O assassinato de Herzog na arte | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
77305 visitas/dia
2,7 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Exposição virtual 'Linha de voo', de Antônio Augusto Bueno e Bebeto Alves
>>> MAB FAAP seleciona artista para exposição de 2022
>>> MIRADAS AGROECOLÓGICAS - COMIDA MANIFESTO
>>> Editora PAULUS apresenta 2ª ed. de 'Psicologia Profunda e Nova Ética', de Erich Neumann
>>> 1ª Mostra e Seminário A Arte da Coreografia de 17 a 20 de junho
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> 20 contos sobre a pandemia de 2020
>>> Das construções todas do sentir
>>> Entrevista com o impostor Enrique Vila-Matas
>>> As alucinações do milênio: 30 e poucos anos e...
>>> Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
>>> Cem encontros ilustrados de Dirce Waltrick
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
Colunistas
Últimos Posts
>>> Cidade Matarazzo por Raul Juste Lores
>>> Luiz Bonfa no Legião Estrangeira
>>> Sergio Abranches sobre Bolsonaro e a CPI
>>> Fernando Cirne sobre o e-commerce no pós-pandemia
>>> André Barcinski por Gastão Moreira
>>> Massari no Music Thunder Vision
>>> 1984 por Fabio Massari
>>> André Jakurski sobre o pós-pandemia
>>> Carteiros do Condado
>>> Max, Iggor e Gastão
Últimos Posts
>>> A lei natural da vida
>>> Sem voz, sem vez
>>> Entre viver e morrer
>>> Desnudo
>>> Perfume
>>> Maio Cultural recebe “Uma História para Elise”
>>> Ninguém merece estar num Grupo de WhatsApp
>>> Izilda e Zoroastro enfrentam o postinho de saúde
>>> Acentuado
>>> Mãe, na luz dos olhos teus
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Lula e a imprensa
>>> A Loja de Tudo - Jeff Bezos e a Era da Amazon, de Brad Stone
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> O tempo de Paulinho da Viola
>>> Daslusp
>>> A essência de Aldous Huxley
>>> 80 anos de Alfredo Zitarrosa
>>> Dize-me com quem andas e eu te direi quem és
>>> 7 de Setembro
>>> Diogo Salles no podcast Guide
Mais Recentes
>>> Mapas Históricos Brasileiros de Grandes Personagens de Nossa História pela Abril Cultural (1973)
>>> Geografia Ilustrada Brasil Volume 1 de Abril pela Abril Cultural (1975)
>>> Geografia Ilustrada Brasil Volume 1 de Abril pela Abril Cultural (1975)
>>> Geografia Ilustrada Volume 3 de Abril pela Abril Cultural (1972)
>>> Hammond´s World Atlas and gazetteer de Caleb D. Hammond pela C. s. Hammond & Co., Nem York (1951)
>>> Cidade Signos de um Novo Tempo a São Paulo de Ramos de Azevedo de Maria Aparecida Toschi Lomonacoq pela 5 (1975)
>>> Grandes Personagens da Nossa História - Cronologia de Jurandir dos Santos pela Jurandir dos Santos (1970)
>>> The maritime gallery at mystic seaport de Vários Autores pela Modern Marine Master (2000)
>>> Thesouro da Juventude - Vol. 14 de Vários Autores pela W. M. Jackson
>>> O Eterno Verão do Reggae de Carlos Albuquerque pela 34 (1997)
>>> Palácio da Justiça - São Paulo de José Renato Nalini pela Assessoria de Comunicação (1989)
>>> Umc - Omec - Universidade de Mogi das Cruzes de Regina Coeli Bezerra de Melo Nassri pela Lís (2002)
>>> Daee - uma Autarquia Em Desenvolvimento. de Secretaria de Obras e do Meio Ambiente pela Secretaria de Obras e do Meio Ambiente (1982)
>>> Fernando de Noronha de Giovanni Urizio pela Banco Sudameris Brasil (1995)
>>> Resgate Cultural - Estrada Real de Sebrae Minas Geraes pela Sebrae/ Mg (2006)
>>> A Biografia Kelly Slater Pipe Dreams de Kelly Slater - Jason Borte pela Gaia (2004)
>>> Dossiê Iphan 1 de Círio de Nazaré pela Iphan (2006)
>>> Ilhas do mundo - volta aos paraísos de Paulo Ferreira pela Volta ao mundo (1997)
>>> Os Últimos Dias de Stefan Zweig de Laurent Seksik pela Gryphus (2015)
>>> 40 Anos uma sinfonia em verde de Varios Autores pela Keren kayameth lelsrael (1960)
>>> Marketing no Varejo de Eliane Doin e Edson Paes Sillas pela Ibpex (2010)
>>> O Investimento Português no Brasil - História e Atualidade de Henani Donato e Luiz Felipe Lampreia pela Camara Portuguesa de Comercio (2003)
>>> Zum 11 -revista de fotografia de Ims pela Ims (2016)
>>> The Last Whole Earth Catalog de Stewart Brand pela Random House (1971)
>>> Segredos De Pai Para Filho- Como a perseverança a ousadia e a Fe Podem.. Administração de Reinaldo Morais pela Connect (2019)
COLUNAS

