Espírito do Ódio | Arcano9 | Digestivo Cultural

busca | avançada
73422 visitas/dia
2,5 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Minute Media anuncia lançamento da plataforma The Players’ Tribune no Brasil
>>> Leonardo Brant ministra curso gratuito de documentários
>>> ESG como parâmetro do investimento responsável será debatido em evento da Amec em parceria com a CFA
>>> Jornalista e escritor Pedro Doria participa do Dilemas Éticos da CIP
>>> Em espetáculo de Fernando Lyra Jr. cadeira de rodas não é limite para a imaginação na hora do recrei
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
>>> Cem encontros ilustrados de Dirce Waltrick
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
Colunistas
Últimos Posts
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> Cultura ou culturas brasileiras?
>>> DevOps e o método ágil, por Pedro Doria
>>> Spectreman
>>> Contardo Calligaris e Pedro Herz
>>> Keith Haring em São Paulo
>>> Kevin Rose by Jason Calacanis
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
Últimos Posts
>>> Acentuado
>>> Mãe, na luz dos olhos teus
>>> PoloAC retoma temporada de Os Doidivanas
>>> Em um tempo, sem tempo
>>> Eu, tu e eles
>>> Mãos que colhem
>>> Cia. ODU conclui apresentações de Geração#
>>> Geração#: reapresentação será neste sábado, 24
>>> Geração# terá estreia no feriado de 21 de abril
>>> Patrulheiros Campinas recebem a Geração#
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Literatura Falada (ou: Ora, direis, ouvir poetas)
>>> Publicar em papel? Pra quê?
>>> Impressões
>>> A escrita boxeur de Marcelo Mirisola
>>> Desorientação vocacional
>>> Flip 2006: um balanço tardio
>>> Flip 2006: um balanço tardio
>>> Flip 2006: um balanço tardio
>>> Montezano, do BNDES, sobre o marco do saneamento
>>> Leitor bebum começou com um gole
Mais Recentes
>>> Golem e o Gênio: uma Fábula Eterna de Helene Wecker pela DarkSide (2015)
>>> Os Chakras: e os Campos de Energia Humanos de Shafica Karagulla, M.D. e Dora Van Gelder Kunz pela Pensamento (1991)
>>> O Caminho da Tranquilidade de Dalai Lama pela Sextante (2000)
>>> Perdas & Ganhos de Lya Luft pela Record (2003)
>>> Minecraft Fortaleza Medieval de Mojang pela Abril (1500)
>>> Minecraft Guia de Criação de Mohang pela Abril (2017)
>>> Minecraft Guia de Exploração de Mohang pela Abril (2021)
>>> Salomé de Oscar Wilde pela Principis (2021)
>>> O Mercador de Veneza de William Shakespeare pela Principis (2021)
>>> Do Contrato Social de Jean - Jacques Rousseau pela Principis (2021)
>>> Kilmeny do Pomar de Lucy Maud Montgomery pela Principis (2021)
>>> A Mamãe é Rock de Ana Cardoso pela Principis (2019)
>>> Nos Bastidores Trinta Anos Escrava, Quatro Anos na Casa Branca de Elizabeth Keckley pela Principis (2021)
>>> O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas pela Principis (2021)
>>> Romeu e Julieta de William Shakespeare pela Principis (2021)
>>> O Condenado de Camilo Castelo Branco pela Principis (2021)
>>> The secret Agent de Joseph Conrad pela Collins Classics (2012)
>>> Vandrad, o Viking a Contenda e o Feitiço de Joseph Storer Clouston pela Principis (2021)
>>> Helena de Machado de Assis pela Principis (2021)
>>> Utopia de Thomas More pela Principis (2021)
>>> Poliana de Eleanor H. Porter pela Tricaju (2021)
>>> Cause of death de Patricia Cornwell pela Warner Books (1997)
>>> Um Inimigo do Povo de Henrik Ibsen pela Principis (2021)
>>> The Da Vinci Code de Dan Brown pela Corgi Books (2004)
>>> Little Woman de Luisa May Alcott pela Signet Classics (2012)
COLUNAS

Segunda-feira, 29/10/2001
Espírito do Ódio
Arcano9

+ de 3000 Acessos
+ 1 Comentário(s)

O Travelcard na mão.

Metrô Bond Street.

Escadas rolantes imundas.

Mundo imundo.

