O ponto final da escrita cursiva | Vicente Escudero | Digestivo Cultural

busca | avançada
92061 visitas/dia
2,2 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Sesc 24 de Maio apresenta programação de mágica para toda família
>>> Videoaulas On Demand abordam as relações do Homem com a natureza e a imagem
>>> Irene Ravache & Alma Despejada na programação online do Instituto Usiminas
>>> Zé Guilherme canta Orlando Silva em show no YouTube no dia 26 de setembro
>>> Setembro Amarelo é tema de EntreMeios especial com Zé Guilherme e Leliane Moreira
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A pintura do caos, de Kate Manhães
>>> Nem morta!
>>> O pai tá on: um ano de paternidade
>>> Prêmio Nobel de Literatura para um brasileiro - I
>>> Contentamento descontente: Niketche e poligamia
>>> Cinemateca, Cinemateca Brasileira nossa
>>> A desgraça de ser escritor
>>> Um nu “escandaloso” de Eduardo Sívori
>>> Um grande romance para leitores de... poesia
>>> Filmes de guerra, de outro jeito
Colunistas
Últimos Posts
>>> Sebo de Livros do Seu Odilon
>>> Sucharita Kodali no Fórum 2020
>>> Leitura e livros em pauta
>>> Soul Bossa Nova
>>> Andreessen Horowitz e o futuro dos Marketplaces
>>> Clair de lune, de Debussy, por Lang Lang
>>> Reid Hoffman sobre Marketplaces
>>> Frederico Trajano sobre a retomada
>>> Stock Pickers ao vivo na Expert 2020
>>> Rodrigo Gurgel entrevista Yuri Vieira
Últimos Posts
>>> Três tempos
>>> Matéria subtil
>>> Poder & Tensão
>>> Deu branco
>>> Entre o corpo e a alma
>>> Amuleto
>>> Caracóis me mordam
>>> Nome borrado
>>> De Corpo e alma
>>> Lamentável lamento
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Das Kunstwerk der Zukunft
>>> É Julio mesmo, sem acento
>>> O paraíso de Henry Miller
>>> Band On The Run
>>> Linguagem, Espaço, Máquina
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> É Julio mesmo, sem acento
>>> A arte como destino do ser
>>> A indigência do rock e a volta dos dinossauros
>>> 16 de Maio #digestivo10anos
Mais Recentes
>>> A sombra do poder: Martinho de Melo e Castro e a administração da Capitania De Minas Gerais (1770-1795) de Virgínia Maria Trindade Valadares pela Hucitec
>>> A Revolta da Vacina de Sevcenko, Nicolau pela UNESP
>>> A quebra da mola real das sociedades: A crise política do antigo regime Português na província do Grão-Pará (1821-1825) de André Roberto Arruda Machado pela Hucitec
>>> A paz das senzalas: Famílias Escravas e Tráfico Atlântico C.1790- C.1850 de Florentino, Manolo pela UNESP
>>> A outra Independência: O Federalismo Pernambucano de 1817 a 1824 de Mello, Evaldo Cabral de pela 34
>>> A História do Brazil de Frei Vicente do Salvador. História e Política no Império Português do Século XVII de Maria Lêda Oliveira pela Versal
>>> A experiência do tempo: Conceitos e narrativas na formação nacional brasileira (1831-1845) de Araújo, Valdei Lopes de pela Hucitec
>>> A Educação Pela Noite de Antônio Candido pela Ouro sobre Azul
>>> A Diplomacia na Construção do Brasil. 1750-2016 de Rubens Ricupero pela Versal
>>> A Corte na Aldeia de Vários Autores pela Verbo
>>> A Companhia de Jesus na América por Seus Colégios e Fazendas de Márcia Amantino and Carlos Engemann pela Garamond Universitaria
>>> A carne e o sangue: A Imperatriz D. Leopoldina, D. Pedro I e Domitila, a Marquesa de Santos de Priore, Mary de pela Rocco
>>> 1889: Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a de Laurentino Gomes pela Globo Livros
>>> 1822: Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram dom Pedro a criar o Brasil - um de Laurentino Gomes pela Globo Livros
