Cézanne: o mito do artista incompreendido | Humberto Pereira da Silva | Digestivo Cultural

busca | avançada
69585 visitas/dia
2,2 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Pauta: E-books de Suspense Grátis na Pandemia!
>>> Hugo França integra a mostra norte-americana “At The Noyes House”
>>> Sesc 24 de Maio apresenta programação de mágica para toda família
>>> Videoaulas On Demand abordam as relações do Homem com a natureza e a imagem
>>> Irene Ravache & Alma Despejada na programação online do Instituto Usiminas
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A pintura do caos, de Kate Manhães
>>> Nem morta!
>>> O pai tá on: um ano de paternidade
>>> Prêmio Nobel de Literatura para um brasileiro - I
>>> Contentamento descontente: Niketche e poligamia
>>> Cinemateca, Cinemateca Brasileira nossa
>>> A desgraça de ser escritor
>>> Um nu “escandaloso” de Eduardo Sívori
>>> Um grande romance para leitores de... poesia
>>> Filmes de guerra, de outro jeito
Colunistas
Últimos Posts
>>> A última performance gravada de Jimmi Hendrix
>>> Sebo de Livros do Seu Odilon
>>> Sucharita Kodali no Fórum 2020
>>> Leitura e livros em pauta
>>> Soul Bossa Nova
>>> Andreessen Horowitz e o futuro dos Marketplaces
>>> Clair de lune, de Debussy, por Lang Lang
>>> Reid Hoffman sobre Marketplaces
>>> Frederico Trajano sobre a retomada
>>> Stock Pickers ao vivo na Expert 2020
Últimos Posts
>>> Três tempos
>>> Matéria subtil
>>> Poder & Tensão
>>> Deu branco
>>> Entre o corpo e a alma
>>> Amuleto
>>> Caracóis me mordam
>>> Nome borrado
>>> De Corpo e alma
>>> Lamentável lamento
Blogueiros
Mais Recentes
>>> País do Carnaval II
>>> Algumas leituras marcantes de 2006
>>> A visão certa
>>> É Julio mesmo, sem acento
>>> Asia de volta ao mapa
>>> 7 de Setembro
>>> Rebelde aristocrático
>>> Cócegas na língua
>>> Animazing
>>> Robinson Shiba do China in Box
Mais Recentes
>>> Slam Dunk de Takehiko Inoque pela Conrad (2006)
>>> Slam Dunk de Takehiko Inoque pela Conrad (2006)
>>> Neon Genesis Evangelion the Iron Maiden 6 de Funino Hayashi - GAINAX pela Conrad (2006)
>>> Neon Genesis Evangelion the Iron Maiden 5 de Funino Hayashi - GAINAX pela Conrad (2003)
>>> Minha vida de menina de Helena Morley pela Companhia das Letras (2020)
>>> Minha formação de Joaquim Nabuco pela 34 (2020)
>>> Mestre da Critica de Vários autores pela Topbooks (2020)
>>> Memórias para servir à História do Reino do Brasil de Luís Gonçalves dos Santos pela Senado (2020)
>>> Memórias de um Sargento de Milícias de Manuel Antônio de Almeida pela Abc (2020)
>>> A Unica Esperança de Alejandro Bullon pela Casa Publicadora Brasileira (2013)
>>> Memórias de Carlota Joaquina de Marsilio Cassotti pela Planeta (2020)
>>> Marquês de São Vicente de Eduardo Kugelmas pela 34 (2020)
>>> Machado de Assis & Joaquim Nabuco. Correspondência de Graça Aranha pela Topbooks (2020)
>>> Obra Completa de Luis De Camoes pela Nova (2020)
>>> Literatura e Sociedade de Antônio Candido pela Ouro sobre Azul (2020)
>>> O Tigre na Sombra de Lya Luft pela Record (2012)
>>> Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco de Luís Cláudio Villafañe G. Santos pela Companhia das Letras (2020)
