrial do casamento." Esse complexo inclui vestidos (chegam a custar milhares de dólares), anéis de noivado (que parecem ser mais apreciados pelo tamanho do brilhante que pelo design da jóia), flores para a decoração da festa (quem diria que flor se tornaria artigo de luxo?), e a nova figura do wedding planner - "planejador de casamento". Mais um item para adicionar no orçamento da festa, o wedding planner está cada vez mais se tornando, ou sendo promovido como, imprescindível. O filme de Jennifer Lopez certamente ajudou a divulgar a profissão, assim como o programa For Better or For Worse (algo como Na Alegria como na Tristeza), em que planejadores de casamento salvam o dia e fazem milagres ao organizar festas com tempo e orçamento limitado. Com as expectativas atuais em relação à celebração, que incluem um monte de elementos e detalhes que devem ser "perfeitos", não é de admirar que muita gente precise mesmo contratar um profissional. A questão, portanto, são essas expectativas: será que já não ultrapassaram o limite do razoável?

É necessário compreender o impacto de construções culturais veiculadas pela mídia, e seu poder de suscitar ou encorajar determinados comportamentos. É fácil perceber esse efeito, por exemplo, se pensarmos num comercial de refrigerante: aquele copo suado, cheio de bolhinhas efervescentes, o som satisfeito e aliviado da mocinha ao tomar uns goles, o sol brilhando no fundo... e, num instante, estamos também com sede! Ou com fome, ou com vontade de meter os dentes num chicken-mc-nugget, ou de comprar o carro prateado que acelera 1% mais rápido que o modelo antigo, ou um vestido de casamento da marca Vera Wang...

O consumidor ativo

Por outro lado, seria ingênuo e simplista reduzir o "complexo industrial do casamento" a uma trama unilateral concebida por magnatas do ramo e canais de televisão, implantada tão facilmente nos corações e mentes. É preciso não apenas dar mais crédito às "massas" - que não são, afinal, um bando de robôs - como também reconhecer que, se a mensagem funciona, é porque se encaixa de alguma forma a desejos, expectativas ou valores de seu público. As revistas publicam matérias que garantam sua venda; os filmes e programas escolhem temas que sejam atraentes à sua audiência. O consumidor não é um receptor passivo de qualquer porcaria que lhe enfiem pela goela. Pelo contrário, o consumidor tem papel ativo na definição de tendências, e a má recepção de um filme ou produto tem repercussões concretas: a distribuição do filme é cancelada, o produto é retirado do mercado, e tanto filmes quanto produtos futuros levam essas experiências em conta. Obviamente, o "papel ativo" do consumidor não é individual, nem mesmo premeditado; eu sozinha não vou decidir que um produto é ruim e conseguir que seja transformado. Esse papel é coletivo, social, e em certo sentido espontâneo (diferentemente, por exemplo, de uma manifestação política planejada).

Se o "complexo industrial do casamento" funciona, é também, em decisiva medida, porque responde a anseios e valores presentes na sociedade. Afinal, os inúmeros programas de reality TV que mostram festas de casamento (A Wedding Story, For Better or For Worse), a busca do vestido ideal (Shopping for the Perfect Wedding Dress), o pedido de casamento perfeito (Perfect Proposal), até mesmo a experiência das madrinhas (Always the Bridesmaid), documentam dezenas de casais "de verdade", escolhidos entre centenas de candidatos. São gente "normal", como a gente; não estrelas (ou aspirantes). Por mais que haja em reality TV muito de ficção e encenação, é inegável que essas pessoas diante das câmeras não apenas existem, como têm o desejo real e cândido de um casamento sensacional.

O enxame de casamentos de famosos, também mostrado à exaustão, não pode ser considerado à parte da sociedade, como se Hollywood fosse um mundo paralelo. Essa gente toda casando - Britney Spears, Jennifer Lopez, Kevin Costner, Donald Trump, entre muitos outros recém-casados - partilha desejos, gostos e objetivos com seu público e seus fãs. A diferença, claro, é que é bem mais fácil, em termos logísticos e financeiros, para uma estrela famosa organizar uma festa fabulosa do que para um casal que vive de salário médio e não recebe serviços ou produtos de cortesia. Mas a vontade básica é a mesma: um casamento "perfeito", nos trinques, com tudo a que se tem direito, da grinalda às lembrancinhas. O tamanho da festa pode variar (e agora, depois da onda de festas de arromba, a moda é a comemoração íntima, como a de Spears), assim como a locação; e o design dos vestidos e da decoração pode até ser, na maioria dos casos, arrojado, clean e moderno. Mas as linhas simples dos novos vestidos, sem mangas bufantes ou saias de princesa, não disfarçam a tremenda nostalgia e convencionalismo dessa sede de cerimônia.

Febre do altar, sintoma do quê?

