E depois, perder-se também é caminho | Daniela Sandler | Digestivo Cultural

busca | avançada
36970 visitas/dia
1,4 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
COLUNAS

Quarta-feira, 8/6/2005
E depois, perder-se também é caminho
Daniela Sandler

+ de 12000 Acessos
+ 8 Comentário(s)

Há pessoas que seguem uma trajetória linear. Escolhem um caminho e persistem. Decidem uma carreira, uma atividade, um lugar para morar, um modo de vida, um plano para o futuro, ou uma relação pessoal. E seguem. Fazem progresso, se aperfeiçoam, constróem, conquistam. Claro, há percalços. Há bifurcações no caminho, buracos inesperados, acidentes, mudanças de rumo. Há também golpes de sorte, atalhos. Mas, mais que tudo, há a recompensa da constância. Em inglês diz-se "practice makes perfect" - quer dizer, a prática leva à perfeição. Pense numa ocupação ou hobby: arquiteto, administrador, jogador de xadrez, mecânico de carros, presidente do clube de bocha, padeiro, mergulhador, pára-quedista, marceneiro, banqueiro, bancário. Quanto mais se faz, mais se aprende; a experiência esculpe o talento, aprimora a vocação. Com o tempo acumula-se não só o saber, como também a rede de contatos. E faz-se a própria reputação. Não só com trabalho. É a mesma coisa com morar no mesmo lugar por muito tempo, ou cultivar o mesmo círculo de amigos.

Eu sempre invejei essas pessoas. Aliás, eu sempre achei que essa era a única opção. Subir a montanha, gradualmente, com uns tombos no meio - mas subir de todo modo, e sempre e só a mesma montanha, para um dia chegar ao cume. A vida era essa linha. Então eu sempre achei que o meu problema era ainda não ter encontrado minha montanha. Estive sempre esperando o momento de eu, também, começar a minha escalada. A minha trajetória linear. Era só questão de tempo e de circunstâncias. Ou melhor, o problema não estava no mundo externo: estava em mim. Eu tinha de amadurecer. Tinha de me conhecer melhor, saber o que queria; e também me conformar de que eu só podia querer uma coisa (no máximo, duas ou três). Então, mais que tudo, era questão de eu "me encontrar" para depois poder achar a minha trilha.

O tempo passou e eis que eu me encontro aqui, com 31 anos, sem que o tal grande momento tenha chegado. Se não chegou até agora, não sei não, acho que não chega mais. Que cilada! Senão, veja você: comecei estudando arquitetura, embora sonhasse ser cineasta e tivesse uma queda por medicina. Na universidade, em vez de fazer o estágio natural em escritórios de projeto, fui fazer pesquisa acadêmica. Não que eu não gostasse das matérias de projeto arquitetônico. Mas até nisso eu era diferente. Ao meu redor os outros alunos levavam o semestre num crescendo, começando com um rascunho vago, evoluindo para um projeto mais definido que o orientador ajudava, gradualmente, a aperfeiçoar. No fim do semestre, tinham plantas e perspectivas detalhadas para edifícios elaborados. Mas eu não conseguia. Tinha uns repentes em que esboçava tudo de uma vez, imaginando de cara até onde iria a mesinha lateral na sala do almoxarifado. Mostrava ao orientador. E aí, no encontro seguinte, eu mudava tudo. Tinha outra idéia. Tinha sempre outras idéias. Tinha autocrítica demais. Ou tinha, talvez, simplesmente esgotado a primeira idéia. Talvez a primeira idéia fosse o exercício necessário para que a segunda idéia - completamente diversa - brotasse. O orientador se encafifava. "Mas o seu projeto estava bom, por que mudar tudo?" Mas e este, não é bom também? E em geral era, sim. Então, por que não mudar?

