A literatura, a internet e um papo com Alex Castro | Luis Eduardo Matta | Digestivo Cultural

busca | avançada
65683 visitas/dia
2,2 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Pauta: E-books de Suspense Grátis na Pandemia!
>>> Hugo França integra a mostra norte-americana “At The Noyes House”
>>> Sesc 24 de Maio apresenta programação de mágica para toda família
>>> Videoaulas On Demand abordam as relações do Homem com a natureza e a imagem
>>> Irene Ravache & Alma Despejada na programação online do Instituto Usiminas
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A pintura do caos, de Kate Manhães
>>> Nem morta!
>>> O pai tá on: um ano de paternidade
>>> Prêmio Nobel de Literatura para um brasileiro - I
>>> Contentamento descontente: Niketche e poligamia
>>> Cinemateca, Cinemateca Brasileira nossa
>>> A desgraça de ser escritor
>>> Um nu “escandaloso” de Eduardo Sívori
>>> Um grande romance para leitores de... poesia
>>> Filmes de guerra, de outro jeito
Colunistas
Últimos Posts
>>> A última performance gravada de Jimmi Hendrix
>>> Sebo de Livros do Seu Odilon
>>> Sucharita Kodali no Fórum 2020
>>> Leitura e livros em pauta
>>> Soul Bossa Nova
>>> Andreessen Horowitz e o futuro dos Marketplaces
>>> Clair de lune, de Debussy, por Lang Lang
>>> Reid Hoffman sobre Marketplaces
>>> Frederico Trajano sobre a retomada
>>> Stock Pickers ao vivo na Expert 2020
Últimos Posts
>>> Três tempos
>>> Matéria subtil
>>> Poder & Tensão
>>> Deu branco
>>> Entre o corpo e a alma
>>> Amuleto
>>> Caracóis me mordam
>>> Nome borrado
>>> De Corpo e alma
>>> Lamentável lamento
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A redescoberta da(s) leitura(s)
>>> A redescoberta da(s) leitura(s)
>>> 2 de Abril #digestivo10anos
>>> Eat the Rich
>>> El fin de la inocencia
>>> So I have a blog
>>> Maria Bethânia em Amor Festa Devoção
>>> Para ler o Pato Donald
>>> A Faculdade de Letras
>>> 13 de Setembro #digestivo10anos
Mais Recentes
>>> O Mistério das Aranhas Verdes de Carlos Heitor Cony; Anna Lee pela Salamandra (2001)
>>> Bem do seu tamanho de Ana Maria Machado; Mariana Massarani pela Salamandra (2003)
>>> Ponte para Terabítia de Katherine Paterson pela Salamandra (2006)
>>> Slam Dunk de Takehiko Inoque pela Conrad (2006)
>>> Slam Dunk de Takehiko Inoque pela Conrad (2006)
>>> Neon Genesis Evangelion the Iron Maiden 6 de Funino Hayashi - GAINAX pela Conrad (2006)
>>> Neon Genesis Evangelion the Iron Maiden 5 de Funino Hayashi - GAINAX pela Conrad (2003)
>>> Minha vida de menina de Helena Morley pela Companhia das Letras (2020)
>>> Minha formação de Joaquim Nabuco pela 34 (2020)
>>> Mestre da Critica de Vários autores pela Topbooks (2020)
>>> Memórias para servir à História do Reino do Brasil de Luís Gonçalves dos Santos pela Senado (2020)
>>> Memórias de um Sargento de Milícias de Manuel Antônio de Almeida pela Abc (2020)
>>> A Unica Esperança de Alejandro Bullon pela Casa Publicadora Brasileira (2013)
>>> Memórias de Carlota Joaquina de Marsilio Cassotti pela Planeta (2020)
>>> Marquês de São Vicente de Eduardo Kugelmas pela 34 (2020)
>>> Machado de Assis & Joaquim Nabuco. Correspondência de Graça Aranha pela Topbooks (2020)