Terça-feira, 30/9/2014
O assassinato de Herzog na arte
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 25300 Acessos

"Diante de um homem morto, todos precisam se definir. Ninguém pode permanecer indiferente. A morte de um homem é a de todos nós". (Gianfrancesco Guarnieri)

Dois artistas abordaram em suas obras a morte do jornalista Vladimir Herzog nas dependências de uma prisão militar. Cildo Meireles e Antonio Henrique Amaral, cada um dentro de estéticas específicas, questionaram a versão de suicídio dada pelos militares à morte de Herzog. Trataremos neste artigo, em primeiro lugar, de relatar "o caso Herzog", e, em seguida, de tratar da obra dos dois artistas citados.

HERZOG, PRISÃO E MORTE:

Vladimir Herzog assumiu na década de 1970 a direção do departamento de telejornalismo da TV Cultura, de São Paulo. Vladimir era membro do Partido Comunista Brasileiro, passando a atuar politicamente no movimento de resistência contra a ditadura.

Em 24 de outubro de 1975 agentes do II Exército convocaram Vladimir para prestar depoimento sobre as ligações que ele mantinha com o Partido Comunista Brasileiro, partido que atuava na ilegalidade durante o regime militar.

No dia seguinte, Herzog compareceu espontaneamente ao DOI-CODI. Permaneceu na prisão com dois jornalistas, George Benigno Jatahy Duque Estrada e Rodolfo Konder. Pela manhã, Vladimir negou seu vínculo com o PCB. Os jornalistas foram levados para um corredor, de onde escutaram uma ordem para que se preparasse a máquina de choques elétricos para tortura. Em seguida, Konder foi levado à tortura, e Herzog não mais foi visto vivo.

O Serviço Nacional de Informações recebeu uma mensagem em Brasília de que naquele dia 25 de outubro o jornalista Vladimir Herzog havia se matado no DOI/CODI/II Exército". Era prática do governo militar que as vítimas de suas torturas e assassinatos fossem dados por suicidas.

As fotos que mostravam os pés de Herzog tocando o chão depõem contra a ideia de suicídio, pois nessa posição o enforcamento seria impossível. O rabino Henry Sobel, líder da comunidade judaica, viu as marcas da tortura e enforcamento em Herzog, o que levou a decisão de que seu enterro fosse realizado no centro do Cemitério Israelita do Butantã, o que implicava em desmentir publicamente a versão oficial de suicídio. A morte de Herzog se espalhou, inclusive em jornais, contrariando as normas de censura estabelecidas pelos militares.

O ato religioso pela morte de Vladimir Herzog se tornou a primeira grande manifestação de protesto contra a violência da ditadura militar. Uniu milhares de pessoas dentro e fora da Catedral da Sé, em São Paulo.



CILDO MEIRELES: PROJETO CÉDULAS

A obra "Inserções em circuitos ideológicos: projeto cédula", de Cildo Meireles, trata da morte do jornalista Vladimir Herzog. Em algumas notas de cruzeiro, moeda corrente no período militar, Meireles carimba a pergunta: "Quem matou Herzog?"

A obra indaga sobre os assassinos de Herzog. Aproveitando a facilidade da circulação das notas de um Cruzeiro (quanto menor o valor, maior a circulação), ele cria uma forma de denúncia sobre o assassinato do jornalista.

