Mondrian: a aventura espiritual da pintura | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 22/1/2013
Mondrian: a aventura espiritual da pintura
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 11600 Acessos

(Dedicado a Luciana Inhan)

O Mondrian que nos interessa aqui é aquele que, a partir de 1914, chega à abstração pura e a transforma numa missão ética e estética. Um dos resultados é o quadro que se vê acima.

Piet Mondrian criou uma arte baseada no ângulo reto e nas cores primárias. Dessa opção deriva um senso de ordem, força e precisão que nos faz pensar nas simetrias que geraram os harmônicos templos gregos. Nesse pressuposto do artista revela-se o desejo de encontrar uma perfeita adequação da representação de uma ideia universal e livre das contingências numa forma pura.

Segundo o próprio artista, seu objetivo era criar uma arte de "relações puras". Essas "relações puras" passaram despercebidas ao longo da história da arte por causa do interesse pela representação do mundo natural, que distraía o espectador do sentido absoluto e universal, que seria o fundamento primordial da arte. Antinaturalismo, rigor puro e geométrico, máximo de clareza e universalidade contrapõem-se, em sua obra, à individualidade, à expressão subjetiva, que são contingentes, diferentes do conceito, que se eleva acima da natureza.

Seus trabalhos regulares e de ordem rigorosamente equilibrada mantém-se fiel a um conjunto de leis que restringem os elementos de sua arte a linhas verticais e horizontais dispostas sobre um plano único, permitindo apenas o branco, o preto e as três cores primárias (amarelo, vermelho, azul), que devem estar contidas entre essas linhas e nunca transbordar sobre elas.

Sua meta era encontrar uma estrutura subjacente ao mundo, e indicar isso através da matemática, por meio dos elementos mais claros que estavam disponíveis, removendo todo o excesso, aquilo que não é essencial, para se chegar à solução crua, bruta e econômica.

No seu ensaio "O neoplasticismo na pintura", (publicado em 1917 na revista De Stijl, criada por ele e Doesburg), em que se encontram as ideias que o levaram a romper com a arte figurativa, diz Mondrian: "O artista verdadeiramente moderno sente conscientemente a abstração da emoção da beleza: conscientemente ele reconhece que a emoção da beleza é cósmica, universal. Este reconhecimento tem como consequência uma expressão plástica abstrata - e conduz o artista ao que é exclusivamente universal."

Sua ideia era de que "a essência das coisas não se encontra nelas mesmas, mas nas formas que nosso espírito aplica sobre elas e em que reverberam nossa racionalidade e universalidade". O mesmo pensamento que se encontra na teoria e na arquitetura de Walter Gropius.

Carlos Leite Brandão, no prefácio ao livro Neoplasticismo na pintura e na arquitetura, de Mondrian, sintetiza: "O espírito, ao triunfar, não pode mais se apresentar sob a mimese de formas naturais, devendo reduzi-las a si, abstraí-las e depurá-las, até chegar à verdade e à beleza que lhes são próprias e melhor manifestas por retas, planos regulares e cores primárias".

Para o artista, as formas geométricas têm uma fisionomia, pois são formas tão expressivas e vivas quanto uma representação qualquer. Ao contrário do que uma observação apressada poderia afirmar, de que a obra de Mondrian se resumiria a algumas barras pintadas em planos limitados, as linhas geométricas aparecem como partes de um objeto virtual num espaço mais amplo e mais profundo. Essa arte, que parece tão completa em si mesma e adversa ao mundo exterior, nos faz completar as formas aparentes como se elas continuassem em um campo próximo, oculto, que se estende para um espaço virtual fora da tela.

Para prosseguir nessa ideia, Schapiro diz que nas telas de Mondrian "os objetos observados e representados aludem, na sua forma, tanto aos limites da visão do observador quanto à própria existência do objeto num espaço maior do que aquele compreendido pela moldura, incluindo ali um espaço entre a tela e o espectador implícito na cena original".

Ao criar "relações puras", Mondrian deseja livrar as relações entre as formas que na arte anterior ao abstracionismo se deixavam cobrir pelo véu do mundo objetivo. Mesmo que suas composições se determinassem pela criação de unidades geométricas elementares, rigorosas e aparentemente impessoais, seu desejo era integrar em um espírito utópico a sua teoria da arte com o todo da experiência individual e buscar nessa relação uma emancipação espiritual do homem.

A afinidade entre os arquitetos modernos e Mondrian, segundo Schapiro, foi reconhecida por ambas as partes: "Mondrian compartilha com arquitetos um ideal de forma supostamente inerente à natureza da arte arquitetônica, aos seus materiais e objetivos, juntamente com uma tendência para o simples, o regular e o assimetricamente equilibrado como resultado racional daquelas condições intrínsecas."

