A morte anunciada dos Titãs | Luiz Rebinski Junior | Digestivo Cultural

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Quarta-feira, 3/3/2010
A morte anunciada dos Titãs
Luiz Rebinski Junior

+ de 9100 Acessos
+ 5 Comentário(s)

Não quero parecer oportunista, agora que o Charles Gavin pulou fora dos Titãs, mas o grupo há anos estava morto. Agora só falta enterrar. Os Titãs passaram de uma banda vigorosa, criativa, para um arremedo de grupo, uma banda de fim de semana que se reúne apenas quando sobra espaço na agenda de seus integrantes, que, com a lenta decadência, passaram a se dedicar a outras atividades. Paulo Miklos virou ator, quase sempre fazendo os mesmos papéis (uma espécie de Jece Valadão dos anos 2000); Bellotto virou escritor de romances policiais; Branco Mello fez um documentário bacana sobre a banda e gravou discos fracos sozinho; Sérgio Britto, o mais apagado dos integrantes, seguiu fazendo discos sofríveis que nunca foram notados; já Gavin se embrenhou na história de nossa MPB e de lá não saiu mais. Tudo indica que vai continuar prestando bons serviços à música, trazendo à tona relíquias esquecidas de nosso potente cancioneiro.

Nos últimos tempos, quando sobrava um tempinho, os cinco se reuniam para protocolares discos como Domingo e o mais recente Sacos Plásticos, no qual a sonoridade agressiva de antigamente deu lugar a um som pasteurizado muito parecido com o de bandas que costumam frequentar as primeiras posições do pop nacional. Não vou nem citar nomes em respeito ao passado glorioso dos Titãs.

Mas nem sempre foi assim. Não sou nem tão velho para ter visto a banda nascer, nem tão novo para tê-la conhecido em seu período sofrível. Estou no meio do caminho, então ainda peguei os Titãs fazendo música com tesão, suor e lágrimas. Lembro de ter comprado o Tudo ao mesmo tempo agora, logo quando saiu, em 1991. Dizem, sem muito nexo, que o disco era oportunista, que pegou carona na onda do grunge e se deu mal. Bobagem, o disco é do caralho, com um som cru e letras desbocadas que hoje, certamente, os atuais Titãs não se sentem muito à vontade em executá-las. É o disco mais punk dos Titãs, muito mais bagaceira e escatológico que o Cabeça Dinossauro, que trazia uma anarquia criativa mais diversificada.

O disco talvez só tenha saído assim, maravilhosamente tosco, porque não teve ninguém na orelha dos caras para dar pitaco. Liminha, o produtor do bem-sucedido Cabeça Dinossauro, desta vez estava fora. Os oito integrantes se encarregaram de produzir o disco. E o resultado são músicas como "Clitóris", uma homenagem à vagina, e "Isso para mim é perfume", cantada por Nando Reis e que fala, de uma forma singela, sobre a intimidade dos casais: "Isso para mim é perfume/ Suor, fedor/ Isso para mim é garboso/ (...)/ Cheirar sua calcinha suja na menstruação/ (...)/ Amor, eu quero te ver cagar". Muito singelo!

Mas as pérolas do disco são as terrivelmente existencialistas e egocêntricas "Eu vezes eu", com uma guitarra matadora, que duela palmo a palmo com os solos de "Polícia" e "Lugar nenhum", dois outros petardos do repertório titânico, e "Já". Cantada por Arnaldo Antunes, "Já" é uma espécie de hino dos vencidos, com uma das letras mais deprês do rock nacional, ainda que a música que a acompanha seja até que bem ligeira. Em plena Era Collor, um tempo de pouca esperança, Arnaldo pergunta: "Você já tentou varrer a areia da praia?/ Já ficou no escuro ouvindo o canto da cigarra?/ Já ficou no espelho rindo sozinho da sua cara?/ Já dormiu sem ninguém num canto de rodoviária?/ Já dormiu com alguém por migalha?".

A essas letras niilistas, contrapunham-se canções engraçadas, mesmo que o humor, nesse caso, fosse meio negro. Assim começa "Flat-cemitério-apartamento": "E se o Jóquei promovesse alguns páreos com jumentos?/ E se a Royal injetasse nos anões uma dose excessiva de fermento?/ E se as Casas da Banha abatessem alguns gordos para seu abastecimento?/ E se a Dulcora lançasse no mercado um drops diet de cimento?/ E se a Duloren anunciasse uma nova linha de calcinhas que já vêm com corrimento?".

E é bom lembrar que esse tapa na orelha foi dado no começo dos anos 1990, quando o sertanejo impregnou as rádios do país com "ai, ai, ais". Era mais um motivo para adimirar os Titãs, que produziram um fracasso comercial, mas também um disco foda de rock. A mídia, na época, disse que as letras eram nonsense, infantis. Mas, espera aí, o que os Ramones fizeram durante trinta anos? Tratados existencialistas que não foram. Desde que nasceu o rock é nonsense. E outra: não há, na discografia dos Titãs, música mais nonsense do que "Cabeça Dinossauro", que não quer dizer absolutamente nada. Mas essa a crítica adorou.