>>> Obra Completa de Luis De Camoes pela Nova (2020)
>>> Literatura e Sociedade de Antônio Candido pela Ouro sobre Azul (2020)
>>> O Tigre na Sombra de Lya Luft pela Record (2012)
>>> Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco de Luís Cláudio Villafañe G. Santos pela Companhia das Letras (2020)
>>> Ingleses no Brasil de Gilberto Freyre pela UniverCidade (2020)
>>> Histórias da Gente Brasileira. República. Memórias. 1889-1950 - Volume 3 de Mary Del Priore pela Leya (2020)
>>> Histórias da gente brasileira - Império - Vol. 2 de Mary Del Priore pela Leya (2020)
>>> Histórias da gente brasileira - Colônia - Vol. 1 de Mary Del Priore pela Leya (2020)
>>> Tensoes Mundiais Volume 4 Numero 5 de Manoel Domingos Neto e Monica Dias Martins pela Observatorio das Nacionalidades (2008)
>>> História econômica do Brasil de Roberto C. Simonsen pela Senado (2020)
>>> História dos Fundadores do Império do Brasil - 7 volumes - coleção completa de Otávio Tarquínio de Sousa pela Senado (2020)
>>> História do Brasil: Uma interpretação de Mota, Carlos Guilherme and Lopez, Adriana pela 34 (2020)
>>> História do Brasil de Boris Fausto pela Edusp (2020)
>>> Historia da Vida Privada Em Portugal: Volume 1 Idade Média de Direção de José Mattoso pela Abc (2020)
>>> Historia da Vida Privada Em Portugal: OS Nossos Dias de Direção de José Mattoso pela Abc (2020)
>>> História da saúde no Brasil de Luiz Antonio Teixeira (Compilador), Tânia Salgado Pimenta (Compilador), Gilberto Hochman (Compilador) pela Hucitec (2020)
>>> História da Arte no Brasil: Textos de Síntese de Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, Angela Ancora da Luz, Sonia Gomes Pereira pela Ufrj (2020)
>>> Temas de Direito Constitucional Volume 1 de Luís Roberto Barroso pela Renovar (2002)
>>> História Da América Portuguesa de Sebastião Da Rocha Pita pela Senado (2020)
>>> História da Alimentação no Brasil de Luís da Câmara Cascudo pela Global (2020)
>>> No caminho de Swann. de Marcel Proust pela Globo (2003)
>>> Hipólito José da Costa de Sergio Goes de Paula pela 34 (2020)
>>> Serious Candida Infections: Risk Factors, Treatment and Prevention de John H. Rex e Françoise Meunier Editores pela Pfizer (1995)
>>> Grande Reforma Urbana Do Rio De Janeiro, A: Pereira Passos, Rodrigues Alves E As Ideias De Civilização E Progresso de Andre Nunes De Azevedo pela PUC Rio (2020)
>>> Natural Racional Social - Razão Médica e Racionalidade Científica Moderna. de Madel T. Luz pela Campus (1988)
>>> Getúlio 3 (1945-1954) de Lira Neto pela Companhia das Letras (2020)
>>> Getulio 1930-1945: Do Governo Provisorio Ao Estado Novo de Lira Neto pela Companhia das Letras (2020)
>>> Para gostar de ler. Vol.4 - Crônicas.. de Vários pela Ática (1980)
>>> Getúlio 1 (1882-1930) de Lira Neto pela Companhia das Letras (2020)
>>> Viver o Amor. de José Carlos Pedroso pela Edições Paulinas (1978)
>>> General Osorio de Doratioto, Francisco pela Companhia das Letras (2020)
>>> Ganhadores: A greve negra de 1857 na Bahia de João José Reis pela Companhia das Letras (2020)
>>> Formação de Cidades no Brasil Colonial de Santos, Paulo Ferreira pela Ufrj - IPHAN (2020)
>>> Flores votos e balas de Alonso, Angela pela Companhia das Letras (2020)
COLUNAS