Odeio você, atrás de mim, do lado esquerdo da escada. Você. Você é tudo o além de mim, o que não sou eu, o que é oposto. Na plataforma. Olhares petrificados. No jornal - Mazar-e-Sharif sofre mais uma leva de ataques. Antraz mata mais um na Flórida. EUA podem lançar bônus de guerra. Conflito causa prejuízos no turismo americano. Nova York conta seus mortos. Nova York... World Trade Center. O mundo não é mais o mesmo, quem poderia apostar no poder do acaso para desescadear tal mudança? O acaso de dois aviões colidindo com duas torres gêmeas no dia 11? E o azar, o profundo e indizível azar das pessoas que estavam no 101o andar? Não, não. Nada disso. Tudo foi milimetricamente calculado. O mundo já era o mesmo.

E eu odeio você.

Sempre odiei.

Você e eu entramos no vagão do metrô. Seis da tarde. Gravação na Jubilee Line. Odeio essa voz empostada da gravação.Green Park, change for Victoria Line. Você está atrás de mim. Sinto sua presença que me incomoda. Você é fétido, você é horrível. Você é um pesadelo. Pesadelo viajando, traveling. Meus olhos deslizam pelo túnel escuro. Osama Bin Laden está no Afeganistão. Escondido. Talvez, esteja na China. Talvez, no Tadjiquistão. Ninguém sabe. Osama Bin Laden é o inocente.
Você é o culpado.

Apenas você, sombra execrável.

A Grã-Bretanha é o maior aliado dos Estados Unidos. A Grã-Bretanha tem uma das maiores colônias muçulmanas do mundo. Aqui há a mesquita no Regent Park. E outra em Brick Lane. A Al-Qaeda tem ramificações aqui e em mais de 40 países. Você se sente em casa. Em casa embaixo da terra. Em casa nas nuvens, nos arranha-céus-ícones sagrados do poder de uma civilização imbatível de não-evil-doers, de edifícios como o World Trade Center.

Como o Canary Warf.

Prédio alto, Torre de Babel.

À minha frente, albaneses. Ao lado, russos. À direita, americanos do Texas. À esquerda, islandeses. O mundo é alienígena. Eu odeio você porque você é diferente demais. Você não fala minha língua. Você não compreende minha religião. Você tem pele escura. Você fuma maconha. Você parece se sentir atraído por mim. Eu tenho nojo de sua presença. Você é doente, você pertence a um mundo doente, você é demente, por quê me segue, por quê, por quê? Canary Wharf. Construção imensa de concreto e metal. Milhares de engravatados. Sikhs, senegaleses, costarriquenhos. O metrô parado na plataforma. Seis e quinze.

O mundo já era o mesmo.

Agora, é mais do mesmo.

A plataforma vazia. Atrasos, signal failures. Stratford station closed. Mundo pequeno. O trem começa a ficar lotado. Saio da estação. A loira fria gorda com sua saia azul marinho sentada suando pingando te observa com olhos bem abertos, franzindo a testa. Está aliviada que eu tenha te levado para outro lugar. A estação não tem lixeiras. Bombas explodem. Bombas que explodem. Bombas que explodem e matam. Bombas que explodem e matam e espirram sangue por todos os lados. Bombas que explodem e matam e espirram sangue infiél por todos os lados, em cada canto do mundo. Em cada canto do mundo. Em cada canto do mundo há uma bactéria. Em cada canto do mundo há uma bactéria antraz esperando para consumir sua pele. Consumir sua pele como ácido. Chuva ácida. Desaba um temporal gelado nas Docklands de Londres. Meus pés se ensopam nas poças.

Você me segue de perto.

A guerra está apenas começando. A guerra entre o sim e o não. O sim e o não o que significam? Significam a mesma coisa, sob dois pontos de vista diferentes. Mas isso não importa, não importa nada, o que importa é que eu e você não sabemos viver sem ter um oposto. A guerra entre o bem e o mal, isso é fascinante, isso é natural. Bem ou mal, mal ou bem, você vai me matar se eu não te matar primeiro. 4 mil e 800 desaparecidos sob os escombros do World Trade Center. Imagens na TV diretamente de Peshawar, no Paquistão - pessoas barbudas e sujas gritando de prazer ao comemorar o império num momento difícil. Imagens na TV incompreensíveis demais para o senhor Bird de Santa Fé, ou para o senhor Whiteman de Phoenix. Por que me odeia? Por que? Pois eu te odeio, eu te odeio, te ODEIO, ODEIO. No ponto de ônibus, no lusco fusco. O poste de brilho laranja-negro encoberto pelas gotas pesadas, prismas dissociando a luz da noite recém-chegada, as cores do Reino Unido nos olhos. O ônibus double-decker vermelho chega. Pessoas de pé, sentadas, ajoelhadas, chorando, rezando, dormingo, namorando, cantando. O cheiro é uma mistura de vômito com maconha, gases intestinais e perfume. Uma criança chora pavorosamente. Estou completamente molhado, sem espaço para mexer minhas pernas, a água escorrendo pela minha testa, o sobretudo surrado úmido colado na minha camisa, vista embaçada de cansaço após doze horas e meia lutando pela minha sobrevivência, dor de cabeça, vontade de urinar, sem nem a mais remota lembrança do que significa ter prazer na vida, velho com menos de 30 anos. Você não tem piedade de mim, eu não tenho de você. Para mim, basta.