Apesar da fecunda relação com o cubismo de Picasso e Braque, a aproximação de Mondrian com o cubismo foi preparada pela sua busca de um absoluto metafísico. Foi esse contato que definitivamente o afastaria do pathos expressionista e do fauvismo (que o tocaram de certa forma por sua retórica simbólica). Foi aí também que ele se libertou das imagens simbólicas, das representações líricas da natureza, rumando em direção a um pensamento e a uma concepção da arte como operação construtiva feita de formas elementares e não miméticas.

Não resta dúvida, segundo Schapiro e Dora Vallier, de que o dogma da restrita e equilibrada verticalidade do seu trabalho maduro se baseia numa convicção teosófica que se formou no início de sua carreira (Mondrian estudou as teorias teosóficas a partir de 1892, chegando a se tornar membro da Sociedade Holandesa de Teosofia em 1909).

Segundo Schapiro, "a capacidade dessas formas geométricas de servir como metáforas para o divino provém da qualidade viva, muitas vezes momentânea, que oferecem ao olho sensível. Esse olho, o olho do pintor, sente a assim chamada linha abstrata com uma reação inocente e profunda que penetra todo o ser".

Vale lembrar, comenta Schapiro, a descrição de Deus a partir do quadrado feita pelo poeta Walt Whitman: "Cantar o divino quadrado que assoma do outro lado, dos lados; do velho e do novo - que assoma do quadrado inteiramente divino; sólido, quadrilátero (todos os lados necessários)... por este lado Jeová sou eu."

Para a teosofia, a arte tem uma função iniciática, pois serve como lugar de sublimação dos instintos baixos. A humanidade avança, segundo a doutrina teosófica, quando ultrapassa o mundo físico e emotivo, atingindo um grau de perfeição através do mundo mental. E na arte espiritualizada, intelectualizada, pode-se superar as obsessões pessoais, os tormentos individuais, atingindo-se a paz, que é o resultado do encontro com o absoluto. O equilíbrio encontrado numa tela é o mesmo equilíbrio encontrado pela mente (do artista e do espectador).

Nesse sentido, o cubismo sintético e a teosofia ocupam em sua mente o mesmo valor: indicarão o caminho para atingir a pureza das formas. Segundo Dora Vallier, "a abstração a que chega, é, aos seus olhos, a ilustração fiel da grande verdade revelada pela teosofia". O cubismo não como lição, mas revelação: o encontro da moral pessoal com o ideal da perfeição estética.

Mondrian procurou definir sua visão de pintura nas páginas da revista De Stijl, cunhando a expressão "nieuwe beeldin", termo que encontrou na obra Het nieuwe Werelbeeld (A nova imagem do Mundo) de seu amigo teósofo Schoenmaekers. O termo refere-se à ideia de uma nova realização da forma e que pode ser definida como "nova plástica". Segundo Dora Vallier, "no espírito de Mondrian, o neo-plasticismo não é mais do que a nova imagem do mundo. Confia a expressão desta imagem à forma, em cujos poderes acredita, tanto mais que conhece as suas possibilidades de se elevar acima do contingente e de permanecer no essencial, graças à abstração."

Tanto para Mondrian quanto para Kandinski ou Malevitch, a vida é pura atividade interior do espírito. Por isso, achavam que na arte deve-se eliminar os elementos do mundo perceptível pelos sentidos, a fim de estar-se o mais próximo possível da verdade da consciência interior. Essa ideia da teosofia, levada para a arte, se deve ao pensamento desenvolvido pelo teósofo Schoenmaekers, que dizia: "Queremos penetrar na natureza de tal modo que se nos revele a construção interna da realidade". A vontade rigorosa e racional é quem traduziria na forma plástica essa ideia, tão cara aos membros de De Stijl.

A forma abstrata absoluta que o artista concebeu era, pode-se dizer, a expressão profunda do próprio sentido da espiritualidade absoluta. Nesse sentido, o artista acreditava que o bem, o belo e o verdadeiro convergiam na pintura neoplástica via abstração geométrica. O ângulo reto seria a expressão plástica do que é constante, invariável, espiritual. A construção do quadro através da linha e do plano, aliado às cores primárias puras (azul, amarelo, vermelho) levaria o espectador a experimentar essa dimensão espiritual. Conteúdo e forma se encontram na pura simetria para traduzir a expressão universal que coincide com a própria quintessência da pintura e do pensamento.

Para Mondrian, "a nova plástica é uma arte de adultos, ao passo que a arte antiga é uma arte para crianças". Se o poder abstrato das formas se encontrava dissimulado atrás da figuração na arte do passado, agora esse poder pode se manifestar claramente na tomada de consciência da autonomia da forma.

