Paulo César Saraceni (1933-2012) | Humberto Pereira da Silva | Digestivo Cultural

busca | avançada
63898 visitas/dia
2,0 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Yassir Chediak no Sesc Carmo
>>> O CIEE lança a página Minha história com o CIEE
>>> Abertura da 9ª Semana Senac de Leitura reúne rapper Rashid e escritora Esmeralda Ortiz
>>> FILME 'CAMÉLIAS' NO SARAU NA QUEBRADA EM SANTO ANDRÉ
>>> Inscrições | 3ª edição do Festival Vórtice
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
>>> Garganta profunda_Dusty Springfield
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Todas as artes: Jardel Dias Cavalcanti
>>> Soco no saco
>>> Xingando semáforos inocentes
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Esporte de risco
>>> Tito Leite atravessa o deserto com poesia
>>> Sim, Thomas Bernhard
Colunistas
Últimos Posts
>>> Glenn Greenwald sobre a censura no Brasil de hoje
>>> Fernando Schüler sobre o crime de opinião
>>> Folha:'Censura promovida por Moraes tem de acabar'
>>> Pondé sobre o crime de opinião no Brasil de hoje
>>> Uma nova forma de Macarthismo?
>>> Metallica homenageando Elton John
>>> Fernando Schüler sobre a liberdade de expressão
>>> Confissões de uma jovem leitora
>>> Ray Kurzweil sobre a singularidade (2024)
>>> O robô da Figure e da OpenAI
Últimos Posts
>>> AUSÊNCIA
>>> Mestres do ar, a esperança nos céus da II Guerra
>>> O Mal necessário
>>> Guerra. Estupidez e desvario.
>>> Calourada
>>> Apagão
>>> Napoleão, de Ridley de Scott: nem todo poder basta
>>> Sem noção
>>> Ícaro e Satã
>>> Ser ou parecer
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Cenas de abril
>>> Por que 1984 não foi como 1984
>>> A dicotomia do pop erudito português
>>> Coisas nossas
>>> Caso Richthofen: uma história de amor
>>> Apresentação autobiográfica muito solene
>>> Nem Aos Domingos
>>> Aprender poesia
>>> São Luiz do Paraitinga
>>> A Barsa versus o Google
Mais Recentes
>>> Dicionário De Espanhol-português de Porto pela French & European Pubns (2015)
>>> Os Fantasmas Da São Paulo Antiga de Miguel Milano pela Unesp (2012)
>>> Direito Civil Brasileiro 3 de Carlos Roberto Gonçalves pela Saraiva (2011)
>>> Um Grito de Socorro de Alcides Goulart pela Jovem (2014)
>>> Medicina de urgência de Elisa Mieko Suemitsu Higa pela Manole (2008)
>>> Expedição aos Martírios 15 edição de Francisco Marins pela Melhoramentos (1978)
>>> Todo Mundo Tem Uma História Para Compartilhar de Karen Worcman pela Museu da Pessoa (2014)
>>> Os Restos Mortais( com encartes 1994 das obras Ática ) de Fernando Sabino pela Ática (1994)
>>> Ana Cecília Carvalho; Robinson Damasceno dos Reis de O Ourives Sapador do Polo Norte: como fazer pesquisas e anotar informações pela Formato (1995)
>>> Livro Seu Zezinho - A Estrela Eterna de Sumaré de Claúdia Sabadini pela Cult (2016)
>>> Livro Alma Gêmea - Você está pronta para ser encontrada? de Rosana Braga pela Escala (2001)
>>> O Mistério da Fábrica de Livros 23 edição. de Pedro Bandeira pela Hamburg (2024)
>>> Panelinha: Receitas Que Funcionam de Rita Lobo pela Senac São Paulo (2012)
>>> A Crítica Da Razão Indolente. Contra O Desperdício Da Experiência de Boaventura De Sousa Santos pela Cortez (2011)
>>> Educação E Crise Do Trabalho: Perspectivas De Final De Século (coleção Estudos Culturais Em Educação) de Gaudêncio Frigotto (org) pela Vozes (2002)
>>> Era Dos Extremos - The Age Of Extremes de Eric Hobsbawm pela Companhia Das Letras (2003)
>>> A Volta dos Pardais do Sobradinho 3 edição. de Herberto Sales pela Melhoramentos (1990)
>>> O Mistério do Esqueleto - coleção veredas 13 edição. de Renata Pallottini pela Moderna (1992)
>>> Livro Na Vida Dez, Na Escola Zero de Terezinha. Carraher pela Cortez (1994)
>>> Livro Voce Verdadeiramente Nasceu De Novo Da Agua E Do Espirito? de Paul C. Jong pela Hephzibá (2002)
>>> Livro Luz no lar de Francisco Cândido Xavier por Diverso Espíritos pela Feb (1968)
>>> Livro As Perspectivas Construtivista e Histórico-cultural na Educação Escola de Tania Stoltz pela Ibpex (2008)
>>> Livro El Desarrollo Del Capitalismo En America Latina. Ensayo De Interpretacion Historica (spanish Edition) de Agustin Cueva pela Siglo Xxi (2002)
>>> O Fantástico Homem do Metrô 8 edição. - coleção veredas de Stella Carr pela Moderna (1993)
>>> Missão Ninok: se tem medo do futuro não abra o livro de Bernardino Monteiro pela Artenova (1980)
COLUNAS

