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Segunda-feira, 18/7/2005
A arte do cinema imita o caos. Ou vice-versa
Marcelo Miranda

+ de 5700 Acessos
+ 1 Comentário(s)

1.
O país fervilha enquanto escrevo. Roberto Jefferson. Marcos Valério. José Dirceu. Delúbio Soares. Schincariol. Daslu. Fernanda Karina. CPI. CPMI. "Pela ordem, senhor deputado!". "Sra. juíza deputada Denise Frossard!". Palavras e expressões que, gastando o mais batido dos clichês, estão na boca do povo, circulam em todos os cantos, para todo lado, indo a qualquer lugar. Difícil não ter lido/ ouvido/ escutado quaisquer das opções acima no último mês. Nessas horas, a arte torna-se definitivamente o único refúgio seguro do cidadão de bem, o caminho mais certeiro de se conseguir algum prazer em viver, alguma dignidade. Mas até nisso existe a mentira, a falsidade, a manipulação, o jogo. Quem olha o noticiário com atenção vai poder identificar vários exemplos dentro do cinema que se encaixam nas características daqueles que estão sob os holofotes. É a vida imitando a arte. Ou o contrário.

Senão, vejamos. A mentira já foi protagonista de diversos grandes filmes na história. Personagens mentirosos nunca faltaram na tela, fossem contumazes, tentando prejudicar o próximo, ou, como diz Veríssimo, apenas falavam uma mentirinha para tudo terminar bem. Vamos evitar comentar Pinóquio, o maior de todos os mentirosos já abordados na tela, porque aí é dizer o óbvio. Fiquemos com criações mais fascinantes, menos explícitas, mais complexas. Toda vez que penso em mentira no cinema, penso em Verbal Kint. Penso em Os Suspeitos. Filme americano pequeno, lançado em 1995, de míseros US$ 6 mil de orçamento, dirigido por um ainda desconhecido Bryan Singer (se não ligou o nome ao produto, ele ficaria mundialmente famoso depois de comandar os dois X-Men. Atualmente, cuida da nova versão de Superman).

Onde está a mentira em Os Suspeitos? Está em Verbal Kint, personagem interpretado por Kevin Spacey, outro pouco badalado na época. Ele é o único lúcido de dois sobreviventes de uma emboscada que matou grande número de criminosos num cais. Aleijado (tem um dos pés virado para dentro), frágil, com cara de sofrido, é levado à delegacia para prestar depoimento. Começa a destrinchar a complexa e surpreendente trama na qual esteve envolvido e que culminaria no tal massacre. Só que Verbal mente. Mente muito bem. Toda a narrativa do filme é apoiada em sua fala, cada cena apresentada em flashback surge de acordo com as palavras dele. A certa altura, tudo soa tão crível e natural que nos esquecemos de estar ouvindo um lado "culpado" na história - Akira Kurosawa, em Rashomon (1950), lidou com linguagem semelhante, influenciando tudo o que veio depois, e Os Suspeitos talvez seja seu herdeiro mais brilhante.

Quando o filme acaba, nos é jogado na cara o nível de mentira que Verbal destilou. Interessante é que, no fundo, o delegado parece jamais ter acreditado nele. Só que essa descrença se origina exatamente do discurso falso de Verbal. Ora, o que se vê, hoje, no circo montado em Brasília (com picadeiros chegando até Belo Horizonte), é algo assustadoramente parecido: um homem (Jefferson) é envolvido num esquema ousado de corrupção. Afugentado, "denuncia" algo que ele diz não ser segredo para ninguém (mas até então era para o resto do país). Revela o que lhe convém, esconde o que lhe convém ainda mais e vai assistindo, de camarote e posando de herói, a derrocada de cada um dos seus algozes, até sobrar apenas ele de pé. É essa a trajetória de Verbal Kint em Os Suspeitos. Quando o filme acaba e temos a chocante revelação de sua verdadeira identidade, e ainda o assistimos indo embora tranqüilamente, só nos resta lamentar que o delegado (e nós mesmos) caiu em toda aquela patacoada. Vimos os responsáveis pela tramóia derrotados (ou não, se o espectador entender bem o desfecho), mas tivemos que engolir o grande peixão sair incólume.

Indo mais para trás e buscando no baú de clássicos, outra lembrança desse show de falatório com o intuito de todos se darem bem é A Malvada (1950). O título se refere a Eve Harrington (vivida por uma inspirada Anne Baxter), ardilosa aspirante a atriz de teatro disposta a todo tipo de artimanha para tomar o lugar de sua tutora, Margo Channing (a lendária Bette Davis). Tudo mesmo: mentiras, falsidades, conspirações, "rasteiras", chantagens. Importa, antes da ética, a vitória, o sucesso, a glória. Algo lembra o Brasil de hoje (ou de sempre). Curioso notar que, assim como em Os Suspeitos, acompanhamos os fatos através de flashbacks dos personagens mais prejudicados pelas vilanias de Eve. Novamente vemos tudo pelo olhar de outros, o que pode gerar questionamentos sobre a própria versão apresentada.

