O armário que me pariu | Lisandro Gaertner | Digestivo Cultural

busca | avançada
60272 visitas/dia
2,0 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Festival Som na Faixa apresenta edição online com atrações da música instrumental
>>> Leituras Urbanas começa novo ciclo literário
>>> Unil oferece abordagem diferenciada da gramática a preparadores e revisores de texto
>>> Conversas no MAB com Sergio Vidal e Ana Paula Lopes
>>> Escola francesa de Design, Artes e Comunicação Visual inaugura campus em São Paulo
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Aos nossos olhos (e aos de Ernesto)
>>> Carol Sanches, poesia na ratoeira do mundo
>>> O fim dos livros físicos?
>>> A sujeira embaixo do tapete
>>> Moro no Morumbi, mas voto em Moema
>>> É breve a rosa alvorada
>>> Alameda de água e lava
>>> Entrevista: o músico-compositor Livio Tragtenberg
>>> Cabelo, cabeleira
>>> A redoma de vidro de Sylvia Plath
Colunistas
Últimos Posts
>>> Gente feliz não escreve humor?
>>> A profissão de fé de um Livreiro
>>> O ar de uma teimosia
>>> Zuza Homem de Mello no Supertônica
>>> Para Ouvir Sylvia Telles
>>> Van Halen ao vivo em 1991
>>> Metallica tocando Van Halen
>>> Van Halen ao vivo em 2015
>>> Van Halen ao vivo em 1984
>>> Chico Buarque em bate-papo com o MPB4
Últimos Posts
>>> O poder da história
>>> Caraminholas
>>> ETC. E TAL
>>> Acalanto para a alma
>>> Desde que o mundo é mundo
>>> O velho suborno
>>> Normal!
>>> Os bons companheiros, 30 anos
>>> Briga de foice no escuro
>>> Alma nua
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> A Lógica do Cisne Negro, de Nassim Nicholas Taleb
>>> Villa-Lobos tinha dias de tirano
>>> Abbas Kiarostami: o cineasta do nada e do tudo
>>> White Blues Boys
>>> 21º de Mozart: Pollini e Muti
>>> Mentiras diplomáticas 1: a Copa do Mundo é nossa
>>> Separar-se, a separação e os conselhos
>>> Eu não uso brincos
>>> Sou diabético
Mais Recentes
>>> Guinness World Records 2017 de Vários Autores pela HarperCollins (2017)
>>> O Monge e o Executivo de James C. Hunter pela Sextante (1989)
>>> Bocage de Hernani Cidade pela Lello & Irmão (1936)
>>> Como passar em concursos juridicos compacto de Wander Garcia pela Foco Juridico (2014)
>>> A Abolição do Homem de C. S. Lewis pela Thomas Nelson Brasil (2017)
>>> Boitatás de Pedro Saturnino Vieira Magalhães pela Helios (1926)
>>> Brossard: 80 Anos na História Política do Brasil de Luiz Valls pela Artes e Ofícios (2004)
>>> O Maior Vendedor do Mundo de Og Mandino pela Record (1978)
>>> Farewell Summer de Ray Bradbury pela Harper (2007)
>>> Três Sombras de Cyril Pedrosa pela Quadrinhos na Companhia (2011)
>>> Métodos Diagnósticos: Consulta Rápida de José Luiz Möller Flôres Soares; Outros pela Artmed (2002)
>>> O que vale a pena de Wendy Lustbader pela Alegro (2002)
>>> 2001 Uma Odisséia no Espçaço de Arthur C. Clarke pela Aleph (2013)
>>> Uma Breve História do Século XX de Geoffrey Blainey pela Fundamento (2011)
>>> Minimanual de pesquisa Biologia de Adelheid Chiaradia pela Claranto (2004)
>>> Manual de relaxamento e reduçao do stress de Martha Davis; Elizabeth R. Eshelman; Matthew Mckay pela Summus (1996)
>>> Hell Paris 75016 de Lolita Pille pela Intrinseca (2003)
>>> Ouro De Ofir - Codex Efeito Exillis II de Annabel Sampaio pela Geneve (2014)
>>> Caminho de Estrelas de Maria Braga Horta pela Massao Ohno Editor (1996)
>>> Existencialismo, filosofia y poesia de Juan Luis Segundo, S. J. pela Espasa (1948)
>>> Steve Jobs: A Biografia de Walter Isaacson pela Companhia de Letras (2011)
>>> O que Cristo pensa da Igreja de John Stott pela United press (1998)
>>> Ética a Nicômaco de Aristóteles pela Martin Claret (2013)
>>> As obras da carne e o fruto do Espírito de Willain Barclay pela Vida Nova (1985)
>>> A Conspiração Anunnaki - O Olho De Hórus de Annabel Sampaio pela Geneve (2015)
>>> Crime e Castigo de Dostoiévski pela Martin Claret (2008)
>>> O Mesmo Homem, No Amor e na Guerra de David Lebedoff pela Difel (2011)
>>> Biblia DeVocional da Mulher Nova Versão Internacional - Religiao de Vida pela Vida (2002)
>>> Evangélicos na política brasileira de Paul Freston pela Encontrão (1994)
>>> Teologia contemporânea de Stanley Gundry pela Mundo Cristão (1983)
>>> As Aventuras do Caça-Feitiço Volume 4: A Batalha de Joseph Delaney pela Bertrand Brasil (2010)
>>> On Zion: The History of an Idea (Inglês) de Martin Buber pela Schocken books (1986)
>>> Novamente Juntos de Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho pela Petit (1999)
>>> Casa Velha de Machado de Assis pela Escala (2007)
>>> Contos de Machado de Assis pela Ciranda Cultural (2007)
>>> Constituição da República Federativa do Brasil de Antonio de Paulo pela DP&A (2002)
>>> On the Bible: Eighteen Studies (Inglês) de Martin Buber pela Schocken books (1982)
>>> Histórias Verdadeiras de Giselda Laporta Nicolelis pela Scipione (2007)
>>> Américas uma introdução histórica de Luiz Koshiba; Denise Manzi pela Atual (1900)
>>> Drawing: A Complete Guide de Giovanni Civardi pela Search Press (2010)
>>> Paratii - Entre Dois Pólos de Amyr Klink pela Companhia das Letras (1992)
>>> A Paz de Todo o Dia 3 de Brigida Fries pela Brahma Kumaris (2014)
>>> A era dos direitos de Noberto Bobbio pela Campus (1992)
>>> O Alienista de Machado de Assis pela Ática (1984)
>>> Design de Interação: Além da Interação Homem-Computador de Jennifer Preece pela Bookman (2005)
>>> Como tirar a sorte pelas cartas de Madame Zenaira pela Tecnoprint (1980)
>>> Dom Casmurro de Machado de Assis pela Globo (1997)
>>> Programa de Responsabilidade Civil de Sergio Cavalieri Filho pela Malheiros (2004)
>>> Sistema Toyota de Desenvolvimento de Produto: Integrando Pessoas, Processo e Tecnologia de James M. Morgan; Jeffrey K. Liker pela Bookman (2008)
>>> Dom Casmurro de Machado de Assis pela Globo (1997)
COLUNAS >>> Especial Origens