O projeto nasceu a partir de um convite para participar da exposição Information (Museu de Arte Moderna de Nova York). Para a exposição foram enviados dois projetos. Um denominado "Projeto coca-cola" e outro denominado "Projeto cédula".

Em ambos o objetivo era gravas informações, opiniões críticas e devolvê-las à circulação. Cildo definiu o projeto a partir do seu contexto e das intenções da obra: 1) a dolorosa realidade político-social-econômica brasileira; 2) a crítica à política americana expansionista, intervencionista, hegemônica; 3) aspectos formais da linguagem - produzir objetos inspirados nos ready-mades de Marcel Duchamp.

Cildo aponta o seu interesse por livrar-se do culto da arte enquanto objeto puro. Para ele, a arte deveria existir "em função do que podiam provocar no corpo social (...) a partir da necessidade de criar um sistema de circulação, de intercâmbio de informações, que não dependesse de nenhum controle centralizado".

O objetivo era minar o controle das informações pelos órgãos do poder (TV, rádio, Imprensa), fazendo circular informações que nesses órgãos seriam censuradas. Tratava-se, na verdade, de se criar uma rede de contra-informações.

Negando também a ideia de que a arte se baseia numa mística do autor ou do mercado, a exigência era de que a obra só existe na medida em que outras pessoas também a praticassem.

Para Cildo, a estética fundamenta a arte, mas a política é que fundamenta a cultura. Como uma espécie de ready-made duchampiano, o objeto mais banal e cotidiano é transformado temporariamente em obra de arte, para depois ser colocado em circulação em seu circuito social original, negando-se, nesse momento, enquanto arte, e tornando-se veículo de uma ação tática clandestina de resistência política, pois, "a pergunta tão incômoda ao regime quanto a uma população amedrontada, circula livremente em cédulas, porque ninguém guardaria ou destruiria dinheiro para esconder a dúvida".

O que interessa na escolha dos materiais, diz Ciro, é que sejam invadidos por significados externos que contaminem a obra com as tensões do mundo. A máxima reprodutibilidade da obra lhe dá um caráter não autoral, ou seja, o fato da obra poder ser refeita por qualquer pessoa mergulha-a no domínio público. É que retirando seu poder de autoria, aumenta-se seu poder de circulação.

Diz o artista: "A maior parte das minhas obras pode ser reconstruída; a preocupação é fazer obras libertas do autor, da corporeidade que legitima o original. Queríamos nos libertar da aura do original".



A MORTE NO SÁBADO - ANTONIO HENRIQUE AMARAL

A série de quatro obras denominada "A morte no sábado (1975/6), de Antonio Henrique Amaral, enfocam o assassinato de Herzog. "A morte no sábado - tributo a Vladimir Herzog" (1975) e "Ainda a morte no sábado" (1976) são exemplares na descrição alegórica da violência militar sobre o corpo dos presos políticos torturados.

Em "A morte no sábado - tributo a Vladimir Herzog" a oposição entre formas orgânicas e metálicas num jogo de violência é o que predomina nas telas. Sobre um fundo escuro, como que um corpo manchado por pancadas aparece em cores vermelhas, amarelas e brancas uma espécie de representação das vísceras sendo perfuradas por quatro garfos.

Como um "troféu da repressão, garfos erguem o corpo reduzido a um monte de carne ensanguentada". Peles se abrem para fora, depois de rasgadas; veias surgem em meio ao amontoado de gorduras e tripas. O tom vermelho predomina, nos fazendo imaginar órgãos sujos de sangue.

O contraste produzido pelo encontro do metal com a carne reforça a violência da cena. Numa espécie de grande zoom, podemos ver de perto o estrago que se produz. Nesta alegoria sobre Herzog, revela-se a causa de sua morte: a tortura.

Em "Ainda a morte no sábado", mais uma vez o artista retoma a oposição violenta entre metais e vísceras. Desta vez, acrescenta um novo elemento, uma espécie de "coroa de Cristo", que acompanha e ajuda o garfo a perfurar a carne.

Gorduras brancas abundam ao lado das vísceras, sendo também ultrapassadas pelos objetos metálicos. O recurso ao zoom novamente é usado. O título faz referência ao dia da prisão de Herzog e de sua morte.