>>> 1808: Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal de Laurentino Gomes pela Globo Livros
>>> 130 Anos: Em Busca Da República de Lessa, Renato; Wehling, Arno; Franco, Gustavo; Tavares Guerreiro, José Alexa pela Editora Intrínseca
>>> Arte de Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil de José de Anchieta pela EdUFBA (2014)
>>> Inglorious Revolution de William R. Summerhill pela Yale University Press (2015)
>>> O governo das conquistas do Norte de Fabiano Vilaça dos Santos pela Annablume (2011)
>>> O sol e a sombra de Laura de Mello e Souza pela Companhia das Letras (2006)
>>> Amazon Frontier - the defeat of the Brazilian Indians de John Hemming pela Papermac (1995)
>>> International Law de Malcolm Evans (edited by) pela Oxford University Press (2014)
>>> Complete International Law: Text, Cases, and Materials de Ademola Abass pela Oxford University Press (2014)
>>> Salvador de Sá and the struggle for Brazil and Angola, 1602 - 1686 de C. R. Boxer pela University of London (1952)
>>> Instituições Políticas Brasileiras de Oliveira Vianna pela Senado Federal (2019)
>>> O populismo e sua história - debate e crítica de Jorge Ferreira (Org.) pela Civilização Brasileira (2001)
>>> Marxismo e Judaísmo - história de uma relação difícil de Arlene Clemesha pela Boitempo (1998)
>>> Trópico dos pecados de Ronaldo Vainfas pela Civilização Brasileira (2014)
>>> Brasil: formação do Estado e da Nação de István Jancsó (Org.) pela Hucitec (2011)
>>> História da Vida Privada em Portugal - 4º Volume (Os nossos dias) de José Mattoso pela Temas e Debates (2011)
>>> História de Angola - da Pré-História ao Início do Século XXI de Alberto Oliveira Pinto pela Mercado de Letras (2016)
>>> Visconde do Uruguai de José Murilo de Carvalho (Org.) pela 34 (2002)
>>> A ilusão americana de Eduardo Prado pela Alfa Omega (2001)
>>> Postmodernism or, the cultural logic of late capitalism de Fredric Jameson pela Duke University Press (1992)
>>> The Established and the Outsiders de Norbert Elias and John L. Scotson pela Sage Publications (2017)
>>> The Satanic Verses de Salman Rushdie pela Randon House (2019)
>>> Los detectives salvajes de Roberto Bolaño pela Vintage Español (2010)
>>> Voices from Chernobyl de Svetlana Alexievich pela Dalkey Archive Press (2005)
>>> O Norte Agrário e o Império, 1871 - 1889 de Evaldo Cabral de Mello pela Topbooks (2008)
>>> Worlds of Labour - further studies in the history of labour de Eric J. Hobsbawm pela Weidenfeld and Nicolson (1984)
>>> Formação da Literatura Brasileira - Momentos Decisivos de Antonio Candido pela Ouro sobre Azul (2014)
>>> História do Brasil: uma interpretação de Carlos Guilherme Mota e Adriana Lopez pela 34 (2015)
>>> História Concisa da Literatura Brasileira de Alfredo Bosi pela Cultrix (2015)
>>> A literatura portuguesa de Massaud Moisés pela Cultrix (2010)
>>> História da Literatura Brasileira Vol. I - Das origens ao Romantismo de Massaud Moisés pela Cultrix (2012)
>>> História da Literatura Brasileira Vol. II - Do Realismo à Belle Époque de Massaud Moisés pela Cultrix (2016)
>>> Bundas 12 Fernandona uma lição de cidadania de Diversos Autores pela Perere (1999)
>>> História da Literatura Brasileira Vol. III - Desvairismo e Tendências Contemporâneas de Massaud Moisés pela Cultrix (2019)
>>> Independência e Morte - Política e Emancipação do Brasil, 1821 - 1823 de Helio Franchini Neto pela Topbooks (2019)
>>> Das cores do silêncio de Hebe Mattos pela Unicamp (2015)
COLUNAS

