Cinquenta tons de cinza no mundo real | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
82307 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> CONTOS DE AXÉ - 18 histórias inspiradas nos arquétipos dos orixás
>>> Feriado em família no Shopping Granja
>>> Casa Flutuar apresenta agenda cultural com grandes nomes da música eletrônica brasileira
>>> Sarau do Vale participa do projeto de 10 anos do Grupo Rosas Periféricas
>>> Cia Linhas Aéreas serve aperitivo para a temporada presencial de 2022
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> Max Chafkin sobre Peter Thiel
>>> Jimmy Page no Brasil
>>> Michael Dell on Play Nice But Win
>>> A história de José Galló
>>> Discoteca Básica por Ricardo Alexandre
>>> Marc Andreessen em 1995
>>> Cris Correa, empreendedores e empreendedorismo
>>> Uma história do Mosaic
>>> Uma história da Chilli Beans
>>> Depeche Mode no Kazagastão
Últimos Posts
>>> Mundo Brasil
>>> Anônimos
>>> Eu tu eles
>>> Brasileira muda paisagens de Veneza com exposição
>>> Os inocentes do crepúsculo
>>> Inação
>>> Fuga em concerto
>>> Unindo retalhos
>>> Gente sem direção
>>> Além do ontem
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Píramo e Tisbe
>>> A Última Ceia de Leonardo da Vinci
>>> O Desprezo de Alberto Moravia e Jean-Luc Godard
>>> Cuba E O Direito de Amar (2)
>>> A Velhice
>>> I know you
>>> Vanguarda e Ditadura Militar
>>> Na Campus Party 2009 II
>>> Um piano pela estrada
>>> The Good Wife visita Private Practice
Mais Recentes
>>> Venda Mais - Os 14 mitos do Marketing - Ano 6 - Nº77 de Vários pela Quantum (2000)
>>> Venda Mais - Por que as empresas quebram? - Ano 6 - Nº80 de Vários pela Quantum (2000)
>>> Venda Mais - Você pode realizar seus sonhos - Ano 6 - Nº 75 de Vários pela Quantum (2021)
>>> Venda Mais - Porque você é do jeito que é - Ano 6 - Nº 78 de Vários pela Quantum (2000)
>>> Venda Mais - Edição aniversário - 7 anos - Vendendo mais e melhor de Vários pela Quantum (2001)
>>> Venda Mais - Negociando para ganhar - Ano 6 Nº 81 de Vários pela Quantum (2000)
>>> Venda Mais - Venda Mais! Venda para nichos de Mercado de Vários pela Quantum (2001)
>>> Torto arado de Itamar Vieira Junior pela Todavia (2020)
>>> O Investidor Inteligente de Benjamin Graham; Lourdes Sette pela Harper Collins (2017)
>>> O Profeta de Gibran Khalil Gibran pela Acigi
>>> Duna 1 - Edição Especial de Neil Gaiman; Frank Herbert; Maria Do Carmo Zanini pela Aleph (2017)
>>> Duna 1 - Edição Especial de Neil Gaiman; Frank Herbert; Maria Do Carmo Zanini pela Aleph (2017)
>>> Quando o Amor Triunfa de Giseti Marques pela Boa Nova (2016)
>>> Baía da Esperança de Jojo Moyes pela Intrinseca (2016)
>>> Milena de Denise Corrêa de Macedo pelo espírito Milena pela Eme (2019)
>>> Episódio da Vida de Tibério de J.W.Rochester Vera Kryzhanovskaia pela Eme (2018)
>>> Técnicas de Venda - Vendas X Produção de Vários pela Quantum (2000)
>>> O Livro da Verdadeira Cruz de Caravaca de Naasson Vieira Peixoto pela Eco
>>> Música, Ídolos e Poder: do Vinil ao Download de Andre Midani pela Nova Fronteira (2008)
>>> La Grande Aventure de La Criminologie de Jurgen Thorwaldo pela Albin Michel (1967)
>>> Português no Ginásio - Gramática e Antologia para 3ª Série de Raul Moreira Lêllis pela Companhia Nacional (1960)
>>> Tipos e Aspectos do Brasil de Sem Autor pela Ibge (1966)
>>> Historia Gráfica del Arte de Joseph Gauthier pela Victor Leru (1944)
>>> Garibaldi una Grande Vita in Breve de Denis Mack Smith pela Lerici (1959)
>>> Arte de Ensinar e Arte de Aprender de Varios pela Fundação Getúlio Vargas (1974)
COLUNAS

Terça-feira, 3/9/2013
Cinquenta tons de cinza no mundo real
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 9600 Acessos

"O que a ética e a moral condenam, arte pode transformar em prazer."