A lista de filmes conhecidos que têm na mentira seu maior tema é extensa. Pensemos, por exemplo, em Testemunha de Acusação, considerada a melhor adaptação de um livro de Agatha Christie (deixe qualquer preconceito de lado, o filme é obra-prima). Dirigido por Billy Wilder em 1957, tem no elenco principal a alemã Marlene Dietrich, num papel que a marcou nos EUA, como a vingativa e manipulativa esposa que depõe em tribunal não para defender o marido, mas para reforçar a acusação de assassinato à qual ele responde. São tantas reviravoltas e surpresas que, vendo o filme hoje, a lembrança de uma sessão de CPI no Congresso é inevitável - vale registrar que o Congresso não possui a exuberância e charme de uma Marlene Dietrich (mas possui a verborragia de uma Heloísa Helena. Ahn... passemos ao próximo parágrafo).

Ainda podemos relembrar Nixon, cinebiografia do presidente americano mais mentiroso de todos os tempos (ao menos até onde sabemos). Ou mesmo O Mundo de Andy, comédia dramática sobre o humorista Andy Kaufman, famoso pelas brincadeiras de mau gosto e pelas enganações públicas sobre sua personalidade, pensamentos, intenções e, alguns dizem, sobre sua morte. Até Curtindo a Vida Adoidado aparece na cabeça num momento desses, se considerarmos o quanto de molecagem e infantilidade em nome do próprio bem estar existe na conjuntura atual.

Agora, se for para representar a eterna guerra de egos dos políticos, na tentativa de se chegar ao "ouro" atropelando qualquer coisa ou gente que esteja pelo caminho, nem que para isso seja necessário partir ao combate corpo-a-corpo (ou à disputa oral, o equivalente), fico com Três Homens em Conflito, de 1966. Faroeste-spaghetti dos mais geniais, dirigido por Sergio Leone, resume muito do que parece ser o pensamento dos poderosos de nossos dias. A diferença é que, no Velho Oeste, bastava pegar sua bolsinha de ouro e desaparecer no deserto. No Brasil, essa bolsinha pertence a cada um de nós.

2.
Guerras são sempre difíceis de abordar sem a "escolha" de um lado. O moçambicano Mia Couto deu uma de Garcia Márquez e definiu um terceiro lado: o mágico, o fantástico. Em O Último Vôo do Flamingo (Cia. das Letras, 220 páginas), o escritor parte do fim de um conflito em seu país de origem para abordar crenças e mitos da terra-natal. O próprio enredo é peculiar: soldados da Força de Paz da ONU estão explodindo. Do nada. De repente. O livro começa quando os habitantes de Tizangara encontram o pênis perdido de um soldado. Um italiano é chamado para investigar os misteriosos acontecimentos e se depara com um mundo assombrosamente estranho, desconhecido e, até certo ponto, fascinante.

O estilo de Mia Couto mistura sonho, alucinação, passado e presente, realidade e fantasia, imaginado e palpável. Começa como uma história de humor, segue por caminhos sobre memória e redenção, chega a um pequeno estudo sobre a fragilidade de um universo africano meio largado por Deus, mas jamais fora do caminhar da Terra. Importa pouco o que realmente acontece naquele vilarejo, mas sim quais as conseqüências disso, em que as tais explosões (e a investigação originada delas) afeta os cidadãos de dentro e de fora.

Mia Couto exagera um pouco nos aforismos na primeira metade do livro. Apesar de usar narrador em primeira pessoa, não se justificam frases como "se a agulha cai no poço muitos espreitam, mas poucos descem a buscá-la" (exemplificando o momento em que a população encontra o tal pênis), ou "quanto mais um lugar é pequeno, maior é a obediência". Bom que, a partir do desenvolvimento da trama, isso desapareça do texto. O que sobra é um romance extremamente curioso, até esquisito, em que o mínimo movimento parece dizer alguma coisa. Sente-se, ao fim, a paixão e respeito que Mia tem pelo lugar onde nasceu e pela pobre gente que vive lá. Sempre bom recebermos a visão particular de alguém natural daquele mundo, que demonstra saber do que fala. A poesia do título soa perfeita para terminar o assunto: diz a crença que o flamingo voa para empurrar o sol aos outros lugares do planeta. Para Mia Couto, o flamingo ainda precisa fazer muito e muitos vôos.

Para ir além






Marcelo Miranda
Juiz de Fora, 18/7/2005


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
30/7/2005
18h54min
A arte do cinema imita o caos mas nunca imita a vida. Diante de todas essas tragédias cotidianas, o filme fica parecendo Alice no País das Maravilhas. É tanta roubalheira que o cinema nunca imaginou. Nem o todo Poderoso Chefão pode imaginar tamanha sacanagem. E tudo com o dinheiro público.É uma vergonha! Mas no cinema, depois de assistir as desgraças nós saimos com a alma lavada e tranquilos pois não era nada com a gente. Os tiros. O sangue. As barbaridades ficaram congeladas na tela do cinema. Mas a vida continua a rodar...
[Leia outros Comentários de Clovis Ribeiro]
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