>>> Ingleses no Brasil de Gilberto Freyre pela UniverCidade (2020)
>>> Histórias da Gente Brasileira. República. Memórias. 1889-1950 - Volume 3 de Mary Del Priore pela Leya (2020)
>>> Histórias da gente brasileira - Império - Vol. 2 de Mary Del Priore pela Leya (2020)
>>> Histórias da gente brasileira - Colônia - Vol. 1 de Mary Del Priore pela Leya (2020)
>>> Tensoes Mundiais Volume 4 Numero 5 de Manoel Domingos Neto e Monica Dias Martins pela Observatorio das Nacionalidades (2008)
>>> História econômica do Brasil de Roberto C. Simonsen pela Senado (2020)
>>> História dos Fundadores do Império do Brasil - 7 volumes - coleção completa de Otávio Tarquínio de Sousa pela Senado (2020)
>>> História do Brasil: Uma interpretação de Mota, Carlos Guilherme and Lopez, Adriana pela 34 (2020)
>>> História do Brasil de Boris Fausto pela Edusp (2020)
>>> Historia da Vida Privada Em Portugal: Volume 1 Idade Média de Direção de José Mattoso pela Abc (2020)
>>> Historia da Vida Privada Em Portugal: OS Nossos Dias de Direção de José Mattoso pela Abc (2020)
>>> História da saúde no Brasil de Luiz Antonio Teixeira (Compilador), Tânia Salgado Pimenta (Compilador), Gilberto Hochman (Compilador) pela Hucitec (2020)
>>> História da Arte no Brasil: Textos de Síntese de Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, Angela Ancora da Luz, Sonia Gomes Pereira pela Ufrj (2020)
>>> Temas de Direito Constitucional Volume 1 de Luís Roberto Barroso pela Renovar (2002)
>>> História Da América Portuguesa de Sebastião Da Rocha Pita pela Senado (2020)
>>> História da Alimentação no Brasil de Luís da Câmara Cascudo pela Global (2020)
>>> No caminho de Swann. de Marcel Proust pela Globo (2003)
>>> Hipólito José da Costa de Sergio Goes de Paula pela 34 (2020)
>>> Serious Candida Infections: Risk Factors, Treatment and Prevention de John H. Rex e Françoise Meunier Editores pela Pfizer (1995)
>>> Grande Reforma Urbana Do Rio De Janeiro, A: Pereira Passos, Rodrigues Alves E As Ideias De Civilização E Progresso de Andre Nunes De Azevedo pela PUC Rio (2020)
>>> Natural Racional Social - Razão Médica e Racionalidade Científica Moderna. de Madel T. Luz pela Campus (1988)
>>> Getúlio 3 (1945-1954) de Lira Neto pela Companhia das Letras (2020)
>>> Getulio 1930-1945: Do Governo Provisorio Ao Estado Novo de Lira Neto pela Companhia das Letras (2020)
>>> Para gostar de ler. Vol.4 - Crônicas.. de Vários pela Ática (1980)
>>> Getúlio 1 (1882-1930) de Lira Neto pela Companhia das Letras (2020)
>>> Viver o Amor. de José Carlos Pedroso pela Edições Paulinas (1978)
>>> General Osorio de Doratioto, Francisco pela Companhia das Letras (2020)
>>> Ganhadores: A greve negra de 1857 na Bahia de João José Reis pela Companhia das Letras (2020)
>>> Formação de Cidades no Brasil Colonial de Santos, Paulo Ferreira pela Ufrj - IPHAN (2020)
>>> Flores votos e balas de Alonso, Angela pela Companhia das Letras (2020)
>>> A Saude dos Filhos de E. Nauta pela Circulo do Livro (1987)
>>> Gibi Mônica N°8. Lendas da Jumenta Voadora de Mauricio de Sousa Editora pela Panni Comics (2007)
>>> Ficção e Confissão de Antônio Candido pela Ouro sobre Azul (2020)
COLUNAS

