Entre o toco de lápis e o pessimismo | Daniela Sandler | Digestivo Cultural

busca | avançada
96458 visitas/dia
2,3 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Com 21 apresentações gratuitas, FLOW Literário aborda multi linguagens da literatura
>>> MASP, Osesp e B3 iniciam ciclo de concertos online e gratuitos
>>> Madeirite Rosa apresenta versão online de A Luta
>>> Zeca Camargo participa de webserie sobre produção sustentável de alimentos
>>> Valéria Chociai é uma das coautoras do novo livro Metamorfoses da Maturidade
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
>>> Pobre rua do Vale Formoso
>>> O que fazer com este corpo?
Colunistas
Últimos Posts
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
>>> Mehmari, Salmaso e Milton Nascimento
>>> Gente feliz não escreve humor?
>>> A profissão de fé de um Livreiro
>>> O ar de uma teimosia
>>> Zuza Homem de Mello no Supertônica
>>> Para Ouvir Sylvia Telles
>>> Van Halen ao vivo em 1991
Últimos Posts
>>> Janelário
>>> A vida é
>>> (...!)
>>> Notívagos
>>> Sou rosa do deserto
>>> Os Doidivanas: temporada começa com “O Protesto”
>>> Zé ninguém
>>> Também no Rio - Ao Pe. Júlio Lancellotti
>>> Sementinas
>>> Lima nova da velha fome
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A volta das revistas eletrônicas
>>> As duas divas da moderna literatura romântica
>>> Entrevista com Rogério Pereira
>>> Bafana Bafana: very good futebol e só
>>> Suspense, Crimes ... e Livros!
>>> Entrevista com Michel Laub
>>> Mensagem do Papai Noel
>>> Asia de volta ao mapa
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Se você quer ser minha namorada
Mais Recentes
>>> Administração Financeira da Família de Antonio Oliveira Tostes pela Casa Publicadora Brasileira (2004)
>>> Administração Financeira da Família de Antonio Oliveira Tostes pela Casa Publicadora Brasileira (2004)
>>> Gestão Socioambiental no Brasil de Rodrigo Berté pela Ibpex (2009)
>>> Pequenas Histórias Com Grandes Finais de Michael Garton pela Ciranda Cultural
>>> Psicoterapias: Abordagens Atuais de Aristides Volpato Cordioli e Colaboradores pela Artmed (2008)
>>> O Pensamento Vivo de Shakespeare de Martin Claret ( Coord.) pela Ediouro (2021)
>>> Cérebro de Robin Cook pela Record (1995)
>>> Coma de Robin Cook pela Record (1977)
>>> Michelângelo - Pinacoteca dos Gênios da Arte Cristã Nº1 de Caras pela Caras
>>> Fundamentos da Filosofia - Ser, Saber e Fazer de Gilberto Cotrim pela Saraiva (1999)
>>> Michelângelo - Pinacoteca dos Gênios da Arte Cristã Nº1 de Caras pela Caras
>>> A Tumba do Faraó de Eduardo Fairbairn pela Garamond (2009)
>>> Trilhas de São Paulo - Conhecer para Conservar de Secretaria do Meio Ambiente S. P. pela Sema (2008)
>>> Michelângelo - Pinacoteca dos Gênios da Arte Cristã Nº1 de Caras pela Caras
>>> Cadernos de Documentação Musical - Bento Mossurunga 1879-1970 de Ivo Lessa - Regina Wallbach pela Gonçalves (1982)
>>> Michelângelo - Pinacoteca dos Gênios da Arte Cristã Nº1 de Caras pela Caras
>>> O Poder Magnífico do Pensamento de Ricardo S. Magalhães pela Nova Luz (1997)
>>> O Poder Magnífico do Pensamento de Ricardo S. Magalhães pela Nova Luz (1997)
>>> Ídolos Ou Ideal de Humberto Rohden pela Alvorada (1983)
>>> Namoro e Virgindade de Paul-eugène Charbonneau pela Moderna (1985)
>>> Os Melhores Contos de Fernando Sabino pela Record Publishing (1986)
>>> Dórémifá da Música - Caderno Nº 3 de Jacqueline Ondina T. S. Magalhãeseylen pela Cultura Musical
>>> Perguntas e Respostas Sobre Teoria Musical de Ondina T. S. Magalhães pela Cultura Musical
>>> Educação Musical: Conceitos e Preconceitos de Raimundo Martins pela Funarte (1985)
>>> Os Maias - Série Ouro de Eça de Queirós pela Martin Claret
COLUNAS

