Simone Weil no palco: pergunta em forma de vida | Heloisa Pait | Digestivo Cultural

busca | avançada
75949 visitas/dia
2,6 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Guerreiros e Guerreiras do Mundo pelas histórias narradas por Daniela Landin
>>> Conheça Incêndio no Museu. Nova obra infantil da autora Isa Colli fala sobre união e resgate cultura
>>> Arte do Granja
>>> Prorrogadas as inscrições para 20ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis
>>> Projeto Trovadores Urbanos 30 anos, live cinco, “Serenata para Silvio Caldas”, segunda dia 19 de abr
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
Colunistas
Últimos Posts
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> Cultura ou culturas brasileiras?
>>> DevOps e o método ágil, por Pedro Doria
>>> Spectreman
>>> Contardo Calligaris e Pedro Herz
>>> Keith Haring em São Paulo
>>> Kevin Rose by Jason Calacanis
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
Últimos Posts
>>> Patrulheiros Campinas recebem a Geração#
>>> Curtíssimas: mostra virtual estreia sexta, 16.
>>> Estreia: Geração# terá sessões virtuais gratuitas
>>> Gota d'agua
>>> Forças idênticas para sentidos opostos
>>> Entristecer
>>> Na pele: relação Brasil e Portugal é tema de obra
>>> Single de Natasha Sahar retrata vida de jovem gay
>>> A melancolia dos dias (uma vida sem cinema)
>>> O zunido
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O que querem os homens? Do Sertão a Hollywood
>>> 8 de Junho #digestivo10anos
>>> Voltar com ex e café requentado
>>> Vinicius de Moraes Reeditado pela Companhia das Letras
>>> Deep Purple Made in Japan
>>> The Newspaper of the Future
>>> Se eu fosse você 2
>>> Lady Gaga, uma aula do pastiche
>>> Comunicado importante: TV mata!
>>> A bolha da blogosfera
Mais Recentes
>>> O Carneiro Revoltado de Francisco Candido Xavier ( pela Feb (2008)
>>> O Dia De Ver Meu Pai de Vivina de Assis pela Formato (2007)
>>> Caravana de Amor de Francisco Cândido Xavier e Outros pela Instituto de Difusão Espírita (1985)
>>> Pedrinho Dá o Grito de Ana Cecilia Carvalho - Robinso pela Formato (2014)
>>> Bem-Te-Verde de Santuza Abras pela Formato (2007)
>>> Camila Nao Quer Emprestar Seus Brinquedos de Aline de Delvaux, Nancy Petigny pela Lorousse (2004)
>>> Caca-Fumaca de Eva Furnari pela Paulinas (2003)
>>> Chuveiro de Karen Acioly pela Rocco (2008)
>>> O Soldadinho De Chumbo Em Cordel de João Bosco Bezerra Bonfim pela Prumo (2009)
>>> Amigos Do Mar - Coleção Dedinho Encantado de Nely A. Guernelli Nucci pela Paulinas (2004)
>>> Quem Faz Os Dias Da Semana? de Lúcia Pimentel Goés pela Lorousse (2005)
>>> Eu Vi! de Jonas Ribeiro pela Mundo Mirim (2009)
>>> Rei Artur de Allan Massie pela Ediouro (2004)
>>> Nicola Tem Vergonha Ate de Jogar Bola de Graziela Beting pela Lorousse (2006)
>>> Cadê o Juízo do Menino? de Tino Freitas pela Manati (2009)
>>> Rita Sapeca e o Boneco de Neve de Peral Schumurl pela Lorousse (2006)
>>> A Mão que Conta a História de Márcia Leite pela LeYa (2011)
>>> Na Bucha! de Trambaiolli Neto Egidio pela Uirapuru (2007)
>>> Trilogia do Corpo de Fernando Barreto pela Lge (2009)
>>> É Hora! É Hora! de Anna Claudia Ramos pela Nova Fronteira (2005)
>>> Tempo de Voo de Bartolomeu Campos de Queirós pela SM Paradidático (2009)
>>> Brasília: de cerrado a capital da república de Jô Oliveira pela Cortez (2008)
>>> Sujo, eu? de David Roberts pela Companhia Nacional (2006)
>>> Corpo humano de Charline Zeitoun pela Companhia Nacional (2006)
>>> As cores do arco-íris de Jennifer Moore Mallinos pela Companhia Nacional (2008)
COLUNAS

Quinta-feira, 11/8/2016
Simone Weil no palco: pergunta em forma de vida
Heloisa Pait

+ de 3200 Acessos

Bonito de ver o espetáculo “A Última Dança”, no pequeno teatro Viga, em São Paulo, que fica em cartaz até o dia 15 de agosto. As cadeiras desconfortáveis e o cheiro de plástico queimado – intencional, acredito – fazem nosso corpo querer sair dali. Em contraposição, a beleza dos movimentos da atriz e a estranha delicadeza das máquinas espalhadas pelo palco nos fazem ficar. Nesse cabo de guerra, vamos aos poucos tomando consciência de estarmos lá, num processo semelhante ao que passou Simone Weil, cujos escritos e experiência inspiram a peça.

A peça faz a gente querer saber mais sobre ela, suas idéias, seu tempo, sua vida. Sobre seu irmão André Weil, um matemático brilhante que chegou a dar aulas na USP, ao final da guerra. Mas “a última dança” consegue evocar esse mal estar sublime que parece ser um dos pontos centrais do pensamento – e da vida – de Simone Weil.

