O Nome Dele | Marilia Mota Silva | Digestivo Cultural

busca | avançada
82559 visitas/dia
2,4 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Sugestão de pauta - Lançamento 'Presenças' de Millo Ribeiro
>>> Projeto 8x Hilda reúne obra teatral de Hilda Hilst em ciclo de leituras online
>>> Afrofuturismo: Lideranças de de Angola, Cabo Verde e Moçambique debatem ecossistemas de inovação
>>> Ibraíma Dafonte Tavares desvenda preparação e revisão de texto
>>> O legado de Roberto Burle Marx é tema de encontro online
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
>>> Pobre rua do Vale Formoso
>>> O que fazer com este corpo?
>>> Jogando com Cortázar
>>> Os defeitos meus
>>> Confissões pandêmicas
>>> Na translucidez à nossa frente
Colunistas
Últimos Posts
>>> Mehmari, Salmaso e Milton Nascimento
>>> Gente feliz não escreve humor?
>>> A profissão de fé de um Livreiro
>>> O ar de uma teimosia
>>> Zuza Homem de Mello no Supertônica
>>> Para Ouvir Sylvia Telles
>>> Van Halen ao vivo em 1991
>>> Metallica tocando Van Halen
>>> Van Halen ao vivo em 2015
>>> Van Halen ao vivo em 1984
Últimos Posts
>>> Kate Dias vive Campesina em “Elise
>>> Editora Sinna lança “Ninha, a Bolachinha”
>>> “Elise”: Lara Oliver representa Bernardina
>>> Tonus cristal
>>> Meu avô
>>> Um instante no tempo
>>> Salvem à Família
>>> Jesus de Nazaré
>>> Um ato de amor para quem fica 2020 X 2021
>>> Os preparativos para a popular Festa de Réveillon
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Poesia em Xadrez, BH
>>> O filósofo da contracultura
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> 1984, de George Orwell, com Fromm, Pimlott e Pynchon
>>> Hora de parar... ou de voltar!
>>> Do Comércio Com Os Livros
>>> Em Londres, à caça do mito elementar
>>> A poética anárquica de Paulo Leminski
>>> Sem nada para ler
>>> Uma História do Mercado Livre
Mais Recentes
>>> Férias, amor e chocolate quente de Patrícia Barboza pela Verus (2017)
>>> Quase Santo de Anne Tyler pela Companhia das Letras (1992)
>>> Preparacion de motores para auto de competicion de Federico Kirbus pela Federal-Mogul (1974)
>>> Introdução ao novo testamento de Raymond E. Brown pela Paulinas (2004)
>>> Você Sabe Estudar? de Claudio de Moura Castro pela Penso Editora Ltda
>>> Você sabe conversar? de Pedro Bloch pela Revinter (2003)
>>> O Mestre e o Herói de Domingos Pellegrini pela Moderna (2006)
>>> Escola estadual especial Renascença: Cinquenta anos de história (1956-2006) de WS editor pela WS editor (2006)
>>> Contra a Maré Vermelha de Rodrigo Constantino pela Editora Record
>>> Missão como com-paixão de Roberto E. Zwetsch pela Sinodal (2008)
>>> História das ideias pedagógicas de Moacir Gadotti pela Ática (2005)
>>> A Irmã de Freud de Goce Smilevski pela Editora Bertrand Brasil Ltda
>>> Os Des Mandamentos (+1) de Luiz Felipe Pondé pela Três estrelas
>>> Meu Colóquio Litúrgico Com Deus Vol 3 - A Liturgia Contemplada de Dom Dadeus Grings pela Evangraf (2008)
>>> O livro de Marina: a formiguinha que se enamorou do sol de Adelino Gabriel Pilonetto pela ESTEF (2018)
>>> Monsignor Luigi Talamoni: Tutto è nulla se non è nell'amore di Dio de Cristina Siccardi pela San Paolo (2004)
