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Segunda-feira, 18/8/2014
Lares & Lugares
Ricardo de Mattos

+ de 5100 Acessos

"Meu lar é sempre onde estou. Meu lar está na minha mente. Meu lar são meus pensamentos" (Bob Marley).

Inferno

Si o leitor soubesse o que foi esgotar a paciência até a última gota com prestador de serviços que não foi prestativo nem fez serviço algum que preste; si o leitor testemunhasse o recurso em causa própria aos parcos conhecimentos adquiridos para suportar negligência de locatária cínica; si o leitor pudesse ver o estado da unha de nosso anelar esquerdo, roída e ferida numa crise de licantropia; enfim, si o leitor houvesse participado de parcela de nossa vida nos últimos dois meses, entenderia o entusiasmo com que empunhamos a vassoura e o rolo de pintura nas semanas em curso.

Poderíamos generalizar e dizer: antipatizamos com corretores de imóveis. Mas este grupo de profissionais padece o mesmo que os demais grupos. Advogados, médicos, psicólogos, corretores, dentistas, jornalistas, etc.: qualquer categoria pode ser dividida em três grupos. O primeiro, composto pelos indivíduos que honram a profissão escolhida como um fim em si. Encontram no trabalho o sentido de suas existências, confirmando assim uma das alternativas da tríade de Viktor Frankl. O segundo grupo é composto pelos indivíduos que encontram na profissão um meio para atingir algo. Usam suas credenciais profissionais para obter prestígio e promoções hierárquicas. Indivíduos assim não se formam em direito - por exemplo - por algum ideal específico, mas por acreditar que os concursos nas áreas jurídicas são melhor remunerados. O terceiro grupo é daquelas pessoas, com ou sem formação ou vinculação aos órgãos profissionais, que precisam do "crachá" atrás do qual se apresentam em sociedade.

"Você esta exagerando", poderá dizer o caro leitor. "Caso o sujeito não esteja inscrito na Ordem dos Advogados, ele não poderá advogar!". Advoga, leitor, advoga. E pode ganhar mais que muitos dos advogados regularmente inscritos e quites com a famigerada anuidade. Certo dia, estávamos ao computador em nosso antigo escritório. Ele é dividido em dois ambientes. Como nunca contratamos secretária, estávamos na sala que seria a dela, com a porta da entrada aberta para o corredor. Escutamos um curioso diálogo travado entre um dos corretores da imobiliária vizinha e um rábula, como são chamados os advogados sem habilitação acadêmica ou legal. O corretor surpreendeu-se em reencontrar o amigo depois de tanto tempo e perguntou-lhe sobre sua vida atual. O rábula entusiasmou-se: "Eu estudei direito até o terceiro ano, mas daí cansei daquela vida. Então abri uma sala no prédio X e estou lá, recebendo clientes, fazendo uma coisinha ou outra para eles no INSS... Quando precisa entrar na Justiça, a Doutora "R" assina para mim. Até que rende, viu? Tiro uns três mil reais por mês com isso". Caso a Doutora "R" mencionada seja, supostamente, a esposa de ilustre membro de algum órgão de classe, o denunciante seria o único prejudicado pela denúncia, mesmo que tivesse tudo gravado ou filmado. Quanto mais denúncia baseada em conversa ouvida sem conhecimento de todos os envolvidos. "O nobre colega deveria envergonhar-se de ser tão indiscreto". São suposições, todavia.

No último ano do curso de psicologia, certa colega mais velha, da turma da noite, juntou-se ao grupo da sala em que estudávamos. Lançou no ar, discretamente, a pergunta: "E então, já estão clinicando fora daqui?". A Inocência poderia questionar: "Você já está atendendo? Mas você nem é formada!". "Atendendo sob a supervisão de outro psicólogo, foi isso que eu quis dizer", seria a resposta pronta. O que o psicólogo percebe, o advogado recomenda não mencionar sem provas. Mesmo que estejam presentes, não compensa levar certas questões adiante.

