As deliciosas mulheres de Gustave Courbet | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
37376 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
>>> Leminski, estações da poesia, por R. G. Lopes
>>> Crônica em sustenido
Colunistas
Últimos Posts
>>> O recente choque do petróleo
>>> Armínio comenta Paulo Guedes
>>> Jesus não era cristão
>>> Analisando o Amazon Prime
>>> Amazon Prime no Brasil
>>> Censura na Bienal do Rio 2019
>>> Tocalivros
>>> Livro Alma Brasileira
>>> Steve Jobs em 1997
>>> Jeff Bezos em 2003
Últimos Posts
>>> O céu sem o azul
>>> Ofendículos
>>> Grito primal V
>>> Grito primal IV
>>> Inequações de um travesseiro
>>> Caroço
>>> Serial Killer
>>> O jardim e as flores
>>> Agradecer antes, para pedir depois
>>> Esse é o meu vovô
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A literatura feminina de Adélia Prado
>>> Jorge Caldeira no Supertônica
>>> A insustentável leveza da poesia de Sérgio Alcides
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
>>> Millôr e eu
>>> As armas e os barões
>>> Quem é o autor de um filme?
>>> Cyrano de Bergerac
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Marco Lisboa na Globonews
Mais Recentes
>>> lua de Mel em Portugal de Marco Antonio pela Pin
>>> A História de Fernão Capelo Gaivota de Richard Bach pela Nórdica (1970)
>>> Epigramário de J. Dias de Moraes pela O Autor
>>> O livro de Ouro da Poesia Religiosa Brasileira de Jamil Almansur Haddad pela Edições de Ouro (1966)
>>> São José do Rio Preto:1852 / 1894 de Agostinho Brandi pela Rio-Pretense (2002)
>>> A Abertura dos Portos do brasil de Pinto de Aguiar pela Progresso (1960)
>>> Hawaii Açucareiro de Apolonio Sales pela IPA (1937)
>>> Desidério Desiderávi de Frei Carmelo Surian O. F. M. pela Vozes (1957)
>>> Pearl Harbor de H.P. Willmott pela Livro Técnico S/A (1981)
>>> O Orfeão na escola nova de Leonila Linhares Beuttenmuller pela Irmãos Pongetti (1937)
>>> Robson Crusoé de Monteiro Lobato pela Brasiliense (1988)
>>> O Comércio e o Desenvolvimento Economico do Brasil de José Papa Júnior pela Nacional (1983)
>>> No Hospital das Letras de Afranio Coutinho pela Tempo Brasileiro (1963)
>>> Fim de Primavera de Edvard Camilo pela Globo (1921)
>>> Corpos de Elite do Passado de Dominique Venner pela Ulisseia (1972)
>>> Tonico de José Rezende Filho pela Ática (1984)
>>> A brigada portyguara 1a Edição de Almicar Salgado dos Santos pela Nacional (1925)
>>> La France en Gènèral de André Frossard pela 'Plon (1975)
>>> O Comércio e o Desenvolvimento Econômico do Brasil de José Papa Júnior pela São Paulo (1983)
>>> O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry pela Agir (2003)
>>> Alguns Homens me Falaram da Paz de Jorge Maia pela Pan Americana S/A
>>> Menino de Asas de Homero Homem pela Ática (1982)
>>> A Segunda Guerra Mundial ( Em 12 volumes) de Codex pela Edição do Autor (1966)
>>> Moderato Cantabile (Edição Bilíngue) de Marguerite Duras pela José Olympio (1985)
>>> Pai-de-Todos de Ganymédes José pela Brasiliense (1978)
>>> A Liquidez Mundial e o Fundo Monetário Internacional de José Nabantino Ramos pela São Paulo (1964)
>>> Mulheres Entre Linhas - Contos - 1985 de Sec. do Est. da Cultura pela Cultura Já (1985)
>>> Pai, me compra um Amigo? de Pedro Bloch pela Ediouro (2005)
>>> A Vingança de Electra de Luiz Galdino pela Ftd (1998)
>>> Deslumbramento - Dedicatória e Autografado de Aristheu Bulhões pela Santos (1976)
>>> O Rei Cavalleiro de Pedro Calmon pela Nacional (1933)
>>> Paranóia A Síndrome do Medo de Stella Carr pela Ftd (1990)
>>> Revista Pau Brasil 14 - Ano III - Set./out. 1986 de Enio Squeff (editor) pela Daee (1986)
>>> Império Brazileiro de J. M. Pereira da Silva pela Garnier (1865)
>>> Um e Outros.... de Moacyr Chagas pela SP (1922)
>>> Euclides, Capistrano e Araripe de Afranio Coutinho pela Nacional (1959)
>>> Panis Angelicus Ou o Sacramento da Virgindade de Giuseppe M. Petazzi pela Salesianas (1966)
>>> O Alienista de Machado de Assis pela Ática (1971)
>>> O Romance Paulista no Século XX de Zélia Cardoso pela Academia Paulista de letras (1983)
>>> A Terceira Guerra Mundial Agosto de 1985 de General Sir John Hackett pela Circulo do Livro (1985)
>>> As Mulheres o Poder e a Familia de Eni de Mesquita Samara pela Marco Zero (1919)
>>> Eles Sonharam Com a Liberdade de Eudes Barros pela Gráfica Ouvidor (1962)
>>> O Sol da Liberdade de Giselda Laporta Nicolelis pela Atual (1988)
>>> Innovações do Romanismo de Carlos Hastings Collette pela Evangélica (1912)
>>> O Espião Cícero de Elyesa Bazna pela Flamboyant (1965)
>>> Aqui, entre Nós de Ercília F. de Arruda Pollice pela Ftd (2005)
>>> Observations sur la Compétence Des Consells de Guerre de Francis Laloe pela Librairie Nouvelle de Droit Et de Jurisprudence (1894)
>>> Cyrano de Bergerac de Edmond Rostand pela Scipione (2000)
>>> Diário da Capella de Baptista Pereira pela Saraiva (1933)
>>> Manual de Medicina Veterinária de Dr. Alvaro Penha Sobral pela Rio Médico (1937)
COLUNAS