Terça-feira, 20/3/2007
A literatura, a internet e um papo com Alex Castro
Luis Eduardo Matta

+ de 13200 Acessos
+ 5 Comentário(s)

A internet, queiramos ou não, é uma realidade para a literatura, sobretudo a fértil literatura que vem surgindo da pena (ou seria do teclado?), de jovens escritores, muitos dos quais talentosos e com bom domínio da escrita e que, por razões variadas, não se aventuraram pelo mercado editorial tradicional.

Resistente no começo, o establishment cultural começa a reconhecer o potencial da internet e a levar em conta os trabalhos nela publicados. Recentemente, o prestigiado suplemento literário "Prosa & Verso" do jornal O Globo, começou a dedicar espaço para resenhar livros publicados exclusivamente na Web. Um dos primeiros autores a ser agraciado com essa iniciativa foi Alex Castro, titular do popular blog Liberal - Libertário - Libertino e escritor carioca atualmente residindo nos Estados Unidos, que teve o seu livro de contos Onde perdemos tudo resenhado pelo renomado crítico e escritor Miguel Sanches Neto, na edição de 11 de novembro passado. Alex Castro é, também, autor do romance Mulher de um homem só, que já foi baixado trinta mil vezes, durante os três anos em que esteve disponível gratuitamente na internet. Uma marca, aliás, que muitos escritores com livros publicados não consegue atingir.

Se a literatura e a internet farão um casamento duradouro - ou até mesmo eterno - ou se não passa de uma fase, isso ainda é uma incógnita. Eu, pessoalmente, tenho sérias dúvidas sobre se o livro de papel tal qual conhecemos irá desaparecer, como muitos prevêem; o que, naturalmente, não impede que um suporte eletrônico de leitura se consolide e ambos possam conviver sem atritos.

Na entrevista abaixo, Alex Castro nos fala sobre a sua experiência literária na internet, sua obra e sua visão sobre a literatura contemporânea, aproveitando para contar um pouco sobre a sua vida, o que poderá surpreender vários dos leitores do seu blog e, até mesmo, da sua literatura.

1. Alex, você escreveu um romance Mulher de um homem só e, agora, aventurou-se, também, pelos contos, com Onde perdemos tudo. Quais seriam as semelhanças entre esses dois trabalhos? Quais foram as suas intenções ao escrevê-los (se as houve)?

São dois projetos bem distintos. O livro de contos Onde perdemos tudo reúne contos unidos pelo tema comum de perda. Eu nunca gostei muito de livros de contos sem um projeto unificador. Parece que o autor simplesmente passou a limpa na gaveta.

O romance, Mulher de um homem só, desenvolve o tema de um dos contos: se é possível haver uma amizade de verdade, não-sexual, digamos, entre homem e mulher, e como inserir isso dentro do seu casamento. Em outras palavras, como conciliar sua melhor amiga e sua esposa. Mas essa é só a premissa básica, claro. Como bom romance literário, foi escrito para poder ser lido em camadas. Para quem só quiser isso, pode ser um romance sobre amizade homem-mulher. Para quem quiser, ou puder, ir mais fundo, espero que o romance ofereça muito mais.

2. Você mantém um blog muito popular na internet. A sua experiência na rede inspirou-o ou auxiliou-o na sua atividade literária? Gostaria que falasse um pouco a respeito.

Tanto Onde perdemos tudo quanto Mulher de um homem só foram escritos antes que eu ouvisse falar de blogs, quando eu mal tinha e-mail. Acho engraçado as pessoas que lêem esses livros e fazem análises complexas sobre sua linguagem web! Mas, enfim, cada leitor lê como quer, não há leitura certa.

Meu blog foi criado em função de um outro projeto, ainda em andamento, de um livro de ensaios sobre as prisões que acorrentam o pensamento do homem, como religião, monogamia, heterossexualidade, preconceito, patriotismo, ambição, medo, verdade, etc. Como são ensaios polêmicos, achei que seria interessante testá-los antes na internet para ver que tipo de recepção teriam. E, bem, é isso que ainda estou fazendo. Só mais tarde aproveitei a plataforma web para também divulgar esses outros trabalhos que já estavam prontos.

