Sérgio Alcides é poeta, tradutor, ensaísta e historiador. Publicou os livros de poesia: Nada a ver com a lua, pela editora Sette Letras, em 1996 e O ar das cidades, pela Nankin, em 2000. Traduziu junto com Ronald Polito o livro Poemas civis, de Joan Brossa e Almanaque das horas, de Julio Torri. Traduziu também obras de Ted Hughes. É autor do ensaio Estes penhascos: Claudio Manoel da Costa e a paisagem das Minas, editado pela Hucitec.

O último livro de poesias de Sérgio Alcides, que comentaremos aqui, Píer, lançado pela Editora 34, passeia pelas paragens da tensão entre a quietude desejada, a evasão sonhada, e o momento da dissolução desse momento de suspensão.

Na capa do livro aparece a imagem de um homem na praia, dando um salto mortal, tendo ao fundo as ondas do mar, frequentadas por alguns banhistas. O salto é congelado pela fotografia, dando ao espectador da foto a sensação de uma vitória sobre a gravidade. Essa leveza, insustentável pelos nossos corpos, somente pode ser criada pela arte. Mas o poeta, além de todos os artistas, é quem mais sabe sobre a impossibilidade de se manter o salto no ar. Anjo decaído, o poeta sabe fazer, no entanto, da consciência dessa leveza, pronta para desabar, sua poesia.

A definição de píer se faz necessária: é uma passarela sobre a água, suportada por largas estacas ou pilares que permite que marés e correntes fluam quase desimpedidas sob a sua estrutura. Em fotografias, o píer oferece a imagem de um lugar propício à meditação e/ou contemplação, aos estados de leveza que se sobrepõem à agitação das águas ao redor. Então, embora ofereça um estado de paz, a imagem guarda em si, ao mesmo tempo, a contradição entre o peso das massas líquidas em constante mutação e a leveza de uma ponte sobre o qual se contempla a dissolução constante desse movimento. Metáfora perfeita para a poesia de Sérgio Alcides.

O primeiro poema do livro, "Prelúdio", se abre com essas belas imagens da evasão, próximas daquela que os monges budistas encontram: "Tudo quietude, tudo/ flutua sem sombra, sem/ nenhuma ponderação./ O sono dos animais/ em seus corpos recolhidos/ imita a respiração/ macia das almofadas,/ e os sofás já se esqueceram/ de toda a conversação. O pêndulo apenas pensa/ no pulso, dentro da caixa./ Salta da parede o branco/ na frente das coloridas/ telas, que vão se despindo/ de seu alarde, de sua/ murmuração. (...)"

Esse branco da parede (o "Nada" búdico?) que se sobrepõe, num zoom dado pelo poeta, ao colorido das telas, indica a resolução do poema, o momento do encontro "claro, tubular, isento,/ e, súbito, sem retorno" onde o minuto é espetado em seu total silêncio.

Mas se pensarmos no conjunto do livro, essa quietude não se sustenta, pois a guerra travada entre este estado de flutuação e a queda já se faz perceber no poema seguinte "Está caindo", onde o mundo real da circunstância é oposição ao olho da poesia, uma ranhura, uma "poeira que está caindo,/ cobrindo as mercadorias." E a consequência é que impede de "deixar de ver/ - através - a poesia."

Outro poema interessante para se pensar essa tensão entre quietude e insustentabilidade do estado poético desejado é "Eis que desvanece". Num sobrevoo (como na foto da capa) sobre a realidade, o poeta deixa "a cidade nublada" com o pensamento "dando voltas, em branco" (o branco novamente). Mas eis que "o carrinho da hipocrisia", a realidade, desperta o poeta. "O que vou beber? A laranjada, a marca da laranjada, o inválido/ cálice." Cortado do oásis, no entanto, ele retoma sua escolha pela evasão: "Melhor é a sede. E bebo o voo."

O poema "Mito" cobra a dívida do delito de Ícaro (que também quer transcender o peso dos corpos com seu voo ao infinito) e seu "mergulho imperfeito": "a divindade/ (fingindo-se ofendida) assim castigou:/ firmar-se entre as metamorfoses,/ nunca parar de ir sem sair do lugar." Como uma espécie de corrente marítima, num vai e vem intermitente, o poema relata essa luta infinda entre "a revolução dos corpos celestes" e a "sombra imóvel", essa tensão que, enfim, funda o que para o poeta é o Mito: a poesia.

Como no poema "Mito", também em "Preamar" o píer se faz elemento de importância, no primeiro caso como observador da cena (ou olho do poeta), no segundo caso, talvez, a própria persona do poeta "que espera,/ a mesma areia, o mesmo aéreo/ manguezal debaixo do desabamento/ de luz sobre a composição da paisagem (...)".

Diferente da "paixão das águas lunáticas" que se oferece em metamorfoses, "sempre as mesmas", mas também "sempre outras", a paixão do poeta transmutado em píer é "pensar que permanece". Esse seria seu pré-amar, o saber-se tensionado entre o desejo de "reencontrar o sal deixado pelo amor/ de véspera" e sua posição de quem "auspicia sem convicção a lei da volta".