Terça-feira, 3/6/2014
As deliciosas mulheres de Gustave Courbet
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 8500 Acessos

Do lado de cá, estamos nós, os observadores. Do lado de lá, as belas e carnais formas de um nu feminino representado pelo pintor francês Gustave Courbet. A tela, de 1866, se chama "Mulher com papagaio". Courbet é um "faiseur de chair", sendo que seus nus, impudores e de uma sensualidade indiscreta, ocupam grande parte de sua obra. São verdadeiros poemas louvando a carne feminina.

Deitada sobre lençóis amassados, os longos e sensuais cabelos atrapalhados, o corpo macilento não demonstra nenhuma tensão (há tensão após o coito?). Está entregue ao seu próprio peso material, à sua existência orgânica. Os seios arfam em sua grandeza arredondada e suculenta. O nu de Courbet é bem diferente das pinturas acadêmicas, como "O nascimento de Vênus", de Cabanel, que apesar da sensualidade apresentada nas acentuadas curvas da personagem, ainda traz em si a cor do mármore grego, nos distanciando de um corpo real e encarnado, como o de Courbet, que por isso desperta o desejo insuspeito do espectador.

O único invasor da cena é um papagaio (já se pressupôs que o quadro seria uma sátira à visitação da virgem pela ave sagrada, aqui ridicularizada na grotesca ave - que não canta, mas apenas grita). Ele pousa sobre a mão esquerda da mulher que o recebe sem constrangimento por sua nudez. Somos os espectadores da cena, que não é outra coisa que a ousada aparição erótica de um corpo fenomenal entregue à glória de sua própria sensualidade física.

