Expurgo, de Sofi Oksanen | Ricardo de Mattos | Digestivo Cultural

busca | avançada
88566 visitas/dia
2,4 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Clube do Conto Apresenta: Criaturas, de Carol Bensimon
>>> Vancouver Animation School apresenta webinário gratuito de animação
>>> Núcleo Menos1 Invisível evoca novas formas de habitar o mundo em “Poemas Atlânticos”
>>> Cia O Grito faz intervenção urbana com peças sonoras no Brás
>>> Simbad, o Navegante está na mostra online de teatro de Jacareí
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Ao pai do meu amigo
>>> Paulo Mendes da Rocha (1929-2021)
>>> 20 contos sobre a pandemia de 2020
>>> Das construções todas do sentir
>>> Entrevista com o impostor Enrique Vila-Matas
>>> As alucinações do milênio: 30 e poucos anos e...
>>> Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
Colunistas
Últimos Posts
>>> Blue Origin's First Human Flight
>>> As últimas do impeachment
>>> Uma Prévia de Get Back
>>> A São Paulo do 'Não Pode'
>>> Humberto Werneck por Pedro Herz
>>> Raquel Cozer por Pedro Herz
>>> Cidade Matarazzo por Raul Juste Lores
>>> Luiz Bonfa no Legião Estrangeira
>>> Sergio Abranches sobre Bolsonaro e a CPI
>>> Fernando Cirne sobre o e-commerce no pós-pandemia
Últimos Posts
>>> Renda Extra - Invenção de Vigaristas ou Resultado
>>> Triste, cruel e real
>>> Urgências
>>> Ao meu neto 1 ano: Samuel "Seu Nome é Deus"
>>> Rogai por nós
>>> Na cacimba do riacho
>>> Quando vem a chuva
>>> O tempo e o vento
>>> “Conselheiro do Sertão” no fim de semana
>>> 1000 Vezes MasterChef e Nenhuma Mestres do Sabor
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Despindo o Sargento Pimenta
>>> 15 de Agosto #digestivo10anos
>>> E se refez a Praça Roosevelt em sete anos
>>> Uma História do LED
>>> Caetano, não seja velho coronel
>>> Vento Bravo, com Edu e Tom
>>> Como o Google funciona
>>> A boa literatura brasileira
>>> Sebo de Livros do Seu Odilon
>>> História da leitura (III): a imprensa de Gutenberg
Mais Recentes
>>> Novíssimo Aulete - Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa de Caldas Aulete - Paulo Geiger ( Org. ) pela Lexikon (2011)
>>> O Laptop de Leonardo de Ben Shneiderman pela Nova Fronteira (2006)
>>> História da Paz de Demétrio Magnoli ( Org. ) pela Contexto (2008)
>>> O amor jamais te esquece de André Luiz Ruiz pela Ide (2003)
>>> Nosso Livro de Francisco Cândido Xavier pela Lake (2005)
>>> Direito Penal 1 Parte Geral de Sophie Kinsella pela Record (2010)
>>> Em Espírito e Em Verdade de Andy Park pela Vida
>>> Mente e Cérebro Poderosos de Conceição Trucom pela Cultrix (2010)
>>> Todo Ar Que Respiras de Judith Mcnaught pela Bertrand Brasil (2009)
>>> Tudo Bem Ser Diferente de Todd Parr pela Panda Books # (2002)
>>> Sonho Oriental Sabores e Receitas de Editora Caras pela Caras
>>> O Que Fazer? Falando de Convivência de Liliana Iacocca pela Ática
>>> O Homem Que Roubava Horas de Daniel Munduruku e Janaina Tokitaka pela Brinque Book (2010)
>>> Mulheres Inteligentes, Relações Saudáveis de Augusto Cury pela Academia
>>> Ana Karênina Volume 1 de Tolstoi pela Nova Cultural (1997)
>>> A Bíblia do Otimismo de R. Stanganelli pela Tríade
>>> Coleção na Luz da Verdade 1, 2 e 3 de Abdruschin pela Ordem do Graal na Terra (1999)
>>> O Rapto do Garoto de Ouro Série Vaga-lume de Marcos Rey pela Atica
>>> Como Fazer Qualquer Pessoa Se Apaixonar por Você! de Leil Lowndes pela Record
>>> A Sombra do Vulcão de Malcom Lowry pela L&pm Pocket (2007)
>>> Manual de Direito Penal Parte Especial Vol II 27ª Edição de Julio Fabbrini Mirabete pela Atlas (2010)
>>> Do Outro Mundo - Coleção Ana Maria Machado de Ana Maria Machado pela Ática (2002)
>>> Dicionário Jurídico Brasileiro Acquaviva - Edição de Luxo de Marcus Claudio Acquaviva pela Jurídica Brasileira (1995)
>>> A Tecnologia Acima do Bem e do Mal de José Rubens Salles Toledo pela Itafi (2016)
>>> Cómo Pintar a óleo de Jose Maria Parramon pela Parramón
COLUNAS

Segunda-feira, 31/12/2012
Expurgo, de Sofi Oksanen
Ricardo de Mattos

+ de 4000 Acessos

"Nem mesmo um cachorro pode mastigar a corrente da hereditariedade" (Sofi Oksanen).

