O armário que me pariu | Lisandro Gaertner | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 28/1/2014
O armário que me pariu
Lisandro Gaertner

+ de 4100 Acessos

Natália e Alfredo caminhavam pelo pólo moveleiro da cidade, em busca de móveis para o quarto do bebê que chegaria em breve, quando, pela terceira ou quarta vez, Alfredo se tremeu todo. Natália parou, largou a mão do marido, apoiou as mãos nos quadris, empurrando a barriga da gravidez pra frente, e lhe mandou aquele olhar que ele já conhecia bem.

- O que foi Nat? - ele tentou disfarçar.

- O que foi pergunto eu, Alfredo. Que tremeliques são esses? Tá doente?

- Não, é que.

- É que. o quê?

- Pô, fico com a maior vergonha de falar disso, mas acho que ainda não me recuperei do trauma que tive com um armário de laca.

- Armário de laca?

- É. De laca. Toda vez que vejo um, especialmente um daqueles bem branquinhos, tipo aquele alí, ó, me dá um troço- completou se tremendo todo.

- Que negócio esquisito. Que trauma é esse?

- Se lembra que eu te contei que meus pais brigavam muito quando eu era pequeno. Antes da separação, quero dizer.

- Sei.

- Bom, tem um momento crítico dessa história que envolveu um armário de laca. Já te contei? Não? Foi brabo. E o pior é que depois nunca mais consegui olhar para um deles e ficar tranquilo.

- Como foi isso?

- Lá em casa tinha um desses armários- pausou e deu uma pequena tremida lembrando da situação.- Era um daqueles armários de botar pratos. Sabe? Daqueles que ficam na sala.

- Uma cristaleira.

- É, isso aí. Daí que o armário tava bem velho. As portas não fechavam direito, as placas brancas tavam caindo e até um dos pés tava quebrado. Meus pais naquela época já brigavam por qualquer motivo. O armário todo estropiado no meio da sala se tornou mais um pretexto. Lembro que eles passaram a noite toda, do jantar até irem dormir, discutindo sobre o tal armário.

- O que tinha pra discutir? O armário tava quebrado. Era só trocar.

- Pois, é. Mas um dizia que tinha que consertar. O outro dizia que tinha que jogar fora. Cada uma dessas opiniões estava cheia de segundos, terceiros, milésimos sentidos. "Ah, você quer jogar tudo fora. Pra você nada tem conserto". "E você que fica investindo no que não tem jeito. Tem que mudar mesmo. Jogar fora. Tá cega?". E assim por diante. A briga tava tão quente que eles nem lembraram que eu estava alí no meio e foram dormir me deixando sozinho na sala. Aí fiquei só eu e o tal armário. Não sei o que me deu na hora, mas eu não conseguia sair dalí.

- Como assim? Você ficou alí parado?

- É. Parecia que se eu salvasse aquele armário, eu salvaria o casamento dos meus pais. Fiquei parado, torcendo pra ele não quebrar, mas sem saber o que fazer. Tudo o que eu podia fazer era esperar que tudo voltasse ao normal. Que o armário se salvasse, que meus pais parassem de brigar.

- Ai, que barra!

- Pois, é. Aí eu fui lá, sentei na mesa de jantar e passei a noite toda acordado vigiando o armário.

- A noite toda?

- Quase, né? Eu era pequeno. Acabei dormindo.

- Ai, que triste.

- Calma que piora.

- Piora?

- Ô! Como eu disse, dormi com a cabeça apoiada na mesa de jantar. Acordei com o maior torcicolo e quando fui ver como estava o armário, ele tinha sumido.

- Sumido?

- Sumido.

- E o que seus pais disseram?

- Nada.

- Nada?

- Pois é. Tava aquele buraco no meio da sala. Aquela falta aparente e eles tomando café como se nada tivesse acontecido. Eles deram algum jeito no armário antes que eu acordasse e não falaram nada. Eu, traumatizado, nem me liguei de perguntar.