Terça-feira, 28/1/2014
O armário que me pariu
Lisandro Gaertner

+ de 3500 Acessos

Natália e Alfredo caminhavam pelo pólo moveleiro da cidade, em busca de móveis para o quarto do bebê que chegaria em breve, quando, pela terceira ou quarta vez, Alfredo se tremeu todo. Natália parou, largou a mão do marido, apoiou as mãos nos quadris, empurrando a barriga da gravidez pra frente, e lhe mandou aquele olhar que ele já conhecia bem.

- O que foi Nat? - ele tentou disfarçar.

- O que foi pergunto eu, Alfredo. Que tremeliques são esses? Tá doente?

- Não, é que.

- É que. o quê?

- Pô, fico com a maior vergonha de falar disso, mas acho que ainda não me recuperei do trauma que tive com um armário de laca.

- Armário de laca?

- É. De laca. Toda vez que vejo um, especialmente um daqueles bem branquinhos, tipo aquele alí, ó, me dá um troço- completou se tremendo todo.

- Que negócio esquisito. Que trauma é esse?

- Se lembra que eu te contei que meus pais brigavam muito quando eu era pequeno. Antes da separação, quero dizer.

- Sei.

- Bom, tem um momento crítico dessa história que envolveu um armário de laca. Já te contei? Não? Foi brabo. E o pior é que depois nunca mais consegui olhar para um deles e ficar tranquilo.

