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Quarta-feira, 27/10/2004
Entre o toco de lápis e o pessimismo
Daniela Sandler

+ de 4000 Acessos

Naquele Exato Momento, de Dino Buzzati, abarca o leitor com seu pessimismo quase sem saída. Os textos do escritor italiano oferecem pouco refresco dos males do mundo, da morte inevitável, dos sofrimentos internos. O fato de o livro, publicado originalmente na Itália em 1950 (no Brasil em 1963, e relançado agora pela Nova Fronteira), ser uma coleção de notas, contos curtos e divagações - de tom pessoal e livre como um diário - sugere que o pessimismo, longe de afetação literária, tomava conta do espírito mesmo do autor. O que nos diz, no entanto, o tom sufocante e inescapável desses escritos marcados pela experiência da guerra e da reconstrução de uma terra em ruína?

É preciso primeiro notar que a visão negativa de Buzzati antecede a guerra. Palpável na atmosfera fantástica e fabular de seus primeiros romances, como Barnabó delle montagne (1933) e O Deserto dos Tártaros (escrito em 1939, publicado no ano seguinte), o gosto pelo sombrio levou críticos a chamar Buzzati de gótico e a notar paralelos com sua biografia. Desde 1928, Buzzati trabalhava para o jornal milanês Corriere della Sera, que descrevia como opressivo e entediante, tanto pelas instalações esquálidas como pela rotina longa e repetitiva. Pessimista já aos 14 anos, quando o pai morreu de câncer de pâncreas, Buzzati passou a temer a mesma doença - que viria mesmo matá-lo em 1972.

Assim, mesmo que muitos dos textos de Naquele Exato Momento revelem a tristeza, destruição e depauperamento da Segunda Guerra Mundial, o fatalismo e desânimo extrapolam as circunstâncias históricas e se transformam em máximas sobre a vida, sobre ética, sobre paixões e solidão. Talvez por isso mesmo a presença da guerra seja enviesada, com poucas menções a fatos e locais precisos. Alguns títulos dão datas sugestivas, como "Trombeta 1944" ou "Abril de 1945" (esse, mais explícito, cita o fim da guerra na Europa). Tendo em mente o conflito na Itália e a experiência do autor como correspondente de guerra a partir de 1940, é possível dar contornos específicos a textos como "Não Somos Mais Jovens" ou "A Agenda", em que Buzzati destila um tema típico: o da irreversível, e destruidora, passagem do tempo. "A Agenda" conclui com a frase: "Depois de um terror vem outro, exatamente como uma folha sob outra folha, em vão as arrancamos, sempre encontramos outra e a última se chama morte". A vida é uma sucessão de horrores, e os momentos de prazer ou alegria são vácuos e fugazes. É fácil entender essa atitude depois de cinco anos de bombas, violência e mortes, em que o luto por perdas pessoais se mistura à sensação mais geral de perda da juventude, de anos roubados, da própria ruína precoce.

Morte inevitável, solidão e esquecimento

Mas mesmo anos depois da guerra, como em "O Livro Proibido", Buzzati repete a imagem da vida como um ciclo repetido e vão, em que os jovens se entregam com ardor e ilusão à busca da felicidade, mas acabam inevitavelmente esgotados e, enfim, mortos. Uma perspectiva mais otimista, como em filosofias orientais, poderia ver nessa repetição cíclica uma renovação permanente da vida em que as materializações individuais não importam. Mas Buzzati, tributário do individualismo heróico do Modernismo (e, em certa medida, do Romantismo), vê no ciclo o esforço inútil de cada homem. A derrota final e certeira da morte parece anular a felicidade. Não à toa, outro dos temas constantes de Buzzati é a solidão: o indivíduo trancado em si, incomunicável, abandonado ou ele mesmo se esquecendo de outros. Mesmo nos textos em que Buzzati se dedica à crítica social, como em "Os Mendigos", o enfoque é de cunho emocional e subjetivo, mais do que sócio-econômico.

Se às vezes o pessimismo do livro pesa demais e toma todo o espaço, há momentos de prosa belíssima, encantadora, em que as visões surreais do escritor, combinadas ao ritmo singular e à semântica original do texto, tomam corpo e comovem não só como peças literárias, mas também como percepções profundas sobre a vida - como em "Inveja dos que Estão Veraneando". O registro fantástico, aliás, não significa irrealismo. Denota, ao contrário, a apreensão de estados emocionais, e a elaboração figurada (às vezes esquematizada, às vezes sugestiva) de condições reais. Buzzati assume sua intenção ao final do livro, em "O sentido oculto": "É evidente que nessas palavras há um símbolo, um significado oculto, um duplo sentido, como quiserem".

Insistência na escrita

Embrenhar-se pelos textos de Naquele exato momento é muitas vezes aprisionar-se num mundo sem esperança, em que a traição à felicidade e a destruição são as únicas constantes. A seqüência dos textos freqüentemente soa monótona, como se o livro encarnasse o próprio ciclo repetitivo de vida e morte. Sim, a lucidez diante da destrutividade e da fragilidade humanas, e as lições da guerra, são um legado crucial. Mas, se esgotadas em si mesmas em lamentos contínuos, não levam adiante. O pessimismo de Buzzati arrisca se perder em melancolia sem fim, em vez de se transformar em luto produtivo.

No entanto, cá e lá durante a leitura, abre-se a possibilidade do novo, seja em insights, seja em prazer estético, seja em resquícios de esperança. De outro modo, como entender o texto final, em que, depois de enumerar a perda de todos os seus instrumentos e suportes para a escrita (a datilógrafa casou, o amigo sumiu com a máquina de escrever, a caneta estilográfica quebrou, a caneta tinteiro se perdeu), Buzzati conclui, em tom confessional, quase cândido: "Por isso escrevo com o lápis. Realmente um toco, que encontrei por acaso numa velha caixa. Fiz-lhe a ponta, meus amigos, e no pouco papel branco que resta esta noite eu escrevo". Escrever é um ato de resistência, um imperativo, uma libertação - tanto para o escritor que insiste no toco de lápis, como para os "amigos" a quem ele dedica a nota. A mesma atitude, aliás, do fim da vida, em que Buzzati continuou escrevendo em seu diário até poucos dias antes de morrer. Há esperança, há saída para o pessimismo, ainda que seja apenas o conforto e a empatia entre o autor e seu público, unidos por um punhado pungente de palavras.

Para ir além






Daniela Sandler
Riverside, 27/10/2004


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