Quarta-feira, 26/9/2012
Cézanne: o mito do artista incompreendido
Humberto Pereira da Silva

+ de 7900 Acessos

Cézanne, As grandes banhistas, 1900, Óleo sobre tela, 127,2 x 196,1 cm, The National Gallery, Londres

Um catálogo com a lista de artistas idiossincráticos que tiveram suas obras rejeitadas e posteriormente foram reconhecidos como gênios não é pequena. Quando se trata, porém, de um artista cuja obra significa a ponte entre dois momentos da história da arte, sua rejeição inicial e posterior revalorização precisam ser consideradas com vagar. Esse é o caso de Paul Cézanne (1839-1906). Como ele, Vincent Van Gogh e Paul Gauguin igualmente tiveram trajetórias artísticas erráticas, conflituosas, escolhas excêntricas e, em decorrência, se prestam a debates sobre o quanto traços de caráter e temperamento determinam a obra. Mas é Cézanne que, nas palavras do historiador Giulio Carlo Argan, em seu referencial Arte Moderna, "conclui a parábola do impressionismo e forma o tronco do qual nascem as grandes correntes da primeira metade do século XX".

O mito do gênio solitário que, incompreendido, entra em conflito com sua época, se indispõe com companheiros de trilha e se torna não só inconteste como se serve de farol para os pósteros deixa, de fato, problema para apreciação de uma obra no calor dos acontecimentos: separar o que se deve valorizar - a partir de condicionantes do tempo - e os índices que indicariam sua sobrevivência e influência para além de seu próprio tempo. A importância de Cézanne, nesse sentido, está menos no reconhecimento posterior de sua genialidade - o que ocorreu igualmente com Van Gogh e Gauguin - do que nas contingências que exigiram uma reavaliação de sua obra. Bem entendido, o foco da reavaliação na sua concepção e maneira de pintar, o que o coloca na posição de mentor das novas tendências.

O valor de uma obra se intercala às contingências que determinam seu lugar na história. Mas, enquanto o valor é susceptível aos humores do tempo (o próprio Cézanne tinha dúvida quanto ao alcance de sua obra: ele não se via avançado em relação ao seu próprio tempo - seu maior desejo era o de ser exibido nos grandes museus e perfilar ao lado dos mestres do passado), seu lugar na história não. Afirmar que Cézanne forma o tronco das grandes correntes artísticas do século XX não é o mesmo que corrigir críticos e apreciadores que não deram o devido valor à sua obra no tempo em que foi concebida: o gabarito de que dispunham não era o mesmo daquele do início do século XX. Já a influência exercida pela obra de Cézanne é um dado reclamado por artistas como Pablo Picasso, e isso faz parte da história da arte tanto quanto o cubismo.

Óbvio que o valor estético de sua obra está atrelado a esse dado histórico. Malgrado, o gabarito que permite atribuição de valor estético não está imune a discordâncias (os critérios que os contemporâneos de Cézanne dispunham não eram os dos cubistas); tampouco o valor de uma obra em certo momento não implica, necessariamente, que ela venha a ser reconhecida posteriormente em virtude de sua ressonância. Pierre Puvis de Chavannes (1824-1898) despontou antes dos impressionistas; não transitou, contudo, entre eles e terminou celebrado pelos defensores de um movimento à frente, o simbolismo. Em fim de carreira, agitou os meios artísticos e recebeu críticas elogiosas de Aubert Aurier (crítico de sensibilidade aguçada, arriscou e foi o primeiro a escrever sobre Van Gogh e Gauguin), mas hoje guarda lugar lateral na história da arte.

