Saia curta, liberdade longa. | Adriane Pasa | Digestivo Cultural

busca | avançada
45137 visitas/dia
2,3 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Circomuns Com Circo Teatro Palombar
>>> Prêmio AF de Arte Contemporânea abre inscrições para a edição comemorativa de 10 anos
>>> Inscrições abertas para o Prêmio LOBA Festival: objetivo é fomentar o protagonismo de escritoras
>>> 7ª edição do Fest Rio Judaico acontece no domingo (16 de junho)
>>> Instituto SYN realiza 4ª edição da campanha de arrecadação de agasalhos no RJ
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A pulsão Oblómov
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
>>> Garganta profunda_Dusty Springfield
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Todas as artes: Jardel Dias Cavalcanti
>>> Soco no saco
>>> Xingando semáforos inocentes
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Esporte de risco
>>> Tito Leite atravessa o deserto com poesia
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jensen Huang, da Nvidia, na Computex
>>> André Barcinski no YouTube
>>> Inteligência Artificial Física
>>> Rodrigão Campos e a dura realidade do mercado
>>> Comfortably Numb por Jéssica di Falchi
>>> Scott Galloway e as Previsões para 2024
>>> O novo GPT-4o
>>> Scott Galloway sobre o futuro dos jovens (2024)
>>> Fernando Ulrich e O Economista Sincero (2024)
>>> The Piper's Call de David Gilmour (2024)
Últimos Posts
>>> O mais longo dos dias, 80 anos do Dia D
>>> Paes Loureiro, poesia é quando a linguagem sonha
>>> O Cachorro e a maleta
>>> A ESTAGIÁRIA
>>> A insanidade tem regras
>>> Uma coisa não é a outra
>>> AUSÊNCIA
>>> Mestres do ar, a esperança nos céus da II Guerra
>>> O Mal necessário
>>> Guerra. Estupidez e desvario.
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Micronarrativa e pornografia
>>> Os dois lados da cerca
>>> A primeira vez de uma leitora
>>> Se eu fosse você 2
>>> Banana Republic
>>> Da Poesia Na Música de Vivaldi
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Construção de um sonho
>>> Quem é mesmo massa de manobra?
>>> A crise dos 28
Mais Recentes
>>> Secrets of Yoga de Jennie Bittleston pela Dk (2000)
>>> Stress Você pode ser o Próximo Previna-se de João Vilas Boas pela Vilas (1998)
>>> O que é Ensinar de Regis de Morais pela E.p.u (1986)
>>> As Aventuras de Sandy e Junior de Toni Brandão pela Simbolo
>>> Humor nos tempos do Collor de Jó Soares / Veríssimo / Millôr Fernandes pela L&PM (1992)
>>> Def 2013 Pocket - Dicionário de Especialidades Farmacêuticas de Merck pela Epuc (2013)
>>> O Biscateiro de Abdias José dos Santos pela Vozes (1981)
>>> Deadpool - Meus Queridos Presidentes de Posehn Duggan - Moore pela Panini Comics (2015)
>>> Europa - Guia Visual - Folha De São Paulo de Publifolha pela Publifolha (2005)
>>> Formação de Professores e Trabalho Docente de Vários Autores pela Metodista (2007)
>>> Coleção Enciclopédia Disney - 8 Volumes de Disney pela Planeta (2001)
>>> Fórum dos Coordenadores de Joaquim Barbosa / Bárbara Sicardi pela Metodista (2003)
>>> O Último Portal de Eliana Martins / Rosana Rios pela Seguinte (2003)
>>> Batman Planetary - Edição de Luxo de Warren Ellis - John Cassaday - Dc Comics pela Panini (2014)
>>> Mentes Tranquilas, Almas Felizes de Joyce Meyer pela Thomas Nelson (2001)
>>> Democracia Francesa de V Giscard D Estaing pela Difel (1977)
>>> Esperança Viva - Uma Escolha Inteligente de Ivan Saraiva pela Casa Publicadora (2016)
>>> Manual Merck de Veterinaria de Merck pela Roca (2001)
>>> Conjugar Es Fácil En Español De España Y De América (spanish Edition) de González Hermoso, Alfredo pela Edelsa Grupo Didascalia (1997)
>>> Amy, Minha Filha - Amy, My Daughter de Micht Winehouse pela Record (2012)
>>> Avaliação da Inteligência de Marília Ancona-Lopez pela E.p.u (1987)
>>> O Menino do Dedo Verde de Maurice Druon pela Jose Olympio (1973)
>>> Contos E Lendas - Os Doze Trabalhos De Hércules de Christian Grenier - Carlos Fonseca ilustrador pela Cia Das Letrinhas (2013)
>>> Educação do Olhar Vol2 de Vários Autores pela Mec (1998)
>>> Tres Sombras de Cyril Pedrosa pela Quadrinhos Na Cia (2019)
COLUNAS

Segunda-feira, 23/2/2015
Saia curta, liberdade longa.
Adriane Pasa
+ de 11800 Acessos


Duas moças vendo uma vitrine em Toronto, Canadá, 1937. (Alexandra Studios)

Em maio de 2014 eu estive em Vancouver, no Canadá, passando férias. Era começo da primavera e ainda estava um pouco frio, mas o que me chamou a atenção foi o comprimento das saias e shorts de algumas moças, que andavam tranquilamente pelas ruas com suas pernas brancas de fora (quem sou eu pra falar de pernas brancas...). Comecei a prestar atenção nisso e reparei que os homens não mexiam com nenhuma mulher, por mais curta que fosse a saia. E olha que algumas chegavam a mostrar um pedacinho da bunda. As adolescentes então andavam quase peladas, mesmo no frio. Fiquei imaginando como deveria ser no verão.