Mondrian racionaliza o comportamento da forma, persuadido de que atingirá o absoluto. Atingido o absoluto, aquele que olha o quadro refaz o caminho da aventura espiritual do artista, que indica no seu quadro a forma própria do espírito, sua verdade. Segundo Carlo Argan, para Mondrian "o cubismo é racional, porém não o suficiente: não leva a racionalidade às últimas consequências, da análise não passa à síntese. Entende a consciência em seus conteúdos cognitivos, mas não a consciência em si, em sua essência."

A crítica ao cartesianismo cubista se deve aos seus interesses filosóficos e religiosos, e Carlo Argan vê na sua obra uma identificação também com Spinoza, pois "Mondrian pensa que não é possível conhecer nada sem a percepção, mas que a essência das coisas não se conhece na percepção, e sim com uma reflexão sobre a percepção separada da própria percepção: uma reflexão em que a mente opera sozinha, com os meios exclusivos que lhes são fornecidos por sua constituição. E, como a constituição da mente é igual em todos, cada processo da mente deve partir de noções comuns, toda a pintura de Mondrian, com efeito, consiste em operações sobre noções comuns, isto é, sobre os elementos da linha, do plano, das cores fundamentais. (...) Todas as experiências da realidade, por mais diversas que sejam, devem ao cabo revelar a estrutura constante da consciência".

Para criar uma pintura que expresse o rigor da razão, Mondrian subdivide a superfície por meio das coordenadas verticais e horizontais, resolve numa proporção métrica tudo o que, na natureza, apresenta-se como altura e largura. Resta o que se apresenta na terceira dimensão: e são as infinitas sensações variáveis segundo a cor local, a distância, a luz. Essa matéria complexa deve ser reduzida aos "termos mínimos".

Os quadros de Mondrian criam uma situação perceptiva do fenômeno reduzido a uma ideia, mas que na experiência do espectador se transforma na ideia transmutada em fenômeno. Como disse Argan, o artista quer dar ao espectador a clareza, o caráter absoluto, a verdade intrínseca do pensamento pensado. Sua filosofia moral é "eliminar o trágico da vida", no sentido do que é inconsciente, dos complexos humanos - aquilo que está presente na arte que ele chama de "barroco moderno", o expressionismo, o surrealismo, a alegria de viver de Matisse, as explosivas deformações de Picasso.

O processo por que passa Mondrian pode ser visto no tratamento e desenvolvimento do tema da árvore (versões de 1910 e 1912), quando o mesmo motivo, sob a mesma perspectiva, passa por estados sucessivos que nos mostram como a forma se separa do conteúdo concreto, para, finalmente, chegar a um conteúdo abstrato. "As árvores pintadas entre 1908 e 1912 demonstram como seu olhar deslocou-se das formas aparentes para a estrutura invariante nelas subjacente", diz Carlos Leite Brandão.

Mas nessa aventura em direção à abstração total não entra em jogo somente a busca espiritual, pois a composição que se vai simplificando até a síntese é a simplificação da totalidade das experiências pictóricas anteriores. Livrando-se dos acessórios, implacavelmente persegue um novo valor, um signo absoluto, que o leva ao limiar da abstração.

A busca pela ordem, mais do que isso, pela ordem extrema, é que faz Mondrian se agarrar à ideia de um obsessivo equilíbrio absoluto, que repele tudo o que faz pensar na desordem inicial, natural ou individual, que seriam a tradução do trágico. É o que se pode ler em um dos seus textos: "A manifestação natural, a forma, a cor natural, o ritmo natural, as próprias relações naturais, na maior parte dos casos, exprimem o trágico".

É do sentimento trágico que ele quer escapar, daquilo que distrai o homem do mundo espiritual, encontrando na ordem metafísica e plástica a única forma de atingir o absoluto. Diz o artista: "Qualquer sentimento, qualquer pensamento individual, qualquer vontade puramente humana, qualquer desejo particular, numa palavra, qualquer tipo de afeição, conduzem à representação trágica e tornam impossível a pura plástica da paz".

Mondrian imaginava que a abstração geométrica seria o meio para se criar uma beleza profundamente humana e rica, que por força da harmonia, precisão e equilíbrio construiria um novo ambiente para o homem do futuro, que imaginava como alguém perfeitamente sereno e desdramatizado.

Para ir além:

A Editora Cosac Naify publicou dois livros importantes. O primeiro de autoria do próprio Mondrian, com seus textos teóricos e uma apresentação excelente de Carlos Leite Brandão. O segundo, um ensaio de Meyer Schapiro, com dois textos também excelentes.





Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 22/1/2013


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