O caso Cézanne, com isso, exige que se separe valor da obra e influência. O ponto em pauta é: os contemporâneos de um artista podem se equivocar e não reconhecer genialidade em sua obra, tanto quanto atribuir valor que será ignorado ou destoar de critérios por vir. Puvis de Chavannes, assim como o simbolismo, é um bom exemplo do quanto na história da arte joga-se com o acaso. Por conta da contingência histórica, críticos e apreciadores jogam com indícios que especulam sobre a fortuna de uma obra. Com isso, questionar a falta de sensibilidade de quem não consegue enxergar os sinais criptografados numa obra é um profundo mal entendido. Do mesmo modo que num jogo de dados, uma obra como a de Cézanne (Puvis de Chavannes, o refletiria no espelho, portanto em posição invertida) se laça à própria sorte.

Obra lançada à própria sorte, para isso entra em jogo seu temperamento, suas escolhas e, por conseguinte, trajetória e frustrações artísticas. De fato, já em seu debut no convulsionado universo cultural parisiense, entre as décadas de 1860 e 1870, a presença de Cézanne é singular. Estimulado por Émile Zola, amigo de infância em Aix-en Provence, ele decide tentar a sorte em Paris, onde estabelece contato com Édouard Manet, Claude Monet, Camille Pissarro, August Renoir. Não obstante, ele não se ajusta ao ambiente parisiense, incomoda-se com o modo de vida afetado dos artistas, faz diversas tentativas de expor no Salão de Paris, mas é frequentemente recusado (em 1882 ocorreu sua única exibição no Salão, mas o quadro exibido o registra como aluno do paisagista Antoine Guillement, amigo de Pissarro).

Mesmo desajustado, Cézanne acompanha o impacto da recepção das obras de Manet, Le déjeuner sur l´herbe (1863) e Olympia (1865), expõe no Salão dos Recusados, criado sob Napoleão III, frequenta o Café Guerbois, ponto de encontro de artistas em rota de colisão com a arte acadêmica. Os encontros no Café Guerbois levam à criação do Grupo Batignolles, que se reunia para discutir a situação da pintura, mas a presença de Cézanne no grupo é marginal. Nesse período, ele nutre admiração por Manet, mas suas concepções artísticas não estão de acordo com o que propunham os artistas do Batignolles. Seus olhos estão voltados para o Louvre, o neoclassicismo de Nicolas Poussin, enquanto seus quadros guardam elementos românticos de Eugène Delacroix, que são equilibrados pela influência do realismo de Gustave Courbet.

Com dificuldades para se expressar e defender seus pontos de vista, sua pintura é objeto de leituras negativas, quando não de contundentes reações. Em 1867, numa exposição em Marselha, um de seus quadros precisou ser retirado diante da reação do público, que queria destruí-lo. Entre os que gravitam em torno do Batignolles, mesmo Zola, que nesses anos se dedica à crítica de arte na imprensa, onde defende os jovens artistas em confronto com as convenções, gradativamente se afasta de Cézanne e se torna refratário à sua obra. Sintomático desse afastamento é o fato de Zola reunir os artigos desse período e os publicar no livro Mon Salon; nele todos os novos pintores estavam representados com suas posições sobre o gosto do Salão: Monet, Manet, Corot, Pissarro; Cézanne, contudo, foi esquecido.

As divergências entre eles culminam em ruptura, com a publicação do romance A obra (1886), de Zola, no qual Cézanne se reconhece no personagem Claude Lantier, que é descrito como um artista convulsionado pela vida particular e por essa razão não foi capaz de terminar sua obra prima, enlouquecendo e suicidando-se. Deve-se considerar, contudo, que nesse momento o posicionamento de Zola não é mais entusiasta em relação aos artistas do Batignolles: A obra endereça sua crítica aos impressionistas como um todo; para Zola, o impressionismo não atingiu o fim a que se propusera: uma nova geração devia prosseguir. Assim, seu romance antecipa os novos caminhos que a pintura devia seguir para sair do beco sem saída do impressionismo. E esses novos caminhos estavam sendo trilhados por protagonistas como Puvis de Chavannes.

