A grama do vizinho | Adriane Pasa | Digestivo Cultural

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Segunda-feira, 23/12/2013
A grama do vizinho
Adriane Pasa

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Todo dia eu olhava pra ela. Todo dia. Pela janela da minha cozinha. E era linda. E a cor era muito viva, principalmente em dias de sol. Até que um dia peguei uma lupa e fui até lá. O lance é conferir de perto, porque de longe todo mundo é normal. Dei uma disfarçada e fui em direção à caixa de cartas, depois abri o portão, fingi estar esperando algo, dei alguns passos para o lado e abaixei. E vi. Com a lupa. Vi a minhoca e a larva da minhoca e depois um tatuzinho-bola. E pior. Achei o máximo. Tinha vida e era engraçada, surpreendente como os vídeos em close-up da Discovery Channel. Dei uma analisada na cor, que disso eu entendo. Era de um verde-bandeira brilhante, saturado, nenhuma cor da escala Pantone se parecia com ele e tinha um efeito de glitter. Parecia uma mistura dos verdes das telas de Tarsila. Que raiva. Algumas folhas estavam meio amareladas, ok, mas faziam uma boa composição. Em tempos de copa do mundo, fica até bacana. E estava toda aparadinha, simétrica, um mini Maracanã. Aí resolvi cheirar e cheguei mais perto, a pontinha da folha me fez cócegas por dentro do nariz. Dei um espirro, desses que saem em partes e a gente fica com cara de idiota. Tinha um cheiro de chuva, mas chuva engarrafada, tipo essas colônias pós-banho. Quando passei a mão, uma aguinha ficou entre meus dedos. Uma coisa fresca, geladinha. De fato, era o máximo. Não havia dúvidas.

Antes que eu pudesse disfarçar e sair de fininho, a família chegou. As crianças saíram do carro correndo e com suas galochas de chuva pisaram grosseiramente na grama. Aquelas galochas cujas solas têm um desenho geométrico parecido com marcas de pneu. Faziam carimbos. A mãe, meio azeda, dizia aos berros, "vão pela calçada!". Havia alguma coisa estranha nelas, uma agressividade exacerbada, mesmo sorrindo e pulando se empurravam com força. O pai, com uma cara de cansado e com a testa cheia de rugas de final de dia pegava as compras no porta-malas. Deixou cair uma sacola que tinha não sei o que e quebrou e o líquido escorreu pelo verde-bandeira. Acho que era refrigerante, porque fez uma espuminha. A mãe reclamou. E aí veio o cachorro e cagou bem no lugar onde estavam as minhocas e o tatu-bola. Depois que todos entraram, as folhinhas pareciam meio amassadas e um pouco de terra havia se soltado, espalhando alguns torrões por cima de tudo. Como anoitecia, a cor tinha outro tom. As vozes foram ficando longe e eu ouvi a porta bater, com força. Pareceu-me um recado. A essas alturas eu já estava em frente ao meu portão, fingindo chegar da rua. Acho que ninguém reparou que eu estive ali observando e cobiçando, com uma solidão própria dos quadros de Hopper. Olhei em volta. Todos os jardins estavam com um aspecto estranho e perturbador, como na cena de Veludo Azul em que o rapaz encontra uma orelha cortada no meio de um matinho em um terreno baldio. Bizarro. O que antes era Walt Disney, de repente virou David Lynch.

Entrei em casa e o silêncio chegava a incomodar. Lembrei do Daniel. Um amigo escritor muito talentoso e que tinha uma risada divertida com gosto de infância. Daniel nunca estava em silêncio. Era muito generoso para isso. Há alguns dias ele havia me enviado uns textos lindos, que despertaram em mim um sentimento meio confuso. Aquelas coisas que a gente admira, acha genial, mas gostaria mesmo é que fossem nossas. Fui para o computador. Escrevi um troço estranho, totalmente diferente do que eu costumava escrever. Quis imitar o jardim perfeito dos textos de Daniel. Aí me deu uma sede e lembrei que só tinha água da torneira. Fui até a cozinha. Uns dias atrás tinha lido uma matéria sobre o cloro na água, dizia que ele mata em torno de 75% das bactérias. Mas será que também mata a gente, aos poucos? Lembrei que na casa ao lado, como tem crianças, nunca devia faltar água mineral. E refrigerante. Bebi um copo d'água da torneira num golão. Voltei para o computador e fiquei olhando para a tela um pouco. Corrigi alguns errinhos, mudei algumas palavras, pra parecer mais elaborado e inteligente. Em seguida mandei meu texto por e-mail para o Daniel. E disse a ele, na cara dura: "Hoje tentei fazer um texto parecido com os teus, veja aí". Senti um pouco de vergonha, mas aí a mensagem já tinha ido. Depois pensei que quando somos íntimos de alguém amigo jamais devemos ter vergonha de nada. A gente não precisa fingir que não está admirando e tentando imitar. Num terreno de liberdade, a cobiça nunca é anônima. É sempre declarada, explícita. Depois de alguns minutos ele respondeu dizendo "mas não tem nada a ver com o que você escreve!". A inveja é assim.


Adriane Pasa
Vancouver, 23/12/2013


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