Quinta-feira, 15/9/2011
O ponto final da escrita cursiva
Vicente Escudero

+ de 3800 Acessos


Carta de J.D. Salinger

O campo minado da informatização e da internet, sabotador de ofícios e hábitos antigos, tem feito vítimas seguidas a cada duplicação da capacidade de processamento dos chips de computadores nos mesmos limites da Lei de Moore. Se o número de transistores que podem ser colocados dentro de um microprocessador duplica a cada dois anos, o número de vítimas deste avanço no processamento de dados não fica para trás. Em menos de dez anos de disponibilidade ampla da web, livros, telefones domésticos, hábitos de consumo e formas de ensino virtualizaram-se quase destruindo os nichos destes produtos e serviços no mundo físico. Este fenômeno, que pode ser denominado desconcretista, veio acompanhado da exigência de uma nova forma de pensar e de interagir com a realidade. De repente, o curso de datilografia, muito procurado até o meio da década de 90, foi trocado pelo de informática. Hoje, os efeitos destas transformações são tão grandes que a linguagem reproduzida nos computadores caminha para substituir um hábito muito mais antigo do que as outras vítimas que tentaram atravessar o terreno cibernético, como o jornalismo, os livros em papel e o ensino presencial. O alvo da vez chama-se escrita cursiva.

Não é novidade que a escrita cursiva sofreu um wazari com a popularização da informática e se esquiva diariamente contra um ippon da troca de informações instantâneas da internet, ainda mais agora, com a larga vantagem dos e-books sobre o papel. O dado novo interessante, que muda o prognóstico da luta -e talvez a defina- é a adesão à idéia pelo governo americano. Desde março de 2011, as diretrizes básicas da educação do governo federal dos Estados Unidos descredenciaram o ensino da escrita cursiva do currículo obrigatório das escolas. Agora, o ensino da matéria é opcional nos estados que aderirem à orientação proposta pelo governo federal, que até esta data conta com quarenta e uma unidades federadas participantes.

A discussão mal começou e dois grupos bastante distintos já marcaram suas posições. A maioria dos mestres e estudiosos da língua inglesa defende o caráter suplementar do ensino da escrita cursiva, enquanto pais e docentes do ensino fundamental defendem a obrigatoriedade.

Os mandatários da permanência da escrita cursiva no currículo obrigatório defendem a utilização da técnica não apenas pela sua função básica de comunicação, mas também pelo fato do aprendizado da escrita cursiva se tratar de um instrumento para o desenvolvimento motor dos estudantes em formação. Este argumento está conjugado com outro, de que o desenvolvimento da reflexão intelectual pelos estudantes necessariamente passa pelo aprendizado desta técnica, pois a escrita cursiva exigiria um grau muito maior de atenção e reflexão para transcrição das idéias no papel, já que diminui a quantidade de distrações entre o pensamento e a sua concretização, situação muito diferente da que ocorre na utilização exclusiva de meios digitais, em que a transmissão dos dados é realizada através da digitação.

Do outro lado da querela estão os defensores da orientação adotada pelo governo americano, que caracteriza a escrita cursiva como opcional dentro do currículo de matérias do ensino fundamental. Embora este grupo esteja dividido em duas correntes, ambas estão fundadas no mesmo argumento: o ensino da matéria não é mais imprescindível. Uma destas correntes de pensamento defende que todas as formas de escrita à mão são completamente desnecessárias e podem ser substituídas integralmente pela utilização de meios digitais, mesmo nas situações que requerem a presença física da pessoa, como a utilização da assinatura para sua identificação, a qual já pode ser substituída por dispositivos contendo assinaturas digitais. A outra corrente não defende esta repentina quebra de página no livro da escrita cursiva, apesar de também entender que a orientação do governo é adequada. Para seus defensores, o desenvolvimento tecnológico ainda não é capaz de substituir de forma infalível a comunicação através da escrita à mão, o que ainda torna imprescindível o aprendizado de pelo menos uma de suas formas: a escrita através de letras desconectadas entre si, as letras de fôrma.