É tentador atribuir a febre do altar ao conservadorismo político e social que se manifesta de tantas outras maneiras. E talvez esse conservadorismo seja mesmo, em parte, responsável. Mas talvez haja também uma boa dose de ansiedade coletiva, de tentar resolver por meio do "retrocesso" as dificuldades surgidas justamente com a revolução cultural do pós-guerra. Aqui me refiro à sensação de desmantelamento e dissolução do núcleo familiar que se seguiu à liberação sexual, ao aumento e maior aceitação dos divórcios, e ao crescimento e integração de famílias não-tradicionais (casais gays, mães solteiras).

Essa geração de casais separados, de mães e esposas independentes e trabalhando fora, rompeu com a família estruturada e hierárquica dos anos 50 - em que a esposa perfeita cuidava da casa e dos filhos, o marido regia a vida e ganhava o pão, e problemas como falta de comunicação e infidelidade eram varridos sob o tapete das convenções sociais. A maior honestidade de relacionamentos pareceu permitir também maiores chances de alcançar felicidade e satisfação. No entanto, essa liberação criou ao mesmo tempo novos problemas, conflitos antes inexistentes, que parecem ter traído os propósitos originais. Afinal, "paz e amor" não vêm exatamente à cabeça quando se lê que, por exemplo, para cada dois casamentos nos Estados Unidos nos anos 90, houve um divórcio (não significa que um dos dois casamentos acabou em divórcio, mas que, a cada dois casais se unindo, um outro casal se separou).

Ansiedade geral, frustrações específicas

Podemos pensar em outros fatores contribuindo para a ansiedade geral: incerteza econômica numa época de recessão; instabilidade política por conta do terrorismo contemporâneo; até mesmo angústias biológicas, como a Aids e outras moléstias emergentes, ou desequilíbrios ecológicos. Tudo isso talvez pese como pano-de-fundo, mas é preciso também lembrar que nunca houve um período em que o mundo inteiro tenha estado imerso em paz, prosperidade, estabilidade e bem-estar generalizados. Antes do terrorismo havia a paranóia atômica, e antes dela havia guerras, servidão, opressão religiosa e perseguição; havia fome, miséria, pestes, gripe espanhola, terremoto (e até 1928, não havia nem penicilina!).

Assim, o imenso desejo pela formalidade tradicional do casamento talvez resida em frustrações especificamente matrimoniais. Em parte, resultado de uma geração que cresceu em meio a pais separados e famílias "rompidas". Em parte, a insistência em tentar fazer a instituição funcionar, porque desta vez, com o vestido perfeito, o arranjo de flor perfeito, o discurso perfeito, desta vez vai dar certo. Nesse sentido, a mania por casamento é indissociável de uma outra obsessão contemporânea: a fixação mórbida em seu reverso, os casamentos fracassados. Essa obsessão se vê, por exemplo, nos comentários sobre a recente separação de casais considerados ideais, como Brad Pitt e Jennifer Aniston, ou Charlie Sheen e Denise Richardson. Nas palavras da comediante Tina Fey, "se um casal tão atraente quanto Brad e Jen não quer mais ficar um com o outro, que esperança há para o resto de nós?"

Essa espécie de identificação enviesada está na base do sucesso de Desperate Housewives (Donas-de-casa Desesperadas), o mais recente hit televisivo norte-americano, que revela o lado sinistro, decididamente macabro dos casamentos perfeitos da classe média-alta do país. A nação se deleita com as desventuras, falsidades e tragédias que se abrigam sob a fachada de casas confortáveis, gramados aparados e filhos bem criados. E essa mesma nação depois muda de canal para assistir às festas de casamento perfeitas.

Festa ou casamento

Essas duas fascinações alimentam-se mutuamente. No entanto, há um deslize óbvio. A fé na união ideal, representada pelo culto do casamento perfeito ou pelo "complexo industrial do casamento," só funciona porque casamento está sendo reduzido a uma coisa só: à festa. Em inglês, a distinção é mais fácil: a palavra wedding se refere à cerimônia e à celebração; a palavra marriage vai além, tem o sentido da união no tempo, da parceria de um casal. Um episódio do seriado Friends explorou a diferença de modo surpreendemente leve e sensível: Monica estava tentando convencer Chandler a gastar toda a sua poupança numa festa exuberante de casamento. Ela descreveu o vestido, a música, o local, a comida. Chandler, então, disse que estava guardando o dinheiro para outras coisas: para a casa própria com espaço para os filhos, as reservas para sua educação, o cachorro... Monica percebe e responde que não faz mais questão da festa: "I want a marriage, not a wedding" ("Quero um casamento, não uma festa"). Já que eu comecei a coluna falando da influência negativa da mídia, nada mais justo do que terminar com esse momento de sensatez televisiva.


Daniela Sandler
Riverside, 16/3/2005


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