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Segunda-feira, 20/3/2006
Google e o obscurantismo
Paulo Polzonoff Jr

+ de 3000 Acessos

Digo, com pessimismo e alguma rabugice, que vivemos tempos obscuros. Uma segunda Idade das Trevas, se é que não houve outras antes da Era Comum. Quando digo isso, as pessoas me olham com espanto, como se eu fosse um daqueles profetas malucos que pregam o fim do mundo. É quase isso. Tanto o meu pessimismo quanto o espanto das pessoas têm origem num ponto em comum: a idéia de que vivemos uma Era da Informação.

E nada exemplifica melhor o presente e meu prognóstico sinistro quanto o Google - a ferramenta de busca mais usada do mundo. Antes de mais nada, vale dizer que nada tenho contra a empresa. E não entro, por ora, no mérito de ações da companhia em países que exercem algum tipo de controle político sobre a internet, como a China. Tampouco dou, neste texto, vazão a teorias conspiratórias que correm por aí, segundo as quais os donos do Google, Larry Page e Sergey Brin, estariam chantageando os maiores governos do mundo com a ameaça de excluir de seus índices boa parte das informações do planeta. Reconheço que vejo na idéia um argumento para um filme de James Bond, mas é só.

Para mim, a idéia de um tempo obscurantista é tão difícil de ser assimilada simplesmente porque, bem, porque o estamos vivendo, é claro. Imagino que o homem medieval, por mais instruído que fosse, tampouco se sentisse à vontade ao ser chamado de "representante da Idade das Trevas". É muito possível, inclusive, que ficasse com raiva e batesse em sua cabeça com uma coxa de galinha ou lhe rogasse uma praga. O fato é que nutrimos um especial interesse pela época em que vivemos, e é comum que queiramos que ela seja lembrada como a melhor.

Por isso é que há tantas pessoas louvando a tal Era da Informação, da qual o Google é parte essencial. Volta e meia leio um texto, geralmente escrito por pessoa mais velha (não é muito difícil ser mais velho do que eu, mas...), dizendo que nunca o mundo viu tanto acesso a tantas fontes diversas sobre tantos assuntos. Os exemplos que se dá, nestes casos, sempre são muito bobos, ainda que - tenho de reconhecer - verdadeiros: hoje, uma edição de domingo do New York Times contém tanta informação quanto uma pessoa era capaz de obter durante toda a vida, no século XIX. Isso impressiona, eu sei.

Mas, se eu fosse você, tirava agora este sorriso do rosto. Porque este tipo de visão entusiasmada de um mundo em decadência não resiste à individualização do fenômeno. Por mais que haja informação sobre informação hoje em dia, disponível facilmente por meio de um clique, este volume todo de dados não serve de nada se, do outro lado do computador, usando o Google, não houver uma pessoa com cérebro. E é aí (aqui) que a porca torce o rabo.

Porque é visível a incapacidade das pessoas, sobretudo as mais jovens, neste quesito. Processar informações, convenhamos, nunca foi o forte do ser humano. Selecionar o que é verdade e o que é mentira, reconhecer o que é fonte segura ou não, saber o que é supérfluo e essencial, bem, nada disso o Google faz. Pelo contrário, a maior parte das informações encontradas na internet já vem mastigadinha. Aí é que mora o perigo, porque já há toda uma geração criada nas entranhas dos mecanismos de busca. E esta geração é, para ser bonzinho, limítrofe. Não precisa ser nenhum gênio para prever que uma geração criada à base de informações mastigadas crescerá viciada neste tipo de coisa. Profundidade é uma palavra que não existe para o internauta comum. E uma geração assim só será capaz de criar uma geração semelhante, se não pior.