Aprendi muitíssimo com a experiência. Hoje, já acho imprescindível esse contato de um escritor com seu público que a internet permite. O escritor que não usa desse recurso está se limitando e se isolando, está se comportando como um surdo que não quer ouvir seu público.

Por outro lado, acho importante acabar com essa idéia de "escritor-blogueiro". Antigamente, os poetas mimeografavam suas poesias e iam de bar em bar distribuindo-as, e ninguém os chamava de "poetas-mimeografeiros". Eu distribuo meus livros em formato PDF e não sou um "escritor-pedeefeiro". As pessoas confundem meio com mensagem. A internet é somente mais um meio, uma plataforma, que permite que a literatura seja melhor distribuída, mas ainda é a mesma literatura de sempre.

Mesmo os ensaios das prisões, que foram escritos depois de eu ter experiência com web e blogs, não têm nada a ver com a estética, agilidade, vocabulário ou concisão da internet. São ensaios longos, complexos, refletidos. Não foram escritos para serem lidos em cinco minutos, por alguém desatento, que está batendo papo no MSN e checando e-mail ao mesmo tempo. Exigem um leitor crítico e pensante.

3. Há elementos autobiográficos nos seus livros ou estes são apenas produto de uma mente criadora?

Eu acho que não há nada mais tedioso, lugar-comum e narcisista do que esses escritores cujos protagonistas são sempre o alter ego deles mesmos, esses escritores que escrevem livros para falar de si mesmos ou para exorcizar seus demônios.

Fiz isso só uma vez, no último conto de Onde perdemos tudo, que é um conto humorístico, pra quebrar um pouco o clima deprê do livro. É a história de um escritor chamado Alexandre que está pra lançar seu livro de contos Onde perdemos tudo quando descobre um conto igual em outro livro escrito cinqüenta anos antes. A grande brincadeira é mostrar, entre outras coisas, o ridículo desse negócio de escrever sobre escritores escrevendo sobre escritores. Jurei que nunca mais faço isso, a não ser que tenha um bom motivo.

Olha, meus demônios eu exorcizo na terapia. Eu já me conheço, não preciso usar ficção pra isso. Para mim, literatura é para criar gente, pra eu entrar na cabeça de outras pessoas, pra eu tentar criar empatia com esses personagens tão diferentes de mim, para eu tentar descobrir como essas pessoas reagiriam a determinadas situações. Se for pra falar de mim mesmo, qual é a graça? Eu já sei quem eu sou. Eu já sei o que eu faria. Melhor escrever não-ficção.

Então, não: meu trabalho, além de não ser autobiográfico, é anti-autobiográfico. Às vezes, só o fato de um personagem ser parecido comigo já me corta o tesão. Meu romance, Mulher de um homem só, ficou parado por muito tempo, porque ele deveria logicamente ser escrito do ponto de vista do Murilo ou da Júlia, que são personagens um pouco parecidos comigo. E eu nunca começava o romance porque, bem, eu já conhecia esses personagens, não tinha interesse em mergulhar neles, faltava tesão. Só quando uma amiga me sugeriu que o romance fosse narrado pela esposa é que a coisa deslanchou. Eu não sabia quem era aquela mulher, ela não tinha um grande papel na trama, ela não era nada parecida comigo. Escrevi Mulher de um homem só, então, para conhecer a Carla, para saber que tipo de pessoa ela era, para compreender por que ela fez as coisas que fez e aturou as coisas que aturou.

E, por outro lado, claro, toda literatura é autobiográfica, de certo modo, porque a matéria-prima da literatura é a vida. O escritor rouba pedaços de vida de todo mundo que ele conhece, e mais ainda de si mesmo. Então, todos os personagens de um escritor são repletos de coisinhas dele, de coisas que aconteceram com ele, de manias que ele tem - mas também das coisinhas e manias dos seus amigos e parentes. Então, apesar dos meus personagens terem várias experiências em comum comigo ou com pessoas que conheço, eles não são nem eu nem essas pessoas. Se não achasse que são indivíduos independentes, nem teria mostrado o texto pra ninguém, aliás.

