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Quinta-feira, 4/8/2011
As janelas de Guilherme
Elisa Andrade Buzzo

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foto: Sissy Eiko

Dia lindo. Perdizes sabe ainda nos pertencer a uma região de feições antigas sem desmerecer a labuta diária ao nos envolver no hoje desta tarde de inverno ensolarada, céu translúcido, e ainda nos remeter, numa desnecessária transição entretempos, ao seu passado de cemitérios belíssimos empinando pinheiros e ipê-rosas, prédios quase centenários como a Faculdade de Medicina e a de Saúde Pública, lugares que já frequentamos mas que a força das circunstâncias acabam deixando-os locais de passagem, apenas. É com estas tristezas e certezas que evoluímos frente à paisagem; saímos da Clínicas e resolvemos fazer o caminho a pé, por que não? E com a alegria da conversa, passamos impunes pelos vendedores de flores diante do Araçá e viramos naquele trecho da Rua Cardoso de Almeida deserto de transeuntes, tão pouco afeito à presença humana, em busca da "casa da colina".

É a casa de Guilherme de Almeida, "príncipe dos poetas", onde viveu de 1946 até sua morte, em 1969. Mais do que uma casa residencial, um museu biográfico e literário inaugurado em 1979, que no entanto passou quatro anos fechado. Após sua reforma e reabertura no final de 2010 eu aguardava o melhor momento para revê-lo - o anúncio da visita dramatizada, "Guilherme de Almeida em sua casa", na programação da "Semana Guilherme de Almeida".

Interessava-me a vida e a obra extensa daquele homem de letras, jornalismo, cinema, heráldica e tantas facetas mais, mas sobretudo interessava-me o homem que viveu naquela casa, ou melhor seria dizer a vida daquela casa na vida do homem e o conjunto que daí se pressupõe: logo na entrada, o muro baixo, o jardim simples e bem cuidado, em seu interior aqueles objetos todos, dispostos como que a espera de um toque, de um uso, da chegada do dono. E é por isso que um museu-casa não pode se furtar de sua camada de pó, de nostalgia e beleza. Não se pode tocar os objetos, não podemos sentar nas poltronas ou no canapé. Logicamente, senão o museu estaria fadado ao desastre. Os tecidos, assim como a carne, são demasiado frágeis.

De todo modo, a casa de certa forma foi condenada a... não ser mais casa, lugar de convívio íntimo, a vir a ser outra coisa que não ela própria, embora sendo nada mais do que ela mesma, revigorada, como um rosto centenário que milagrosamente não tivesse sido cortado pelo envelhecimento. Uma anomalia bela e rara. Toma-se um café, apesar da ausência do anfitrião. Agora ela é pública, aberta à visitação e aos olhares mais que indiscretos a uma vida particular que não mais existe, fora seus traços museologicamente mantidos ou montados. E, assim, a casa se mantém ereta como o estatuto de um homem. Ainda bem, caso contrário, de que outra forma nós a poderíamos conhecer? Morre uma coisa, nasce outra.

Então é um paradoxo sufocante. Talvez daí venha a sensação de desalento e admiração, solidão e acolhimento. De "devo voltar, tantas vezes for para precisar cada peça, artística ou não, deste mundo em miniatura". E quem sabe - como se de uma escavação se retirasse uma jarra toda partida em pedaços e pudéssemos iniciar a montar esse quebra-cabeças arqueológico -, a partir dos restos unidos saltasse uma imagem branda, um gesto vívido.

Embora nesta casa não se possa mais dormir, a cama não se furtou de seu espaço, o dossel ainda está lá, guardando os sonhos do poeta. A guia do pequinês anseia um passeio impossível, na sala de jantar brilham os cristais impassíveis. O tempo do carrilhão, azul e florido, não faz mais sentido. Cada peça se estende placidamente em seu lugar exato sobre a harmonia do mundo. Esculturas, óculos e terço estão dispostos ao alcance e à insensibilidade das mãos. Algumas leituras deixaram-se entreabertas, como se fosse possível retomar o fio da meada da narrativa, os outros livros da biblioteca são agora tesouros bem guardados. Expostos em vitrines estão as primeiras edições de alguns dos modernistas, como Mário de Andrade e sua Pauliceia desvairada e seu Macunaíma, Carlos Drummond de Andrade e sua Alguma poesia, Oswald de Andrade e A estrela do absinto, Graça Aranha e O espírito moderno. Assim como belos exemplares de alguns de seus próprios livros e traduções, como Nós, Rua, Poetas de França.

A casa, fadada a ser museu, é como um resumo vivo e intocável do movimento modernista brasileiro, já que Guilherme de Almeida fora um de seus mentores. Aparenta o garbo do poeta, tão cheia de importância, de obras de arte representativas das décadas de 1920 a 1940 que, com a passagem do tempo, foram adquirindo seu estatuto de valor. Fora o prazer estético. Dentre esculturas e grande número de gravuras ficamos enternecidos com a visão dos óleos "Mulata nua adormecida" (década de 40), de Di Cavalcanti, "Romance" (1925) de Tarsila do Amaral ou a singeleza dos desenhos de Annita Malfatti. Das fotos com os poetas e amigos fica o testemunho dos momentos felizes. Lá estava Mário na não menos mítica casa da Rua Lopes Chaves - será que um frequentava o outro, tão próximas e separadas por uma longa e serpentuosa estrada?

