As deliciosas mulheres de Gustave Courbet | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
80332 visitas/dia
2,6 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Canto dos Recuados - espetáculo musical mergulha na cultura afrobarroca
>>> Primeiro Roteiro
>>> Festival Cine Inclusão abre inscrições de curtas-metragens com o tema terceira idade
>>> Musical Guerra de Papel estreia dia 3 de setembro no Teatro Viradalata
>>> Monólogo Te Falo com Amor e Ira de Branca Messina ganha nova temporada
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
>>> Poesia como Flânerie, Trilogia de Jovino Machado
>>> O mundo é pequeno demais para nós dois
>>> Ao pai do meu amigo
>>> Paulo Mendes da Rocha (1929-2021)
>>> 20 contos sobre a pandemia de 2020
>>> Das construções todas do sentir
>>> Entrevista com o impostor Enrique Vila-Matas
>>> As alucinações do milênio: 30 e poucos anos e...
Colunistas
Últimos Posts
>>> Unchained by Sophie Burrell
>>> Deep Purple em Nova York (1973)
>>> Blue Origin's First Human Flight
>>> As últimas do impeachment
>>> Uma Prévia de Get Back
>>> A São Paulo do 'Não Pode'
>>> Humberto Werneck por Pedro Herz
>>> Raquel Cozer por Pedro Herz
>>> Cidade Matarazzo por Raul Juste Lores
>>> Luiz Bonfa no Legião Estrangeira
Últimos Posts
>>> O cheiro da terra
>>> Vivendo o meu viver
>>> Secundário, derradeiro
>>> Caminhemos
>>> GIRASSÓIS
>>> Biombos
>>> Renda Extra - Invenção de Vigaristas ou Resultado
>>> Triste, cruel e real
>>> Urgências
>>> Ao meu neto 1 ano: Samuel "Seu Nome é Deus"
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Por que as curitibanas não usam saia?
>>> Incubus - Circles
>>> Citizen Kane
>>> Da vitrola ao microchip
>>> De onde vem a carne que você come?
>>> (Re)masterizados e (Re)mixados
>>> Um mundo além do óbvio
>>> Anarchy in the U.K.
>>> História do Ganesha
>>> A sombra de Saramago
Mais Recentes
>>> Como Cuidar do Seu Meio Ambiente de Desconhecido pela Bei (2002)
>>> Esposa 22 de Melanie Gideon pela Intrinseca (2012)
>>> Você, Líder do Seu Sucesso de Inácio Dantas pela Clube dos Autores (2018)
>>> Mundo Em Transformação de Antonio Cabral; Leonardo Coelho pela Autêntica (2006)
>>> Nós Dois na Madrugada de Sanne Munk Jensen e Ringtve pela Suma (2018)
>>> O Videogame do Rei de Ricardo Silvestrin pela Record (2009)
>>> Cinema Transcendental: um Guia de Filmes Sobre a Vida Após a Morte de Lyn, Tom Davis Genelli pela Pensamento (2014)
>>> Histórias para o Coração da Mãe de Alice Gray pela United Press (2005)
>>> Lua Nova - Formato Menor de Stephenie Meyer pela Intrinseca (2009)
>>> O Mar de Monstros - Percy Jackson e os Olimpianos Livro Dois de Rick Riordan pela Intrinseca (2009)
>>> Amanhecer de Stephenie Meyer pela Intrinseca (2009)
>>> Os Lusíadas de Luís de Camões pela Estadão (1995)
>>> Lua Nova de Stephenie Meyer pela Intrinseca (2008)
>>> Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro Volume 321 de Vários Autores pela Imprensa Nacional (1978)
>>> Guia do Servidor Linux Edição Servidor 3 de Conectiva pela Conectiva (1999)
>>> Introdução a Teoria das Linhas de Transmissão de José Thomaz Senise pela Mauá (1979)
>>> Feijoada na Copa de Chico Anísio pela Círculo do Livro (1976)
>>> Espinhos do Tempo de Zibia Gasparetto pela Os Caminheiros (1990)
>>> Os Insaciáveis de Harold Robbins pela Record (1978)
>>> Catálogo Antunes 87/8 de José Manuel Antunes pela Do Autor (1988)
>>> Biologia de los Microelementos y Su Funcion de Karl H. Schutte pela Tecnos (1966)
>>> Dicionário do Antiquariato de Codex pela Codex (1968)
>>> Relais & Chateaux 2001 de Relais pela Relais (2001)
>>> Guatemala Kunst Der Maya de I. Bolz-augenstein pela Greven (1966)
>>> Julie Ou La Nouvelle Heloise de Rousseau pela Flammarion (1967)
COLUNAS