4. Como blogueiro consagrado, como você vê o papel da internet no campo da cultura, da informação e do entretenimento hoje em dia? Você acredita que a internet vai substituir a imprensa e o suporte livro tal qual nós conhecemos hoje?

Blogueiro consagrado? Ha ha. Quando me dizem isso eu sempre lembro de uma amiga que definiu com precisão: ser um "blogueiro famoso" é como ser "miss minissaia do festival das flores de Lambari, ou seja, nada."

Enfim, eu não sou contra ler na tela per se. Eu tenho um laptop e leio muito nele. Tem pessoas que falam que o papel sempre será superior porque podem ler num parque, encostados numa árvore, ao ar-livre, e eu acho uma certa graça porque eu faço tudo isso com meu laptop! Mas, realmente, ler romances ou poesia sempre vai ser melhor no papel.

Por outro lado, jornais, enciclopédias, atlas e dicionários já estão totalmente obsoletos, as pessoas só ainda não sabem disso. Hoje em dia, quem ainda gasta R$2 mil numa Enciclopédia Britânica? Dou aulas pra muitos jovens e nenhum deles lê jornal-papel. A geração que está virando gente hoje lê jornais na Web. Eu mesmo não entendo o que leva alguém a comprar um jornal às onze da manhã, sabendo que ele foi fechado às vezes mais de doze horas antes e está completamente desatualizado. Além de que suja as mãos, é difícil de dobrar e mata arvorezinhas. Sim, muita gente diz que gosta justamente dessa liturgia ritual do dobrar e desdobrar, das pontas dos dedos sujos, mas são porque associam o gestual ao ato de se informar, porque cresceram assim. Enquanto essas pessoas viverem, haverá jornal. O problema é que, como os jornais não estão adquirindo novos leitores, quando morrer essa geração, o jornal acaba. Do meu ponto de vista, aliás, faria mais sentido dar de graça os jornais impressos desatualizados e depois cobrar para o leitor entrar no site e ler as notícias atualizadas. Mas eu sempre vejo tudo ao contrário.

Já a literatura acho que não tem nada a temer da internet.

5. Tanto Mulher de um homem só quanto Onde perdemos tudo foram publicados na internet. Como é essa experiência de publicar unicamente no mundo virtual? Você se sente gratificado? Como é o retorno dos leitores? Como tem sido a receptividade dos livros junto aos internautas?

Lancei Onde perdemos tudo na internet em setembro de 2006, já vendi cerca de 60 cópias (o que parece pouco) mas ganhei líquidos R$700, o que é muito, ainda mais pra um livro de contos de um desconhecido. Se o livro tivesse saído por uma editora tradicional e eu ganhasse os tradicionais 5% do preço de capa, eu teria que vender mais de mil exemplares pra ganhar a mesma coisa.

Mulher de um homem só foi distribuído gratuitamente na rede por 3 anos, sendo baixado mais de 30 mil vezes. Graças ao romance e ao blog, um professor universitário brasileiro nos Estados Unidos me convidou para vir fazer doutorado em Literatura em Nova Orleans, e é onde estou agora, vivendo de bolsa. O blog rende em média R$500 por mês só em comissões do Submarino e do Google. Parece pouco, mas pra um blog que nunca achei que daria nada? O dinheiro fica acumulando na minha conta corrente no Brasil e, quando volto pra casa, vivo por conta dessa grana, o que é uma sensação bem gostosa.

Na verdade, para mim, como escritor de literatura, a internet já me deu BEM mais leitores e BEM mais dinheiro do que eu conseguiria publicando por uma editora tradicional. Só falta mesmo o reconhecimento dos meus pares - outros escritores, professores de letras, jornalistas culturais, os literatos em geral. Como ainda não passei por esse ritual de passagem do livro impresso, ainda não sou escritor, sou "blogueiro". Veja bem: não estou dizendo que as uvas estão verdes. Eu quero passar pelo ritual de passagem, quero sair em livro impresso, quero ser aceito como um igual pelos membros da minha tribo, mas a internet me fez ver o verdadeiro valor disso. Tornou-se apenas um ritual, de valor simbólico. Leitores e dinheiro, que são o que há de mais concreto, eu sei que consigo mais através da internet.

