A insustentável leveza da poesia de Sérgio Alcides | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
47877 visitas/dia
1,6 milhão/mês
Mais Recentes
>>> SÁBADO É DIA DE AULÃO GRATUITO DE GINÁSTICA DA SMART FIT NO GRAND PLAZA
>>> Curso de Formação de Agentes Culturais rola dias 8 e 9 de graça e online
>>> Ciclo de leitura online e gratuito debate renomados escritores
>>> Nano Art Market lança rede social de nicho, focada em arte e cultura
>>> Eric Martin, vocalista do Mr. Big, faz show em Porto Alegre dia 13 de abril
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Obra traz autores do século XIX como personagens
>>> As turbulentas memórias de Mark Lanegan
>>> Gatos mudos, dorminhocos ou bisbilhoteiros
>>> Guignard, retratos de Elias Layon
>>> Entre Dois Silêncios, de Adolfo Montejo Navas
>>> Home sweet... O retorno, de Dulce Maria Cardoso
>>> Menos que um, novo romance de Patrícia Melo
>>> Gal Costa (1945-2022)
>>> O segredo para não brigar por política
>>> Endereços antigos, enganos atuais
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lula de óculos ou Lula sem óculos?
>>> Uma história do Elo7
>>> Um convite a Xavier Zubiri
>>> Agnaldo Farias sobre Millôr Fernandes
>>> Marcelo Tripoli no TalksbyLeo
>>> Ivan Sant'Anna, o irmão de Sérgio Sant'Anna
>>> A Pathétique de Beethoven por Daniel Barenboim
>>> A história de Roberto Lee e da Avenue
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
Últimos Posts
>>> Saudades, lembranças
>>> Promessa da terra
>>> Atos não necessários
>>> Alma nordestina, admirável gênio
>>> Estrada do tempo
>>> A culpa é dele
>>> Nosotros
>>> Berço de lembranças
>>> Não sou eterno, meus atos são
>>> Meu orgulho, brava gente
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Entrevista com Noga Sklar
>>> Tempo vida poesia 2/5
>>> The Social Network ou A Rede Social, o filme
>>> Só notícia boa
>>> Made in China
>>> Para ler o Pato Donald
>>> Prossiga
>>> Mozart 11 com Barenboim
>>> Para amar Agostinho
>>> Discos de MPB essenciais
Mais Recentes
>>> A educação está na moda de Edson Urubatan pela Sabendo (2015)
>>> Exercícios de Bioenergética o Caminho para uma Saúde Vibrante de Alexander Lowen e Leslie Lowen pela Agora (1985)
>>> Uma pária das ilhas de Luiz Fernando de O. Araujo pela Artes ofícios (2016)
>>> Com asas de águia de Michael Korda pela Objetiva (2011)
>>> Curso Elementar de Direito Romano de Thomas Marky pela Saraiva (1995)
>>> Boneco de Neve de Jo Nesbo pela Record (2017)
>>> Batalha Espiritual-seminário Especial de Vitória de Pastor Missionário Joá Caitano pela Cerve-Semit (1997)
>>> Conversações Abolicionistas - uma crítica do sistema penal e da sociedade punitiva de Edson Passetti; Roberto B. Dias da Silva pela Método (1997)
>>> Brasil holandês - 3 volumes de Petrobras pela Index (1999)
>>> Relíquias sagradas de Fred Vargas pela Companhia Das Letras (2009)
>>> O Canto e a Memória de Silvana Peloso pela Ática (1996)
>>> Presença de Maritain - Testemunhos de Lafaiete Pussoli , Jorge da Cunha Lima pela Ltr (1995)
>>> Chagal - O Poeta que Pariu de H. F Bezerra pela Scortecci (1992)
>>> Português no direito de Ronaldo Caldeira Xavier pela Forense (1981)
>>> Bíblia - Histórias Ilustradas - Novo Testamento de Vários Autores pela Abril (1994)
>>> O Código Da Vinci de Dan Brown pela Arqueiro (2004)
>>> Deus, a Força que Cura! de José Trasferetti pela Átomo (2002)
>>> Construindo Vidas de Claudinei Germano dos Santos pela Germanni Group (2007)
>>> Trilogia Para todos os garotos que eu já amei de Jenny Han pela Intrinseca (2017)
>>> As 16 leis do Sucesso de Napoleon Hill pela Faro Editorial (2017)
>>> Cura para o vazio da Alma de Vasti de Souza Viana pela Vanmar (2010)
>>> A Arte da Cura Espiritual de Keith Sherwood pela Siciliano (1989)
>>> Vidas Vinculadas á Tragédia de Hamilton Antunes pela Artes & Textos (2009)
>>> As quatro estações de Sheila Pickles pela Melhoramentos (1995)
>>> A economia da desigualdade de Thomas Piketty pela Intrinseca (2015)
COLUNAS

Terça-feira, 28/5/2013
A insustentável leveza da poesia de Sérgio Alcides
Jardel Dias Cavalcanti
+ de 5400 Acessos

Sérgio Alcides é poeta, tradutor, ensaísta e historiador. Publicou os livros de poesia: Nada a ver com a lua, pela editora Sette Letras, em 1996 e O ar das cidades, pela Nankin, em 2000. Traduziu junto com Ronald Polito o livro Poemas civis, de Joan Brossa e Almanaque das horas, de Julio Torri. Traduziu também obras de Ted Hughes. É autor do ensaio Estes penhascos: Claudio Manoel da Costa e a paisagem das Minas, editado pela Hucitec.