Passados os primeiros anos em Paris, a partir de 1871 o estilo de Cézanne se modifica em função principalmente do estreitamento de sua relação com Pissarro. Pinturas como A casa do enforcado (1873) anunciam uma maior aproximação com o impressionismo. Alguns quadros desse período foram apresentados na primeira exposição do grupo em 1874. Nessa exposição Cézanne recebeu duras críticas, motivadas pela apresentação de Uma Olympia moderna, com a qual homenageia Olympia, de Manet, e, ao mesmo tempo, radicaliza o discurso temático e estritamente pictórico do original. O affair com o impressionismo, no entanto, durou pouco. Seu afastamento do ideário impressionista se aguçou com um novo fracasso na terceira exposição do grupo em 1877.

Alvo de críticas e insultos, ele decide se afastar do mundo cultural parisiense. Manteve amizade apenas com Pissarro (circunstancialmente com Renoir e Monet). Nos anos seguintes, ele se refugia no seu próprio ato de pintar. Na maior parte do tempo trabalha em Aix e seus arredores. Distante do ambiente parisiense, Cézanne libera ao máximo sua capacidade expressiva. Não desejava que sua pintura refletisse mimeticamente, com precisão, a realidade que o rodeava. O que lhe importa é transmitir a estrutura profunda dos objetos, das pessoas e das coisas. Mesmo afastado, sua obra desperta tímido interesse: em 1892 George Lecomte e Émile Bernard lhe dedicam textos elogiosos; ele trava contato, ainda, com o marchand Ambroise Vollard, que realiza a primeira exposição dedicada à sua obra em 1895.

A recepção crítica da exposição, contudo, se inscreve no rol de suas frustrações. Zola destaca-se entre os críticos mais contundentes, pois o qualifica sem meias palavras como um grande pintor fracassado. Apenas alguns artistas, entre eles Matisse, reconhecem o valor de sua obra. Depois da exposição Cézanne leva a limites monásticos sua solidão, concentração na arte de criar e toma a arte como única fonte de regeneração vital: pinta, então, As grandes banhistas (1900). A chegada do novo século não se traduziu numa melhor compreensão de sua obra. Ao contrário, as críticas se sucedem e, sintomático do prestígio de que gozava, na ocasião da morte de Zola, em 1902, parte de sua coleção de obras de arte foi posta à venda - nela se incluíam várias telas, aquarelas e desenhos de seu amigo de juventude.

Solitário, nos últimos anos de vida Cézanne mantém rotina metódica, concentrado nos desafios de sua obra. Essa rotina foi quebrada só pelas presenças fugazes dos jovens pintores Maurice Denis e Émile Bernard, que apreciam suas pinturas e peregrinam até Aix para conhecê-lo. Mas no final da vida Cézanne é um homem ressentido, amargurado, com fortes dúvidas quanto ao que havia de fato realizado: especula se o crítico Joris Huysmans não teria razão em seu veredito: sua obra era resultado de uma patologia ótica. Sem o reconhecimento que esperava e cheio dúvidas, ainda que obcecado com a construção de uma pintura autônoma, capaz de se expressar por si mesma (obsessão esta que mereceu cuidadoso ensaio de Merleau-Ponty), Cézanne morreu sem a companhia de qualquer pessoa próxima.

Logo após a sua morte, O Salão de Outono lhe dedicou uma grande retrospectiva em 1907. Nenhuma novidade que essa retrospectiva se constituísse em novo fracasso, senão pelo fato de que foi acompanhada por Pablo Picasso - então já conhecido nos círculos parisienses como um dos artistas mais evidentes. Picasso conhecera Cézanne no ateliê de Matisse, ao ver uma de suas Banhistas, adquirida por Matisse pouco depois da exposição de Vollard. Mas a retrospectiva o tocou tão fortemente que dela notam-se marcas inequívocas das Banhistas na tela que estava pintando, Les demoiselles d´Avignon (1907), obra que anuncia o cubismo. Este quadro passou à história como a obra que revolucionou a história da arte. Seu geometrismo e suas deformações inauguram não só o cubismo, mas também, por extensão, a pintura moderna.