Filósofa, professora e erudita, Weil voluntariamente se emprega em fábricas nos arredores de Paris nos anos 1930, em busca de um conhecimento visceral das tribulações do operariado, por quem militava. O drama da vida de Weil é maior que essa experiência. Uma judia que encontra no cristianismo refúgio espiritual; uma mulher brilhante que, rejeitando tanto a “carreira” feminina quanto a intelectual, se lança no ativismo político; uma refugiada que retorna ao palco de guerra como que por dever.

É na experiência fabril, entretanto, que a peça se firma, e isso é bom. O resto da biografia de Weil – ou melhor, da experiência – se revela nos gestos tão interessantes da atriz Natalia Gonsales, brigando com as máquinas, com o tempo, com as idéias. Natalia só não briga com a platéia. Resgatando outras figuras femininas e sua própria voz, com impressionante naturalidade, ela vai trazendo o público para a fábrica e para as reflexões da filósofa. Viramos um pouco Simone no processo, alcançando alguma graça, alguma ascensão, em meio ao ambiente degradado e cruel da produção industrial.

Se essa graça de Weil tem ressonâncias cristãs, de elevação espiritual em meio ao sofrimento, ou se pode ser uma espécie de aliá, elevação espiritual também, só que moderna, não temos como saber. Nessa aliá parodiada, Weil não sobe ao tablado para ler a Torá, a Bíblia, como na tradição judaica, mas responde à sirene da fábrica e se prostra diante da máquina, obra humana dos tempos daquele hoje. De um jeito ou outro, a graça é alcançada e a peça tem algo de sublime.

Tanto a peça como a vida de Weil estão repletas de entregas. Entrega aos operários, aos famintos, às vítimas da guerra, de modo visceral, talvez sem razão. Mas Weil não é só corpo, não pode ser apenas entrega. Não faria sentido o gesto que ignorasse todo o seu conhecimento e suas inquietações; é uma entrega com sabor de descoberta e não de martírio. É querer conhecer o outro, romper as barreiras que nos separam da experiência do outro que sente. Querer compreender a fábrica, a guerra, as revoluções, mas pelo seu avesso. Um saber feminino?

Reparei que a beleza da atriz não está nas partes do corpo, digamos, comercializáveis como nas pneumáticas mulheres de Aldous Huxley. Está nos gestos e nas mãos, esse nosso membro meio cerebral, meio corporal, exigido, maltratado, enfeitado, expressivo, frágil, forte. Sentimos pavor de que suas mãos se machuquem no processo fabril, como se perder a destreza fosse o pior perigo do mundo. Mãos que rezam e que escrevem.

E, se aquela entrega e sofrimento têm esse caráter também intelectual e especulativo, me dou o direito de ver a peça como um alerta mais que como expiação. Um alerta para os objetos que botamos na bimá, no altar de devoção. Que livros, que máquinas, que ideais, que objetivos, que organizações e que pessoas. O ano fabril de Weil pode ser interpretado, claro, como um ano em que ela se entrega à experiência do operário francês ainda desprotegido por leis trabalhistas adequadas. Pode ser interpretado como uma espécie de martírio. Já eu vi como a resposta a uma pergunta muito conceitual: o que acontece quando cultuamos a máquina como se ela fosse o Ensinamento, quando a colocamos no lugar da Torá?

Se a experiência de Weil é um modo corporal de fazer uma pergunta, como eu a entendo, a verdade é que sua pergunta, arcaica, permanece viva até hoje. Que acontece conosco quando botamos máquinas no altar? Ou ideais que lá não pertencem? Ou pessoas tão frágeis como nós? A peça, compartilhando a experiência física de Weil, repõe a pergunta, num jogo envolvente entre corpo e alma, razão e sentido, desejo e pavor.



Heloisa Pait
São Paulo, 11/8/2016


Mais Heloisa Pait
Mais Acessadas de Heloisa Pait
01. Uma Receita de Bolo de Mel - 25/10/2018
02. A Garota do Livro: uma resenha - 16/6/2016
03. O Voto de Meu Pai - 18/10/2018
04. Os Doze Trabalhos de Mónika. 1. À Beira do Abismo - 13/4/2017
05. Os Doze Trabalhos de Mónika. Epílogo. Ambaíba - 16/2/2018


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Un Nouveau Style Dobéissance: Problemas de Vie Religieuse
M. Aunet, P. Charpentier e Outros
Editions Du Cerf
(1968)



As Aventuras do Capitão Pirilampo e do Comandante Noita
Flávio Rezende - Suzana Gasparian
Girafinha
(2011)



A Descoberta do Reino de Deus - Hoje Deus nos Faz Viver Em Seu Re
Editorial Dom Bosco (vol 2)
Editorial Dom Bosco
(1965)



A Ideologia
Ari Herculano de Souza
Do Brasil
(1989)



A Pintura Flamenga e Holandesa da Fundação Medeiros Almeida
Realidade e Capricho Novembro 2008
Fundação Medeiros e Almeida
(2008)



Estratégias empresariais para pequenas e médias empresas
Maurício Sita
Literare Books International
(2015)



Não Me Grite!
Quinto
Don Quixote
(1982)



Perspectiva para Pincipiantes
Arnaldo Belmiro (capa Verde)
Edições de Ouro
(1979)



Objective Ket Students Book
Annette Capel / Wendy Sharp
Cambridge
(2012)



O Noviço/ o Juiz de Paz da Roça
Martins Pena
Sol





busca | avançada
75949 visitas/dia
2,6 milhões/mês