Nice, Bebeth e Anjali | Marta Barcellos | Digestivo Cultural

busca | avançada
62220 visitas/dia
1,6 milhão/mês
Mais Recentes
>>> FESTIVAL DE ORQUESTRAS JUVENIS
>>> XIII Festival de Cinema da Fronteira divulga Programação
>>> Centro em Concerto: ¡Navidad Nuestra!
>>> Edital Retomada Cultural apresenta Conexão Brasil-Portugal: podcast produzido pelo Coletivo Corpos p
>>> CANTORA E ATRIZ SANDRA PÊRA NO SESC BELENZINHO
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Home sweet... O retorno, de Dulce Maria Cardoso
>>> Menos que um, novo romance de Patrícia Melo
>>> Gal Costa (1945-2022)
>>> O segredo para não brigar por política
>>> Endereços antigos, enganos atuais
>>> Rodolfo Felipe Neder (1935-2022)
>>> A pior crônica do mundo
>>> O que lembro, tenho (Grande sertão: veredas)
>>> Neste Momento, poesia de André Dick
>>> Jô Soares (1938-2022)
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lula de óculos ou Lula sem óculos?
>>> Uma história do Elo7
>>> Um convite a Xavier Zubiri
>>> Agnaldo Farias sobre Millôr Fernandes
>>> Marcelo Tripoli no TalksbyLeo
>>> Ivan Sant'Anna, o irmão de Sérgio Sant'Anna
>>> A Pathétique de Beethoven por Daniel Barenboim
>>> A história de Roberto Lee e da Avenue
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
Últimos Posts
>>> Nosotros
>>> Berço de lembranças
>>> Não sou eterno, meus atos são
>>> Meu orgulho, brava gente
>>> Sem chance
>>> Imcomparável
>>> Saudade indomável
>>> Às avessas
>>> Amigo do tempo
>>> Desapega, só um pouquinho.
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Colunismo em 2004
>>> Frases de Drummond
>>> Luciano do Valle (1947-2014)
>>> 28 de Junho #digestivo10anos
>>> 19 de Julho #digestivo10anos
>>> Citizen Kane
>>> Gal Costa (1945-2022)
>>> Vida conjugal
>>> Querem acabar com as livrarias
>>> Cisne Negro
Mais Recentes
>>> Lições de Sociologia de Émile Durkheim pela Martins Fontes (2002)
>>> Entrevista Com o Vampiro de Anne Rice pela Rocco (2020)
>>> Orações da noite junto a um recém-nascido de Jean Yves Garneau pela Ave-Maria (2019)
>>> Le Lagon Noir de Arnaldur Indridason pela Métailié (2016)
>>> Vernon Subutex - Tome 1 de Virginie Despentes pela Bernard Grasset (2015)
>>> Com Teresa de Jesus, Desejo ver a Face de Deus! de Irmã Maria José do Espírito Santo pela Edições Loyola (2013)
>>> A Náusea de Sartre Jean-Paul pela Europa-América
>>> The petroleum handbook de Royal detch e outros B8 pela Elsevier (1983)
>>> O Conto Da Aia de Margaret Atwood pela Rocco (2021)
>>> Um Chute Na Rotina de Roger Von Oech pela Cultura (2006)
>>> Os poderes de cura da Cabala de Dr. Raphael Kellman pela Campus (2004)
>>> Os Endereços Curiosos de Roma de Claudia Monteiro de Castro pela Panda Books (2002)
>>> Teresa de Ávila: É Tempo de Caminhar de Frei Patrício Sciadini pela Edições Loyola (2015)
>>> Laços Eternos de Zibia Gasparetto pela Espaço (1997)
>>> Les Émotions Cachées des Plantes de Didier Van Cauwelaert pela Plon (2018)
>>> Los abogados del dolar de Joseph C goulden pela Grijalbo (1973)
>>> Guia da Ecologia de Fábio Feldmann pela Abril (1992)
>>> Gramática da Língua Portuguesa de Pasquale & Ulisses pela Scipione (1998)
>>> Signos da Marca: Expressividade e Sensorialidade de Clotide Perez pela Thomson (2004)
>>> As 48 Leis do Poder de Robert Greene, Joost Elffers pela Rocco (2021)
>>> Anna Karenina - Volume I e II de Tolstói pela Nova Cultural (1995)
>>> Un Avios Sans Elle de Michel Bussi pela Presses de La Citê (2016)
>>> Caminho para a Plenitude: As Três Vidas de Teresa D'Ávila de Erika Lorenz pela Santuário (2017)
>>> Os Endereços Curiosos de São Paulo volumes 1 e 2 de Marcelo Duarte pela Panda Books (2004)
>>> La Muraille de lave de Arnaldur Indridason pela Métailié (2012)
COLUNAS

Sexta-feira, 5/4/2013
Nice, Bebeth e Anjali
Marta Barcellos

+ de 4000 Acessos

Bem-vindo ao mundo de Bebeth. No entanto, antes de adentrarmos a casa de chá em que Bebeth fará a sua aparição, em grande estilo, para o grupo de quatro amigas, é preciso dar crédito a quem nos proporcionará essa oportunidade. Para isso, preciso apresentar Nice, minha cabeleireira, uma mulher nova para quem já tem neto, que trabalha em pé muitas horas seguidas, mas só pensa nisso quando chega o final do dia. Ela tem folga aos domingos e segundas-feiras, mas é das segundas que gosta mais.