Então, quando ainda nem estava na moda ir para um sítio gravar discos, os Titãs pegaram suas guitarras e seus versos sujos e foram para uma tal de Granja Viana, em São Paulo.

E lá fizeram um verdadeiro disco de rock. Nervoso, sujo, vigoroso e desbocado. O engraçado é que, dois anos antes, os caras tinham feito um disco que ainda hoje é considerado o trabalho mais MPB da banda, seja lá o que isso quer dizer. Õ blesq blom é o disco que tem "O Pulso" e "Flores". É um bom disco, maravilhoso perto dos últimos trabalhos do grupo, mas fica no chinelo quando colocado ao lado de Jesus não tem dentes no país dos banguelas, Cabeça Dinossauro e Tudo ao mesmo tempo agora.

E logo na sequência veio Titanomaquia. Eu estava tão alucinado com a banda, que cheguei a ter três exemplares do disco, todos roubados por amigos que esqueceram de devolver. Foi quando o Arnaldo resolveu cair fora. Acho que pode ter sido o começo do fim. No entanto, ninguém me tira da cabeça que a pior coisa que aconteceu com os Titãs foi terem gravado aquele maldito acústico. Aquilo fodeu com a banda, que sentou naquele milhão de discos que vendeu e ficou parada no tempo. Depois dali, nunca mais escutei um acorde sequer relevante dos Titãs. Foi só decepção. Acho que depois que os caras gravaram aquela música ridícula dos Mamonas Assassinas, com um clipe ainda mais ridículo, o Nando Reis parou e penseu: "tá na hora de fazer música de verdade novamente". E se deu bem. Engatou uma parceria com a Cássia Eller e fez bons discos.

Agora Gavin sai da banda. É claro que os quatro que restaram podem se reunir e fazer um puta disco, como os melhores que já fizeram ― é só dar uma olhada no DVD que gravaram com os Paralamas. Mas, pelo andar da carruagem, não é isso que vai acontecer. Os Titãs parecem fadados a continuar fazendo música insossa, burocrática e modorrenta. Depois daqueles discos acústicos nunca mais comprei nada dos Titãs. Baixo, já meio desanimado, sempre que lançam novos discos. Mas acho que faço isso em respeito a uma banda que admirei. Na real, sei que o grupo não existe mais, é um simulacro do que foi. Ainda sabem agitar, fazem bons shows com o material antigo, mas quando começam a tocar músicas como "Epitáfio" e pedem que as mãozinhas da plateia balancem pra lá e pra cá, é hora de ir ao banheiro, tomar uma cerveja e ir para casa. Talvez haja até tempo para escutar Tudo ao mesmo tempo agora.


Luiz Rebinski Junior
Curitiba, 3/3/2010


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
17/2/2010
21h37min
Assino embaixo de tudo o que voce disse e disse muito bem. E reitero: "Tudo ao mesmo tempo agora" é o máximo que eles atingiram. Foram devorados, posteriormente, por bobagens. Uma pena.
[Leia outros Comentários de jardel dias cavalcan]
15/3/2010
19h10min
Honestamente, os Titãs só existiram até o início dos anos 90, quando - na minha teoria - o melhor integrante e com boa criatividade Arnaldo Antunes, recém-saído do grupo, disse, ao ser consultado sobre aquela parceria: "Vamos fazer um disco decente, memorável, antes de vocês executarem este plano maléfico de enriquecimento face a própria dignidade". Fizeram o "Titanomaquia". Após isto, sobrou apenas uma "bandinha", daquelas que topam qualquer parada, como cantar em rodeios (!), festivais medíocres, festinha de formatura (será que chegaram a este ponto?) por um punhado de dinheiro. Morreu a banda e nasceu a ganância. Mas rock mesmo, ficaram nos tão longínquos anos 80.
[Leia outros Comentários de Fábio M. Valente]
23/3/2010
17h29min
Bacana seu texto, acabei de indicá-lo no Twitter da Capitu. Só discordo que "Cabeça Dinossauro" não tenha significado. E discordo violentamente de que as músicas do Ramones sejam nonsense.
[Leia outros Comentários de Duanne Ribeiro]
22/6/2011
17h32min
Cara, até acho válido, até acho certo, ou seja, a banda decaiu bastante... mas, se pararmos pra pensar, a tendência natural do ser humano é se acalmar quando chega a uma certa idade, ou seja, depois dos 50. Eles tiveram seu tempo (com certeza pra mim a melhor banda do Brasil) e agora estão mais light, já são até avós e tal... Sou muito fã deles e sempre estarei com eles, seja em qual fase que estiverem! Abraços e legal sua crítica, mas quem é fã tem que ser até nas "sertanejas" da vida! Valeu!!
[Leia outros Comentários de Alexandre]
15/4/2015
15h36min
Rapaz, "Cabeça Dinossouro" não quer dizer nada????? O disco é recheado de crítica ao ser humano (Homem Primata, AA-UU) e você quer me dizer que "cabeça dinossauro, pança de mamute e espirito de porco" não quer dizer nada????
[Leia outros Comentários de Verme]
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