6. Como você enxerga a nova literatura contemporânea brasileira? Você tem contato com escritores da chamada "nova geração" e/ou com seus livros e textos? Você percebe características comuns nos trabalhos destes jovens autores e nas suas propostas literárias? Pode-se distinguir uma voz e uma fisionomia predominantes nesta nova literatura? E como você situaria o seu trabalho dentro dela?

Pode parecer incrível para quem me vê como um blogueiro tecnófilo do século XXI, mas eu sou um homem do século XIX. É lá que eu passo a maior parte do tempo, é lá que eu trabalho, é de lá que são os livros que eu leio. Meu maior interesse intelectual, por dez anos, foram as guerras do Prata, desde a conquista final do Uruguai, em 1816, até o final da Guerra do Paraguai.

Agora, meu tema principal de pesquisa são as representações da escravidão na literatura brasileira do século XIX, com ênfase no processo de canonização literária. Será que escravidão foi abordada de forma diferente nos romances que foram consagrados e nos que foram esquecidos? Será que a abordagem de um tema polêmico e desagradável desses não influiu no processo de canonização? Ou seja, não é nem que a escravidão foi ignorada, mas que o establishment ignorou os livros que falaram dela. E qual a relação disso com o processo de formação de uma identidade nacional através da literatura? Será que, nesse momento de decidir quem éramos, queríamos ser um país caracterizado pela escravidão? A coisa também passa por questões de teoria e estética da recepção. Afinal, como esses livros, tanto canônicos quanto não-canônicos, eram lidos? Quem os lia?

Além disso, para fins de comparação, estou mergulhando fundo na literatura abolicionista cubana, um país bem parecido com o Brasil em muitas coisas mas com uma literatura completamente diferente, com romances abordando de frente os dilemas mais duros da escravidão, problematizando questões que nenhum escritor brasileiro ousou nem levantar. Por quê? Por que tamanha diferença? Por que os escritores cubanos ousaram atacar literariamente a escravidão enquanto os brasileiros fugiram da raia e fingiram que não viram o problema?

Em suma, sei que fugi da pergunta mas já volto. Eu queria dizer que meus interesses intelectuais e literários me prendem tanto ao século XIX que, sinceramente, não tenho tempo nem saco pro XX nem pro XXI. O século XX foi um século chato e sangrento. Não me atrai.

Li pouquíssimos autores contemporâneos e gosto de menos ainda. Tenho todos os Livros do Mal e acho que os Daniéis, Galera e Pellizzari, ainda vão muito longe, mas que nem começaram a dar tudo o que podem dar. O Biajoni, que escreveu o ainda não publicado Sexo Anal, um dia vai ser visto como o gênio da nossa geração. Dos meus contemporâneos, acho que os melhores são o Alexandre Soares Silva e a Daniela Abade. A Coisa Não-Deus e Crônicos são romances simplesmente sensacionais, criativos, poderosos, que fogem à estética vigente, que ousam, arriscam. Me entristece ver que ambos não são nem um pouco badalados e que estão sempre parecendo que vão parar, enquanto que semi-analfabetos vivem saindo nas primeiras páginas de cadernos literários. Outro grande livro contemporâneo foi Aqueles Cães Malditos de Arquelau, de Isaías Pessotti, que ganhou o Jabuti em 1995, publicou outros dois livros praticamente iguais ao primeiro e depois sumiu. Por fim, o grande lançamento do ano passado foi o tour-de-force da Ana Maria Gonçalves, Um Defeito de Cor, um tijolão maravilhoso de mil páginas, no melhor estilo dos romances do século XIX que eu amo, contando 80 anos de vida de uma escrava africana no Brasil. Ainda vai ser um clássico. De resto, ou não li ou não gostei.