>>> Farewell de Carlos Drummond de Andrade pela Record (1996)
>>> Tristão e Isolda - O Mito da Paixão de Maria Nazareth Alvim de Barros pela Mercuryo (1996)
>>> Apostila manual de peças e serviços Faet de Parcelias pela Parcelias (2006)
>>> Apostila Parâmetros Curriculares Nacionais. História - Geografia. de Ministério da Educação pela Mec (1997)
>>> Soul Mates: Honoring the Mysteries of Love and Relationship de Thomas Moore pela Harper Collins (1998)
>>> Apostila "A mais nova maneira de trabalhar em casa" de Vários pela Herba (2006)
>>> Apostila Sebrae "As relações Humanas no trabalho" de Sarah Araújo da Silva pela Sebrae (2001)
>>> Ciências Para Nosso Tempo 9° Ano de Washington Carvalho - João Alves - Laércio Caetano. pela Positivo (2011)
>>> Puer Aeternus: a Luta do Adulto Contra o Paraíso da Infância de Marie-Louise von Franz pela Paulinas (1992)
>>> A Era da Manipulação de Wilson Bryan Key pela Scritta (1993)
>>> Revista a Bíblia no Brasil n°257 ano 69 de Vários pela Sbb (2018)
>>> Relações humanas na família e no trabalho de Pierre Weil pela Vozes (1992)
>>> Alter Ego+ A1 - Cahier d'activités de Annie Berthet, Emmanuelle Daill, Catherine Hugot e Monique Waendedries pela Hachette (2015)
>>> Educar para um outro mundo possível de Moacir Gadotti pela Publisher (2007)
>>> Contabilidade 3D - questões comentadas FCC + teoria sintetizada de Sérgio Adriano pela Método (2012)
>>> Planejar gêneros acadêmicos de Anna Rachel Machado (coordenadora) pela Parábola (2009)
>>> Resumo de Anna Rachel Machado (coordenadora) pela Parábola (2010)
>>> Mobile A1 - Méthode de Français, com DVD de Alice Reboul, Anne-Charlotte Boulinguez e Géraldine Fouquet pela Didier (2013)
>>> Mobile A2 - Méthode de Français, com DVD de Laurence Alemanni e Caherine Girodet pela Didier (2012)
>>> A árvore do conhecimento de Humberto R. Maturana, Francisco J Varela pela Palas Athena (2001)
>>> Crer depois de Freud de Carlos Domínguez Morano pela Loyola (2003)
>>> O poder latente da alma de Watchaman nee pela Publicações pão diario (2019)
>>> A dispensacao do mistério de T. austin-Spacks pela Phileo (2015)
>>> Ainda existe Esperança. Solução para os problemas da vida. de Enrique Chaij pela Casa Publicadora Brasileira (2010)
>>> Reimaginando a igreja de Frank viola pela Palavra (2009)
>>> Coleção 70° Aniversário da II Guerra Mundial, volume 22, com CD de Abril coleções pela Abril (2009)
>>> Coleção 70° Aniversário da II Guerra Mundial, volume 20, com CD de Abril coleções pela Abril (2009)
>>> Coleção 70° Aniversário da II Guerra Mundial, volume 19, com CD de Abril coleções pela Abril (2009)
>>> Coleção 70° Aniversário da II Guerra Mundial, volume 18, com CD de Abril coleções pela Abril (2009)
>>> Da eternidade até aqui de Frank viola pela Palavra (2011)
>>> Coleção 70° Aniversário da II Guerra Mundial, volume 17, com CD de Abril coleções pela Abril (2009)
>>> Coleção 70° Aniversário da II Guerra Mundial, volume 16, com CD de Abril coleções pela Abril (2009)
>>> Coleção 70° Aniversário da II Guerra Mundial, volume 15, com CD de Abril coleções pela Abril (2009)
>>> Coleção 70° Aniversário da II Guerra Mundial, volume 12, com CD de Abril coleções pela Abril (2009)
COLUNAS