Em "Minh´alma" a tensão também se faz presente, essa interrogação como "infecção maior": "Quem luta em mim pelo poema agora?" Na página anterior, em "Blateração" algumas respostas: "quem rouba o fogo junta palavras". Aquele que sabe, o olho da consciência, o poeta, o que narra não as aventuras da história, a vero-semelhança, mas o recriar da vida em narrativa improváveis, pois que contaminado por suas próprias paixões indescritíveis. Ainda: "Cada cabeça (surda?), uma sentença (muda?)". O poema, enfim, é "Aparição": a revelação de "algo que desapareceu". Pura blateração?

As oposições não param, como se dá também no poema "Côa", em que "a areia se esquece fácil, mas o píer não". O confronto entre o peso das paixões humanas e o desejo de sua transcendência é latente. "Mesmo chorando por dentro, a areia/ é da alegria, muito pronta e granulada/ para aceitar o banho do sol por cima". O píer seria o contrário.

Também em "Geometria", o píer é a oposição ao estado de perfeição: "Rio desenganado, desertor do círculo/ que ele mesmo supõe, o píer não tem orla,/ apenas imaginações". Enquanto o píer "atira-se", "só a paisagem fica no lugar de sempre (...)", "mas o píer, como régua amanhecida,/ ao acordar já está medindo a curvatura". Essa tensão opõe-se à imagem do píer como o lugar de um ponto de equilíbrio sobre o qual se pode vislumbrar com olhos de superioridade a agitação ao redor. Tomado pelas razões do mundo, que a sua consciência atravessa, "Só a paisagem fica quieta na moldura/ que o píer atravessa, perpendicular".

A situação se aguça, quando em "Global" o poeta irrita-se in extremis e, numa espécie de barca do inferno, faz sua viagem ao "coração da treva". O poema é um relato dessa passagem ao inferno do consumismo programado, das existências naufragadas nesse domingo feliz da tirania do capital que aos seus prisioneiros diz: "fique à vontade no horror, meu senhor".

Mas o poeta não deixa também de se regozijar com a aventura da existência, pois mesmo que suas palavras produzam a tensão do "céu azul que sangra no sertão", como no último poema do livro, "Reverdece", produz também o encanto do que renasce, pois num momento uma árvore está nua "antes da primeira manhã", mas em seguida "reverdece" para que ele possa "levar para a amada as primeiras flores roxas": esses poemas que compõem Píer.

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Terça-feira, 28/5/2013
A insustentável leveza da poesia de Sérgio Alcides
Jardel Dias Cavalcanti

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Sérgio Alcides é poeta, tradutor, ensaísta e historiador. Publicou os livros de poesia: Nada a ver com a lua, pela editora Sette Letras, em 1996 e O ar das cidades, pela Nankin, em 2000. Traduziu junto com Ronald Polito o livro Poemas civis, de Joan Brossa e Almanaque das horas, de Julio Torri. Traduziu também obras de Ted Hughes. É autor do ensaio Estes penhascos: Claudio Manoel da Costa e a paisagem das Minas, editado pela Hucitec.

O último livro de poesias de Sérgio Alcides, que comentaremos aqui, Píer, lançado pela Editora 34, passeia pelas paragens da tensão entre a quietude desejada, a evasão sonhada, e o momento da dissolução desse momento de suspensão.

Na capa do livro aparece a imagem de um homem na praia, dando um salto mortal, tendo ao fundo as ondas do mar, frequentadas por alguns banhistas. O salto é congelado pela fotografia, dando ao espectador da foto a sensação de uma vitória sobre a gravidade. Essa leveza, insustentável pelos nossos corpos, somente pode ser criada pela arte. Mas o poeta, além de todos os artistas, é quem mais sabe sobre a impossibilidade de se manter o salto no ar. Anjo decaído, o poeta sabe fazer, no entanto, da consciência dessa leveza, pronta para desabar, sua poesia.

A definição de píer se faz necessária: é uma passarela sobre a água, suportada por largas estacas ou pilares que permite que marés e correntes fluam quase desimpedidas sob a sua estrutura. Em fotografias, o píer oferece a imagem de um lugar propício à meditação e/ou contemplação, aos estados de leveza que se sobrepõem à agitação das águas ao redor. Então, embora ofereça um estado de paz, a imagem guarda em si, ao mesmo tempo, a contradição entre o peso das massas líquidas em constante mutação e a leveza de uma ponte sobre o qual se contempla a dissolução constante desse movimento. Metáfora perfeita para a poesia de Sérgio Alcides.

O primeiro poema do livro, "Prelúdio", se abre com essas belas imagens da evasão, próximas daquela que os monges budistas encontram: "Tudo quietude, tudo/ flutua sem sombra, sem/ nenhuma ponderação./ O sono dos animais/ em seus corpos recolhidos/ imita a respiração/ macia das almofadas,/ e os sofás já se esqueceram/ de toda a conversação. O pêndulo apenas pensa/ no pulso, dentro da caixa./ Salta da parede o branco/ na frente das coloridas/ telas, que vão se despindo/ de seu alarde, de sua/ murmuração. (...)"