Terça-feira, 3/6/2014
As deliciosas mulheres de Gustave Courbet
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 11400 Acessos

Do lado de cá, estamos nós, os observadores. Do lado de lá, as belas e carnais formas de um nu feminino representado pelo pintor francês Gustave Courbet. A tela, de 1866, se chama "Mulher com papagaio". Courbet é um "faiseur de chair", sendo que seus nus, impudores e de uma sensualidade indiscreta, ocupam grande parte de sua obra. São verdadeiros poemas louvando a carne feminina.

Deitada sobre lençóis amassados, os longos e sensuais cabelos atrapalhados, o corpo macilento não demonstra nenhuma tensão (há tensão após o coito?). Está entregue ao seu próprio peso material, à sua existência orgânica. Os seios arfam em sua grandeza arredondada e suculenta. O nu de Courbet é bem diferente das pinturas acadêmicas, como "O nascimento de Vênus", de Cabanel, que apesar da sensualidade apresentada nas acentuadas curvas da personagem, ainda traz em si a cor do mármore grego, nos distanciando de um corpo real e encarnado, como o de Courbet, que por isso desperta o desejo insuspeito do espectador.

O único invasor da cena é um papagaio (já se pressupôs que o quadro seria uma sátira à visitação da virgem pela ave sagrada, aqui ridicularizada na grotesca ave - que não canta, mas apenas grita). Ele pousa sobre a mão esquerda da mulher que o recebe sem constrangimento por sua nudez. Somos os espectadores da cena, que não é outra coisa que a ousada aparição erótica de um corpo fenomenal entregue à glória de sua própria sensualidade física.

No livro O corpo da liberdade, Jorge Coli afirma o seguinte: "A arte atribui a si própria a missão de exibir os poderes sexuais das formas femininas, e o artista, como, aliás, qualquer homem que participe da cena na condição de personagem, ou espectador, é o médium, invisível, ou quase, desse erotismo que ele dispõe para seu próprio prazer. Ou, mais simplesmente, a mulher é o evidente objeto erótico, e o homem, o sujeito oculto."

Em outro quadro, mais escandaloso por seu realismo, estamos diante de um recorte do corpo feminino cuja intenção do artista não pode ser outra que nos confrontar com seu órgão sexual despudorado. Trata-se, evidentemente, de "A origem do mundo". Edmond de Goncourt declarará que a pintura (a vagina?) é "bela como a carne de um Corrège". Estamos diante de uma mulher nua, frontalmente, aparecendo apenas partes da coxa, da barriga, dos seios, mas sem os pés, os braços, a cabeça. No centro, pela disposição das pernas abertas, apenas a vagina que se abre aos nossos olhos, encimadas pela penugem do monte de Vênus. Olhando de perto podemos perceber a umidade dentro do corte (um nu pós-orgasmo ou pré-penetração?). Em suma, uma licenciosidade absoluta. O quadro tem uma longa história, que todos já devem conhecer e do qual o psicanalista Jacques Lacan faz parte.

Em outra tela, denominada "As adormecidas", duas mulheres se enlaçam numa lubricidade baudelairiana. Os corpos são belíssimos, e sendo dois multiplicam no espectador o gozo visual da erótica carnalidade feminina. Um quadro para as fantasias sexuais masculinas, num momento em que o lesbianismo se torna tema literário (Balzac, Baudelaire etc). Não podemos esquecer que o título original de As flores do mal, de Baudelaire, seria "As lésbicas".

Courbet também pintou suas Dianas ao banho. Mas para insultar Rafael e Ingres, evidentemente. Estão mais para as matronas de Rubens, volumosas, com celulite, dobras e todo o peso de suas curvas que se multiplicam corpo a fora. Causaram escândalo. Não apenas por ser um tipo de nu contemporâneo, mas por ser também pintura de feitura contemporânea, que repudiava a hipocrisia da refinada (e idealizada) pintura acadêmica (sem marcas de pincel a vida?), com seus nus exibidos sob o álibi do distanciamento literário, mitológico ou do exótico oriente. Para Courbet, seu pincel deveria tocar em cada pedaço do corpo da mulher como se a estivesse possuindo sexualmente. E deveria dar ao olhar do espectador a sensação da presença desses corpos, quase que do cheiro do sexo dessas mulheres.