Em entrevista, Antonio Henrique conta sobre a criação de suas obras com a temática da morte de Herzog.

Jardel: Falemos do caso Herzog. Como foi a notícia da morte dele e esses seus quadros sobre ele?

A notícia da morte dele... eu me lembro até hoje, foi manchete em todos os jornais... Era um cara de trinta e poucos anos, jovem, diretor de jornalismo da TV Cultura. E de repente ele vai depor, todo mundo sabia que ele ia depor, e no dia seguinte aparece a notícia da morte dele. Foi um choque, saiu no Estadão em página inteira, no Jornal da Tarde. Sob esse impacto eu resolvi pintar quatro quadros que eram A Morte no Sábado ― Tributo à morte de Vladimir Herzog. O fato de os militares matarem uma pessoa dessa qualidade humana, cultural, foi um choque, e o cinismo brutal de tentar afirmar que tinha sido suicídio...! Um horror!

Jardel: Houve censura aos quadros nessa época ou não?

Não foram imediatamente expostos. Quando completou um ano da morte dele eu os doei para o Sindicato dos Jornalistas. Depois começaram a serem expostos em exposições.

Jardel: Mas o povo não tinha acesso...

Não tinha. O povo sempre teve pouco acesso à cultura, o povo sempre teve muito acesso ao futebol, às noticias sobre futebol, com o apoio de toda a elite política que se protege à sombra do noticiário futebolístico... O fato de a gente fazer coisas que não são imediatas, que não são claras, exige que as pessoas pensem, se informem, sintam, abram a cabeça. É o papel civilizador da arte. Música popular é de consumo imediato, o cara não precisa pensar, a letra entra, sai. Claro que tem compositores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gil, Vinicius, Tom Jobim e tantos outros que fazem musica para a pessoa ficar mais alerta. Mas, em geral, o povo brasileiro gosta mesmo é de música que entra por um ouvido e sai pelo outro...! "Eguinha Pocotó" e coisas do gênero...!

Décia: A fase das bananas foi mais zombando, mas o caso Herzog foi um grande impacto que o fez expressar seu sentimento de revolta?

Exatamente. Porque houve outras mortes. Mas foi emblemática a morte de Herzog. Também o caso do filho da Zuzu Angel, o caso do Paiva, que foi jogado do avião... Como o Herzog era um jornalista da TV Cultura, tinha uma projeção maior do que o Paiva, que era um ativista. No fundo essa obra vale para todos os mortos, vítimas da violência da ditadura militar.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 30/9/2014


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Escrever? Quantas linhas? de Ana Elisa Ribeiro


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2014
01. Simone de Beauvoir: da velhice e da morte - 29/7/2014
02. O assassinato de Herzog na arte - 30/9/2014
03. As deliciosas mulheres de Gustave Courbet - 3/6/2014
04. A Puta, um romance bom prá cacete - 2/12/2014
05. Narciso revisitado na obra de Fabricius Nery - 11/3/2014


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O Papel Social da Empresa
F Dalle e J. Bounine
Ática (lisboa)
(1976)



Barbie Diversão Com os Amigos
Ciranda Cultural
Ciranda Cultural
(2015)



Direitos e Obrigações Em Saúde
Hélio Pereira Dias
Anvisa
(2002)



Psicodrama: Teorias e Técnicas
Flávio Fortes Dandrea
Bertrand Brasil
(1987)



Cipó - o Pulmão Paulistano - Sua História e Seus Personagens
Abimael Inácio da Silva
Letras do Pensamento
(2013)



Espronceda y Lord Byron
Esteban Pujals
Consejo Superior Investigacion
(1972)



Memórias de um Sargento de Milícias
Manuel Antônio de Almeida
Ática
(1985)



Dor Fundamentos Abordagem Clínica Tratamento - Praxis Enfermagem
Mary K. Kazanowski e Margaret Saul Laccetti
Guanabara Koogan Ed Lab
(2005)



Vozes da Oposição
Marieta de Moraes Ferreira e Outras (org.)
Fgv
(2001)



John Donne e a Crítica Brasileira - Três Momentos, Três Olhares
José Garcez Ghirardi
Age
(2000)





busca | avançada
77305 visitas/dia
2,7 milhões/mês