Depois de uns dias, com olhar mais apurado, reparei que os homens não só não mexiam como nem sequer olhavam. Os pescoços continuavam no lugar e cada um seguia seu rumo, tranquilamente. Na verdade, lá ninguém está nem aí com o outro, acho que podem andar com uma melancia na cabeça que ninguém liga. Meu marido estava estarrecido. Ele também nunca tinha visto coisa parecida. Fiquei "cuidando" dele porque virava o pescoço em vários momentos pois as saias eram realmente curtíssimas. Eu fiquei com medo de alguma mulher se sentir invadida e chamar a polícia. Eu também olhei, mas qualquer coisa eu podia alegar que estava admirando a roupa (eu adoro moda rsrs). A gente estava mesmo perplexo com a atitude dos homens, isso chamou a nossa atenção mais que qualquer perna de fora. Pelo menos a minha.

Lá as pessoas parecem até meio assexuadas se comparadas aos brasileiros. Mas não são, obviamente. São assim porque existem leis que protegem as mulheres desde sempre. E todo mundo sabe que leis mexem com culturas e hábitos das pessoas, influenciando suas atitudes. Eu já tinha ouvido falar sobre isso, tinha visto vídeos e lido coisas em vários blogs, tenho uma grande amiga que mora em Toronto e ela também havia comentado comigo a respeito, mas uma coisa é saber e outra é ver com os próprios olhos.

Eu não tinha levado nenhuma saia curta porque estava frio pra burro, equivalente ao começo do inverno em Curitiba, cidade onde moro. Mas devia ter levado e experimentado a sensação de liberdade que é andar por aí pelas ruas sem olhares engraçadinhos, assovios, carros que andam devagar ao teu lado parecendo ter um serial killer dentro, palavras chulas e por aí vai. Curitiba é muito ruim neste aspecto. Além de aturar os caras sem noção (não é à toa que chamam essa cidade de "Rússia Brasileira"), se a gente sai de saia curta ou qualquer roupa mais justa ou decotada, tem que aguentar também os olhares reprovadores das senhorinhas conservadoras de plantão ou das esposas ciumentas. Eu costumo dizer que sair de minissaia aqui em Curitiba é como cometer um crime. Quem mora aqui e é mulher sabe do que eu estou falando. Em lugares quentes a liberdade é maior. Mas aqui, onde a gente consegue usar minissaia umas três vezes por ano e é uma cidade ultraconservadora, é um ato de coragem.

Já ouvi todo tipo de besteiras em relação a este assunto. Como por exemplo, "ah, mas que graça tem morar num lugar como o Canadá, onde não mexem com você e nem te olham?", pois eu respondo: toda a graça do planeta. Não existe nada mais sensacional para uma mulher (e para qualquer pessoa) poder ir e vir sem ser invadida, sem ter que aturar desrespeito e sem ficar com medo. Por que dá medo. As pessoas precisam entender isso. Viver num lugar onde parte da população acha que os estupros acontecem porque as mulheres "provocam" usando roupas "ousadas" é muito perigoso. Outra bobagem é quando falam "ah, mas se for um homem bonito a mulher não acha ruim...". É claro que incomoda, porque o critério não é esse. A beleza não está acima do respeito. E tudo depende do contexto. Uma coisa é andar nas ruas e ser assediada, outra é estar na balada ou em algum lugar de paquera onde existe o desejo de ser notada. É claro que se uma mulher solteira vai a um lugar para paquerar e ninguém a nota, pode ser uma frustração. Mas ela quer isso, é diferente. E pra bom entendedor, um olhar de uma mulher basta pra saber o que ela quer ou não.

Mas voltando à Vancouver, com um olhar atento, observei a atitude das mulheres em relação a este assunto, no seu comportamento corporal. É totalmente diferente do nosso. Não existe gente puxando a saia pra baixo pra disfarçar, como quem quer "corrigir" um erro, não existe subir uma escada rolante e ficar cuidando de quem está atrás, não existe aquele olhar sempre em alerta que temos que ter por aqui, pensando que um dia ou outro teremos que usar nossos golpes de Muay Thai (aliás, é uma boa ideia fazer aulas de defesa pessoal).