Essa poderia ser a minha coda, me seguindo por todo lado a cada mudança de rumo: por que não mudar? Virei arquiteta, trabalhei para urbanista, virei jornalista, voltei à universidade. Vim fazer doutorado. Morei na gélida Rochester, no nordeste norte-americano; vivi em Berlim por quase um ano; estou na Califórnia ensolarada; de malas prontas para a Pensilvânia. A maioria dos meus amigos casou, alguns já tiveram filhos, alguns já se divorciaram. Eu tive muitos namorados. Fiz balé por sete anos: mais um e eu teria virado bailarina clássica. Mas parei porque quis ser atriz. Na época, odiava nadar. Uns anos depois, estava nadando quatro vezes por semana e treinando para participar de competição de Masters. Por motivos externos, tive de parar. Como vocês vêem, nem sempre a mudança é voluntária. Meu emprego atual é numa editora de livros de arte. O emprego que vou começar em três meses é como professora universitária. Se você leu minha coluna anterior, sabe que comecei três blogs diferentes e não continuei nenhum. Até minhas colunas do Digestivo serpenteiam: no princípio eu escrevia sobre cinema, também sobre comida; depois veio uma fase política; então veio o tempo das cidades, São Paulo, Berlim, Riverside, Los Angeles; ultimamente eu tenho sido pessoal.

Enquanto esperamos

Como ia dizendo, aqui me encontro, com 31 anos, e nada mudou. Não sou uma pessoa linear. A cada novo lugar tenho de novo o trabalho de construir do zero as relações pessoais. Não tenho anos de carreira. Minha agenda de negócios não tem dúzias ou centenas de telefones e e-mails de contatos profissionais. Aliás, não tenho agenda de negócios nem cartão de visita. Conheço gente que também mudou de rumo. Mudar de rumo não é novidade. Mas bifurcações, como eu disse no primeiro parágrafo, também fazem parte do caminho linear. Pode-se mudar de profissão e, na segunda profissão, ainda que totalmente outra, novamente seguir a linha ascendente. Eu não me sinto assim. Eu me sinto ao mesmo tempo sempre começando e terminando. Sempre me despedindo de algo que parece ter durado pouco demais, e principiando outra coisa em que tudo é novidade. Como se sempre, sempre, eu estivesse simultaneamente no início e no fim de ciclos. Com a exceção, claro, dos momentos em que estou no meio dos ciclos. Mas são ciclos, mesmo assim.

Foi aí que me deu um estalo. Aqui me encontro, nesta cilada. Aqui me encontro. Aqui "me encontro". Não era mesmo aquela coisa meio paulo-coelha de que eu tinha de "me encontrar"? Pois eu me encontrei! Não no sentido de uma revelação transcendental de um eu escondido, não no sentido de finalmente descobrir qual é o meu desejo profundo, a minha vocação recalcada, chame lá como quiser, a minha missão, a minha montanha, a minha verdadeira profissão. Não. O que eu encontrei estava lá o tempo todo, claro, na superfície, só que eu não sabia olhar porque afinal eu não gostava do que via, queria que fosse diferente. O que encontro, em mim, é isso: eu não sou uma pessoa linear. Eu sou uma pessoa de ciclos. E aposto que não estou sozinha.

O que há, afinal, de errado em ser uma pessoa cíclica? Não fui nem eu quem inventou essa história de ciclo. Para começo de conversa, está na natureza. As rotações da Terra. As estações do ano. As fases da lua. As fases da vida. Um ciclo se fecha, o outro começa. Sem morte não há renovação. Mora na filosofia. Friedrich Nietzsche escreveu sobre o "eterno retorno": a existência não seria uma progressão linear e ascendente. Seria uma sucessão cíclica, o eterno retorno - do mesmo. (Pense na rotação terrestre, nas estações.) Mas esse "mesmo", ainda que retorne ao ponto de origem, não é nunca exatamente mais o mesmo; nem a origem permanece. O pensamento nômade de Nietzsche não se fixa em ponto algum. Durante o ciclo, algo se transforma. Pense de novo nas estações. Sempre volta o verão. O mundo é ao mesmo tempo o mesmo, mas renovado; e outro, mas similar ao anterior. Ou vice-versa. Pois um ciclo não significa necessariamente dar voltas no mesmo lugar como uma roda-gigante, ou, pior, girar em falso como pneu atolado. O ciclo é uma espiral. Dá voltas e volta, assim, à origem, mas nunca no mesmo lugar. Para Nietzsche, a existência não é definida em termos de um "ser" estático, mas em termos de um "vir a ser". Tudo está sempre no processo de vir a ser, de se tornar, em constante movimento.

