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Quarta-feira, 20/1/2010
O pior Rubem Fonseca é sempre um bom livro
Luiz Rebinski Junior

+ de 9100 Acessos

Um dos primeiros representantes da literatura urbana brasileira, José Rubem Fonseca, mais de quarenta anos depois de sua estreia literária, iniciada com Os prisioneiros (1963), ainda segue com devoção a escrita rápida, seca e recheada de violência que cunhou em seus primeiros contos.

Contista por excelência, Fonseca vem, há anos, exercitando-se no romance, gênero em que, para muitos, não consegue alcançar a mesma maestria vista em suas histórias curtas. Talvez por tanto ouvir o que já se tornou, digamos, um quase lugar-comum, o autor fez de seu novo livro, O seminarista (Agir, 2009, 184 págs.), um romance com jeitão de conto. Digo isso porque, excetuando o personagem do título, os outros personagens passam raspando pelo texto.

E, diferentemente de seus romances mais famosos, como Agosto e A grande arte, em O seminarista as imbricadas tramas cedem espaço a um personagem carismático que tem suas façanhas contadas por meio de uma prosa extremamente eficiente, que lembra, em muito, o Rubem Fonseca de contos já antológicos como "O cobrador" e "Passeio noturno I", duas de suas melhores histórias breves. As frases curtíssimas, sem muita firula, dão ao texto um tom quase jornalístico. Característica reforçada pela obsessão de Fonseca em escrever histórias com alto grau de violência, o que lhe dá, involuntariamente, é verdade, status de cronista social.

"Coloquei sob a camisa a minha Beretta com silenciador e toquei a campainha da casa do freguês. Para sorte minha quem abriu a porta foi o Papai Noel. 'Entra, entra', ele disse, 'feliz Natal!' 'Faz Ô! Ô! Ô! pra mim', pedi, enquanto constatava a berruga ao lado do nariz. 'Ô! Ô! Ô!', ele fez. Dei um tiro na sua cabeça. Sempre dou um tiro na cabeça." Esse é "O Especialista", o anti-herói da vez de Rubem Fonseca. Culto, articulado, adorador de poesia, sarcástico e falante de latim, Zé é mais um exótico matador de aluguel a entrar para a galeria de tipos do escritor ― ao lado de figuras recorrentes como o detetive Mandrake.

Ex-seminarista, Zé não se envolve com suas vítimas (a quem chama de fregueses), não acompanha a repercussão dos casos e, por isso, não lê jornal. "Gosto de ver filmes. Também gosto de ler. Principalmente poesia". Zé resolve se aposentar, abandonando a vida bandida. Apaixona-se por uma alemãzinha, mais jovem do que ele, chamada Kirsten. A mudança parece radical demais a um matador frio acostumado com garotas de programa. "Muitas pessoas devem achar estapafúrdio um sujeito que matou por encomenda uma porção de pessoas ser dominado por sentimentos dessa natureza", confidencia o matador apaixonado.

O ponto alto da história é quando Zé, pensando já estar aposentado, se vê ameaçado por um de seus contratantes, que teme sua indiscrição e planeja seu assassinato. É a volta involuntária ao mundo do crime que sustenta o romance. Ou melhor, a trama policial, nesse caso, é engolida pela personalidade do protagonista, mais interessante até do que a própria história em si, que em determinado momento fica meio nebulosa. Rubem Fonseca parece perder um pouco mão quando resolve colocar um CD com dados sigilosos de um chefão do crime no epicentro da trama, lá pro final do livro. Mas, para sorte do escritor e de seus leitores, Zé tem brilho próprio, o que garante a Fonseca a atenção do leitor até a última linha.

Assim como os bastardos de Quentin Tarantino, o matador de Rubem Fonseca sempre tem um bom motivo para apagar alguém. Pois Zé só "matava gente ruim, filhos da puta que mereciam morrer". Os traficantes, pedófilos, necrófilos e mafiosos mortos por Zé, dão-lhe uma certa aura de justiceiro, um cara que mata com bons propósitos, tendo o leitor ótimos motivos para ficar ao seu lado, torcendo por ele. Isso pode parecer um artifício meio maniqueísta e simplista (e é!), mas com Rubem Fonseca funciona. E o leitor, invariavelmente, acaba "torcendo" para que "O Especialista" vá até o fim.

O livro não vai se tornar um clássico de Fonseca, certamente. Mas ainda assim é um bom livro, escrito com muita precisão. Algumas pessoas ― principalmente os leitores de poucos romances do autor ― ficam sempre na eterna expectativa de encontrar, a cada novo livro, o Fonseca dos anos 1960, quando a crueza de sua literatura era vista como algo "inaugural", inédito mesmo. Mas, de lá pra cá, esse tipo de literatura, muito por conta do próprio Fonseca, se alastrou feito praga em nossa literatura, com resultados às vezes pouco convincentes. Ainda que o saldo da influência de Rubem Fonseca, a meu ver, seja positivo.

Então, passado o impacto inicial, o que ficou da literatura de Fonseca foi sua capacidade de criar tipos interessantes, que se destacam pelo jeito exótico de viver, cheios de manias e com uma ética muito particular. Zé, por exemplo, deixa os seus preceitos éticos evidentes em frases edificantes, como "matar passarinho é pior que matar gente", "não tenho amigos, nem quero ter" ou "não mato mulheres nem crianças". E essa capacidade do autor em criar tipos psicologicamente interessantes deve ser valorizada. Isso porque, com um Rio de Janeiro tão violento, não sei se alguém ainda se espanta com as pequenas barbaridades dos personagens de Rubem Fonseca. Talvez leitores mais desavisados e pouco habituados com a trajetória do escritor ainda vejam na violência algo de transgressor. Pode ser.

É só pensar em autores como Cormac McCarthy. A violência ali é apenas mais um ingrediente de uma prosa bem elaborada e elegante. Assim como também acontece com o sexo na literatura de Fonseca. E aí estou lembrando de contos como "AA", uma história criativa e original sobre uma associação de arremessadores de anão, que vai na contramão dos clichês que foram colados à figura de Fonseca.

Rubem Fonseca é um dos grandes da nossa literatura, não tenho dúvida. Se não fez um romance à altura de seu talento, também não fez nada que o desabone. Sempre bato na tecla de que escritores como Dalton Trevisan, João Gilberto Noll e Cony, por exemplo, dificilmente vão cometer grandes heresias, escrever livros sofríveis daqui em diante. Alguns não têm mais muito tempo para isso. Mas, sinceramente, acho que esses caras alcançaram um grau de excelência que os impedem de escrever mediocridades. Sei que parece uma tese meio conformista e perigosa. Pode até ser. Mas o fato é que a cada novo lançamento dessas figuras, mais eu acredito na minha filosofia de almanaque.

Para ir além


Luiz Rebinski Junior
Curitiba, 20/1/2010


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