São eles, Guilherme e Baby de Almeida, sua mulher, que deveriam ser observados por nós. Porém, é o casal que nos perscruta, dependurados pelas paredes, imortalizados em espetaculares retratos de Lasar Segall, transformados eles próprios em figuras modernistas estanques, reflexivas. Baby com sua beleza singular recebeu diversos outros retratos, pelo grande Samson Flexor, Di Cavalcanti, Reis Júnior, Quirino da Silva, Anita Malfatti, Vitorio Gobbis, Wagner de Castro, Noêmia Mourão... Uma pequena foto emoldurada presa à parede me lembra a Elise McKenna, personagem do filme "Em algum lugar do passado", pela qual Richard Collier se apaixona e parte numa viagem vertiginosa no tempo. Estão todos lá, esgueirando-se na sala de estar e jantar, como uma musa espectadora estilhaçada em pedaços de cores e linhas, a franja delimitando o campo do olhar. Ou antes, me equivoco, há uma certa indiferença em seus olhares, que nos iludem com sua profundidade pictórica mentirosa. Há sempre um vidro dividindo os espaços, constituindo-se em lugar por onde ver, preservando aquilo que ainda é concreto da mera fantasia.

A cada cômodo pisamos o chão de lajotas bonitas, subimos a escadaria estreita que dá acesso à mansarda, largamos algumas células aqui e ali com displicência, com um não sei quê de desalento que uma mínima mas inexorável passagem do tempo nos incute. Reparo de início vagamente nas janelas da casa e no seu cortinado a entrever o misterioso exterior a partir do interior. "...Os caixilhos de ferro e as cortinas de chita.../ E o dia em sol maior nas pautas da persiana."

Que será aquilo que veremos através? Exatamente aquilo em que estávamos ou de onde adentramos. Entretanto, a paisagem de certo modo sofrerá um câmbio de viés vista pelo recorte que Guilherme dispunha. Haverá algo a filtrar tal enquadramento de mundo, não deixar que ele entre de chofre e fira os sentidos, antes se atenue: na sala de estar o padrão tropical de abacaxis, nos quartos aquela matéria diáfana que são as cortinas dançantes ao rumor do vento. "[...] e cortinas de tule na nossa janela.// Dentro, rendas, cristais, flores..." Já na mansarda as janelas são diminutas, mas se abrem a uma paisagem - mesmo hoje com o skyline de prédios gigantescos - larga, exuberante.

Então, sinto um alívio, há sim algo que ainda podemos fazer tal qual seus antigos donos: olhar pelas janelas. E é dessa forma que a dramatização na casa, em que Marcelo Schmidt encarna um Guilherme de Almeida atônito diante de seu futuro, começa e termina. Primeiro ele está na sala de estar, de costas para o público, mirando o exterior. Subitamente nos reconhece, embora como estranhos. Depois, a visão da rua da mansarda o leva de volta ao passado, pois se dá conta de que não pode ver o presente - seu futuro - nem participar dele, foi tudo uma espécie de sonho proporcionado por uma broma de gelosia. E quando isso é percebido, o poeta evapora-se. No limite, nós fomos um joguete de suas lembranças afundadas nos alicerces da casa, bem no momento da abertura de uma frincha, de um rasgão temporal, que nada mais é do que uma janela. A rutura que une a paisagem gasta. "Diamante. Vidraça./ Arisca áspera asa risca./ o ar. E brilha. E passa."

É com surpresa que também me vejo dentro de uma pequena vitrine de novas publicações do Centro de estudos de tradução também ali abrigado, ao me deparar com a plaquete da Oficina de tradução de poemas que participei no início de 2010. Já ao final da visita, conversas de despedida em frente à casa, agradecendo a acolhida de Karen Kipnis, posteriormente Marcelo Tápia e Cintia Andrade. Uma São Paulo generosa anoitecia diante da Rua Macapá e suas casas confortáveis salpicadas de vegetação baixa, o movimento raro. Recobrava seu espaço no horizonte uma lua rosada e cheia e, já despido do paletó, em jeans e camiseta, muito confortavelmente em seu corpo, estava o homem-ator, não mais Guilherme. Guilherme não mais existe em carne, senão nos versos, na espessura transparente das paredes de sua casa amada, na paisagem que vejo de seu quadrado de mundo, sua vidraça. Voltávamos às nossas vidas.



Nota da autora: os versos de Guilherme de Almeida citados neste texto foram retirados do informativo da "Semana Guilherme de Almeida 2011", distribuído após a visita teatralizada de 14/07/2011.


Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 4/8/2011


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