As estações da cruz

Nietzsche não foi único a falar de ciclos. Ele, aliás, era muito interessado em filosofia e religião orientais, como o budismo. Muitas dessas idéias que Nietzsche introduziu com tanto impacto na filosofia ocidental estão presentes em algumas correntes budistas. O "vir a ser", ou "devir", corresponde à noção da ausência de essências permanentes (um eu ou uma alma imutáveis), já que tudo está em constante mutação. A reencarnação em diferentes ciclos de vida sugere o eterno retorno do mesmo e o movimento em espiral, já que cada encarnação é sempre distinta e o movimento é ascendente (atingindo níveis mais elevados de existência a cada ciclo). Essa visão é oposta à perspectiva judaico-cristã, em que cada um de nós tem apenas uma chance para nossa passagem pelo mundo, depois da qual nossa alma segue o caminho conseqüente à nossa trajetória terrena: céu ou inferno. A visão linear também está na tradição filosófica de Hegel, que é teleológica: ou seja, o homem estaria em progresso constante em direção ao objetivo último - o aprimoramento do espírito. Karl Marx colocou a teleologia em termos sócio-econômicos: a luta de classes inevitavelmente iria desembocar no estágio mais evoluído e final, o comunismo.

Essas duas visões opostas - a teleológica e a cíclica - têm algo em comum. Em ambas, há um processo de aperfeiçoamento. Para Nietzsche, seria o "super-homem", um estágio de existência mais avançado. Afinal, o "vir a ser" não se esgota em movimento gratuito, ou mudança ao acaso. O sentido está sempre em se superar: não se acomodar, estar em constante desafio. Qual a diferença, então, em relação à teleologia hegeliana ou cristã? A diferença é que a teleologia assume uma trajetória linear, ainda que com contradições ou conflitos. Sim, é uma trajetória dialética, com embate entre forças opostas; mas o destino final é sempre o mesmo, e os obstáculos dialéticos são apenas o motor de propulsão para adiante. A trajetória linear assume também uma essência constante que percorre o caminho - aprimorada, mas basicamente a mesma. O espírito é essencialmente bom ou mau; a classe sócio-econômica, idem. Para Nietzsche, o fluxo é constante; o bom pode não só vir a ser mau, como ao mesmo tempo ser um e outro sem que esteja destinado a nenhum dos dois. Não à toa, Nietzsche - que era também conhecedor profundo da teologia cristã - chamou um de seus textos de "Para além do bem e do mal."

Quando partimos

Pois aí está: ser cíclico não é o mesmo que girar em falso. Eu ia recontando minha própria história (muitos de vocês hão de sentir o mesmo, ou conhecer alguém assim). Eu ia dizendo, nos parágrafos acima, de todas as coisas que comecei e terminei abruptamente, precocemente, o que, para muita gente, significa não ter terminado. Mas agora queria contar de todas as coisas que, no processo, retornaram, melhoradas; de como, com tanta mudança e tumulto, no fim, algo de mim permaneceu. Pois aqui estou, onze anos depois de ter iniciado o meu primeiro trabalho de iniciação científica, com um emprego de professora universitária para dar aula sobre os assuntos que mais me interessam. Depois de treze anos do meu ingresso na faculdade de arquitetura e urbanismo, continuo lidando exatamente com isso: prédios e cidades. É isso que pesquiso, é sobre isso que escrevo. Fui parar em Berlim, tão longe de São Paulo, para estudar justamente o tema que me fascina desde que me entendo por gente: história e memória. Desde sempre escrevi. Continuo escrevendo. O meio mudou: composição escolar, diário, esboço literário, trabalho da faculdade, Folha de São Paulo, doutorado, Digestivo Cultural. Mas escrevo. E quem comparar meu primeiro texto do Digestivo com os mais recentes há de concordar que eu melhorei.