Quarta-feira, 25/4/2012
Paulo César Saraceni (1933-2012)
Humberto Pereira da Silva
+ de 7100 Acessos

Há três nomes essenciais quando se tem em vista o contexto e situação histórica que deram origem ao Cinema Novo: Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha e Paulo César Saraceni. Desde "Rio, 40 graus" (1955), Nelson desponta como a figura impulsionadora do movimento: um pouco mais velho, torna-se uma espécie de guru da nova geração; já Glauber, principal agitador e idealizador, chamou a atenção internacional com seu primeiro longa metragem, "Barravento" (1962), premiado no Festival de Karlovy Vary, antiga Tchecoslováquia. Nesse mesmo momento, outros nomes merecem atenção - Ruy Guerra, Cacá Diegues, Leon Hirszman e Joaquim Pedro Andrade -, mas a Saraceni, entre os amigos conhecido como Sarra, deve-se dar um destaque especial. Como se pode ver nos arquivos de Glauber Rocha, disponíveis no Tempo Glauber, e no livro de memórias de Sarra, "Por dentro do Cinema Novo" (Nova Fronteira, 1993), é dos papos entre ele e Glauber nos bares da zona sul carioca ou em Salvador, no início dos anos 60, que se pode ter em mente o que os jovens cineastas queriam fazer para revolucionar o cinema brasileiro.

Em 1959, no apartamento da artista plástica Ligia Pape, foram exibidos para uma plateia seleta, que incluía artistas como Amilcar de Castro e Helio Oiticica, os primeiros filmes dos dois: "O Pátio", de Glauber, e "Caminhos", de Sarra. Foi nessa sessão que Reinaldo Jardim, editor do Caderno de Cultura do Jornal do Brasil, propôs abrir espaço para os jovens cineastas e publicar um manifesto com as novas ideias que traziam. A redação do manifesto acabou na intenção, mas em termos práticos é a partir desse incentivo que Glauber volta para a Bahia e filma "Barravento" na praia de Buraquinho, enquanto Sarra vai para o Arraial do Cabo e realiza o documentário "Arraial do Cabo" (1959).

Com esse filme, Sarra ganha uma bolsa para estudar no importante Centro de Cinema Experimental em Roma. Ele leva o filme consigo e o apresenta no Festival de Santa Margherita. "Arraial" causou impressão muito favorável, com suas imagens de forte apelo social, e revelou o que passou a ser em seguida chamado como Cinema Novo. Estimulado pelos debates e discussões suscitadas pelo filme, na volta ao Brasil ele fez "Porto das Caixas" (1962), "Integração Racial" (1964) e, um ano após o golpe de 64, "O Desafio".

Mesmo tendo aberto as portas para o Cinema Novo na Europa, ao contrário de Glauber, Nelson ou Ruy Guerra, esses filmes de Sarra, feitos em sequência, não foram exibidos em festivais importantes (barrado por Carlos Lacerda, então Governador da Guanabara, "O Desafio" foi apresentado clandestinamente no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, em 1965). Não tiveram, portanto, a ressonância de "Deus e o Diabo" (1964), "Vidas Secas" (1963), "Os Fuzis" (1964), respectivamente, que foram exibidos em Cannes e Berlim (Na Berlinale, o filme de Ruy Guerra foi premiado com o Urso de Prata). Depois desses filmes iniciais, a carreira de Sarra segue caminho um tanto errático e pouco profícuo. Ele fez ainda filmes como "Capitu" (1967), adaptação de Machado de Assis, e um projeto que acalentava há muito tempo, "A Casa Assassinada" (1970), baseado no livro de Lucio Cardoso. Mas a obra posterior de Sarra dá sinais de que sua verve criativa e seu espírito inovador se acomodaram. Quando se fala em Cinema Novo, impossível não lhe fazer referência, mas talvez por isso sua importância não seja devidamente considerada.

