Esse Caro Objeto do Desejo | Adriane Pasa | Digestivo Cultural

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Segunda-feira, 9/12/2013
Esse Caro Objeto do Desejo
Adriane Pasa

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Sabe aquela sobremesa que tem em alguns buffet por quilo, lá no final, geralmente num copinho plástico bem vagabundo, de cor pastel e com cara de coisa que dá câncer? Aquela que todo mundo pega, mas depois da primeira colherada joga fora. A sensação de ter algo grátis, acompanhada de algo que pagamos (neste caso, o almoço) é muito boa e uma estratégia muito usada em marketing. As pessoas gostam de "levar vantagem", ganhar brindes, mesmo que seja algo que não vão usar. É pela sensação de recompensa, já que gastaram dinheiro pagando por algo que queriam.

Mas uma coisa que é totalmente de graça causa desconfiança e estranhamento. Nada que é realmente bom pode ser de graça. Esse é o pensamento das pessoas com produtos de consumo. E com as coisas da vida, com as pessoas, isso é assim também. Por mais que a gente diga que gostaria que a vida fosse mais fácil e as conquistas menos demoradas, tudo o que demanda esforço, suor e lágrimas tem outro gostinho.

Na vida quase nada é nosso, assim, caído do céu. Vamos crescendo e enfrentando um monte de coisas em nome de um bonde chamado desejo, que nos consome vorazmente. E uma das nossas características principais é desejar o que não temos. Tudo aquilo que não é nosso é o que faz a vida se mover. Então, eu acho que existe "coisa fácil" e "coisa difícil" e a gente sempre - mesmo sem perceber - valoriza mais e deseja o mais difícil.

O "difícil" é disputado. O "fácil" ninguém quer. O difícil tem muito de nós, o fácil tem muito dos outros.

O "fácil" é sem graça, não desafia nada. Vem e vai, podemos pegar a hora que quisermos. É vulgar. É insosso. É visível. Sem códigos. É barato. Não tem concorrência.

O "difícil" nos incomoda e tem um sabor incomparável. Como não sabemos se vamos conseguir, torna-se mais desejado ainda. Faz a gente sair do tédio, porque é provocador, arisco. É o sonho que nos faz sentir raiva enquanto não vira realidade. É um espelho que só mostra o nosso melhor lado, o que não tem preguiça.

E às vezes o objetivo não é possuir, somente agradar aquele que ninguém agrada. Afinal, professor que dá nota dez pra todo mundo acaba virando paisagem. A gente quer mesmo ouvir aquela pessoa de testa franzida e com pose de mal humor.

Só que o difícil requer uma série de cuidados, porque pode ser também uma projeção equivocada. Todo ser humano normal acaba romantizando seu objeto de desejo e isso pode ser uma pegadinha. A gente se habitua a pensar naquilo que queremos e às vezes isso é muito mais forte do que aquilo que queremos. Vamos alimentando todos os dias o nosso ideal, senão passamos fome. E é muito fácil idealizar algo que não temos, colocar no pedestal uma coisa ou alguém que não sabemos como é. Mas é esse princípio - o de achar que nosso objeto de desejo beira à perfeição - que faz a gente se mover em direção a ele. Se Romeu soubesse que Julieta era uma chata e que sua vida seria um inferno com ela e sua família Capuleto, certamente desistiria. Se o alto executivo soubesse que sua vida pessoal acabaria, que não teria tempo pra nada e ainda correria risco de infarto, talvez preferisse ter outro emprego. A verdade é que as pessoas sabem de tudo isso, mas a odisseia da conquista não deixa enxergar as coisas ruins que podem vir lá na frente. E todo mundo, por mais humilde que seja, gosta de ostentar um troféu. É por isso que se posta tantas fotos de filhos nas redes sociais, ou fotos de formatura, casamento, esportes radicais. Porque são coisas "difíceis". Ou pelo menos queremos que pareçam ser.

Até os "trabalhos" feitos por alguns centros, na promessa de trazer o amor em sete dias, são super complicados. Nunca é "vai lá, põe o nome dele num papel, amassa e guarda". Se alguém dissesse isso pra mulherada, com certeza nenhuma delas acreditaria naquilo e sairia falando mal do serviço. Agora, se diz "põe o nome dele num papel, mas tem que ser papel cor-de-rosa, borrifado de perfume de lavanda, dobra, põe dentro de um pote de mel, envolve num tecido dourado de seda pura, pega sete velas, dois anjos de cristal, cinco terços azuis, quinze pétalas de rosa branca, um champanhe francês, vai ao cemitério (tem que ser na cruz das almas) e reza três ave-marias, dois pais-nossos, joga as pétalas por cima, dá três voltas no cemitério, volta, senta, reza mais três vezes em latim e pronto! É só aguardar". Nossa, aí sim vale a pena! É o marketing da amarração para o amor.

Falando em amor (pra variar), recomendo um filme sobre uma das conquistas amorosas mais divertidas do cinema: It Happened One Night (Aconteceu Naquela Noite), de Frank Capra, 1934. Baseado no romance Bus Night, escrito por Samuel Hopkins Adams (1871-1958), a obra é uma das melhores comédias românticas de todos os tempos. Com Clark Gable e Claudette Colbert, foi o primeiro filme a conquistar as cinco categorias mais importantes do Oscar: filme, diretor, ator, atriz e roteiro. Simplesmente genial, com cenas e diálogos inovadores para a época. Muitas vezes a gente nem sabe que quer tanto uma coisa,até ela aparecer. Esse filme tem muito disso. Conta a história de Ellie Andrews (Colbert), uma socialite mimada que foge do pai milionário em Miami, para se casar contra a vontade dele, em Nova York. Durante a fuga, em uma estação rodoviária, Ellie encontra por acaso o jornalista loser Peter Warne (Gable), que senta ao seu lado durante a viagem. Ele se aproveita da situação para tentar escrever uma matéria sobre ela e a relação dos dois é bastante provocativa. Ela durona, ele muito charmoso e cheio de más intenções, acabam fazendo uma viagem repleta de acontecimentos que os aproximam. É aquela coisa, quem te irrita, te conquista. Lacan disse que "todo amor é recíproco, mesmo quando não é correspondido". Há boa dose de teimosia nesta frase. Digo o mesmo sobre este filme.

Acho que só pessoas evoluídas ou totalmente depressivas não ligam a mínima para a conquista e não são teimosas com seus desejos. De duas, uma: estão acima disso ou precisam de ajuda para não cometer suicídio por falta de ânimo na vida.

Mas partindo do princípio que estamos longe de ser um espírito de luz e se não falta ânimo na maioria dos dias, acho que até podemos aceitar injeção na testa de vez em quando ou ignorar os dentes do cavalo dado, mas é como o brinde da promoção ou o brinquedo novo de criança (que ela não pediu pra ganhar): meia hora depois estará esquecido e perdido entre outros objetos comuns.


Adriane Pasa
Vancouver, 9/12/2013


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