Estudiosos defendem que o movimento cubista foi uma revolução tão completa que os meios pelos quais as imagens podiam ser formalizadas na pintura se modificaram mais nos anos de 1907 a 1914 do que havia se modificado desde o Renascimento. Uma razão significativa para o rápido reconhecimento da revolução cubista encontra-se no destacado papel que tiveram os poetas-críticos, em especial André Salmon e Guillaume Apollinaire. Eles apoiaram integralmente o movimento, redigiram manifestos, panfletos e formularam explicações nas quais defendiam que o cubismo punha em xeque os pressupostos básicos estabelecidos pela arte acidental por muitos séculos. Para estes poetas-críticos, ainda, o reconhecimento de que Cézanne estabelece novas bases para a arte é inconteste.

Salmon assevera que ele deixou um método simples e prodigioso; com ele os cubistas aprenderam que alterar as colorações de um corpo é corromper-lhe a estrutura e que o estudo dos volumes primordiais (esfera, cone, cilindro) abre horizontes inaudíveis. Assim, sua obra é um bloco homogêneo que se move sob o olhar e prova que a pintura não é - ou já não o é para os cubistas - a arte de imitar um objeto por meio de linhas e cores, mas a de dar consciência plástica ao nosso instinto: quem compreende Cézanne, pressente o cubismo. Na mesma linha, Apollinaire, talvez o porta voz mais célebre do movimento, ao diferenciar o cubismo das velhas escolas de pintura, sustenta que aquele não é uma arte de imitação, mas de concepção, que tende a elevar-se às alturas da criação e que os últimos quadros e aquarelas de Cézanne pertencem ao cubismo.

Ao contrário de Albert Gleizes e Jean Metzinger, artistas ligados ao movimento, Picasso praticamente não expressou suas ideias sobre arte. Nas suas poucas e lacônicas declarações, contudo, manifesta o quanto sua arte deve à de Cézanne. Na visão de Picasso, o que conta não é o que artista faz, mas o que ele é. Em Cézanne o que lhe importa é a inquietação, a constante insatisfação que o leva a uma exigência criativa absolutamente incomum; com isso, aquilo que sua arte deixa como exemplo: um processo de criação que não se curva aos padrões estabelecidos. Na sinceridade com que encara os riscos e desafios da criação, o que de mais importante Cézanne o ensinou, o resto é falso. Numa espécie de homenagem ao "pai do cubismo", Picasso retratou o marchand Ambroise Vollard, ponto de ligação entre ambos, inspirado no de Cézanne.

Na apreciação de Cézanne pelos cubistas devem ser levados em conta três traços em especial: a profunda estruturação da realidade que o envolvia; sua tendência a geometrizar a realidade; e sua disposição em captar objetos a partir de pontos de vista heterodoxos em relação às leis da perspectiva tradicional. Essas características levam o crítico Roger Fry, no livro Vision and design, em 1920, a definir sua obra como a maior revolução na arte desde a utilização da perspectiva pelos renascentistas. Deve-se ressaltar que essas características jogam com as contingências que convergem para a revolução cubista. Apesar da relativamente pouca aceitação do público, o cubismo exerceu impressionante atração sobre o mundo artístico. Para ele acorreram futuristas, rayonistas, suprematistas, dadaístas e toda a arte construtivista.

No momento em que o cubismo impõe-se, a obra de Cézanne ganha relevância, passa a ser valorizada com critérios ausentes nos gabaritos de Zola ou Huysmans. O capricho do acaso histórico, então, é um dado que não se deve subestimar. Nele, a reavaliação de Cézanne tanto quanto um lance de atenção para o lugar comum a respeito das peculiaridades do mito do artista incompreendido que, depois, é tomado por gênio. Na contramão de seu tempo, como tantos artistas que circularam nos cabarés e cafés de Montmartre em fins do XIX, Cézanne correu risco de ser esquecido e sua obra se perder inexoravelmente nas brumas do passado. O valor atribuído por Aurier a Puvis de Chavannes foi corroído pelo tempo; o mesmo podia ter ocorrido com os tímidos e circunstanciais elogios de Émile Bernard.