Quarta-feira, 27/10/2004
Entre o toco de lápis e o pessimismo
Daniela Sandler

+ de 3900 Acessos

Naquele Exato Momento, de Dino Buzzati, abarca o leitor com seu pessimismo quase sem saída. Os textos do escritor italiano oferecem pouco refresco dos males do mundo, da morte inevitável, dos sofrimentos internos. O fato de o livro, publicado originalmente na Itália em 1950 (no Brasil em 1963, e relançado agora pela Nova Fronteira), ser uma coleção de notas, contos curtos e divagações - de tom pessoal e livre como um diário - sugere que o pessimismo, longe de afetação literária, tomava conta do espírito mesmo do autor. O que nos diz, no entanto, o tom sufocante e inescapável desses escritos marcados pela experiência da guerra e da reconstrução de uma terra em ruína?

É preciso primeiro notar que a visão negativa de Buzzati antecede a guerra. Palpável na atmosfera fantástica e fabular de seus primeiros romances, como Barnabó delle montagne (1933) e O Deserto dos Tártaros (escrito em 1939, publicado no ano seguinte), o gosto pelo sombrio levou críticos a chamar Buzzati de gótico e a notar paralelos com sua biografia. Desde 1928, Buzzati trabalhava para o jornal milanês Corriere della Sera, que descrevia como opressivo e entediante, tanto pelas instalações esquálidas como pela rotina longa e repetitiva. Pessimista já aos 14 anos, quando o pai morreu de câncer de pâncreas, Buzzati passou a temer a mesma doença - que viria mesmo matá-lo em 1972.

Assim, mesmo que muitos dos textos de Naquele Exato Momento revelem a tristeza, destruição e depauperamento da Segunda Guerra Mundial, o fatalismo e desânimo extrapolam as circunstâncias históricas e se transformam em máximas sobre a vida, sobre ética, sobre paixões e solidão. Talvez por isso mesmo a presença da guerra seja enviesada, com poucas menções a fatos e locais precisos. Alguns títulos dão datas sugestivas, como "Trombeta 1944" ou "Abril de 1945" (esse, mais explícito, cita o fim da guerra na Europa). Tendo em mente o conflito na Itália e a experiência do autor como correspondente de guerra a partir de 1940, é possível dar contornos específicos a textos como "Não Somos Mais Jovens" ou "A Agenda", em que Buzzati destila um tema típico: o da irreversível, e destruidora, passagem do tempo. "A Agenda" conclui com a frase: "Depois de um terror vem outro, exatamente como uma folha sob outra folha, em vão as arrancamos, sempre encontramos outra e a última se chama morte". A vida é uma sucessão de horrores, e os momentos de prazer ou alegria são vácuos e fugazes. É fácil entender essa atitude depois de cinco anos de bombas, violência e mortes, em que o luto por perdas pessoais se mistura à sensação mais geral de perda da juventude, de anos roubados, da própria ruína precoce.

Morte inevitável, solidão e esquecimento

Mas mesmo anos depois da guerra, como em "O Livro Proibido", Buzzati repete a imagem da vida como um ciclo repetido e vão, em que os jovens se entregam com ardor e ilusão à busca da felicidade, mas acabam inevitavelmente esgotados e, enfim, mortos. Uma perspectiva mais otimista, como em filosofias orientais, poderia ver nessa repetição cíclica uma renovação permanente da vida em que as materializações individuais não importam. Mas Buzzati, tributário do individualismo heróico do Modernismo (e, em certa medida, do Romantismo), vê no ciclo o esforço inútil de cada homem. A derrota final e certeira da morte parece anular a felicidade. Não à toa, outro dos temas constantes de Buzzati é a solidão: o indivíduo trancado em si, incomunicável, abandonado ou ele mesmo se esquecendo de outros. Mesmo nos textos em que Buzzati se dedica à crítica social, como em "Os Mendigos", o enfoque é de cunho emocional e subjetivo, mais do que sócio-econômico.