- Como foi isso?

- Lá em casa tinha um desses armários- pausou e deu uma pequena tremida lembrando da situação.- Era um daqueles armários de botar pratos. Sabe? Daqueles que ficam na sala.

- Uma cristaleira.

- É, isso aí. Daí que o armário tava bem velho. As portas não fechavam direito, as placas brancas tavam caindo e até um dos pés tava quebrado. Meus pais naquela época já brigavam por qualquer motivo. O armário todo estropiado no meio da sala se tornou mais um pretexto. Lembro que eles passaram a noite toda, do jantar até irem dormir, discutindo sobre o tal armário.

- O que tinha pra discutir? O armário tava quebrado. Era só trocar.

- Pois, é. Mas um dizia que tinha que consertar. O outro dizia que tinha que jogar fora. Cada uma dessas opiniões estava cheia de segundos, terceiros, milésimos sentidos. "Ah, você quer jogar tudo fora. Pra você nada tem conserto". "E você que fica investindo no que não tem jeito. Tem que mudar mesmo. Jogar fora. Tá cega?". E assim por diante. A briga tava tão quente que eles nem lembraram que eu estava alí no meio e foram dormir me deixando sozinho na sala. Aí fiquei só eu e o tal armário. Não sei o que me deu na hora, mas eu não conseguia sair dalí.

- Como assim? Você ficou alí parado?

- É. Parecia que se eu salvasse aquele armário, eu salvaria o casamento dos meus pais. Fiquei parado, torcendo pra ele não quebrar, mas sem saber o que fazer. Tudo o que eu podia fazer era esperar que tudo voltasse ao normal. Que o armário se salvasse, que meus pais parassem de brigar.

- Ai, que barra!

- Pois, é. Aí eu fui lá, sentei na mesa de jantar e passei a noite toda acordado vigiando o armário.

- A noite toda?

- Quase, né? Eu era pequeno. Acabei dormindo.

- Ai, que triste.

- Calma que piora.

- Piora?

- Ô! Como eu disse, dormi com a cabeça apoiada na mesa de jantar. Acordei com o maior torcicolo e quando fui ver como estava o armário, ele tinha sumido.

- Sumido?

- Sumido.

- E o que seus pais disseram?

- Nada.

- Nada?

- Pois é. Tava aquele buraco no meio da sala. Aquela falta aparente e eles tomando café como se nada tivesse acontecido. Eles deram algum jeito no armário antes que eu acordasse e não falaram nada. Eu, traumatizado, nem me liguei de perguntar.

- Que chato.

- Pois, é.

- E aí, então, eles se separaram?

- Não. demorou mais uns anos.

-Ah, fala sério! Então esse lance do "trauma" é um tanto de frescura da sua parte, né?

- Pô, deixa de ser insensível, mulher. Aquele foi o último momento em que achei que podia salvar a minha família. Impedir que meus pais se separassem. E eu falhei. Até hoje isso me incomoda.

- E, por isso.

- E por isso eu não me dou bem com armários de laca.

Natália olhou para Alfredo com um meio sorriso.

- O que foi, Nat?

Natália o agarrou pela mão e começou a puxá-lo em direção a uma das lojas de móveis. Justamente aquela onde havia uma cristaleira de laca bem na frente.

- Pára, Nat- Alfredo tremia.- Respeita o meu trauma!

- Respeito nada. Trauma é pra gente confrontar.

- Acho que não vou conseguir- ele seguia tremendo sendo puxado pela mulher.- Pára, amor, pelo amor de Deus!

Natália não se abalou e continuou resoluta. Alfredo, agora, totalmente entregue, passava entre os outros pedestres de olhos fechados sendo puxado por Natália gravidíssima. Os tremores aumentaram e ele começou também a ficar enjoado. O mal estar crescia a cada passo até que ele se sentiu parar.

- Taí. Armário, esse é o Alfredo. Alfredo esse é o armário. - Natália os apresentou.

Alfredo abriu lentamente um olho, depois o outro e lá estava ele em todo seu esplendor: o armário de laca. Ele respirou fundo e não soube o que fazer. Não tremia mais. Não tinha vontade de sair correndo. Estava simplesmente calmo. O armário que tanto o atemorizava parecia, alí, parado na sua frente, apenas o que ele realmente era: um armário.