Daí porque acho que já vivemos tempos obscuros, mas vai piorar ainda mais. Sintomáticas deste fenômeno de emburrecimento em larga escala são justamente as buscas por meio do Google. Qualquer pessoa que tenha um site pessoal ou um blog com contador pode rastrear as buscas. E não é raro se deparar com gente que pergunta ao Google, como se ele fosse um oráculo, a resposta para determinado assunto: "Onde+encontro+crítica+livro+Dom+Casmurro?", escreve uma pessoa. Não é piada. Perceba que a pessoa domina a sintaxe do Google. Sabe que o sinal de adição restringe a busca. Mesmo assim, por algum motivo esdrúxulo, crê que, do outro lado do campo de formulário, exista alguém, talvez um daqueles deuses indianos com oito braços, empregado para responder cada pergunta individualmente. E este é só um exemplo, não o menos escabroso. Há quem inicie uma procura com um protocolar "Sr. Google".

A maior parte dos usuários, porém, não comete este tipo de erro grosseiro. A nova geração sabe ir direto ao ponto. Sabe usar os sinais de restrição ou ampliação das pesquisas. Isso, contudo, não soluciona um problema: ela não sabe hierarquizar a informação. E, como está acostumada com as facilidades da internet, presume que toda a informação esteja certa. É fácil prever aonde este tipo de atitude passiva vai nos levar. Seremos, se é que já não somos, rasos, insuportavelmente superficiais. Apesar de toda a informação de que dispomos e disporemos, é provável que continuemos tão tacanhos quanto antes. Simplesmente porque o Google nos fornece o dado, mas não nos ensina a raciocinar. E, pior: ninguém parece querer aprender.

Mais uma vez, faço a ressalva: não é culpa da empresa. Aliás, não é culpa de ninguém. Estou a cada dia mais convencido de que, entre a inteligência e a burrice, o homem escolhe a burrice, sem dúvida nenhuma. Os porquês são muitos e não vou entrar no mérito. Mas, para perceber o que estou dizendo, basta prestar a atenção à sua volta: centenas de canais de TV a cabo, jornais, revistas, internet com todas as suas variantes, rádios de notícia, livros, livros e mais livros não tornaram o nosso mundo melhor, pelo contrário. Já se tornou anedota a história da pessoa que, diante de tantas possibilidades, escolheu continuar com sua rotina e assistir a todas as novelas disponíveis. Depois eu é que sou pessimista...

Ainda me lembro do tempo em que eu usava a Enciclopédia Delta Universal, uma espécie de prima-pobre da Barsa, em minhas pesquisas. Eu não sou nenhum Google, é claro, mas meu grande orgulho, quando criança, era saber encontrar o verbete exato no volume exato, sem consultar o índice. Orgulhos de criança... A enciclopédia me dava uma informação invariavelmente defasada, que eu tratava de complementar com meu raciocínio e informações adicionais, cuja pesquisa, às vezes, demorava bons dias. Mais importante do que isso, a enciclopédia me dava a possibilidade de pesquisar em fontes mais profundas, que não raro me levavam a ficar dias trancado no quarto, lendo uns livros de história com grandes colunas jônicas (ou seriam dóricas?) na capa.

Depois, mais tarde, quando passei a me interessar por mulheres, a Enciclopédia Delta Universal perdeu um pouco do seu valor. Ela não disponibilizava o verso exato que eu, porventura, quisesse escrever no bilhete, junto com as flores. Era necessário, então, ir à fonte primária. Quase sempre eu acabava gostando tanto do livro que me esquecia de que verso mesmo estava procurando. Ou, por outra, acabava encontrando mil e um versos, melhores e menos famosos, e tão inúteis quanto quaisquer outros no meu exercício tolo de conquista.

Mas já aqui me perco em reminiscências. Olhar para trás pode me fazer sorrir, mas não ameniza o veredicto: vivemos temos obscuros. E, daqui para frente, o caminho é uma ladeira só. O pior de tudo é que não haverá Gibbon capaz de contar nosso declínio e queda. Afinal de contas, com o Google, tudo estará registrado, mas não haverá pessoa capaz de entender o cruzamento de tantos resultados.


Paulo Polzonoff Jr
Rio de Janeiro, 20/3/2006


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