Se às vezes o pessimismo do livro pesa demais e toma todo o espaço, há momentos de prosa belíssima, encantadora, em que as visões surreais do escritor, combinadas ao ritmo singular e à semântica original do texto, tomam corpo e comovem não só como peças literárias, mas também como percepções profundas sobre a vida - como em "Inveja dos que Estão Veraneando". O registro fantástico, aliás, não significa irrealismo. Denota, ao contrário, a apreensão de estados emocionais, e a elaboração figurada (às vezes esquematizada, às vezes sugestiva) de condições reais. Buzzati assume sua intenção ao final do livro, em "O sentido oculto": "É evidente que nessas palavras há um símbolo, um significado oculto, um duplo sentido, como quiserem".

Insistência na escrita

Embrenhar-se pelos textos de Naquele exato momento é muitas vezes aprisionar-se num mundo sem esperança, em que a traição à felicidade e a destruição são as únicas constantes. A seqüência dos textos freqüentemente soa monótona, como se o livro encarnasse o próprio ciclo repetitivo de vida e morte. Sim, a lucidez diante da destrutividade e da fragilidade humanas, e as lições da guerra, são um legado crucial. Mas, se esgotadas em si mesmas em lamentos contínuos, não levam adiante. O pessimismo de Buzzati arrisca se perder em melancolia sem fim, em vez de se transformar em luto produtivo.

No entanto, cá e lá durante a leitura, abre-se a possibilidade do novo, seja em insights, seja em prazer estético, seja em resquícios de esperança. De outro modo, como entender o texto final, em que, depois de enumerar a perda de todos os seus instrumentos e suportes para a escrita (a datilógrafa casou, o amigo sumiu com a máquina de escrever, a caneta estilográfica quebrou, a caneta tinteiro se perdeu), Buzzati conclui, em tom confessional, quase cândido: "Por isso escrevo com o lápis. Realmente um toco, que encontrei por acaso numa velha caixa. Fiz-lhe a ponta, meus amigos, e no pouco papel branco que resta esta noite eu escrevo". Escrever é um ato de resistência, um imperativo, uma libertação - tanto para o escritor que insiste no toco de lápis, como para os "amigos" a quem ele dedica a nota. A mesma atitude, aliás, do fim da vida, em que Buzzati continuou escrevendo em seu diário até poucos dias antes de morrer. Há esperança, há saída para o pessimismo, ainda que seja apenas o conforto e a empatia entre o autor e seu público, unidos por um punhado pungente de palavras.

Para ir além






Daniela Sandler
Riverside, 27/10/2004


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O papel aceita tudo de Jardel Dias Cavalcanti
02. De louco todos temos um pouco de Cassionei Niches Petry
03. A Mão Invisível de Marilia Mota Silva
04. Quando amor e terra quase se confundem de Elisa Andrade Buzzo
05. As histórias magras de Rubem Fonseca de Cassionei Niches Petry


Mais Daniela Sandler
Mais Acessadas de Daniela Sandler em 2004
01. Olá, Lênin! - 10/3/2004
02. Brasil em alemão - 7/7/2004
03. Muros em Berlim, quinze anos depois - 24/11/2004
04. Dia D, lembrança e esquecimento - 9/6/2004
05. Fritas acompanham? - 18/8/2004


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Dois Amigos e um Chato - Col. Veredas
Stanislaw Ponte Preta
Moderna
(1993)
R$ 7,00



Curso Preparatório De Espiritismo - 21a Edição
Federação Espírita do Estado de São Paulo
Edições Feesp
(2004)
R$ 6,90



Tabacaria Revista de Poesia e Artes Plásticas N. 8 Revista de Poesi...
Diversos Autores
Contexto
(1999)
R$ 22,66



A Rua das Ilusões Perdidas
John Steinbeck
Riográfica
(1986)
R$ 5,00



Os Signos e a Sorte
Regina Obata
Circulo do Livro
(1990)
R$ 5,00



O Ato Conjugal (1ª ed.)
Tim e Beverly LaHaye
Betânia
(1979)
R$ 10,75



O Júri
John Grisham
Rocco
(1998)
R$ 25,00



Visita à Roma Antiga
Olavo Leonel Ferreira
Moderna
(1993)
R$ 7,00



A Nostálgica e Outros Contos
Alexandros Papadiamantis
Hedra
(2010)
R$ 20,00



Dom Casmurro
Machado de Assis
Avenida
(2012)
R$ 10,00





busca | avançada
96458 visitas/dia
2,3 milhões/mês