As Vacas de Stalin, de Sofi Oksanen | Ricardo de Mattos | Digestivo Cultural

busca | avançada
34554 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
>>> Leminski, estações da poesia, por R. G. Lopes
>>> Crônica em sustenido
Colunistas
Últimos Posts
>>> Banco Inter É uma BOLHA???
>>> Não Aguento Mais a Empiricus
>>> Nubank na Hotmart
>>> O recente choque do petróleo
>>> Armínio comenta Paulo Guedes
>>> Jesus não era cristão
>>> Analisando o Amazon Prime
>>> Amazon Prime no Brasil
>>> Censura na Bienal do Rio 2019
>>> Tocalivros
Últimos Posts
>>> O céu sem o azul
>>> Ofendículos
>>> Grito primal V
>>> Grito primal IV
>>> Inequações de um travesseiro
>>> Caroço
>>> Serial Killer
>>> O jardim e as flores
>>> Agradecer antes, para pedir depois
>>> Esse é o meu vovô
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A crítica musical
>>> 26 de Julho #digestivo10anos
>>> Por que escrevo
>>> História dos Estados Unidos
>>> Meu Telefunken
>>> Uma Receita de Bolo de Mel
>>> O apanhador no campo de centeio
>>> Curriculum vitae
>>> O Salão e a Selva
>>> Ed Catmull por Jason Calacanis
Mais Recentes
>>> At Risk de Patricia Cornwell pela Little Brown And Company (2006)
>>> Gone For Good de Harlan Coben pela Na Orion Paperback (2007)
>>> When The Wind Blows de James Patterson pela Little Brown And Company (1998)
>>> Windmills Of The Gods de Sidney Sheldon pela William Morrow And Companhy (1987)
>>> If Tomorrow Comes de Sidney Sheldon pela William Morrow And Companhy (1985)
>>> Pearl Dakotah Treasures 2 de Lauraine Snelling pela Bethany House (2004)
>>> Pearl Dakotah Treasures 2 de Lauraine Snelling pela Bethany House (2004)
>>> Children Of The Lamp Book One de P. B. Kerr pela Orchard Books (2004)
>>> The Tale Of Despereaux de Kate Di Camillo pela Candlewick Press (2003)
>>> What She Left For Me de Tracie Peterson pela Bethany House (2005)
>>> Mulher (Trilingue) de Orestes Campos Barbosa pela Sografe, Belo Horizonte (2009)
>>> Mulher (Trilingue) de Orestes Campos Barbosa pela Sografe, Belo Horizonte (2009)
>>> A Christmas Carol de Charles Dickens pela Bendon (2014)
>>> A Christmas Carol de Charles Dickens pela Bendon (2014)
>>> Ruby Dakotah Treasures 1 de Lauraine Snelling pela Bethany House (2003)
>>> Opal Dakotah Treasures 3 de Lauraine Snelling pela Bethany House (2005)
>>> Amethyst Dakotah Treasures 4 de Lauraine Snelling pela Bethany House (2005)
>>> Amethyst Dakotah Treasures 4 de Lauraine Snelling pela Bethany House (2005)
>>> Amethyst Dakotah Treasures 4 de Lauraine Snelling pela Bethany House (2005)
>>> Amethyst Dakotah Treasures 4 de Lauraine Snelling pela Bethany House (2005)
>>> Amethyst Dakotah Treasures 4 de Lauraine Snelling pela Bethany House (2005)
>>> Amethyst Dakotah Treasures 4 de Lauraine Snelling pela Bethany House (2005)
>>> Amethyst Dakotah Treasures 4 de Lauraine Snelling pela Bethany House (2005)
>>> The 1999 - John Dinkeloo Memorial Lecture de Will Bruder pela The Univ. Michigan/ USA (1999)
>>> Não estamos abandonados de Eliana Machado Coelho pela Lúmen (2016)
>>> This Charming Man de Marian Keyes pela Penguin Books (2009)
>>> Anybody Out There de Marian Keyes pela Penguin Books (2007)
>>> The Undomestic Goddess de Sophie Kinsella pela A Dell Book (2005)
>>> A voz do fogo de Alan Moore pela Conrad (2002)
>>> The Innocent Man de John Grisham pela A Dell Book (2006)
>>> The Innocent Man de John Grisham pela A Dell Book (2006)
>>> Bluebonnet Belle de Lori Copeland pela Steeple Hill (1997)
>>> Bluebonnet Belle de Lori Copeland pela Steeple Hill (1997)
>>> Tratado de comunicação organizacional e política de Gaudêncio Torquato pela Cengage Learning (2011)
>>> Catálogo de Periódicos Brasileiros Microfilmados de Coord. Ana Fanda/ A. Romano de Sat' Anna:Presid. pela Biblioteca Nacional/ RJ. (1994)
>>> Vá em frente não deixe para depois de Zibia Gasparetto pela Vida e Consciencia (2016)
>>> Regimes de historicidade - presentismo e experiencias do tempo de François Hartog pela Autentica (2013)
>>> Amazônia: 20 Lendas e Mitos/ Legends And Myths from Amazônia (5 lín de Gea: Coordenadoria Editorial pela Graf. Ed. da Amazônia
>>> La Amada Inmóvil de Amado Nervo pela Soc. Edit. Latino- Americana (1950)
>>> Um (One) de Richard Bach pela Record/ RJ.
>>> Um (One) de Richard Bach pela Record/ RJ.
>>> Amando Uns aos Outros: o Desafio das Relações Humanas de Leo Buscaglia pela Record/ RJ.
>>> A força do entusiasmo de Prof.Gretz pela Viabilização de Talentos Humanos (2005)
>>> Legislação Penal Especial : Crimes Contra a Economia Popular.- Crimes Falimentares.- Crimes Contra a Liberdade de Imprensa de Manoel Pedro Pimentel (Min. Trib. Alçada Criminal / Sp) pela Revista dos Tribunais (1972)
>>> Os tomadores de decisão de Robert Heller pela Makron (1991)
>>> Farmácia de pensamentos de Sonia de Aguiar pela Relume Dumará (2000)
>>> Hipnotizando Maria de Richard Bach pela Integrare (2019)
>>> Tudo Sobre Finanças - Guia Prático de A a Z ( Exame) de Tim Hindle pela Nobel (2002)
>>> Estranho À Terra de Richard Bach pela Hemus
>>> Estranho À Terra de Richard Bach pela Hemus
COLUNAS