O que sabemos a respeito do pequeno país europeu nomeado Estônia? Que é um país cuja independência finalmente veio em 1992, quando mais nenhuma potestade reivindicou poder sobre ele, seja poder territorial, seja o poder necessário para impor uma ideologia. Que é um país cujo território está definido numa área disputada ao longo dos séculos, onde os nativos precisaram ser teimosos para manterem-se contra tudo e contra todos e, ainda assim, desenvolverem um sentimento nacionalista que fortalecesse e permitisse-lhes pensar na independência.

De fato, em sua história mais remota, a Estônia foi disputada por dinamarqueses, suecos, alemães, russos e pelo poder papal. No século XII, foi alvo de uma cruzada planejada e promovida pelo Papa Celestino III (1106-1198), fundamentada na necessidade de combater hereges. Acossada entre 1208 e 1227 por esta investida pontifícia, precisou defender-se concomitantemente ao norte contra a invasão da Dinamarca. Apesar da resistência, os estonianos perderam e seus territórios foram divididos em bispados. Tanto se esforçou Roma que os estonianos aderiram ao luteranismo e hoje são um dos povos menos religiosos do mundo. Assim, deu-se a sequência de invasão, divisão e reunificação que parece ser o contorno geral de sua história. Conforme a ordem dominante perdia força e prestígio, outra se apresentava para reivindicar o espólio. Exemplo disto, à Ordem Teutônica - associação análoga à dos Templários - sucedeu o principado de Moscou.

No começo do século XX houve uma primeira tentativa de independência estoniana. Foi em 1918. Contudo, Roma, Suécia e Dinamarca foram apenas substituídas por Rússia e Alemanha. Si real ou virtualmente dotada de autonomia política, a Estônia acabou compondo a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Apenas em 1992 a Estônia pôde dizer-se livre. O que não significa um desembaraço total, pois, si a Natureza não dá saltos, que dizer de situações nas quais estão envolvidos interesses diversos, mormente interesses econômicos.


Estônia
Fonte: davybarreto.com

Diante de tal instabilidade, não se poderia esperar grande desenvolvimento literário. Não se trata de crítica, mas de compadecimento. Oito poetas de biografia escassa e obra inacessível compõem o quadro estoniano: Villem Gunthal-Ridala, Jaan Kaplinski, Lydia Koidula, Kalyu Lepik, Juhan Liiv, Karl Ristikivi, Gustav Suits e Marie Under. Um estudioso local poderá espernear e aumentar a lista. Observamos que localizar os mais famosos já foi inusitado, que dizer daqueles de expressão restrita. Dentre eles, o mais famoso é Juhan Liiv, por nomear o mais importante prêmio literário nacional. O número de escritores importantes não parece muito maior. Nas histórias destes poetas, e de outros poucos escritores encontrados, reflete-se a história do país: nacionalismo na busca e valorização de suas origens, patriotismo, preocupação humanística, perseguição política, exílio. As obras do escritor August Annist e do poeta Suits tiveram estreita ligação com o fogo.

Reputamos a esta falta de fôlego da literatura nacional o fato da mais importante obra de ficção envolvendo a Estônia ter sido escrita por uma finlandesa. Referimo-nos a Sofi Oksanen, escritora que numa só obra conseguiu projetar seu talento para o mundo e, de quebra, evidenciar a importância da escrita em aproximar realidades geograficamente distantes mas semelhantes em diversos aspectos.

Segundo os dados constantes de seu site pessoal, Oksanen nasceu em 1977, na Finlândia, na cidade com o impronunciável nome de Jyväskylä. Até o momento é autora de cinco livros: Stalin's Cows, de 2003; Baby Jane, de 2005; Purge - Expurgo -, de 2008; Too Short Skrit - Tales from the Kitchen, de 2011; e When the Doves Disappeared, de 2012, em vias de ser lançada no Brasil. Antes de passar a escrever em tempo integral, Oksanen foi estudante de dramaturgia na Academia de Teatro de Helsinki. A primeira versão de Expurgo, seu principal romance, foi uma peça encenada pela primeira vez no Teatro Nacional Finlandês em sete de fevereiro de 2007. A mais recente adaptação é para o cinema, sendo que já há fumos de indicação para o "Oscar" na categoria de melhor filme estrangeiro. De acordo com o dicionário Houaiss, "expurgo" é o ato ou o efeito de "expurgar". Este verbo, por sua vez, significa "deixar puro, limpo, purificar (...) deixar livre (...) ficar sem erros, corrigir-se". O competente e injustamente menos lembrado dicionário de Pasquale acrescenta: "tornar imune". Limpar e impedir que suje: "Vá e não peque mais".