Já Bebeth não é acostumada a ficar horas em pé, nem quando vai ao shopping. No salão de beleza, só fica sentada. Nice, não. Nice gosta muito de Bebeth, do jeito que é possível gostar das clientes do salão de Ipanema.

Para efeito de comparação, o ambiente de um cabeleireiro é como um táxi no quesito "jogar conversa fora e descobrir outros mundos" - embora só esteja acessível às mulheres não-Bebeth que venceram algum preconceito inicial em nome de um cabelo bem cortado e bem hidratado. Foi no salão que ouvi a história de Bebeth, contada por Nice - e talvez o que mais tenha me deixado perturbada, ao fim da conversa, foi a constatação de termos Nice em comum em nossas vidas tão diferentes, eu e Bebeth.

Comecemos por Nice. Como já antecipei, ela não é jovem, e talvez sofra por isso em seu local de trabalho, onde sempre ingressam novas profissionais - coloristas, cabeleireiras, manicures recém-treinadas pela rede de cabeleireiros carioca. Mulheres com muita energia em seus vinte e poucos anos. Como qualquer mulher madura que trabalha, Nice percebeu que precisava se diferenciar para não ser trocada por duas profissionais menos experientes e mais baratas. Foi então que apostou no treinamento em megahair.

A peculiaridade do megahair é que são necessárias muitas horas consecutivas para concluir todo o procedimento, caso a ideia seja aumentar o comprimento e dar volume aos cabelos - ou seja, ganhar uma bela cabeleira. Pequenas mechas são coladas uma a uma. Depois, tudo é tingido da mesma cor. Como a agenda de Nice vive bloqueada por causa das clientes do megahair, tive minha curiosidade aguçada sobre o assunto, como quem embarca em um táxi numa cidade pouco familiar. O que leva uma mulher a fazer megahair?

Nice talvez enumerasse como primeiro motivo o arrependimento em ter cortado o cabelo, mas, como nos conhecemos há alguns anos, ela pode ser mais sincera: olha, o que leva uma mulher a fazer megahair é ter muito dinheiro. Eu insisto na questão do tempo, porque uma mulher que pode passar dois dias inteiros no salão não tem tempo para ganhar dinheiro. Claro - e Nice me explica como se revelasse a uma criança que a vida não é justa -, as clientes de megahair não precisam trabalhar para ganhar o dinheiro que gastam.

Mas, olha, nós fizemos um treinamento em São Paulo (é Nice falando) e tivemos uma palestra muito boa. O palestrante nos orientou a não tratar mais as clientes como dondocas ou peruas. As mulheres ricas hoje em dia não usam brilhantes e peles, e até gostam de parecer que trabalham. Querem mais ter experiências do que coisas. E são mais discretas.

Com exceção de Bebeth. Não que Bebeth seja uma dondoca típica, a tal dos brilhantes e peles. É que é difícil pra ela ser discreta. Alta, magra, Bebeth tem um sorriso radiante, e agora vou ter que continuar a descrevê-la como ela ainda era naquele dia, véspera do megahair que bloqueou a agenda de Nice. Bebeth usava um corte da cabelo ousado: um chanel de bico, platinado. Se você não frequenta cabeleireiros em Ipanema, vai precisar de uma explicação mais detalhada para visualizar Bebeth, então vamos lá: chanel é aquele cabelo curto e cortado reto, na altura das orelhas, como o da estilista francesa. O bico é porque, no caso de Bebeth, o corte não é tão reto: as laterais junto ao rosto são mais compridas. Platinado é a cor dos cabelos da Marilyn Monroe, mas acho que isso todo mundo sabe.

Então, continuando, Bebeth é alta, e Nice está satisfeita em informá-lo. Às vezes surgem clientes baixinhas e gordinhas querendo "botar cabelão". Fica horrível (é Nice falando). Mas não há como dissuadir essa pobre mulher, que afinal tem os R$3 mil na conta bancária para pagar o cabelo, sem falar na mão de obra. Eu não tinha comentado ainda, mas um megahair caprichado não sai por menos de R$3 mil.