Mas esta coluna não é para provar as virtudes de ser cíclica. Aliás, não quero provar as virtudes de nada. Não tenho nada contra as trajetórias lineares ou as teleologias. Nem acho que sejam opostos, esses caminhos retos aos caminhos em espiral: coexistem, se interceptam, e há um pouco de nós todos em cada uma dessas possibilidades. E tantas outras possibilidades que aqui não descrevi. Mas eu vou, sim, é dar mais uma volta com este texto, chegando num outro assunto ainda. Ou talvez seja o mesmo. Eis aqui onde queria chegar.

Este texto é o fim de um ciclo. É o fim de minha segunda passagem pelo Digestivo. Na minha primeira temporada, parei por exaustão criativa, em 2002. Não sabia mais sobre o que escrever, sentia que já havia dito tudo o que queria naquele momento. Estava de partida para uma viagem de dois meses, começando meu projeto de pesquisa sobre Berlim, me enfurnando numa nova língua, num novo país. Nem coluna de despedida eu escrevi. Quando voltei, em 2004, eu me surpreendi com o tanto que tinha de novo para escrever, eu, que tinha me achado exaurida. Continuo tendo um montão pra dizer. Tenho uns temas de coluna engavetados faz tempo que não couberam desta vez. Minha voz anda solta e fácil, as colunas pulsam na minha goela querendo sair. Mas tenho de parar, assim, justo quando tudo vai tão fluente. Tenho seis meses para terminar meu doutorado. Em três meses, começo meu novo emprego, em período integral. Não há tempo de fazer tudo.

Vou sentir falta de vocês, ainda que sejam, na maior parte, tão silenciosos. Vou sentir falta de ser colega dos demais colunistas, ainda que eu possa sempre acompanhá-los como leitora. Vou sentir falta da edição, do apoio, da atenção e do trabalho do Julio, mesmo sabendo que continuamos amigos. Terei saudades de escrever colunas. De esperar comentários. Espero também deixar saudades. Vocês sempre podem ler minhas colunas antigas, claro. Talvez até me encontrem num blog, que criei para o caso de eu ter muita comichão de escrever. Só não prometo constância. Ah, e antes do ponto final: eu dedico esta coluna a umas outras pessoas de ciclos que eu conheço, entre as quais há cinema fotografia literatura jornalismo mestrado revista bumba-meu-boi história avião internet jornadas no mundo e, tantas vezes, aquele sentimento de estar começando tudo de novo. Olha só quanta História vocês já fizeram.

Nota

A frase que dá título a esta coluna é de Clarice Lispector


Daniela Sandler
Riverside, 8/6/2005


Mais Daniela Sandler
Mais Acessadas de Daniela Sandler em 2005
01. Festa ou casamento? - 16/3/2005
02. Uma outra moda - 30/3/2005
03. E depois, perder-se também é caminho - 8/6/2005
04. Eu não sei blogar - 25/5/2005
05. Abrir os portões de Auschwitz sessenta anos depois - 2/2/2005