Teatro Nacional Finlandês

Há duas personagens principais: Aliide Truu e Zara. A primeira é idosa, ressentida, magoada e colaboracionista quando da ocupação da Estônia pelos soviéticos durante a Segunda Guerra Mundial. A segunda, jovem presa das ofertas sedutoras de vida fácil e rica, alcançável sem trabalho ou esforço. Avaliando a narrativa, o expurgo foi "benefício" concedido a ambas, uma oportunidade de reajustarem prioridades e apaziguarem-se com seus fantasmas. Si no primeiro momento Aliide sacrificou os de seu sangue em favor dos invasores, no segundo momento fez o que seria esperado.

O que tornou Aliide "impura", "suja"? Sua vida foi reunião de frustrações e preterições. Todas as atenções voltavam-se para sua irmã, tida como mais bonita e hábil nos afazeres típicos de uma mulher do campo. O homem que escolheu para si, viu-o casar-se com ela. O incentivo de seus familiares ao casamento com um militar alemão não apenas a fez sentir-se mais rejeitada que encorajada como criou-lhe problemas por ocasião da ocupação soviética. Quando a Alemanha foi expulsa e os soviéticos chegaram, precisou lidar com as suspeitas destes sobre eventual colaboracionismo. A abertura de arquivos e o estudo e publicação de documentos mostram que os soviéticos, sob a batuta de Stálin, não representaram exatamente o papel de mocinhos. Como estoniana, Aliide nada queria com um alemão. Trocados os invasores, casou-se por estratégia com um russo, o que lhe garantiu proteção. Com a proteção, todavia, granjeou também a rejeição generalizada de seu povo, rejeição que a acompanhou até a velhice.

Em Expurgo, o colaboracionismo de Aliide foi ao mesmo tempo um estratagema para livrar-se de novas agressões, um instrumento de vingança e uma forma de manter junto a si o homem amado. Uma faca pode cortar a mão inábil, mas pode-se aprender a manuseá-la com destreza e utilizá-la para o ataque. Socialmente, medidas extremas podem ser antipáticas, mas para quem não se preocupava com a reação social, a opinião das pessoas foi inócua. Pessoalmente, a avaliação dos próprios atos promovida pelo tempo pode ser um incômodo semelhante à mosca que, volta e meia, vinha atormentá-la. Tenha ela desejado ou não uma oportunidade para acertar as contas, esta oportunidade veio através de Zara.

Talvez pareça relativamente óbvio o curso que a trama seguirá, bem como as ligações reveladas entre as personagens. Não as mencionamos aqui, pois desejamos que o leitor desfrute de ótima leitura, ainda que em alguns momentos demasiado crua. Que não havia notável diferença entre nazistas e soviéticos e que Hitler e Stálin eram farinha do mesmo saco, isto nós sabemos hoje. Que o aliciamento de jovens com a promessa de sucesso nas passarelas pode ser, em muitos casos, o encaminhamento para a prostituição, é um alerta ao qual não atentam apenas estas mulheres que abdicam da maternidade em favor do conforto pessoal mediante a entrega das filhas a rufiões. O horror encontra-se nos fatos, não na referência a eles, bem o sabemos. Oksanen desenvolve o enredo de maneira a prender a atenção pelas quase 350 páginas bem escritas.


Ricardo de Mattos
Taubaté, 31/12/2012


Quem leu este, também leu esse(s):
01. 2005 vai ser um ano ótimo (deixa comigo!) de Paulo Polzonoff Jr


Mais Ricardo de Mattos
Mais Acessadas de Ricardo de Mattos em 2012
01. A ilha do Dr Moreau, de H. G. Wells - 12/3/2012
02. Aborto - 2/4/2012
03. Freud segundo Zweig - 25/6/2012
04. Deus: uma invenção?, de René Girard - 6/2/2012
05. A Virada, de Stephen Greenblatt - 8/10/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Jogo da História nos Dias de Hoje 9
Flávio Campos e Outros
Leya
(2012)



A Morte de Baldassare Silvande e Outras Historias
Marcel Proust
Paraula
(1997)



Celebrando Com os Anjos
Timothy Jones
Bertrand Brasil
(1995)



Cris a Carpa Dourada
Aldo Pereira
Brinque Books
(2000)



Cada um Come Conforme a Fome
Maria Helena Mariani Vecchi
Espaço
(2001)



The Life You Want - Get Motivated, Lose Weight, and Be Happy
Bob Greene e Ann Kearney Cooke
Simon & Schuster
(2010)



Projeto Athos Ciencias 6 Ano
Jose Trivellato
Ftd
(2014)



A Paixão de Lia
Betty Milan
Globo
(1994)



Vozes do Chicão
Vários
0000
(2013)



Global English Dictionary
Pandiá Pându
Renovada





busca | avançada
88566 visitas/dia
2,4 milhões/mês