Sou tomada pelo mal estar de imaginar uma baixinha e gordinha horrível de cabelão. Os cabelos lindos; ela horrível. Será que o problema é o cabelão não melhorar a aparência da "pobre" mulher? Ou será que, por exibir tal aparência, ela não merece usufruir da experiência de ficar de cabelão do dia para a noite?

Sim, porque, juntando a palestra-treinamento do salão aos comentários de Nice, imagino que o megahair está em alta por se tratar de uma experiência - e não da ostentação de um cabelo de R$ 3 mil, como se fosse um diamante. Particularmente, nunca tinha pensado "puxa, que cabelo lindo, deve valer uns R$ 3 mil". Será que vou passar a pensar, agora?

Mas é aí que eu queria chegar. A "experiência" de ficar com os cabelos compridos do dia para noite só é uma "experiência" porque ninguém fica com os cabelos compridos do dia para a noite. Nem na Índia, de onde vêm os fios usados nos salões de beleza. Os cabelos que Bebeth colocará amanhã, dando adeus ao chanel de bico platinado, demoraram anos para crescer na cabeça de... chamemos de Anjali a indiana que cortou os seus cabelos em um templo na cidade de Chennai.

Bebeth ficará apenas três meses usando os cabelos que cresceram por anos a partir do couro cabeludo de Anjali. Depois desse período, ela já avisou à Nice, mudará de visual novamente. Acho difícil que, pelo menos uma vez nestes três meses, talvez quando estiver com insônia por causa da TPM, Bebeth não pense em Anjali.

Cabelos crescem de 1 a 1,5 centímetro por mês. Em média, uma pessoa tem, aos 25 anos, entre 100 mil e 150 mil fios de cabelo (Bebeth e Anjali, ao contrário de Nice, são jovens, portanto estas estatísticas lhes servem). Os cabelos indianos não são distribuídos para o mundo todo apenas porque são fortes, lisos e virgens de tinturas e outros processos químicos. É porque são baratos, muito baratos. Anjali não ganhou nem uma rúpia por 40 centímetros dos seus 150 mil fios de cabelos fortes, lisos e virgens, que demoraram três anos para crescer, porque os ofereceu a uma divindade.

Anjali sabe vagamente que os cabelos oferecidos em sacrifício nos templos indianos são depois vendidos, mas não se importa. Antigamente, parece que eram usados como enchimento de colchões, e agora vão para os megahair. O que importa é que o seu ato de cultivar e sacrificar os lindos cabelos será considerado por Ganesha, o deus-menino com cabeça de elefante, que atenderá ao seu pedido. Qual terá sido o pedido de Anjali? Não, nisso Bebeth não chegou a pensar.

Bebeth teve um pouco de insônia na véspera do grande dia, o da aparição para as amigas, mas resolveu o problema com corretivo nas olheiras e duas cocas zero. Daqui a pouco, vai encontrá-las numa casa de chá em um casarão histórico no bairro do Flamengo. É a terceira vez que o grupo escolhe aquele lugar, lindo de morrer. Sempre impecável, Bebeth tem o dom de escolher roupas com caimento perfeito em seu corpo esguio. Nem usa muitas joias. É um tiquinho invejada pelas amigas, que sempre elogiam o seu estilo e esperam ansiosas por novidades.

Agora, atrasada, Bebeth entra na casa de chá e as quatro cabeças se voltam para ela.


Marta Barcellos
Rio de Janeiro, 5/4/2013


Mais Marta Barcellos
Mais Acessadas de Marta Barcellos em 2013
01. Para viver de literatura - 7/2/2013
02. Mamãe cata-piolho - 31/5/2013
03. Suicídio - 15/2/2013
04. Suicídio, parte 2 - 15/3/2013
05. Até eu caí nessa - 8/11/2013


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Filho Teu Não Foge a Luta
Fellipe Awi
Intrínseca
(2012)



Tendências Básicas de nossa época
Pitrim A. Sorokin
Zahar
(1966)



Peregrinos das Estrelas
Dilip Kumar Roy e Indira Devi
pensamento
(1973)



A Libertação dos Condicionamentos
Krishnamurti
ICK
(1977)



Nas Horas de Meditação
J. F. Alexander
Lorenz
(1997)



Carlos Wizard - Sonhos Não Tem Limites
Ignácio de Loyola Brandão
Gente
(2013)



Escravidão no Brasil: Trabalho e Resistência
Júlio Quevedo
Ftd
(1996)



O Triângulo das Bermudas - a História Incrível de Estranhos e Ine
Charles Berlitz (autor), Carmem Ballot (trad
Nova Fronteira
(1974)



The Art of Marriage (inglês)(2012)
Rabbi N. D. Dubov and Rabbi N. Silberburg
Jli
(2012)



A Magia do I Ching
J.H. Brennam
Madras
(2011)





busca | avançada
62220 visitas/dia
1,6 milhão/mês