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
3/6/2005
21h02min
Daniela! Uma pena sua saída. No entanto, nós, os lineares, aguardaremos seu retorno, cheia de idéias e coisas novas pra escrever. Uma honra ter estado na sua companhia, mesmo que em silêncio. E nós duas, mesmo que uma cíclica e uma linear, andamos fazendo as mesmas coisas e estamos nos mesmos lugares. No final, não existe linearidade. O que existe são pessoas com discursos menos fragmentados e certo ar falso de uma certeza que não têm. Eis a máscara dos lineares. Grande abraço e sucesso.
[Leia outros Comentários de Ana Elisa Ribeiro]
4/6/2005
14h19min
Vou sentir tua falta. Dani, justo agora que eu estava em diálogos mentais com você nessa sua fase nietzscheana... ciclo. Temos os arquivos, é claro, mas, o bom é ler você de onde você se encontra naquele momento. Para você, Dani, uns versos do Friedrich, com o sincero desejo de que a influência dele construa um ciclo a ser lembrado: "Sim! Eu sei muito bem de onde venho!/ Insaciável como a chama no lenho/ Eu me inflamo e me consumo./ Tudo que eu toco vira luz,/ Tudo que eu deixo, carvão e fumo./ Chama eu sou, sem dúvida."
[Leia outros Comentários de Andréa Trompczynski]
8/6/2005
03h42min
Volta logo!
[Leia outros Comentários de Fabio Danesi Rossi]
8/6/2005
09h07min
O que posso te dizer é "boa sorte" e até a volta! Sobre os ciclos, me identifiquei até demais... Simone.
[Leia outros Comentários de Simone]
10/6/2005
11h22min
Oi, Daniela, vou sentir muito sua ausencia. Espero que de tudo certo para você no seu maestrado. Lia todos seus textos, o ultimo me emocionou muito. Esperamos o seu retorno ao Digestivo. Sua fã, Maria del Carmen (mãe do Julio)
[Leia outros Comentários de Maria del Carmen]
11/6/2005
10h10min
Raramente parei para ler as colunas do digestivo por falta de tempo. Hoje tenho todo o tempo do mundo, digo, hoje, presente do indicativo, sábado, 11/06/05, porque estou fechando mais um ciclo em minha vida como tantos já vividos. Curiosamente, estou esgotada, sem forças no sentido físico; emocionalmente abalada e espiritualmente/psicologicamente pronta para seguir em frente, como semopre. Foi muito bom ter intuitivamente aberto este e-mail. Pela primeira vez, depois de tantos ciclos, encontrei alguém que endossou o que por muitas vezes chamei de "loucura pessoal". Que boa a sensação de não estar só. Muito grata pela companhia e um bom recomeço para vc. Que o novo ciclo seja bom e divertido, e se não for... MUDE!
[Leia outros Comentários de Liliane Nogueira]
3/9/2005
16h13min
Esse texto, que fala sobre o devir, foi tudo o que eu precisava saber para desenvolver um trabalho de pós... Parabéns pelo belíssimo texto!
[Leia outros Comentários de Elaine Almeida]
13/5/2006
13h47min
Olá, estava procurando sobre espirais e Némirovsky e achei seu texto. Gostei bastante, principalmente porque me identifiquei com o "ser cíclio", a cada momento começar do zero... Sou formada em comunicação, já fui marqueteira, contato de agência publicitária, vendedora, artesã... Fiz outra faculdade e sou formada em educação física, já fui professora de natação e de natação adaptada, agora trabalho em escola pública, porque realmente me cansei de tantos recomeços. A vida sugere uma espiral...
[Leia outros Comentários de jaque]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A MULHER DE TRINTA ANOS
BALZAC
NOVA CULTURA
(1995)
R$ 9,00



VINHOS - UMA FESTA DOS SENTIDOS
ROGERIO DARDEAU
MAUAD
(2002)
R$ 10,51



UMA BREVE HISTÓRIA DO CRISTIANISMO
GEOFFREY BLAINEY
FUNDAMENTO
(2012)
R$ 20,00



ARREBENTAÇÃO
CLAUDIE GALLAY
OBJETIVA
(2010)
R$ 20,00



MACAPACARANA
GISELDA NICOLELIS
ATUAL
R$ 9,36



QUE FIM LEVOU BRODIE ?
ANTONIO F. BORGES
RECORD
(1996)
R$ 20,00



SINAIS DE VIDA NO PLANETA MINAS
FERNANDO GABEIRA
NOVA FRONTEIRA
(1982)
R$ 6,00



O ASSASSINATO E OUTRAS HISTÓRIAS
ANTON PAVLOVICH TCHEKHOV
COSACNAIFY
(2003)
R$ 5,00



A HISTÓRIA DA GALINHA
NINA AMARANTE
GLOBAL
(2009)
R$ 33,00



O ESPIÃO QUE SAIU DO FRIO
JOHN LE CARRÉ
ABRIL CULTURAL
(1980)
R$ 6,28





busca | avançada
36970 visitas/dia
1,4 milhão/mês