Com sua morte recente, em 14 de abril, nos cabe então lembrar que "Arraial do Cabo", "Porto das Caixas", "Integração Racial" e "O Desafio" são emblemáticos da estética cinemanovista. Mais que isso, são filmes deflagradores: "Arraial" antecipa "Aruanda" (1960), de Linduarte Noronha, "Porto das Caixas" toca a questão da mulher oprimida como o fará Leon Hirszman em "A Falecida" (1965) e "O Desafio", como "Terra em Transe" (1967), de Glauber, coloca em pauta o papel do intelectual diante da ditadura. Ou seja, a estética e os conteúdos social e político nesses filmes oferecem o germe para a filmografia por vir. Nesse sentido, Sarra é, de fato, aquele que abriu fendas, que se colocou adiante e, com isso, contaminou Glauber e outros ao redor para o desafio de se fazer cinema em transe.

Quando exibiu "Arraial" na Itália, ouviu do cineasta Jean Rouche que a nova onda era fazer cinema com "a câmara na mão". Rápido, escreveu para Glauber e lhe transmitiu essa ideia. Este, sensível, acolheu o sentido do que Sarra transmitiu e na 6ª Bienal de São Paulo, em 1961, expôs que o propósito de sua geração era o de fazer cinema com "uma câmara na mão e uma ideia na cabeça". Sem um manifesto formal, surge assim aquele que é o principal movimento do cinema brasileiro e um dos pontos altos de nossa história cultural.

Os filmes de inicio de carreira de Saraceni, hoje, são de difícil acesso (indisponíveis em DVD, podem ser vistos em acervos públicos, como na Biblioteca da ECA, ou sequências fragmentadas pelo you tube). Como decorrência, sua importância não é devidamente enfatizada: Sarra praticamente não é visto pelas novas gerações. É uma pena, pois "O Desafio", com suas imagens sombreadas, clima blasé e diálogos angustiantes, perfila-se entre as obras primas do cinema nacional nos anos 60. Ao lado de "Terra em Transe", reflete de modo intenso o impasse da intelectualidade brasileira diante da realidade da ditadura que se impôs. Assim como o filme glauberiano, "O Desafio", feito no calor da hora, revela a grande intuição de Sarra para sentir e expressar por meio de uma obra de arte o que foi o golpe de 64.

Sintomático desse sentimento é o plano que exibe o pôster de "Guernica", de Picasso, no quarto em que o casal protagonista conversa sobre a situação do país e a impossibilidade de uma relação amorosa naquelas condições. Mero elemento cenográfico, tão repleto de sentido quando se pensa nas razões que levaram Picasso a pintar o bombardeio de uma população indefesa durante a guerra civil espanhola. Enfim, Sarra se foi; fica sua obra, "O Desafio" do filme e, para nós, o de preservar a memória de um gigante de nossa cultura.


Humberto Pereira da Silva
São Paulo, 25/4/2012

Mais Humberto Pereira da Silva
Mais Acessadas de Humberto Pereira da Silva em 2012
01. Cézanne: o mito do artista incompreendido - 26/9/2012
02. 'O sal da terra': um filme à margem - 27/6/2012
03. Paulo César Saraceni (1933-2012) - 25/4/2012
04. Herzog, Glauber e 'Cobra Verde' - 18/4/2012
05. A Nouvelle Vague e Godard - 15/2/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Brasil Nos Arquivos Britânicos E Irlandeses: Guia de Fontes
Oliver Marshall
‎ Centre for Brazilian Studies
(2007)



A Ciência da Cura
Dr. Luís Carlos Silveira
Gente
(2015)



A Árvore do Halloween
Ray Bradbury
Bertrand Brasil
(2014)



Expressões Que Curam
Daniel Júnior
Bvz
(2002)



Diccionário Oxford Escolar para estudantes brasileiros de inglês 596
Diccionário Oxford Escolar para estudantes brasileiros de inglês
Oxford University Press
(2010)



Livro Religião Viver o Ano Litúrgico Reflexões para os Domingos e Solenidades
Frei Alberto Beckhäuser Ofm
Vozes
(2003)



Paris é Para Sempre
Ellen Feldman
Vestigio
(2021)



Livro Saúde Eu não Consigo Emagrecer A dieta francesa que conquistou mais de 30 milhões de leitores
Dr. Pierre Dukan
Best Seller
(2014)



O Planeta Desconhecido
Peter Kolosimo
Melhoramentos
(1973)



As Mentiras Que Os Homens Contam
Luis Fernando Verissimo
Objetiva Ltda.
(2001)





busca | avançada
63898 visitas/dia
2,0 milhão/mês