Esse branco da parede (o "Nada" búdico?) que se sobrepõe, num zoom dado pelo poeta, ao colorido das telas, indica a resolução do poema, o momento do encontro "claro, tubular, isento,/ e, súbito, sem retorno" onde o minuto é espetado em seu total silêncio.

Mas se pensarmos no conjunto do livro, essa quietude não se sustenta, pois a guerra travada entre este estado de flutuação e a queda já se faz perceber no poema seguinte "Está caindo", onde o mundo real da circunstância é oposição ao olho da poesia, uma ranhura, uma "poeira que está caindo,/ cobrindo as mercadorias." E a consequência é que impede de "deixar de ver/ - através - a poesia."

Outro poema interessante para se pensar essa tensão entre quietude e insustentabilidade do estado poético desejado é "Eis que desvanece". Num sobrevoo (como na foto da capa) sobre a realidade, o poeta deixa "a cidade nublada" com o pensamento "dando voltas, em branco" (o branco novamente). Mas eis que "o carrinho da hipocrisia", a realidade, desperta o poeta. "O que vou beber? A laranjada, a marca da laranjada, o inválido/ cálice." Cortado do oásis, no entanto, ele retoma sua escolha pela evasão: "Melhor é a sede. E bebo o voo."

O poema "Mito" cobra a dívida do delito de Ícaro (que também quer transcender o peso dos corpos com seu voo ao infinito) e seu "mergulho imperfeito": "a divindade/ (fingindo-se ofendida) assim castigou:/ firmar-se entre as metamorfoses,/ nunca parar de ir sem sair do lugar." Como uma espécie de corrente marítima, num vai e vem intermitente, o poema relata essa luta infinda entre "a revolução dos corpos celestes" e a "sombra imóvel", essa tensão que, enfim, funda o que para o poeta é o Mito: a poesia.

Como no poema "Mito", também em "Preamar" o píer se faz elemento de importância, no primeiro caso como observador da cena (ou olho do poeta), no segundo caso, talvez, a própria persona do poeta "que espera,/ a mesma areia, o mesmo aéreo/ manguezal debaixo do desabamento/ de luz sobre a composição da paisagem (...)".

Diferente da "paixão das águas lunáticas" que se oferece em metamorfoses, "sempre as mesmas", mas também "sempre outras", a paixão do poeta transmutado em píer é "pensar que permanece". Esse seria seu pré-amar, o saber-se tensionado entre o desejo de "reencontrar o sal deixado pelo amor/ de véspera" e sua posição de quem "auspicia sem convicção a lei da volta".

Em "Minh´alma" a tensão também se faz presente, essa interrogação como "infecção maior": "Quem luta em mim pelo poema agora?" Na página anterior, em "Blateração" algumas respostas: "quem rouba o fogo junta palavras". Aquele que sabe, o olho da consciência, o poeta, o que narra não as aventuras da história, a vero-semelhança, mas o recriar da vida em narrativa improváveis, pois que contaminado por suas próprias paixões indescritíveis. Ainda: "Cada cabeça (surda?), uma sentença (muda?)". O poema, enfim, é "Aparição": a revelação de "algo que desapareceu". Pura blateração?

As oposições não param, como se dá também no poema "Côa", em que "a areia se esquece fácil, mas o píer não". O confronto entre o peso das paixões humanas e o desejo de sua transcendência é latente. "Mesmo chorando por dentro, a areia/ é da alegria, muito pronta e granulada/ para aceitar o banho do sol por cima". O píer seria o contrário.

Também em "Geometria", o píer é a oposição ao estado de perfeição: "Rio desenganado, desertor do círculo/ que ele mesmo supõe, o píer não tem orla,/ apenas imaginações". Enquanto o píer "atira-se", "só a paisagem fica no lugar de sempre (...)", "mas o píer, como régua amanhecida,/ ao acordar já está medindo a curvatura". Essa tensão opõe-se à imagem do píer como o lugar de um ponto de equilíbrio sobre o qual se pode vislumbrar com olhos de superioridade a agitação ao redor. Tomado pelas razões do mundo, que a sua consciência atravessa, "Só a paisagem fica quieta na moldura/ que o píer atravessa, perpendicular".

A situação se aguça, quando em "Global" o poeta irrita-se in extremis e, numa espécie de barca do inferno, faz sua viagem ao "coração da treva". O poema é um relato dessa passagem ao inferno do consumismo programado, das existências naufragadas nesse domingo feliz da tirania do capital que aos seus prisioneiros diz: "fique à vontade no horror, meu senhor".

Mas o poeta não deixa também de se regozijar com a aventura da existência, pois mesmo que suas palavras produzam a tensão do "céu azul que sangra no sertão", como no último poema do livro, "Reverdece", produz também o encanto do que renasce, pois num momento uma árvore está nua "antes da primeira manhã", mas em seguida "reverdece" para que ele possa "levar para a amada as primeiras flores roxas": esses poemas que compõem Píer.

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Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 28/5/2013


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