A nossa literatura contemporânea tem uma série de cacoetes que me incomodam. Um deles é essa mania de escritor escrever livros sobre escritores malditos, bebendo, fumando e falando palavrão, andando por uma cidade suja e sem nome, mostrando como a vida é tediosa e sem sentido, como não significa nada, blá blá blá. Bukowski já fez isso. Rubem Fonseca já fez isso. Até Camus já fez isso. Essa estética do maldito é muito chata. Não que eu seja contra per se, mas que é algo que já foi feito à exaustão. Estorvo, do Chico, pra mim é emblemático desse processo, um livro que reúne todas as piores características desse "gênero".

E o pior é que esses escritores se chamam, na maior cara dura, de malditos, rebeldes e ousados. Ora, gostando-se ou não, "maldito, rebelde e ousado" (ele iria odiar a classificação) é A Coisa Não-Deus, do Alexandre Soares Silva, um livro que é diferente de tudo o que é publicado por aí, ambientado em um céu povoado pelos grandes gênios da humanidade! Veja bem, não estou nem falando de qualidade, muita gente pra quem emprestei A Coisa Não-Deus odiou, o que só prova que meu gosto é o inverso do senso comum. Mas, independente da qualidade do produto final, não há ousadia ou rebeldia alguma em se publicar mais um romance sobre sexo, drogas e rock'n'roll, sobre narradores apáticos em uma cidade violenta, sobre narradores que são um pastiche, voluntário ou não, dos piores livros de Rubem Fonseca e João Gilberto Noll. Alguns desses romances são melhores, outros são piores, mas há pencas deles nas livrarias. Qual é a ousadia nisso? Ousadia é escrever um livro debochado ambientado no céu. Você pode até gostar do livro ou não, mas tem que reconhecer que é ousado.

Assim como ousado é o Bia, que escreveu um livro chamado Sexo Anal, sobre uma moça que adora, bem, sexo anal, e é um livro engraçado, sensível, feminino, lindo. Esse é tão ousado que já passou por tudo quanto é editora e nenhuma teve culhão de publicar. Ousado também é você, Luis, com o seu projeto maravilhoso e quixotesco de criar uma literatura de entretenimento no Brasil, porque nem sempre a gente quer um romance transcendental, às vezes a gente quer só umas perseguições e explosões, e sem um mercado editorial saudável mantido por livros de entretenimento que vendam bem, também não se tem uma boa literatura.

Então, eu acho que a fisionomia, a voz dessa nossa nova literatura é a voz dos narradores apáticos, beberrões, drogados, insensíveis, violentos, em suma, chatos, chatos de doer. Eu tento ao máximo me situar fora disso.

Mas, como eu disse, sou mesmo um filho do século XIX.

Para ir além



Luis Eduardo Matta
Rio de Janeiro, 20/3/2007


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O Vosso Reino de Luís Fernando Amâncio
02. Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo de Jardel Dias Cavalcanti
03. A natureza selvagem da terra de Elisa Andrade Buzzo
04. O Palácio de Highclere de Ricardo de Mattos
05. A arte da crônica de Luiz Rebinski Junior


Mais Luis Eduardo Matta
Mais Acessadas de Luis Eduardo Matta em 2007
01. Recordações de Sucupira - 12/6/2007
02. O desafio de formar leitores - 15/5/2007
03. O Casal 2000 da literatura brasileira - 24/7/2007
04. A literatura, a internet e um papo com Alex Castro - 20/3/2007
05. Algumas leituras marcantes de 2007 - 18/12/2007