O último livro de poesias de Sérgio Alcides, que comentaremos aqui, Píer, lançado pela Editora 34, passeia pelas paragens da tensão entre a quietude desejada, a evasão sonhada, e o momento da dissolução desse momento de suspensão.

Na capa do livro aparece a imagem de um homem na praia, dando um salto mortal, tendo ao fundo as ondas do mar, frequentadas por alguns banhistas. O salto é congelado pela fotografia, dando ao espectador da foto a sensação de uma vitória sobre a gravidade. Essa leveza, insustentável pelos nossos corpos, somente pode ser criada pela arte. Mas o poeta, além de todos os artistas, é quem mais sabe sobre a impossibilidade de se manter o salto no ar. Anjo decaído, o poeta sabe fazer, no entanto, da consciência dessa leveza, pronta para desabar, sua poesia.

A definição de píer se faz necessária: é uma passarela sobre a água, suportada por largas estacas ou pilares que permite que marés e correntes fluam quase desimpedidas sob a sua estrutura. Em fotografias, o píer oferece a imagem de um lugar propício à meditação e/ou contemplação, aos estados de leveza que se sobrepõem à agitação das águas ao redor. Então, embora ofereça um estado de paz, a imagem guarda em si, ao mesmo tempo, a contradição entre o peso das massas líquidas em constante mutação e a leveza de uma ponte sobre o qual se contempla a dissolução constante desse movimento. Metáfora perfeita para a poesia de Sérgio Alcides.

O primeiro poema do livro, "Prelúdio", se abre com essas belas imagens da evasão, próximas daquela que os monges budistas encontram: "Tudo quietude, tudo/ flutua sem sombra, sem/ nenhuma ponderação./ O sono dos animais/ em seus corpos recolhidos/ imita a respiração/ macia das almofadas,/ e os sofás já se esqueceram/ de toda a conversação. O pêndulo apenas pensa/ no pulso, dentro da caixa./ Salta da parede o branco/ na frente das coloridas/ telas, que vão se despindo/ de seu alarde, de sua/ murmuração. (...)"

Esse branco da parede (o "Nada" búdico?) que se sobrepõe, num zoom dado pelo poeta, ao colorido das telas, indica a resolução do poema, o momento do encontro "claro, tubular, isento,/ e, súbito, sem retorno" onde o minuto é espetado em seu total silêncio.

Mas se pensarmos no conjunto do livro, essa quietude não se sustenta, pois a guerra travada entre este estado de flutuação e a queda já se faz perceber no poema seguinte "Está caindo", onde o mundo real da circunstância é oposição ao olho da poesia, uma ranhura, uma "poeira que está caindo,/ cobrindo as mercadorias." E a consequência é que impede de "deixar de ver/ - através - a poesia."

Outro poema interessante para se pensar essa tensão entre quietude e insustentabilidade do estado poético desejado é "Eis que desvanece". Num sobrevoo (como na foto da capa) sobre a realidade, o poeta deixa "a cidade nublada" com o pensamento "dando voltas, em branco" (o branco novamente). Mas eis que "o carrinho da hipocrisia", a realidade, desperta o poeta. "O que vou beber? A laranjada, a marca da laranjada, o inválido/ cálice." Cortado do oásis, no entanto, ele retoma sua escolha pela evasão: "Melhor é a sede. E bebo o voo."

O poema "Mito" cobra a dívida do delito de Ícaro (que também quer transcender o peso dos corpos com seu voo ao infinito) e seu "mergulho imperfeito": "a divindade/ (fingindo-se ofendida) assim castigou:/ firmar-se entre as metamorfoses,/ nunca parar de ir sem sair do lugar." Como uma espécie de corrente marítima, num vai e vem intermitente, o poema relata essa luta infinda entre "a revolução dos corpos celestes" e a "sombra imóvel", essa tensão que, enfim, funda o que para o poeta é o Mito: a poesia.

Como no poema "Mito", também em "Preamar" o píer se faz elemento de importância, no primeiro caso como observador da cena (ou olho do poeta), no segundo caso, talvez, a própria persona do poeta "que espera,/ a mesma areia, o mesmo aéreo/ manguezal debaixo do desabamento/ de luz sobre a composição da paisagem (...)".