Natália se aproximou do armário e começou a abrir uma de suas portas.

- Vem, - ela convidou Alfredo - toca nele.

Alfredo lenta e receosamente começou a aproximar a mão do armário. A estranha calma que tinha tomado conta dele deu sinais de fraquejar, mas ele persistiu. Encostou primeiro um dedo e sentiu a superfície fria da laca. Depois, mais confiante, colocou a mão aberta sobre o material.

Natália começou a abrir e fechar a porta do armário como se fosse uma boca e, dublando-o, disse com voz de personagem de desenho animado:

- Desculpe, Alfredo, a culpa da separação dos seus pais não foi minha. Nem sua. Você me perdoa?

*****

Alfredo não ficou chateado com a brincadeira de Natália. Muito pelo contrário. Ele riu da palhaçada dela e, depois de comprarem os móveis, curtiram bastante o dia. Quando foi dormir, ele pegou no sono rápido como há muito tempo não fazia.

Natália, por outro lado, não teve a mesma sorte. Depois de fritar um pouco na cama ela acabou dormindo, mas seu sonho foi terrível.

Ela estava na sala de casa e ouvia no corredor o som de algo se arrastando e riscando o chão. O som crescia e quando parecia vir de frente da porta de casa, ela ouviu 3 batidas. Não eram batida normais. Era como se algo fosse atirado em direção à porta. No sonho, ela se levantou e abriu a porta. Na sua frente uma enorme cristaleira branca de laca bloqueava a sua passagem. As portas da cristaleira abriam sozinhas e delas saía um som que lembrava uma voz de mulher:

- Oi, Natália, o Alfredinho tá aí?

Natália acordou gritando. Alfredo se levantou num pulo aturdido:

- Tudo bem, amor? Tá sentindo alguma coisa?

- Não, não, tranquilo. Acho que tive um pesadelo.

- Com o quê?

- Não lembro mas acho que tinha alguma coisa a ver com a sua mãe.

Nota do Editor:
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no blog de Lisandro Gaertner.


Lisandro Gaertner
Belo Horizonte, 28/1/2014


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O palhaço no poder de Luís Fernando Amâncio
02. Reflexões sobre o ato de fotografar de Celso A. Uequed Pitol
03. Caindo as fichas do machismo de Marta Barcellos
04. I-ching-poemas de Bruna Piantino de Jardel Dias Cavalcanti
05. Humor x Desamparo de Carla Ceres


Mais Lisandro Gaertner
Mais Acessadas de Lisandro Gaertner
01. E Viva a Abolição – a peça - 1/6/2006
02. Cuidado: Texto de Humor - 28/7/2006
03. A História das Notas de Rodapé - 3/1/2002
04. Blogueiros vs. Jornalistas? ROTFLOL (-:> - 23/4/2008
05. Orkut: fim de caso - 10/2/2006


Mais Especial Origens
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




NA TRILHA DA GRAMÁTICA
LUIZ CARLOS TRAVAGLIA
ED. CORTEZ
(2013)
R$ 60,72



VETERINARY ETHICS: ANIMAL WELFARE, CLIENT RELATIONS, COMPETITION & COLLEGIALITY, 2E
JERROLD TANNENBAUM
MOSBY
(1995)
R$ 145,00



A JORNADA
DANIELLE STEEL
RECORD
(2002)
R$ 9,80



MAVIGNIER MAX BILL WOLLNER - ARTES
JUAN MANUEL BONET
DAN GALERIA
R$ 60,00



A BELA VELHICE
MIRIAN GOLDENBERG
RECORD
(2013)
R$ 30,00
+ frete grátis



O BOTICÁRIO
MAILE MELOY
BERTRAND BRASIL
(2016)
R$ 38,00



AS TRÊS IRMÃS - CONTOS
TCHEKHOV
ABRIL CULTURAL
(1982)
R$ 7,00



HISTOIRE DU CINÉMA
PIERRE LEPROHON
CERF
(1961)
R$ 18,90



MINHAS TUDO
MARIO PRATA
PLANETA
(2012)
R$ 5,90



SUBORDINAÇÃO E COORDENAÇÃO CONFRONTOS E CONTRASTES
FLAVIA DE BARROS CARONE
ÁTICA
(1988)
R$ 24,87





busca | avançada
60272 visitas/dia
2,0 milhões/mês