Quarta-feira, 7/8/2013
O Nome Dele
Marilia Mota Silva

+ de 4000 Acessos

Antes de entrar na escola, na horinha descansada das tardes, eu ouvia novelas de rádio com minha mãe. Ela pegava o crochê ou o bordado, acomodava-se na poltrona junto ao rádio, e eu ficava por perto, em silêncio reverente.

Não me lembro até que ponto eu entendia as histórias. Lembro-me de fragmentos, o rincho do pneu na estrada, o acidente, o barulho do vento nas árvores, a voz grave-poderosa-ardente do mocinho, a mocinha meiga-frágil-delicada, cenas que a imaginação pintava.

Uma vez, uma frase me chamou a atenção. Era um homem ultrajado que brigava com a mocinha, ameaçava tornar a vida dela um inferno, logo ela, tão doce e vulnerável. Ele se exaltava:

"Você não tinha o direito! Não podia fazer isso comigo! Eu lhe dei o meu nome!" Acordes cheios, descendentes, tchan, tchan, tchan! Era grave!

No intervalo perguntei a minha mãe:

"Ele disse que deu o quê pra ela? O nome?"

"Foi."

"Mas ela não tinha nome antes? Como que falavam com ela? Ô, menina?"

" Ele deu o sobrenome dele para ela, o nome da família".

"Ela não tinha um?"

"Tinha, claro, todo mundo tem."

"Então pra que ele deu? Se era pra ficar bravo desse jeito!"

"Porque é assim que é. Quando a mulher se casa, o marido dá o nome dele pra ela."

"Pra depois gritar com ela?"

"Para mostrar que eles são uma família, são casados para sempre".

A coisa não fazia sentido.

"Você ainda é pequena, quando for mais velha, vai entender melhor."

Aos seis anos, já ia longa a lista do que eu só entenderia quando fosse mais velha.

Uns quinze anos depois, terminada a faculdade, vou ao cartório com meu futuro marido para dar entrada nos papéis de casamento.

Uma funcionária cansada, que mal se distinguia dos arquivos cinza e papéis amarelados, pôs-se a preencher o formulário: nome, filiação, endereço.

"E a noiva passa a se chamar?"

"Marilia Mota Silva".

"Esse é seu nome agora. Estou perguntando como você vai se chamar depois de casada!"

" O mesmo. Não vou mudar."

"Tem que mudar, está na lei."

"Se tiver que mudar, não caso."

Ela me fincou uns olhos que as lentes aumentavam como se quisesse me intimidar. Levantou-se, empurrando a cadeira e sumiu atrás de um biombo. Voltou acompanhada de dois funcionários.

"Vou ter que mandar seu caso ao juiz. Se ele não autorizar, não tem casamento."

"Não tem mesmo."

"Silva ainda por cima! Se fosse um Matarazzo"! Virou-se para meu futuro marido, uma sobrancelha levantada, com descaso:

- Está começando bem, hem, meu filho?

Ele sorriu com cara de coitadinho,mas estava se divertindo (foi o que me disse). Eram os anos 70, e queríamos mudar o mundo.

Demorou alguns dias e o juiz assinou meu requerimento, sem problema. Cada vez que tive que preencher formulário, fazer documentos, cumprir a burocracia que nos persegue sempre, onde quer que se vá, me congratulei pela decisão tomada. Fez bem à minha alma e simplificou minha vida.

O tempo passou, o Código Civil foi atualizado e hoje trocar de nome depende do gosto de cada um. Não há pressão social para que se mantenha a tradição patriarcal, embora para os filhos prevaleça, sem questionamento, o nome do pai.

`Nos EUA o patriarcalismo que se manifesta nesse aspecto é mais aferrado, mais inflexível. Aqui a criança recebe apenas o sobrenome do pai. Quando uma pessoa tem três nomes, o segundo é nome próprio também. A criança não recebe nenhum nome da mãe e a jovem, quando se casa, passa a assinar apenas o nome do marido. Quase sempre ela faz isso toda saltitante, ansiosa para entregar a própria coleira ao novo dono. Essa é a impressão de quem vê de fora, mas não é tão simples. A mulher americana, em geral, é forte, corajosa e sabe se fazer respeitar. No entanto obedece a esse paradigma sexista. Tento entender.

A tradição - que vem do tempo em que a mulher passava da propriedade do pai para a propriedade do marido - reza que cada família tenha apenas um nome - o do marido, claro. Os Silva, Os Stratton.

Muitas mulheres dizem que preferem seguir a tradição para evitar o aborrecimento de ter que dar explicações, constantemente, sobre o fato de ter nome diferente do marido e dos filhos. A mulher que não muda sua identidade em benefício da família é vista com maus olhos, é considerada má esposa.

Outras trocam o nome de bom grado: "Fiz questão de mudar meu nome, sempre quis fazer isso desde pequena", disse uma das amigas da minha filha.

"Casamento é uma fusão, é uma nova unidade que se forma, e a mulher abandona seu nome em beneficio da nova unidade familiar," ela recitou.

Mas ninguém pediria aos homens para mudar de identidade.

"Minha identidade não muda nada só por causa de um simples nome."