Viro-me. Olho no olho. Dente por dente. Eu sou você, você sou eu. A guerra (contra o invisível) está só começando. Avanço em direção ao motorista. Saco meu revólver do sobretudo. Encosto o revólver na cabeça do motorista. Faço-o sair de sua rota. Pânico no ônibus. Olho para trás - o maltês agarra a etíope. O argentino acerta um soco na cara do malgaxe. O chinês cospe no rosto do coreano, que por sua vez urina no japonês. Todos se odeiam. Todos querem espaço para respirar. Espaço para mexer o pé. Para tirar o sobretudo. Todos falam lindas línguas, têm maravilhosas culturas, tradições seculares, Deuses sagrados. E todos se odeiam. E entram em confronto direto. O motorista grita. O ônibus viaja a 40, 50, 60, 70 milhas por hora pela avenida vazia. Não estou pronto para não ter um oposto. Preciso odiar. O argelino arranha o rosto do alemão. O sunita arranca com os dentes a orelha do xiita, que grita Alá. O motorista do ônibus grita. Eu o faço parar à beira do rio. Bem à beira do rio. O fétido rio.

Desço do ônibus, sento-me às margens do Tâmisa. A chuva de repente parou. Você e eu olhamos para a outra margem.

O queniano, o equatoriano, o neozelandês e o saudita decidem, após dois minutos, me seguir. Eles se sentam ao meu lado, olhando para a outra margem do rio.

O palestino, hesitante, tira as mãos do pescoço do israelense e aponta para o outro lado do rio.

O greco-cipriota e o turco-cipriota descem do segundo andar do ônibus em silêncio e observam estupefatos.

Até o afegão de origem uzbeque, que estava ameaçando o filipino, larga sua adaga e pula para fora do coletivo.

Eu vejo a lua cheia, branca, forte, limpa, inteira e indivisível, brilhante iridescente, abrir caminho por entre as nuvens, milagrosamente, misteriosamente, inexplicavelmente, rapidamente.

Eu estou deste lado do rio. Do outro você não está. Mas estamos todos sob a mesma lua.


Arcano9
Londres, 29/10/2001


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A Delicadeza dos Hipopótamos, de Daniel Lopes de Jardel Dias Cavalcanti
02. A filosofia mínima de Luís Augusto Fischer de Marcelo Spalding
03. A noite de Natal de Tatiana Mota
04. Guimarães Rosa em Buenos Aires de Wellington Machado
05. Sociedade dos Poetas Mortos de Rafael Rodrigues


Mais Arcano9
Mais Acessadas de Arcano9 em 2001
01. Duas formas de perder a virgindade no West End - 5/3/2001
02. O que realmente importa - 17/12/2001
03. Quando road movie encontra inocência adolescente - 19/3/2001
04. Ler ao acaso - 19/11/2001
05. Concurso de popstars mostra novo caminho na TV - 19/2/2001


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
5/11/2001
13h07min
Arcano, como você é romântico. No sentido mais doce desta palavra. Sei que vivemos todos sob a mesma Lua. E, lendo seu texto, desejo, desesperadamente, acreditar que existirá o tempo em que pararemos todos pra contemplá-la do outro lado do rio. Abraços, Ana
[Leia outros Comentários de Ana]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




El Conflicto Social y los Gobiernos del Maximato
Lorenzo Meyer
El Colegio de Mexico
(1978)



Passatempo Direito Administrativo
João Antônio da Costa Lagranha
Rideel
(2016)



O Livro da Terra e dos Povos
Childcrafts
World Book
(1997)



O Sentido e a Máscara - Teatro - Coleção Debates
Gerd A. Bornheim
Perspectiva
(1975)



A Arte de Ouvir o Coração
Jan Philipp Sendker
Paralela
(2013)



A Ideologia
Ari Herculano de Souza
Do Brasil
(1989)



O Guarani - Ed. Paulus
José de Alencar
Paulus
(2005)



O Pensamento Vivo de Chaplin
José Geraldo Simões
Martin Claret
(1984)



Jesus e Jesus na Arte 4 Volumes
Vários Autores
Jbig
(1983)



Amor e Amizade
Jane Austen Whit Stillman
Gutenberg
(2016)





busca | avançada
73422 visitas/dia
2,5 milhões/mês