Brasil brochou na Copa | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 15/7/2014
Brasil brochou na Copa
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 5000 Acessos

A derrota foi vergonhosa. Humilhante. Arrasadora. Não se deveria esperar diferente, embora todo brasileiro iludido carregasse a certeza de que aconteceria o contrário. Essa derrota explica muito do atual rumo do futebol brasileiro e, mais do que isso, explica o próprio Brasil que se tem (auto)construído como ilha da fantasia desde sempre.

O princípio da realidade não é o forte do Brasil, como pudemos ver depois da derrota de 7 a 1 para a Alemanha. O brasileiro me lembra daquele sujeito que não estudou para o concurso, ficou na vadiagem, mas que tem esperança absoluta de que vai passar. Não dá outra: o princípio da realidade, como uma luva pesada e dolorosa, o atinge em cheio, levando-o a nocaute. Acabou reprovado.

O time brasileiro esteve mal durante toda a Copa, ganhando sofregamente de times que iam de médio a pequeno desempenho. Suou para vencer os fracos. Estava revelada a verdade: assim que encontrássemos um time de peso, como foi o caso da Alemanha, seríamos duramente derrotados. Não deu outra.

A escalação foi equivocada, a qualidade da maioria dos jogadores duvidosa, salve-se um ou outro, que se esforçou para nada quando enfrentou a gloriosamente vitoriosa Alemanha. Só um cego ultranacionalista não via o equívoco da escalação do "professor" Felipão e seu medíocre esquema tático.

O que de fato aconteceu foi a vitória da razão sobre a ginga. O time espartano, pragmático (?), racionalista, preparado a fogo e aço, como o alemão, se sobrepôs à ideologia ultrapassada da expertise brasileira. Não dá mais para cavar faltas, o que, aliás, soou anti-ético ao time alemão, assustado com essa prática vergonhosa dos brasileiros de querer ganhar com a lei do "tirar vantagem em tudo", propagada pelo famigerado ex-jogador Gerson. As já famosas quedas mentirosas de nossos jogadores, com nossos pênaltis e faltas cavadas na malandragem, começam a nos envergonhar diante de um esporte que exige ética na sua prática.

Com a globalização da economia, da cultura e da informação não adianta mais tentar se manter o modelo fazenda-quintal. Não adianta gingar no vazio, com o papai Felipão (e a mídia que coroa um jogador meia boca como o Neymar) que leva todo o time a uma prática puramente emocional e infantil, quando nossos oponentes constroem com suas práticas rigorosas, com seus traçados táticos práticos e racionais, o caminho que é o da vitória. Seus resultados serão, assim, sempre positivos, enquanto nadamos no reino da fantasia narcísica de uma "potência criativa espontânea" ― que se revelou inútil, senão infame, nessa partida com a seleção alemã.

Eis o Brasil, país das esperanças fantasiosas, de onde até Deus foi gerado, e do qual somos os habitantes de uma geografia parecida com o reino dos céus, da felicidade, da não-repressão (como cantada por Oswald de Andrade no seu ingênuo Manifesto Antropofágico), da criatividade livre e da "virtude" pré-civilizatória. Nossa verdade tropical funciona no reino dos sonhos, mas torna-se uma decepção quando confrontada com a realidade.

A derrota do Brasil foi boa, exemplar, educativa. Cortou o coração dos brasileiros, mas também boa parte de sua ingenuidade que despencou montanha abaixo. O país da bunda, dos cervejeiros, da alegria e, no caso que nos interessa aqui, da seleção, tratada como "família" e não empresa, teve seu cordão umbilical cortado na marra. (Ou será que ainda não?)

Tudo mudou no reino do esporte no Brasil. Antes o futebol era o esporte dos pobres, de "gente da periferia", que tinha como único lazer, que poderia ser pago por seu salário de fome, assistir aos jogos nos fins de semana. Agora o público (e o esporte) se elitizou. A cor da plateia mudou, o preço dos ingressos salgou, sendo sequestrado o único (e último) prazer coletivo que restava aos "vencidos da história". Longe dos teatros, dos concertos, dos shows internacionais, da educação de qualidade, do sistema de saúde eficiente... Poderia ainda se iludir com a ideologia de grupo, que faz da vitória do seu time a vitória ilusória ao menos em alguma coisa nessa vida mínima de perdedores. A Copa veio revelar esse novo estado do capital: os ricos monopolizaram a maior festa popular do Brasil, como já fizeram com o Carnaval. E o povo assiste, de fora, embasbacado, sua nova condição de excluído.

No entanto, é difícil desfazer-se de ilusões. A ideologia da identidade do povo, ligada ao amor pelo futebol brasileiro, à defesa do nosso estado de "preguiça criativa" (onde o criativo está, ainda estamos esperando por ver), precisa de mais porrada para fazer acordar a consciência entorpecida de nosso país. Essa pancada veio agora, bem dada, certeira, levando nosso narcisismo a se arrastar da lama da depressão.

Para que serve uma derrota como a que assistimos? Que nos faça ver que nossos melhores jogadores não são mais nossos. São do capital, do lucro internacional, de quem pode pagar por quem vai multiplicar seu lucro estratosfericamente. Que nos alerte para o fato de que a ginga está com seus dias contados, que a profissionalização (de todos os setores do sistema) é necessidade mínima de sobrevivência no mundo do capital. Que não basta acreditar, mas fazer por merecer. Que não basta ter o diploma e a festinha de formatura, é também necessário dominar o conteúdo da matéria.

Que será assim, ou será pior, pois quem domina o capital, como ensinou Marx, domina as ideias. E capturada nossa subjetividade, capturada está nossa alma e nossa força de trabalho e colonizada nossa riqueza. Que se aprenda isso... que se mude ou se mude o sistema. Mas para isso é preciso que se faça uma revolução.

O futebol no Brasil é uma questão para ser pensada sociologicamente, antropologicamente, mas também psicanaliticamente. Altera nossa razão os afetos que nos envolvem quando nossos times estão em campo. Esses afetos não são naturais, não são puramente uma vivência da experiência lúdica. São fruto de um controle social que passa pela dimensão em que experimentamos a violência, a injustiça, a frágil democracia brasileira. Buscamos vencer no campo da ilusão aquilo que perdemos no campo do real.

Futebol: campo de guerra, válvula da panela de pressão, comércio de corpos e almas. Fábrica de falsos heróis, que existem não com o símbolo do Superman no peito (hipotético protetor dos oprimidos), mas de marcas comerciais poderosas.

Quando perdemos no campo da ilusão, que realidade nos sobra?


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 15/7/2014


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