No que se refere à casa de nossa avó paterna desencarnada, quisemos apenas que a ONG locatária fizesse dois ou três reparos mais sérios e que pagasse ao menos parte do esperado. Feitos os reparos, suspeitamos que o acerto pudesse não ocorrer. As chaves não deveriam ser recebidas sem nossa autorização pessoal. O corretor, digno representante do terceiro grupo acima, recebeu-as. Descobrimos que a locatária simplesmente abandonou a casa e instalou-se em outro prédio sem que a saída fosse formalizada. Teria sido o próprio corretor quem lhe arrumou este segundo imóvel, já que a todo o momento notava-se nele uma atitude protecionista? O que o psicólogo percebe... Exigimos que o aluguel continuasse correndo até vistoria e recebimento final das chaves por nós. De repente, aparece uma "carta" informando que a casa seria desocupada em determinado dia... "Eu enviei esta carta no seu e-mail, doutor...". Até um departamento jurídico foi tirado da cartola.

Oito de agosto, pela manhã, o clímax. Após semanas de paga ou não paga, o corretor conversa: "o Doutor Fulano da ONG deixou o cheque, mas ele só pode ser sacado na segunda-feira". A mãe, do quintal, escutou os gritos ao telefone. Sua pressão subiu e a Carmela foi de cabeça baixa para cama. O pai ficou quieto, pois foi ele mesmo quem indicou o "corretor" à época da contratação e também não demorou muito a arrepender-se - embora por situação diversa. Às catorze horas o valor devido foi-nos entregue em dinheiro. Horrível.

Purgatório

Para acalmarmo-nos e redimirmo-nos perante a consciência pelo mau exemplo, tomamos a vassoura, a pá e o saco de lixo, entre outros instrumentos de limpeza e manutenção. A casa da avó não é mais a da nossa infância e isto não é licença literária. Passamos muitos anos numa casa pintada de um pastel rosado sujo, cercada por plantas. Hoje é branca e azul, com rodapé externo e outros poucos detalhes em vermelho sangue de boi. Toda a área externa foi cimentada, com exceção de três quadrados dentro dos quais foram mantidos um pé de acerola, um de romã e outro de araçá. A escolha do azul e branco foi homenagem não declarada do pai a nossa origem rural, arrematada por um pé de café diante da janela do cômodo que um dia foi o quarto usado por seus pais - e no qual ambos desencarnaram. O primeiro inquilino pediu autorização para removê-lo. "Assim dá para colocar mais um carro na garagem". Já cabiam dois...

Comparada a nossa residência atual, a casa é pequena. Comparada ao que constroem no surto imobiliário que assola São Francisco das Chagas de Taubaté, é bem grande. Apesar da reforma e da passagem de dois locatários, algumas lembranças fazem-se perceber. Varrendo as folhas secas do quintal, olhamos para a janela do quarto que foi da Nê, nossa tia-avó. Parecia tão grande e espaçoso com ela e é tão pequeno hoje. Talvez a impressão decorresse do entontecimento provocado pela nuvem de perfume Contouré usado aos litros. Neste quarto ela ficou exilada alguns meses. Antes de vir para cá, nossa cadela Ursa precisou ficar de quarentena na casa da avó. Houve um surto de cinomose em nosso bairro e tal medida foi recomendada pelo veterinário. Como a Ursa era impossível e roía-lhe os joanetes, além de carregar consigo a boneca de pelúcia mantida sobre a cama, a Nê optou pela reclusão temporária, tomando seu banho de sol apenas pela janela. "A Nê está até branca", caçoava a avó.

Varrendo, calculamos o que fazer. No quarto da empregada havia chave. Onde está? A porta do corredor foi removida e não recolocada. Ao menos guardaram os pinos das dobradiças. Neste quartinho, infernizávamos a empregada solicitando histórias de assombração. Esgotado seu repertório, começou a inventar. Repetimos na escola estas histórias improvisadas e a professora acusou-nos: "você está inventando". Acaso os lobisomens das outras histórias seriam mais reais?