A personalidade, o caráter, talvez não, mas identidade é outra coisa: é a forma como você é identificada. O nome que consta nos documentos, nos cartões de crédito, compromissos financeiros, na vida profissional.

A média da idade em que as pessoas se casam tem subido. Quando se casa, normalmente a mulher já construiu uma carreira. Especialmente se está na vida acadêmica, ou é cientista, advogada, jornalista, ela já fez um nome, tem trabalhos publicados, já construiu uma reputação. É admirável que ela se disponha a enfrentar as tremendas complicações da mudança de nome apenas para ter o mesmo sobrenome do marido e dos futuros filhos.

Trata-se de uma norma cultural poderosa. E patriarcal, sexista, retrógrada. Reafirma a desigualdade. Não combina com uma sociedade que se pretende moderna e democrática.

A menina aprende, desde pequena, que o nome dela é provisório, vale quase nada, assim como o de sua mãe, que desapareceu quando ela se casou. Os meninos assimilam a mesma noção: a mulher vale menos.

O nome do menino é permanente, tem lastro, tem história e tem futuro. Vem do pai, do avô, e cabe a ele perpetuar a linhagem dos homens da casa.

Dessa maneira (e de muitas outras de que sequer nos damos conta), meninos aprendem que eles prevalecem, eles importam, eles fazem diferença, e as meninas aprendem a mesma coisa: que os meninos prevalecem, são superiores, tem história, tem importância, e elas não.

Quando uma pessoa reconhece a superioridade da outra, está reconhecendo a própria inferioridade e sua autoestima, sua dignidade sofrem. E dão lugar a um certo ressentimento também.

Com alguma frequência, a mídia explora o fato de, mesmo depois de tantos anos de luta pela igualdade, as mulheres raramente ocuparem postos de comando. Especulam sobre características do gênero: as mulheres não se interessariam pelo poder, não se sentiriam bem em postos de comando. Me parece que, em parte pelo menos, a resposta é simples: Nossa autoestima ainda é baixa. A percepção que temos de nós mesmas e dos homens ainda nos situa em posição de inferioridade. E tudo conspira para perpetuar isso. Basta olhar as revistas femininas, a forma como a mulher é tratada na mídia, como ela se vê, os sacrifícios que faz para ser um produto consumível. E mal nos damos conta disso.


Marilia Mota Silva
Washington, 7/8/2013


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Bruta manutenção urbana de Elisa Andrade Buzzo
02. Hitler e outros autores de Marta Barcellos
03. O Subjuntivo Subiu no Telhado de Marilia Mota Silva
04. A violência do silêncio de Carina Destempero
05. Margarida e Antônio, Sueli e Israel de Duanne Ribeiro


Mais Marilia Mota Silva
Mais Acessadas de Marilia Mota Silva em 2013
01. Amor (in)Condicional - 5/6/2013
02. Quatro autores e um sentimento do mundo - 10/4/2013
03. O Precioso Livro da Miriam - 20/2/2013
04. De olho em você - 1/5/2013
05. O Nome Dele - 7/8/2013


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Fios do Destino determinam a Vida Humana
Roselis Von SaSS
Graal na Terra
(1997)
R$ 5,00



Russell
C. W. Kilmister
Fondo de Cultura Económica
(1992)
R$ 7,20



Enciclopédia do Futebol
Amir Mattos
Leitura
(2002)
R$ 7,00



Pesquisa Avaliativa: Aspectos Teóricos-metodológicos - 2ª Edição
Maria Ozanira da Silva e Silva
Veras
(2013)
R$ 58,95



Alto Risco Em Neonatologia
Klaus e Fanaroff
Guanabara Koogan
(1995)
R$ 9,00



As Maravilhas da Infância - o Reino da Criança - Vol. 1
A. Lopes - Editor
A. Lopes
R$ 6,99



Problemas Conceituais de Física Para o Ensino Médio
Gaspar, Alberto
Livraria da Física
(2016)
R$ 80,00



Pão Diário uma Meditação para Cada Dia do Ano Vol 19
Dave Branon Anne M. Cetas et Al...
Pão Diário
(2016)
R$ 10,00



Porque Você é Minha
Beth Kery; Carolina Caires Coelho;
Paralela
(2013)
R$ 15,00



Trends and Cycles in Economic Activity
William Fellner (capa Dura)
Henry Holt and Company (ny)
(1956)
R$ 26,28





busca | avançada
82559 visitas/dia
2,4 milhões/mês