O artista foi acusado por determinado grupo de feministas do século XX de ser um pintor falocêntrico. De transformar as formas femininas, a organicidade de sua existência, em sua própria ontologia. Cavernas obscuras, segredos da natureza, tanto faz: vaginas e cavernas são a própria existência do feminino. E Courbet as pintou como lugares que nos convidam a entrar e encontrar essa natureza (desconhecida) profunda.

"As banhistas", de 1853, representa uma dessas Dianas. No centro do quadro um esplêndido nu feminino, com suas pernas grossas, nádegas volumosas, braços musculares. Revela-se em sua nudez as dobras do seu corpo, a celulite de suas nádegas e o peso de sua realidade carnal como um todo. Seu gesto aparentemente nobre faz pensar em esculturas gregas (o artista quer ridicularizar os clássicos), mas a mulher que aparece é aquela que dorme ao lado dos homens que a contemplam na tela. Ela é real. Uma dessas mulheres que vivem sob a opulência burguesa de uma alimentação farta. Uma mulher contemporânea. Inadmissível para o (bom?) gosto da época. Uma mulher bovina, ou melhor, equina, pois foi chicoteada na bunda durante sua exibição. O artista disse que simplesmente pintou "uma ninfa à la Rubens, uma burguesa da província". Um tema prosaico demais para concorrer no Salão Nacional de Belas Artes. Um nu tão próximo do real que nos deixa corados quando visto em ambiente público.

A quantidade de nus pintados por Courbet surpreende. Deitados, entregues a um certo cansaço, livres na natureza (principalmente como banhistas), em poses que marcam a influência de Ticiano a Rubens, em enlaces lésbicos (ou sugestivamente lésbicos, como em "Mulher nua com cão") e mesmo em cenas mitológicas (às vezes satíricas), em todos esses gêneros, a beleza do nu feminino.

De uma forma geral, o erotismo é claro, exibindo a lascívia do corpo feminino que se entrega à sua própria sensualidade ou desejando despertá-la no espectador. Segundo Jorge Coli, no seu livro L´atelier de Courbet (Paris: Hazan, 2007), "Seus corpos aderem ao solo em uma gravidade inerte. Elas se mostram incapazes de toda atividade e, sobretudo, elas não pensam, digerem cansadas." Digerem o que?

As mulheres de Courbet não pensam, não agem, mas exibem aquilo que por séculos lhes foi negado: o direito à própria sensualidade enquanto uma das qualidades de sua natureza.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 3/6/2014


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O computador de antigamente de Marcelo Maroldi
02. Demônio maniqueu e demônio agostiniano de Gian Danton


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2014
01. Simone de Beauvoir: da velhice e da morte - 29/7/2014
02. O assassinato de Herzog na arte - 30/9/2014
03. As deliciosas mulheres de Gustave Courbet - 3/6/2014
04. A Puta, um romance bom prá cacete - 2/12/2014
05. Narciso revisitado na obra de Fabricius Nery - 11/3/2014


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Tempo de Espera - Autografado
Oseas Araújo
Oficina Ed
(2005)



100 Magias Para Guardar Segredos
Editora Edelbra
Eldebra
(2002)



Introdução á Sociologia-ensino Médio-volume único
Pérsio Santos de Oliveira
ática
(2009)



Os Anjinhos Inspiram a Sua Vida - 2ª Edição
Marlis Salzmann
Pensamento
(2006)



Ações Tipicamente Constitucionais e a Liminar
Antonio Moura Borges
Edijur
(2008)



Qual É a Cor do Amor
Patrícia Senna e Emerson Pontes
Prazer de Ler
(2011)



Ovni as Forças Armadas Falam
Jean-claude Bourret
Difel
(1980)



Direito Internacional Leituras
Cláudio Finkelstein
Atlas
(2007)



Papel
Alda
Ibep Nacional
(2005)



O Guarani
José de Alencar
Ática
(2004)





busca | avançada
80332 visitas/dia
2,6 milhões/mês