Com isso, acentua-se como a reavaliação de sua obra está presa às contingências históricas. No movimento da história, a importância e valorização posterior de Cézanne devem-se a acolhida e subsequente repercussão da revolução cubista. Do ponto de vista do mito do artista incompreendido, esse não é o caso de Van Gogh ou Gauguin, com os quais se podem traçar paralelos. Para estes, a reavaliação de suas obras pelos pósteros não foi condicionada pelos rumos que as manifestações artísticas tomaram no século XX: apreciados pelos cubistas, não ressoam com a intensidade de Cézanne, não guardam a mesma importância nos rumos da história da arte. Em contraste, portanto, a incompreensão de Cézanne revela o quanto se deve ver com vagar o que seria mais um caso na lista de artistas excêntricos e incompreendidos.

Picasso, Les demoiselles d´Avignon, 1907, Óleo sobre tela, 243,9 x 233,7 cm, The Museum of Modern Art, Nova York


Humberto Pereira da Silva
São Paulo, 26/9/2012


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Domingão, domingueira de Ana Elisa Ribeiro
02. O espelho quebrado da aurora, poemas de Tito Leite de Jardel Dias Cavalcanti
03. O Voto de Meu Pai de Heloisa Pait
04. As pedras de Estevão Azevedo de Wellington Machado
05. Cidades do Algarve de Elisa Andrade Buzzo


Mais Humberto Pereira da Silva
Mais Acessadas de Humberto Pereira da Silva em 2012
01. Cézanne: o mito do artista incompreendido - 26/9/2012
02. 'O sal da terra': um filme à margem - 27/6/2012
03. Herzog, Glauber e 'Cobra Verde' - 18/4/2012
04. Paulo César Saraceni (1933-2012) - 25/4/2012
05. A Nouvelle Vague e Godard - 15/2/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




PAPAI NÃO É PERFEITO - COL. RECOMEÇO + SUPLEMENTO DE LEITURA
SONIA SALERNO FORJAZ
FTD
(1994)
R$ 14,00



PODEROSA 4 - DIÁRIO DE UMA GAROTA QUE TINHA O MUNDO NA MÃO
SERGIO KLEIN
FUNDAMENTO
(2009)
R$ 9,42



TERRORES DA NOITE
MARTIN CRUZ SMITH
NOVA CULTURAL
(1986)
R$ 6,00



AS PILHAS FRACAS DO TEMPO ( LIVRO + ENCARTE )
LEO CUNHA
ATUAL
(2003)
R$ 7,87



CRISES, PSICANÁLISE
REVISTA BRASILEIRA DE PSICANÁLISE Nº 1 VOL 31
RBP
(1997)
R$ 30,28



BRESIL: OBJECTIF AVENTURE
CHANTAL MANONCOURT
ARTHAUD
(2001)
R$ 35,28



MANUAL DE ADIVINHAÇÃO ATRAVÉS DO PENDULO
LUCIUS
TRAÇO
(1990)
R$ 16,00



5000 AÑOS DE HISTORIA
MARIA ROSSELLO MORA
RAMON SOPENA
(1968)
R$ 11,90



PROCESSO ADMINISTRATIVO E DEMOCRACIA - AUTOGRAFADO
DEMIAN GUEDES
FÓRUM
(2007)
R$ 39,90



O TEATRO DA MEMÓRIA DE GIULIO CAMILLO
MILTON JOSÉ DE ALMEIDA
UNICAMP
(2005)
R$ 45,00





busca | avançada
69585 visitas/dia
2,2 milhões/mês