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Sexta-feira, 11/10/2013
Crítica à internet chega à ficção
Marta Barcellos

+ de 2700 Acessos

Quem (ainda) não desistiu do bom debate na internet conhece o conselho básico: ignore os chamados trolls e outros tipos de baixo nível intelectual que inevitavelmente irão aparecer nesse ambiente. Pois, em seu último romance, Reprodução, Bernardo Carvalho não dá a colher de chá ao leitor: para avançar na leitura, é preciso ouvir e ouvir a ladainha estúpida do "estudante de chinês". É como se, no livro, esse personagem detestável que todos tentamos ignorar - sob o argumento de que, ao não alimentá-lo com a nossa atenção, ele definhará por inanição - ganhasse finalmente o protagonismo com o qual sempre sonhou.

Reprodução se presta a múltiplas leituras, inclusive além da óbvia associação com o submundo da internet. Mas apenas esta primeira camada, a do incômodo com o personagem, já é suficiente para provocar uma discussão importante sobre os efeitos deletérios da rede vistos pela ficção. Aparentemente, Carvalho faz parte de uma leva de romances que sucederá os primeiros best sellers, de não-ficção, críticos e pessimistas em relação à internet, escritos por especialistas como Andrew Keen e Nicholas Carr. Na ficção americana, a grande sensação promete ser The circle, de Dave Eggers, com lançamento previsto para 8 de outubro nos Estados Unidos.

O protagonista de Reprodução é um sujeito detestável, e durante a minha leitura foi um desafio aceitá-lo como personagem principal. Se, em narrativas breves, protagonistas sem caráter são mais do que bem vindos, em romances às vezes é difícil aceitá-los sem alguma complexidade que os humanize. Canalhas são canalhas, ponto final, e nos afastamos deles antes de corrermos o risco de compreendê-los. Recentemente eu havia convivido com um protagonista assim, o cínico cientista de Solar, de Ian McEwan, e observei que a maestria do escritor nestes casos está em justamente em criar um tipo de identificação do leitor até mesmo em relação aos defeitos mais odiosos do personagem, consciente ou inconscientemente.

E qual seria a reação do leitor, no caso do estudante de chinês? Não sei se o impacto do personagem é o mesmo para leigos na internet, mas aqueles com alguma vivência logo descobrem de quem se trata. Anti-democrático e cheio de preconceitos, ele constrói teorias conspiratórias e opiniões que defende serem baseadas em fatos incontestáveis. Os fatos da internet - e também de outras mídias (a revista Veja só não é citada de forma literal). É um discurso de ódio anárquico e circular, produzido de forma a se desviar das tentativas de desmascarar a fragilidade dos argumentos. Familiar? Pois é, estão no seu discurso o "pronto, falei" e o "todo mundo sabe que...", sem falar nas generalizações absurdas e na impaciência com a suposta burrice de quem pensa diferente (senti falta do "quer que desenhe?" para caracterizar definitivamente o personagem).

Reconhecido o personagem, comecei a considerar se valeria a pena continuar a leitura e aturar o tal "estudante" - tendo de lidar com os traumas que ele me desperta - até o fim do livro. Seria realismo demais para minha atual fase de leitora? A dispersão me deixou tentada a conferir a similaridade entre aquele discurso - trabalhado sob o artifício da literatura - e a linguagem "real" da internet. Fechei o livro. Entrei no Facebook. Depois de rolar algumas vezes a tela do smartphone, levei um susto: encontrei uma frase de uma das primeiras páginas de Reprodução. Uma frase do estudante de chinês:

"Na Arábia Saudita, ladrão é amputado; aqui é deputado. kkkkkk". Vinte e sete pessoas curtiram. A frase era atribuída, entre parênteses, ao próprio Bernardo Carvalho, e não a seu personagem, o que sem dúvida pode ter levado muita gente a clicar "curtir" sem prestar muita atenção. Curtir sem pensar muito - exatamente como o estudante de chinês. Fiquei na dúvida se meu amigo de Facebook tinha armado uma pegadinha (duas pessoas chegaram a comentar que a frase era muito boa) ou se ele próprio tinha vivido um momento de identificação com o personagem reacionário. Eu poderia entrar no debate (ai ai, debate na internet?), pelo menos esclarecer aos outros sobre a autoria da frase, mas me detive. Estava atordoada. A sensação era de que o personagem do livro tinha invadido o meu Facebook. Eu havia fechado o livro e o livro continuara aberto. Não era (mais) possível ignorar a existência do estudante de chinês.

Ainda rolando o Facebook, encontrei um link que prometia jogar alguma luz na questão: uma entrevista feita pela jornalista Raquel Cozer, na Folha de S.Paulo, com o próprio escritor, sobre o seu novo livro. Como eu já intuía pelo ensaio "Em defesa da obra", publicado por ele na revista Piauí, Carvalho confirmava que o romance pretendia expressar seu desconforto com o ambiente acrítico internet. Ufa, nada como o antiquado recurso de pedir para o autor explicar sua obra e ajudar a pacificar tudo. Respirei aliviada.

Mas por pouco tempo. Abaixo da matéria (eu estava no ambiente da internet, lembra?), havia uma lista de comentários sobre a entrevista. Em alguns, lá estava ele novamente, o estudante de chinês. "Considerando que o autor afirma que a classe media não representa o Brasil, creio que a classe média não deve comprar o seu livro", dizia o, digamos, "estudante 1". "Que discursinho mais sem sentido. Nunca a literatura foi mais livre - dá pra publicar livros quase de graça fazendo impressão sob demanda", emendava o "estudante 2".

Nos comentários relacionados ao link da matéria no Facebook, o estudante de chinês voltava a atacar. Raquel tentava argumentar com ele - em vão, claro. Entrei no debate com a discrição que podia e perguntei: Será que Bernardo Carvalho previu que seu livro teria aquela "continuação" na internet? Como nem tudo na internet é "estudante de chinês", um comentarista perspicaz matou a charada: "Cuidado: você acha que está lendo o livro, mas é o livro que está lendo você!".



Marta Barcellos
Rio de Janeiro, 11/10/2013


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