É interessante notar que a orientação governamental não impede que o ensino da escrita cursiva seja realizado mesmo nos estados que a adotarem. Dentro do sistema de educação americano, que possui como fundamento principal de organização a participação da sociedade local nas escolas, soa estranho que a simples caracterização do ensino da disciplina como opcional tenha causado uma revolta generalizada dos pais, defendendo a manutenção da obrigatoriedade. Neste período de mudanças drásticas em hábitos seculares, em que o envio de cartas foi substituído pelos e-mails, os jornais estão à beira da falência e o comércio não exige mais a existência de um balcão para atender a clientela, não é difícil concluir que o conflito criado pela medida é muito mais geracional do que didático ou, até mesmo, utilitário. Estariam os pais com receio de ver um hábito tão arraigado em suas personalidades ser deixado de lado por uma geração que passa grande parte do dia se comunicando, quase de olhos fechados, através de celulares, tablets e afins? O desaparecimento de um hábito tão particular e íntimo parace ter atingido um dos maiores medos da geração que está criando seus filhos no século XXI: o de tornar-se obsoleto.

Nos últimos vinte anos, no mínimo, o foco das escolas no Brasil e nos Estados Unidos tem sido garantir que os alunos produzam uma escrita utilitária, no mínimo legível. Este processo passa pela grafia correta das palavras somada à flexibilidade na utilização da escrita cursiva junto com as letras de fôrma. Também é fato incontestável que a maioria dos adultos acaba desenvolvendo, com o passar do tempo, uma mistura de escrita cursiva com letras de fôrma, um método próprio que atende às próprias necessidades, isso quando não ocorre o abandono completo da escrita cursiva para dar lugar a letras de fôrma. O caráter instrumental da escrita, no final, sempre acaba prevalecendo. Sorte para quem sempre foi péssimo aluno de caligrafia.

O momento atual, muito mais do que um avanço para a incorporação da escrita no processo de informatização, representa o retorno do estilo da cursiva romana, em que a maioria das letras não é conectada. Difícil imaginar um mundo onde ninguém é capaz de escrever um bilhete para avisar que vai voltar logo. Os computadores venceram, isso é indiscutível. O difícil é encontrar um que não esteja coberto com recados em adesivos Post-it.


Vicente Escudero
Campinas, 15/9/2011


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito de Jardel Dias Cavalcanti
02. Notas confessionais de um angustiado (VII) de Cassionei Niches Petry
03. Um parque de diversões na cabeça de Renato Alessandro dos Santos
04. Uma tese em três minutos de Carla Ceres
05. A busca de Marta Barcellos


Mais Vicente Escudero
Mais Acessadas de Vicente Escudero em 2011
01. Kindle, iPad ou Android? - 14/4/2011
02. O incompreensível mercado dos e-books - 3/3/2011
03. O ponto final da escrita cursiva - 15/9/2011
04. Lynch, David - 8/12/2011
05. Diário da Guerra do Corpo - 9/6/2011


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O LIVRO QUE NINGUÉM VAI LER
SYLVIA ORTHOF
EDIOURO
(2003)
R$ 6,50



O PSIQUIATRA NO TRIBUNAL
DR. MICHEL LANDRY
NOVOS UMBRAIS
(1981)
R$ 25,00



PRINCIPAIS TEMAS EM DOENÇAS INFECCIOSAS PARA RESIDÊNCIA MÉDICA
RODRIGO ANTÔNIO BRANDÃO NETO E OUTROS
MEDCEL
(2008)
R$ 39,00



O CARDEAL
WALACE FERNANDO NEVES
LACHÃTRE
(2014)
R$ 27,00



ENGENHARIA ECONÔMICA
GERALDO HESS E OUTROS
DIFEL
(1975)
R$ 8,00



O PODER INFINITO DA SUA MENTE
LAURO TREVISAN
DA MENTE
(1980)
R$ 36,00



OS MILITARES NO PODER 1
CARLOS CASTELO BRANCO
NOVA FRONTEIRA
(1977)
R$ 15,00



TRIGONOMETRIA PLANA
EDGARD DE ALENCAR FILHO
NOBEL
(1964)
R$ 25,00



MANUAL COMPACTO DE GEOGRAFIA ENSINO FUNDAMENTAL
EDITORA RIDEEL
RIDEEL
(2010)
R$ 23,00



MATEMÁTICA PARA O ENSINO MÉDIO - VOLUME ÚNICO
MARCONDES - GENTIL - SÉRGIO
ÁTICA
(1998)
R$ 9,80





busca | avançada
92061 visitas/dia
2,2 milhões/mês