Os efeitos da leitura do livro Cinquenta tons de cinza, de E L James, começam a aparecer na prática sexual das leitoras. As mulheres com quem me encontrei ultimamente exigem "apanhar", "serem punidas". As frases que ouço são mais ou menos as mesmas: "Quero sair com a bunda ardendo", "quero ser estapeada", "quero levar muita chinelada", "quero minha vagina ardendo de tanto apanhar", "quero ser amarrada e apanhar", "quero ser punida por ser uma menina má" etc.

São frases que também se pode encontrar pelas páginas de Cinquenta tons de cinza e que agora ganham as ruas. Começa-se a se construir um teatro de experiências nas relações sexuais no qual a dor, a punição, a violência sobre o corpo feminino se transformam num fetiche das próprias mulheres.

E os homens, reeducados na lei Maria da Penha para tratarem com delicadeza as mulheres, se veem na obrigação de liberarem seus instintos agressivos sobre as mesmas. E algeme-se as mulheres para lhe dar palmadas na bunda, no rosto, na vagina e onde mais for exigido pelo sexo feminino.

É claro que, como entre os personagens masculino e feminino do livro, nestas relações reais também se estabelece um "contrato" em que os limites são dados pelos participantes. As práticas expandem a experiência para algo diferente, ousado, mas sem levar o casal para experiências extremas.

Claro que se você for delicado demais, as mulheres vão chiar dizendo: "mais força, quero sair com a bunda ardendo". Você terá que calcular o grau de suportabilidade da dor da parceira, manejando com eficiência o chinelo ou a palma da mão. Ela vai gritar, mas você vai ter que adivinhar se é um grito de dor/prazer com o que ela, apesar de sofrer, estará dentro dos limites do que quer sofrer de dor/prazer. Não há uma medição clara para o que é suportável, porque por vezes é o insuportável que gerará o prazer.

Nesse tipo de relação você também deve estar atento aos limites da violência para que não haja comprometimento real da vida da pessoa. Portanto, há um grau de repressão dos instintos (violentos) em jogo também.

A fantasia liberada pelo livro é real. Como no romance Werther, de Goethe, que gerou uma onda de suicídios, o romance Cinquenta tons de cinza está gerando uma onda de meninas/mulheres dispostas a experimentar os prazeres da dor, da submissão. Imagine-se a quantidade de jovens leitoras que esse livro teve. Imagine-se os pensamentos que passaram pela cabeça e pelos corpos dessas leitoras de três volumaços cheios da boa e velha sacanagem. Querendo ou não, a literatura forma as almas e os corpos. Ela é perigosa por isso. Como ela pode ser libertadora, também, por isso.

Leitoras do livro são também as mulheres maduras. Aquelas que descobrem de repente que a relação com seus parceiros tem sido apenas burocrática, sem graça, e que relação sexual mesmo, aventureira, quente, radiante, é aquela apresentada pelos personagens Grey e Steele. Começa-se a exigir do parceiro uma mão mais forte, mais agressiva, acompanhada de aparelhos ("brinquedos") que lhes darão um pedaço do paraíso. Ou procura-se novos parceiros, dispostos a colocar a mulher no papel da personagem do livro.

Aquilo que antes era apenas um instrumento para apimentar a relação, um tapinha aqui e outro acolá, se torna agora o centro da relação. Busca-se o prazer na dor, mulheres querendo ser levadas ao orgasmo através de pequenas torturas, produzidas por tapas ou através do uso de determinados aparatos eróticos (algemas, chicotes, etc).

O livro Cinquenta tons de cinza é uma espécie de conto de fada erótico. A história é mais ou menos assim: menininha de classe inferior (estudante), desprotegida, virgem, que encontra seu príncipe encantado, necessariamente rico, forte e bonito, que lhe dá presentes (carros e celulares caríssimos) e em troca exige submissão sexual. Mas, também lhe proporciona uma educação para o prazer, que lhe garante uma onda de orgasmos inacreditáveis. Na primeira relação, por exemplo, na qual perdeu a virgindade, Steele já teve três orgasmos. E pensar que existem muitas mulheres que passam a vida toda sem nem saber o que é isso!