No livro O corpo da liberdade, Jorge Coli afirma o seguinte: "A arte atribui a si própria a missão de exibir os poderes sexuais das formas femininas, e o artista, como, aliás, qualquer homem que participe da cena na condição de personagem, ou espectador, é o médium, invisível, ou quase, desse erotismo que ele dispõe para seu próprio prazer. Ou, mais simplesmente, a mulher é o evidente objeto erótico, e o homem, o sujeito oculto."

Em outro quadro, mais escandaloso por seu realismo, estamos diante de um recorte do corpo feminino cuja intenção do artista não pode ser outra que nos confrontar com seu órgão sexual despudorado. Trata-se, evidentemente, de "A origem do mundo". Edmond de Goncourt declarará que a pintura (a vagina?) é "bela como a carne de um Corrège". Estamos diante de uma mulher nua, frontalmente, aparecendo apenas partes da coxa, da barriga, dos seios, mas sem os pés, os braços, a cabeça. No centro, pela disposição das pernas abertas, apenas a vagina que se abre aos nossos olhos, encimadas pela penugem do monte de Vênus. Olhando de perto podemos perceber a umidade dentro do corte (um nu pós-orgasmo ou pré-penetração?). Em suma, uma licenciosidade absoluta. O quadro tem uma longa história, que todos já devem conhecer e do qual o psicanalista Jacques Lacan faz parte.

Em outra tela, denominada "As adormecidas", duas mulheres se enlaçam numa lubricidade baudelairiana. Os corpos são belíssimos, e sendo dois multiplicam no espectador o gozo visual da erótica carnalidade feminina. Um quadro para as fantasias sexuais masculinas, num momento em que o lesbianismo se torna tema literário (Balzac, Baudelaire etc). Não podemos esquecer que o título original de As flores do mal, de Baudelaire, seria "As lésbicas".

Courbet também pintou suas Dianas ao banho. Mas para insultar Rafael e Ingres, evidentemente. Estão mais para as matronas de Rubens, volumosas, com celulite, dobras e todo o peso de suas curvas que se multiplicam corpo a fora. Causaram escândalo. Não apenas por ser um tipo de nu contemporâneo, mas por ser também pintura de feitura contemporânea, que repudiava a hipocrisia da refinada (e idealizada) pintura acadêmica (sem marcas de pincel a vida?), com seus nus exibidos sob o álibi do distanciamento literário, mitológico ou do exótico oriente. Para Courbet, seu pincel deveria tocar em cada pedaço do corpo da mulher como se a estivesse possuindo sexualmente. E deveria dar ao olhar do espectador a sensação da presença desses corpos, quase que do cheiro do sexo dessas mulheres.

O artista foi acusado por determinado grupo de feministas do século XX de ser um pintor falocêntrico. De transformar as formas femininas, a organicidade de sua existência, em sua própria ontologia. Cavernas obscuras, segredos da natureza, tanto faz: vaginas e cavernas são a própria existência do feminino. E Courbet as pintou como lugares que nos convidam a entrar e encontrar essa natureza (desconhecida) profunda.

"As banhistas", de 1853, representa uma dessas Dianas. No centro do quadro um esplêndido nu feminino, com suas pernas grossas, nádegas volumosas, braços musculares. Revela-se em sua nudez as dobras do seu corpo, a celulite de suas nádegas e o peso de sua realidade carnal como um todo. Seu gesto aparentemente nobre faz pensar em esculturas gregas (o artista quer ridicularizar os clássicos), mas a mulher que aparece é aquela que dorme ao lado dos homens que a contemplam na tela. Ela é real. Uma dessas mulheres que vivem sob a opulência burguesa de uma alimentação farta. Uma mulher contemporânea. Inadmissível para o (bom?) gosto da época. Uma mulher bovina, ou melhor, equina, pois foi chicoteada na bunda durante sua exibição. O artista disse que simplesmente pintou "uma ninfa à la Rubens, uma burguesa da província". Um tema prosaico demais para concorrer no Salão Nacional de Belas Artes. Um nu tão próximo do real que nos deixa corados quando visto em ambiente público.