Enfim, é uma liberdade absurdamente deliciosa. E se alguém olha, olha discretamente e segue seu rumo, sem extrapolar nenhum limite. Eu fiquei com inveja das mulheres de lá, nesse aspecto. Pensei como seria bom se pudéssemos sair na rua com qualquer roupa que fosse, sem sermos invadidas por olhares, palavras ou até fisicamente. Óbvio que em todo lugar do mundo mulher sempre tem que se cuidar, principalmente à noite. Lá também tem estupradores e psicopatas. A diferença é que os crimes são raros e quando existem, a polícia age na hora. E a população também. Todo mundo ajuda a "caçar" o bandido, informando e espalhando os retratos falados.

Tem uma "regra" social no Canadá que é sempre manter um braço de distância da outra pessoa estranha ou colegas de trabalho. A gente anda nos ônibus e metrôs e consegue ver isso claramente. Tudo bem que lá tem bem menos gente e se fizéssemos isso no transporte público aqui teríamos que ter o triplo da frota. Mas sem comparação direta, analisando esta atitude simples, é algo muito genial. Eu, como Curitibana que sou, adorei a ideia. Não há nada mais incômodo que gente te encostando ou querendo forçar uma intimidade que não existe. Ou aqueles colegas de trabalho que cumprimentam com ~beijinho~? Qual a necessidade disso, minha gente?? É chato qualquer tipo de invasão, qualquer tipo de coisa que não pedimos ou dissemos "ok, pode fazer". Isso é uma regra da vida.

Torço muito para que um dia a gente chegue nesse patamar de respeito às mulheres e a todos os cidadãos e que as leis aqui sejam mais severas. Sei que o ser humano tem seu lado primitivo e isso nunca vai mudar, mas cada lugar pode dar uma ajudinha pra cultura evoluir. Afinal, acho que a gente está aqui nesse mundo pra isso, pra deixar de ser ogro. Também sei que roupas como a minissaia mexem muito com o imaginário masculino, o que é normal. Mas imaginação nunca foi algo proibido, além de não prejudicar ninguém. Acho que os canadenses imaginam coisas como qualquer ser humano normal, mas ninguém precisa saber o que está na mente deles, certo? Sempre que toco nesses assuntos de comparação com países de primeiro mundo, eu penso em tudo o que a gente deixaria de se preocupar e o que mudaria na vida prática do nosso cotidiano. É muita coisa que muda. É muito espaço que sobra no nosso "HD" pra pensar em coisas boas. É muita toxina de estresse que a gente deixaria de ter. É muito tempo economizado fazendo coisas bacanas, é muito lugar bonito que a gente poderia conhecer na cidade sem precisar ter um segurança por perto. É muita minissaia que poderíamos usar, a hora em que quiséssemos, de todos os tecidos, tamanhos e cores, sendo o que nós deveríamos ser desde que nascemos: livres.

A minissaia chegou no começo dos anos 60, tendo sua invenção atribuída à britânica Mary Quant, embora alguns mencionam também o francês André Courrèges. Veio como uma forma de rebeldia, de reivindicar o direito à sensualidade e questionar o que a sociedade impunha às mulheres como "decência". Depois foi adotada pelo estilista Yves Saint-Laurent e também Pierre Cardin, que usaram modelos ainda mais curtos. Combinados com sapatos de salto alto ou botas, causaram frisson. Pernas de fora pelo jeito sempre vão "causar" por aqui. Tomara que um dia a gente possa sapatear de minissaia na cara dessa sociedade. Sem sofrer assédio, claro.

" type="application/x-shockwave-flash" wmode="transparent" width="400" height="288">



Adriane Pasa
Curitiba, 23/2/2015

Mais Adriane Pasa
Mais Acessadas de Adriane Pasa
01. YouTube, lá vou eu - 5/9/2016
02. Casamento atrás da porta - 3/2/2014
03. Carta aberta a quem leu Uma Carta Aberta ao Brasil - 15/2/2016
04. Quando morre uma paixão - 22/9/2014
05. Saia curta, liberdade longa. - 23/2/2015


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




The Perfect Heresy
S. O'shea
Profile Books
(2011)



Comentários às novas regras conrábeis brasileiras
Osmar Reis Azevedo
IoB
(2010)



Moscow City Guide
Mara Vorhees
Lonely Planet
(2006)



Vida de Don Quijote y Sancho
Miguel de Unamuno
Alianza
(2000)



Revista Bravo! Ano 3 Número 28
Phillippe Starck; Lobo Antunes; Antonio Araújo; Arrigo Barnabé; Bigas Luna
Davila
(2000)



O Camelô Figura Emblemática da Comunicação
Jean Yves Mollier
Edusp
(2009)



Meditação integral: Mindfulness como um caminho para crescer, despertar e estar presente em sua vida
Ken Wilber
Vozes
(2020)



Um amanhecer para recomeçar
Gilvanize balbino pereira pelo espirito saul
Petit
(2010)



Problemas de Cristalografia
P. Ducros - J. Lajzerowicz - Bonneteali
Paraninfo
(1968)



The Mediterranean Table
Sonoma Press
Sonoma Press
(2015)





busca | avançada
45137 visitas/dia
2,3 milhões/mês