Segunda-feira, 10/2/2014
As Vacas de Stalin, de Sofi Oksanen
Ricardo de Mattos

+ de 4500 Acessos

"A vaca de Stalin é um bode". (Sofi Oksanen)

Pode-se dizer que aquele que não gosta de ter seus defeitos, vícios e doenças mencionados por outrem apresenta dois principais motivos para seu desgosto. Primeiro, porque já sabe por si mesmo, conscientemente ou não, mais a respeito de suas mazelas do que seria confortável. Segundo, porque sente-se totalmente nu diante de quem apenas admirou seu calcanhar.

Certo provérbio maçom afirma que "um homem com Deus forma a maioria". O crente sabe que a extensão de sua sombra é de conhecimento divino, o que já é desconforto suficiente. Portanto, mais gente além d'Ele informada sobre o conteúdo pétreo de seus sapatos é a multiplicação deste desconforto. "Si a maioria já sabe, que mais quereis: declaração de próprio punho?".

A tarefa mais difícil do ser humano talvez não seja conhecer-se, mas reconhecer-se. Reconhecer-se naquele que fala em demasia (!), no que trapaceia, no que inveja, no que tira vantagem até em festa infantil, no que se soterra sob mecanismos de defesa. Poderia ser a tarefa mais fácil, pois o sujeito desta pesquisa está ao permanente alcance: desnecessário marcar hora para entrevistá-lo. Vá tentar surpreendê-lo, contudo... Escorre pelos dedos e torna-se necessário descobrir seu novo esconderijo.

O indivíduo poderia ser sua melhor companhia. Devido a certo masoquismo sobre o qual ainda não nos detemos, prefere ser sua pior companhia, concentrando-se em seus aspectos desfavoráveis. Pensamos naquele jogo da memória, em que as cartas ou figuras são viradas para baixo, cabendo ao participante desvendar os pares. Fulano levanta a primeira carta e descobre um defeito. Levanta a segunda e descobre outro. Então queda-se depressivo: "Eu não presto!". Por que, em vez de ficar miando e atormentando aqueles que lhe são próximos, não levanta as demais cartas para ver quais qualidades também estão ali ocultas?

Sendo-nos lícito, de nossa experiência revelamos que encarar e aceitar nossos defeitos mais fortaleceu-nos que nos abateu. Houve sua parcela de incômodo, evidente. Passada a turbulência, si não fizemos deles nosso cartão de visitas, não aceitamos em nossa caixa ovos que não são nossos.