A quantidade de nus pintados por Courbet surpreende. Deitados, entregues a um certo cansaço, livres na natureza (principalmente como banhistas), em poses que marcam a influência de Ticiano a Rubens, em enlaces lésbicos (ou sugestivamente lésbicos, como em "Mulher nua com cão") e mesmo em cenas mitológicas (às vezes satíricas), em todos esses gêneros, a beleza do nu feminino.

De uma forma geral, o erotismo é claro, exibindo a lascívia do corpo feminino que se entrega à sua própria sensualidade ou desejando despertá-la no espectador. Segundo Jorge Coli, no seu livro L´atelier de Courbet (Paris: Hazan, 2007), "Seus corpos aderem ao solo em uma gravidade inerte. Elas se mostram incapazes de toda atividade e, sobretudo, elas não pensam, digerem cansadas." Digerem o que?

As mulheres de Courbet não pensam, não agem, mas exibem aquilo que por séculos lhes foi negado: o direito à própria sensualidade enquanto uma das qualidades de sua natureza.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 3/6/2014


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O tigre de papel que ruge de Celso A. Uequed Pitol
02. Sebastião Rodrigues Maia, ou Maia, Tim Maia de Renato Alessandro dos Santos
03. Por que HQ não é literatura? de Cassionei Niches Petry
04. A noite iluminada da literatura de Pedro Maciel de Jardel Dias Cavalcanti
05. Notas confessionais de um angustiado (VI) de Cassionei Niches Petry


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2014
01. Simone de Beauvoir: da velhice e da morte - 29/7/2014
02. O assassinato de Herzog na arte - 30/9/2014
03. As deliciosas mulheres de Gustave Courbet - 3/6/2014
04. A Puta, um romance bom prá cacete - 2/12/2014
05. Narciso revisitado na obra de Fabricius Nery - 11/3/2014


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




FALCÃO TRIGOSO A VIDA E A OBRA DO PINTOR
SYLVIA PURWIN DE FIGUEIREDO FALCÃO TRIGOSO
INAPA
(1997)
R$ 39,08



IMPLANTAÇÃO CERTIFICAÇÃO ISO 9001: 2008
FERNANDA FLORES NASCIMENTO
NOVAS EDIÇÕES ACADÊMICAS
R$ 251,00



O MÁGICO DE OZ (TEXTO INTEGRAL)
L. FRANK BAUM
ÁTICA
(1997)
R$ 14,90



CONSELHOS ESCOLARES E RESULTADOS DE AVALIAÇÃO EM LARGA ESCALA(IDEB):
WALDÍSIA RODRIGUES DE LIMA
NOVAS EDIÇÕES ACADÊMICAS
R$ 272,00



GARCIA D ORTA E AMATO LUSITANO NA CIÊNCIA DO SEU TEMPO
A. J. ANDRADE DE GOUVEIA
BIBLIOTECA BREVE
(1985)
R$ 26,00



REVISTA FLAP INTERNACIONAL Nº 335 - ANO 37 - AGOSTO 2000
CARLOS ANDRÉ SPAGAT DIRETOR
EDITORIAL SPAGAT
(2000)
R$ 7,00



TIPO ASSIM , CLARICE BEAN
LAUREN CHILD
ÁTICA
(2009)
R$ 28,00



1001 PENSAMENTOS
GILBERTO SANTOS
CAMPO DAS LETRAS
(2001)
R$ 41,37



A MULHER EM ISRAEL
ORGANIZAÇÃO DAS PIONEIRAS
ORGANIZAÇÃO DAS PIONEIRAS
(1975)
R$ 5,00



ATLAS FOTOGRÁFICO À CORES DE ANATOMIA MICROSCÓPICA
PIETRO MOTTA
LIVRARIA ATHENEU
(1974)
R$ 29,00





busca | avançada
37376 visitas/dia
1,1 milhão/mês