Para os homens, as pistas são claras. Se ganhar um chinelo de presente da parceira, sabe que deverá usá-lo nas nádegas da mesma. Se ganhar uma caixa com algemas, chicote, cordas, sabe que a relação vai ser de dominador e dominada.

Como no ideal do Marques de Sade, começa-se a construir uma relação cartesiana das práticas que geram prazer. Há um método a priori que agora governa o interesse dos encontros sexuais. Sabe-se que o mínimo que se pode fazer é bater, punir, gerar dor. É o código do prazer ensinado em Cinquenta tons de cinza e agora aprendido pelas leitoras do livro que mergulharão na dor e no prazer por ela gerado.

Considerado literatura pornográfica para donas de casa insatisfeitas sexualmente, o livro ensina às mulheres acomodadas novas formas de organizar seu prazer. Ou ao menos as leva a experimentar novas formas de luxúria, fazendo uso da dor e da submissão. Aquilo que era patrimônio de pessoas desviantes, loucas, pervertidas, se democratiza e vira método de prazer popularmente praticado por milhares de leitoras ansiosas por um paraíso semelhante ao encontrado pela senhorita Steele.

Se você ouvir no apartamento ao lado gritos de dor, sons de palmadas ou chicotadas, não se apavore e nem corra para chamar a polícia. Espere alguns minutos, pois o som do alívio pode aparecer em minutos, numa deliciosa exclamação: "Ahhhhh! Gozei!" Como a personagem Steele, sua vizinha vai "cair entorpecida, entre a realidade e a fantasia, num lugar onde não há limites rígidos nem brandos".

Não podemos deixar de dizer que apesar da aparente liberalidade dos atos sexuais descritos no livro, Cinquenta tons de cinza é uma obra de caráter conservador. Aposta na redenção final do personagem, enfim curado pela menininha, que por sua vez encontra para si seu príncipe encantado, refazendo as histórias que infantilizam o desejo feminino. A nova ordem que se configura é apenas uma paródia do desejo livre. Ela continua mulher de um homem só (segundo Simone de Beauvoir, a mulher que conheceu apenas um homem continua virgem, mesmo tendo feito sexo), treinada pelo homem experiente, que teve sua vida sexual rica antes de conhecê-la.

A causa originária da repressão feminina é a negação masculina do direito da mulher à existência individual. A autora compactua com esse machismo ao negar à mulher a honra de individualizá-la.

Para ir além:



Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 3/9/2013


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Bnegão, Rodrigo Campos; e mais de Duanne Ribeiro
02. Oficina intensiva em 10 contos de Marcelo Spalding
03. Festival U Can Move It de Camila Martucheli


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2013
01. A Última Ceia de Leonardo da Vinci - 12/2/2013
02. Mondrian: a aventura espiritual da pintura - 22/1/2013
03. Gerald Thomas: arranhando a superfície do fundo - 26/2/2013
04. Cinquenta tons de cinza no mundo real - 3/9/2013
05. O corpo-reconstrução de Fernanda Magalhães - 18/6/2013


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Metodologia do trabalho científico.
Antonio Joaquim Severino
Cortez
(2000)



Histórias da Turma
Marcia Kupstas
Atual
(1991)



Sociologia e Sociedade - Leituras de introdução á Sociologia.
José de Souza Martins
Livros Tecnicos
(1977)



Textos Anarquistas
Zilá Bernd e Outros
L&pm Editores
(1999)
+ frete grátis



Crônicas de Frenelda
Fernanda do Valle
Clio
(2017)



Imagem Impresa y Conocimiento - Análisis de La Imagem Prefotográfica
W. M. Ivins Jr.
Gustavo Gili
(1975)



Coment Devenir Une Vraie Parisienne
Héléne et Iréne Lurçat
Parigramme



Espumas Flutuantes
Castro Alves
Ediouro
(1997)



La Ideologia Alemana
Marx; Engels
Pueblos Unidos
(1973)



Você é Insubstituível Pocket
Augusto Cury
Sextante
(2002)





busca | avançada
82307 visitas/dia
1,8 milhão/mês