- Que chato.

- Pois, é.

- E aí, então, eles se separaram?

- Não. demorou mais uns anos.

-Ah, fala sério! Então esse lance do "trauma" é um tanto de frescura da sua parte, né?

- Pô, deixa de ser insensível, mulher. Aquele foi o último momento em que achei que podia salvar a minha família. Impedir que meus pais se separassem. E eu falhei. Até hoje isso me incomoda.

- E, por isso.

- E por isso eu não me dou bem com armários de laca.

Natália olhou para Alfredo com um meio sorriso.

- O que foi, Nat?

Natália o agarrou pela mão e começou a puxá-lo em direção a uma das lojas de móveis. Justamente aquela onde havia uma cristaleira de laca bem na frente.

- Pára, Nat- Alfredo tremia.- Respeita o meu trauma!

- Respeito nada. Trauma é pra gente confrontar.

- Acho que não vou conseguir- ele seguia tremendo sendo puxado pela mulher.- Pára, amor, pelo amor de Deus!

Natália não se abalou e continuou resoluta. Alfredo, agora, totalmente entregue, passava entre os outros pedestres de olhos fechados sendo puxado por Natália gravidíssima. Os tremores aumentaram e ele começou também a ficar enjoado. O mal estar crescia a cada passo até que ele se sentiu parar.

- Taí. Armário, esse é o Alfredo. Alfredo esse é o armário. - Natália os apresentou.

Alfredo abriu lentamente um olho, depois o outro e lá estava ele em todo seu esplendor: o armário de laca. Ele respirou fundo e não soube o que fazer. Não tremia mais. Não tinha vontade de sair correndo. Estava simplesmente calmo. O armário que tanto o atemorizava parecia, alí, parado na sua frente, apenas o que ele realmente era: um armário.

Natália se aproximou do armário e começou a abrir uma de suas portas.

- Vem, - ela convidou Alfredo - toca nele.

Alfredo lenta e receosamente começou a aproximar a mão do armário. A estranha calma que tinha tomado conta dele deu sinais de fraquejar, mas ele persistiu. Encostou primeiro um dedo e sentiu a superfície fria da laca. Depois, mais confiante, colocou a mão aberta sobre o material.

Natália começou a abrir e fechar a porta do armário como se fosse uma boca e, dublando-o, disse com voz de personagem de desenho animado:

- Desculpe, Alfredo, a culpa da separação dos seus pais não foi minha. Nem sua. Você me perdoa?

*****

Alfredo não ficou chateado com a brincadeira de Natália. Muito pelo contrário. Ele riu da palhaçada dela e, depois de comprarem os móveis, curtiram bastante o dia. Quando foi dormir, ele pegou no sono rápido como há muito tempo não fazia.

Natália, por outro lado, não teve a mesma sorte. Depois de fritar um pouco na cama ela acabou dormindo, mas seu sonho foi terrível.

Ela estava na sala de casa e ouvia no corredor o som de algo se arrastando e riscando o chão. O som crescia e quando parecia vir de frente da porta de casa, ela ouviu 3 batidas. Não eram batida normais. Era como se algo fosse atirado em direção à porta. No sonho, ela se levantou e abriu a porta. Na sua frente uma enorme cristaleira branca de laca bloqueava a sua passagem. As portas da cristaleira abriam sozinhas e delas saía um som que lembrava uma voz de mulher:

- Oi, Natália, o Alfredinho tá aí?

Natália acordou gritando. Alfredo se levantou num pulo aturdido:

- Tudo bem, amor? Tá sentindo alguma coisa?

- Não, não, tranquilo. Acho que tive um pesadelo.

- Com o quê?

- Não lembro mas acho que tinha alguma coisa a ver com a sua mãe.

Nota do Editor:
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no blog de Lisandro Gaertner.


Lisandro Gaertner
Belo Horizonte, 28/1/2014


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