Terminamos a leitura de As vacas de Stalin, da escritora finlandesa Sofi Oksanen (1977). É o primeiro livro por ela escrito, o segundo traduzido no país. Precedeu Expurgo na forma, ou seja, na narrativa sem linearidade cronológica. O período abrangido, entretanto, vai da década de quarenta do século passado à entrada da atual centúria. Dir-se-ia que foi escrito conforme a personagem lembrava ou tinha conhecimento dos fatos. Fechado o livro, percebe-se o todo, ainda que circular. Nossa preferência segue a ordem de publicação: primeiro Expurgo, depois As vacas de Stalin. Não são leituras para estômagos frágeis. Todavia, também não são para glutões. O leitor afeito a detalhes eróticos saberá que a personagem Anna, jovem bulímica, mantém relações sexuais com o namorado e até com estranhos, mas nãoo que ela faz durante as relações. Primeiro porque, neste sentido, o explícito parece não fazer parte do trabalho de Oksanen. Segundo, porque a frigidez decorre da doença e dos remédios por ela tomados, de forma que as relações não primam pelo entusiasmo. Terceiro, porque os detalhes são reservados ao que ela chama suas "sessões": comer pantagruelicamente e depois devolver tudo. Pode se perguntar: "um livro inteiro sobre uma garota vomitando?". Caro leitor, não seja simplista. N'As vacas de Stalin Oksanen reforçou aqui e descuidou ali. Há cenas fortes e há pontos entediantes. Por isso dissemos preferir Expurgo, muito mais pesquisado e equilibrado.

No primeiro livro que escreveu, Oksanen descreveu o passado próximo e o "médio", por assim dizer. Próximo no que se refere à vida da personagem. "Médio", por incursionar na história da Estônia, porém sem ir muito longe. Tanto a escritora quanto a personagem são filhas de pai finlandês e mãe estoniana, o que sugere certo conteúdo autobiográfico. Eis, inclusive, ponto interessante do livro. Em dado parágrafo, ou mesmo em dada frase, a narrativa muda da primeira para a terceira pessoa sem aviso prévio. E não se trata da fala d'outro personagem em discurso indireto. O "eu" cede ao "ela" de forma que, si conteúdo biográfico há, talvez seja a forma de distinguir a ficção da realidade; o limite entre a criadora e a criatura, feita a sua imagem e semelhança, com ela não se confundindo.

A que vacas refere-se o título? Trata-se, ao que parece, de um esforço de humor dos prisioneiros - políticos ou não - egressos da Sibéria, que diziam ter visto por lá a raça bovina desenvolvida por Stalin. O desmentido revela o chiste: "A vaca de Stalin é um bode". Portanto, algo aquém ou completamente diverso do esperado. No começo da leitura, como há referência à negação da prostituição no território soviético, imaginamos que "vaca" envolveria a referência às prostitutas pelas autoridades do regime. Os negros trazidos à força ao Brasil não eram referidos como galinhas d'Angola, o que rendeu nome ao porto nordestino? O desacordo entre o que se espera e o que se tem parece mais conforme. O que se esperava do regime político não se cumpriu. O que se esperava da mudança de país, também não. Cidadãos foram convertidos em números e manejados dentro do país como gado dentro da fazenda. Os excedentes ou problemáticos são abatidos. Tornando ao conhecimento ou reconhecimento de si. O que um profissional da saúde demoraria dias, semanas, meses, anos (?!) para levantar, a personagem entrega pronto. E não, ele nada teria a acrescentar-lhe: "Eu também sabia tudo o que era possível sobre distúrbios alimentares, tendo lido sobre tudo, estudado tudo. Eu não precisava de suas aulas sobre bulimia e seus nutricionistas - talvez tivesse precisado disso dez anos atrás, porém agora não mais". Repetir o que se sabe enfada. O que vem depois?

Os dados sobre Anna e sua família são graduados. Muito sobre ela, sua mãe e sobre a Estônia. Menos sobre o pai. Menos ainda sobre a avó e os demais. Na crueza da narrativa, a personagem não estabelece relações de causa e efeito entre sua vivência e sua doença. O leitor atento perceberá sozinho os liames.