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
18/3/2007
18h26min
Alex Castro é um TALENTO. Irreverente, inteligente, sarcástico, excêntrico, curto-e-grosso e escreve maravilhosamente bem. Acompanho seu blog desde Novembro de 2006 sem falhar um só dia. Estou ansioso para ver seus livros publicados.
[Leia outros Comentários de Fabio Martins]
19/3/2007
13h40min
O Alex é muito competente no que faz, que é escrever, descrever e comentar, de forma livre, analisando e questionando o status quo. É impossível ler e ficar impassível. Ele faz pensar.
[Leia outros Comentários de Fabio]
19/3/2007
23h54min
embora quase nunca concorde com ele, é um grande cara. :>)
[Leia outros Comentários de Biajoni]
25/3/2007
19h44min
Como sempre LEM nos oferece uma possibilidade singular de repensar nossa dinâmica cultural; numa acertadíssima escolha de tema e entrevista. Alex Castro traz um frescor e uma energia da interação desta nova plataforma que irá, como todos os meios, alterar a relação autor/leitor. É oportuno que escritores discutam abertamente a relação com o público, com a mídia e com as obras de seus contemporaneos. Neste aspectos, Alex Castro confirmou alguns nomes que já foram notados e afirmou a familiaridade com estes talentos. Leitores que anseiam pela experimentação gostam destas dicas e não é sempre que elas saem com esta naturalidade. Quanto ao mercado, vivemos a ilusão da abundância de leitores e os editores querem ratos de livraria e bibliófilos adoram sebos, então até que se tome o pulso deste mercado, só teremos os best-sellers "USA" potencializado pelo seu marketing colonial. Alex é um dínamo, e a forma como explora o seu potencial justifica todas as justas considerações, sem nenhum favor.
[Leia outros Comentários de Carlos E. F. Oliveir]
26/3/2007
13h08min
Concordo com o Alex sobre meio e suportes para a expressão da literatura. Antes do papel, a história contada era o canal. A aldeia era bem menor. Estou de pleno acordo com o que diz sobre jornalismo e acrescento: ainda tem rádio e TV divulgando notícia de jornal. Sai mais barato pros donos dos canais. Não empregam e fingem que fazem jornalismo. Fico feliz com a saudação e a visão sobre literatura de entretenimento. Afinal, Tchekov, com o Inspetor Geral; Voltaire, com As Preciosas Ridículas e até Cândido; Carrol, com as Alices, poderiam estar nesta categoria ainda hoje, não fossem clásicos mundiais da Literatura. E, também, sem me comparar, mas porque meu primeiro livro, que vou publicar por conta e risco agora em abril, saiu-se como uma novela, mais por exigência dos personagens que por meus planos, que não haviam. Parabéns ao DC pela entrevista e ao entrevistado pelas opiniões.
[Leia outros Comentários de Adroaldo Bauer]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A MISSÃO VARNHAGEN NAS REPUBLICAS DO PACÍFICO: 1863 A 1867 VOL. 1
CENTRO HISTÓRIA DOC DIPLOMÁTICA VOL 1
FUND ALEXANDRE DE GUSMÃO
(2005)
R$ 22,28



MOSAICO DO SENTIR
FERNANDO HERNADEZ JUNIOR
GENTE
(2004)
R$ 12,00



ECONOMIA 17ª ED
PAUL A. SAMUELSON E WILLIAM D. NORDHAUS
MCGRAW HILL
(2004)
R$ 59,00



CYRANO DE BERGERAC
EDMOND ROSTAND
SCIPIONE
(1992)
R$ 25,00
+ frete grátis



PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL
HENRIQUE RATTNER
BIBLIOTECA UNIVERSITÁRIA
(1974)
R$ 14,50



SYNTHÈSE DU TRANSFORMISME
RAIMOND COULON
C REINWALD
(1892)
R$ 130,00



ENSAIOS HISTÓRICOS
PAULO SETUBAL
COMPANHIA NACIONAL
(1983)
R$ 5,87



OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA 5: OS OUTROS MUNDOS
J. J. BENÍTEZ
MERCURYO
(1996)
R$ 12,21



HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA EM PORTUGAL - 4º VOLUME (OS NOSSOS DIAS)
JOSÉ MATTOSO
TEMAS E DEBATES
(2011)
R$ 350,00



CONSTRUINDO CONSCIÊNCIAS 7° ANO
CARMEN DE CARO / HELDER DE PAULA E OUTROS
SCIPIONE
(2012)
R$ 9,00





busca | avançada
65683 visitas/dia
2,2 milhões/mês