Ao lado do quartinho, o tanque de lavar roupas permanentemente cheio d'água, algo inadmissível na Era da Dengue. Barquinhos de diversos materiais, naufrágios, esconderijo, bebedouro, etc. Ao lado, um poço onde era descartada a água das bacias. "Não mexe aí que tem sapo", alertava a empregada. Percebendo nossa repulsa - ultrapassada - pelos pobres anfíbios, tudo passou a ter sapo. Quando apareceu um sapo-boi no quintal, nem sequer chegamos perto. "Este sapo gruda na perna da pessoa e precisa cortar um pedaço da pele para tirar". Fez todo um malabarismo para colocar o animal num saco e levá-lo para longe, mantendo assim a peça.

Acomodações

A casa do avô materno, onde hoje estabelece-se uma livraria, é menor. É menor, mas é a que possuía um escritório-biblioteca. E neste escritório-biblioteca, além dos muitos e variados livros, havia armários e gavetas... Gavetas cheias de curiosidades, como as baratas e lagartixas de borracha que ele usava para assustar empregadas. Estantes altas, com prateleiras cerradas de livros, atrás dos quais se escondeu um macaquinho certa vez, ocasião memorável. Sentado à escrivaninha, escutou o barulho da queda de um livro. Depois outro. Soa a campainha e ele atende. A filha da vizinha pergunta: "O senhor viu se um saguizinho fugiu para cá?". Então era isso...

Contudo, sempre vivemos e desenvolvemos atividades em ambientes amplos. Nossa casa atual poderia ser considerada grande demais para três pessoas. Em vez de casal idoso com filho adulto, a prática revela casal adolescente com filho idoso. Pela bagunça que fazem, parece haver muito mais gente. Nos últimos dias, a mãe reparou no silêncio geral, inclusive na avenida defronte: "Olha como está tudo quieto, parado". "É assim que tem que ser", respondemos aliviados. Há quase trinta anos, quando nos mudamos, a tranquilidade era grande, a vizinhança nem sequer se conhecia. Com o tempo, a avenida virou pista de corrida e já vimos carros com os quatro pneus para o alto diante de nosso portão. Conhecemos a vizinha de duas casas à direita, pois um ladrão entrou pela nossa casa, parou na casa intermediária, bebeu cerveja, e saiu pela casa dela levando algumas lembranças. Por algum motivo, casais escolhem a esquina da esquerda para brigar. Aqui reiniciamos a vida profissional. O escritório doméstico tem duas portas: trancada uma, veda-se o contato com o resto da casa. Pela outra, ninguém sabe quem está entrando ou saindo. Nossa fórmula é: casa grande e cômodos pequenos, aconchegantes.

A escola primária era estabelecida num casarão antigo, ainda hoje existente. Depois, mudou-se para um local ainda maior. O colegial foi cursado numa construção média, mas não era esta nossa preocupação. O que temos a falar de nossa adolescência e início da vida adulta entediaria o nonagenário recolhido num asilo. O prédio da faculdade de direito é imenso, com salas amplas e de pé-direito bem alto. Algumas das salas eram equipadas com cadeiras e carteiras, não cadeiras de braço largo. A sala utilizada para medicina legal acomodava um acervo de livros jurídicos antigos e raros, tesouro que sequer era tocado pela maioria. Soubemos que desapareceram depois em algum depósito da universidade. Podemos especular que a remoção de três ou quatro destes livros para coleção particular acabou significando um ato de preservação.

Os anos de advocacia foram exercidos num escritório grande o bastante, mesmo sendo feita uma divisória. O centro espírita ao qual ainda estamos ligados impressiona pelo tamanho e caracteriza-se pelas edificações sucessivas. Reparamos que estimula nos visitantes a "cobiça saudável" ou a "inveja boa", seja qual for o eufemismo com que se queira maquilar as imperfeições ainda presentes. O curso de psicologia deu-se praticamente todo numa sala só, com quatro janelas altas e capacidade para mais de cinqüenta alunos. Éramos dezoito, o que permitiu indisfarçável divisão em tribos. Atualmente, nossa especialização é realizada nas dependências do Instituto Pio XI, em São Paulo, no Bairro da Lapa. Mensalmente hospedamo-nos neste seminário para estudar Logoterapia e somos tratados "a pão de ló", como se diz por aqui. Há tanto espaço que duas ou três voltas pela área externa são suficientes para auxiliar a digestão.


Ricardo de Mattos
Taubaté, 18/8/2014


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