A partir das lembranças de Anna, a Estônia adquire fisionomia humana. Equivale a parente querido que se conheceu o suficiente para amar, mas do qual foi obrigada a afastar-se e mesmo negar. Anna nasce na Finlândia, e seu contato com o país de origem dá-se através das constantes viagens maternas. Katariina, a mãe, cumpriu a praxe de então para sair de país do bloco soviético em busca de melhores oportunidades: casou-se com um finlandês. Não foi bem sucedida sentimental nem financeiramente. Podemos ver seu constante ir e vir de contrabandista como tentativa de amenizar o prejuízo.

Muitas vezes a tentativa de amenizar implica em agravar. Com todos seus defeitos, na Estônia Anna identifica sua origem. Localiza o ponto de apoio que o país de nascimento não oferece. Na Finlândia, ela é alguém a mais, cuja origem deve ser cuidadosamente resguardada, pois considera-se prostituta toda mulher de origem soviética. Isto é algo de que ela demonstra consciência, pois refere-se mais de uma vez a homens que pensam ser sua mãe a sua cafetina. Por outro lado, na sua querida Estônia, ainda que precária e maltratada pelo regime político absurdo, ela é vista como a "princesinha" estrangeira. Logo, não consegue a imersão desejada.

Princesinha submetida à tirania de um Senhor: seu corpo. Cremos que Viktor Frankl não consideraria absurdo o seguinte raciocínio: as enfermidades atingem o indivíduo na dimensão noética - ou espiritual -, na dimensão psíquica e na dimensão física. Todavia, o que ocorre na dimensão física, na maioria dos casos, é expressão, consequência ou manifestação do que ocorre na dimensão noética, certo efeito de cascata. Além dos conflitos com o passado e com o presente, Anna estabelece no corpo os limites de sua individualidade. Poderia repetir com Hitchens: "Eu sou meu corpo". Mal sabendo de onde veio, ignorando para onde vai e limitada ao perecível, disto resulta a degradação e a estagnação. Pode ser esta a causa da narrativa começar e terminar com a personagem falando de bulimia. Apesar de minada pelo flagelo auto-imposto, nada indica que ela deixou ou deixará o estágio em que se encontra.


Ricardo de Mattos
Taubaté, 10/2/2014


Mais Ricardo de Mattos
Mais Acessadas de Ricardo de Mattos em 2014
01. Memórias de um caçador, de Ivan Turguêniev - 17/3/2014
02. Lares & Lugares - 18/8/2014
03. As Vacas de Stalin, de Sofi Oksanen - 10/2/2014
04. Kardec, A Biografia, de Marcel Souto Maior - 6/1/2014
05. Do outro lado, por Mary del Priore - 27/10/2014


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




CÉLULAS A COMBUSTÍVEIS
KELLEN CRISTINA MESQUITA BORGES, ROSANA F. GONÇALVES UND MARIO J. GODINHO
NOVAS EDIÇÕES ACADÊMICAS
R$ 349,00



AYRTON SENNA E A MÍDIA ESPORTIVA
RODRIGO FRANÇA (AUTOGRAFADO)
AUTOMOTOR
(2010)
R$ 24,00



USABILIDADE E ARQUITETURA DA INFORMAÇÃO PARA ESTRUTURAÇÃO DE PORTAIS
THIAGO MARINHO
NOVAS EDIÇÕES ACADÊMICAS
R$ 349,00



AMOR A ROMA
AFONSO ARINOS DE MELO FRANCO
NOVA FRONTEIRA
R$ 41,00



SOLUÇÃO GRADUAL
CARL HONORÉ
RECORD - GRUPO RECORD
(2016)
R$ 46,20



MEMÓRIAS DA SAUNA FINLANDESA
MEMÓRIAS DA SAUNA FINLANDESA
34
(2010)
R$ 20,00
+ frete grátis



TAPETES E TAPEÇARIAS ARRAIOLOS NR 10 ANO 2 PUBLICAÇÃO TRIMESTRAL
CASA MIDÕES

R$ 24,88



ÊSSE CONTINENTE CHAMADO BRASIL
EDUARDO TOURINHO
JOSÉ OLYMPIO
(1964)
R$ 7,38



CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL - 05 DE OUTUBRO DE 1988
EQUIPE DA EDITORA ATLAS
ATLAS
(1988)
R$ 7,00



INSTITUIÇÃO E RELAÇÕES AFETIVAS
MARLENE GUIRADO
SUMMUS EDITORIAL
(1986)
R$ 70,00





busca | avançada
34554 visitas/dia
1,1 milhão/mês