Diferente da "paixão das águas lunáticas" que se oferece em metamorfoses, "sempre as mesmas", mas também "sempre outras", a paixão do poeta transmutado em píer é "pensar que permanece". Esse seria seu pré-amar, o saber-se tensionado entre o desejo de "reencontrar o sal deixado pelo amor/ de véspera" e sua posição de quem "auspicia sem convicção a lei da volta".

Em "Minh´alma" a tensão também se faz presente, essa interrogação como "infecção maior": "Quem luta em mim pelo poema agora?" Na página anterior, em "Blateração" algumas respostas: "quem rouba o fogo junta palavras". Aquele que sabe, o olho da consciência, o poeta, o que narra não as aventuras da história, a vero-semelhança, mas o recriar da vida em narrativa improváveis, pois que contaminado por suas próprias paixões indescritíveis. Ainda: "Cada cabeça (surda?), uma sentença (muda?)". O poema, enfim, é "Aparição": a revelação de "algo que desapareceu". Pura blateração?

As oposições não param, como se dá também no poema "Côa", em que "a areia se esquece fácil, mas o píer não". O confronto entre o peso das paixões humanas e o desejo de sua transcendência é latente. "Mesmo chorando por dentro, a areia/ é da alegria, muito pronta e granulada/ para aceitar o banho do sol por cima". O píer seria o contrário.

Também em "Geometria", o píer é a oposição ao estado de perfeição: "Rio desenganado, desertor do círculo/ que ele mesmo supõe, o píer não tem orla,/ apenas imaginações". Enquanto o píer "atira-se", "só a paisagem fica no lugar de sempre (...)", "mas o píer, como régua amanhecida,/ ao acordar já está medindo a curvatura". Essa tensão opõe-se à imagem do píer como o lugar de um ponto de equilíbrio sobre o qual se pode vislumbrar com olhos de superioridade a agitação ao redor. Tomado pelas razões do mundo, que a sua consciência atravessa, "Só a paisagem fica quieta na moldura/ que o píer atravessa, perpendicular".

A situação se aguça, quando em "Global" o poeta irrita-se in extremis e, numa espécie de barca do inferno, faz sua viagem ao "coração da treva". O poema é um relato dessa passagem ao inferno do consumismo programado, das existências naufragadas nesse domingo feliz da tirania do capital que aos seus prisioneiros diz: "fique à vontade no horror, meu senhor".

Mas o poeta não deixa também de se regozijar com a aventura da existência, pois mesmo que suas palavras produzam a tensão do "céu azul que sangra no sertão", como no último poema do livro, "Reverdece", produz também o encanto do que renasce, pois num momento uma árvore está nua "antes da primeira manhã", mas em seguida "reverdece" para que ele possa "levar para a amada as primeiras flores roxas": esses poemas que compõem Píer.

Para ir além:



Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 28/5/2013

Quem leu este, também leu esse(s):
01. O dia em que não conheci Chico Buarque de Elisa Andrade Buzzo
02. Entrevista com o poeta mineiro Carlos Ávila de Jardel Dias Cavalcanti
03. Um Cântico para Rimbaud, de Lúcia Bettencourt de Jardel Dias Cavalcanti
04. Transformação de Lúcifer, obra de Egas Francisco de Jardel Dias Cavalcanti
05. Livro das Semelhanças, de Ana Martins Marques de Jardel Dias Cavalcanti


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2013
01. A Última Ceia de Leonardo da Vinci - 12/2/2013
02. Mondrian: a aventura espiritual da pintura - 22/1/2013
03. Cinquenta tons de cinza no mundo real - 3/9/2013
04. Gerald Thomas: arranhando a superfície do fundo - 26/2/2013
05. O corpo-reconstrução de Fernanda Magalhães - 18/6/2013


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Livro - Lazer e Educação Física - Textos Didáticos para a Formação de Profissionais
Cinthia Lopes da Silva, Tatyane Perna Silva
Papirus



What are the Odds? From Shark Attack to Lightning Strike
Genevieve Kocienda
Cambridge Discovery Education
(2014)



De Fiesta En Otoño
Clara Villanueva e Josefina Fernández
Del Prado
(1996)



Para Além de Freud e Piaget: Referenciais para Novas Perspectivas
Jean-marie Dolle
Vozes
(1993)



Física Básica Volume Único 4ª Ed.
Nicolau Gilberto Ferraro e Outros
Atual
(2020)



Reinações de Monteiro Lobato: uma Biografia
Marisa Lajolo e Lilia Moritz Schwarcz
Companhia das Letrinhas
(2019)



De Menina a Mulher: Tudo Que Você Precisa Saber para Sobreviver
Drica Pinotti
Gulf Professional Publishing
(2001)



Livro - William Tell and Other Stories -
John Escott
Oxford
(2010)



Um Amor de Gato (2002)
Glenn Dromgoogle
Publifolha
(2002)



The Odyssey the Story of Ulysses - Pocketbook
Homer
Mentor Book
(1960)





busca | avançada
47877 visitas/dia
1,6 milhão/mês