A Casa das Aranhas, de Márcia Barbieri | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
63898 visitas/dia
2,0 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Yassir Chediak no Sesc Carmo
>>> O CIEE lança a página Minha história com o CIEE
>>> Abertura da 9ª Semana Senac de Leitura reúne rapper Rashid e escritora Esmeralda Ortiz
>>> FILME 'CAMÉLIAS' NO SARAU NA QUEBRADA EM SANTO ANDRÉ
>>> Inscrições | 3ª edição do Festival Vórtice
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
>>> Garganta profunda_Dusty Springfield
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Todas as artes: Jardel Dias Cavalcanti
>>> Soco no saco
>>> Xingando semáforos inocentes
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Esporte de risco
>>> Tito Leite atravessa o deserto com poesia
>>> Sim, Thomas Bernhard
Colunistas
Últimos Posts
>>> Glenn Greenwald sobre a censura no Brasil de hoje
>>> Fernando Schüler sobre o crime de opinião
>>> Folha:'Censura promovida por Moraes tem de acabar'
>>> Pondé sobre o crime de opinião no Brasil de hoje
>>> Uma nova forma de Macarthismo?
>>> Metallica homenageando Elton John
>>> Fernando Schüler sobre a liberdade de expressão
>>> Confissões de uma jovem leitora
>>> Ray Kurzweil sobre a singularidade (2024)
>>> O robô da Figure e da OpenAI
Últimos Posts
>>> AUSÊNCIA
>>> Mestres do ar, a esperança nos céus da II Guerra
>>> O Mal necessário
>>> Guerra. Estupidez e desvario.
>>> Calourada
>>> Apagão
>>> Napoleão, de Ridley de Scott: nem todo poder basta
>>> Sem noção
>>> Ícaro e Satã
>>> Ser ou parecer
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Cenas de abril
>>> Por que 1984 não foi como 1984
>>> A dicotomia do pop erudito português
>>> Coisas nossas
>>> Caso Richthofen: uma história de amor
>>> Apresentação autobiográfica muito solene
>>> Nem Aos Domingos
>>> Aprender poesia
>>> São Luiz do Paraitinga
>>> A Barsa versus o Google
Mais Recentes
>>> Dicionário De Espanhol-português de Porto pela French & European Pubns (2015)
>>> Os Fantasmas Da São Paulo Antiga de Miguel Milano pela Unesp (2012)
>>> Direito Civil Brasileiro 3 de Carlos Roberto Gonçalves pela Saraiva (2011)
>>> Um Grito de Socorro de Alcides Goulart pela Jovem (2014)
>>> Medicina de urgência de Elisa Mieko Suemitsu Higa pela Manole (2008)
>>> Expedição aos Martírios 15 edição de Francisco Marins pela Melhoramentos (1978)
>>> Todo Mundo Tem Uma História Para Compartilhar de Karen Worcman pela Museu da Pessoa (2014)
>>> Os Restos Mortais( com encartes 1994 das obras Ática ) de Fernando Sabino pela Ática (1994)
>>> Ana Cecília Carvalho; Robinson Damasceno dos Reis de O Ourives Sapador do Polo Norte: como fazer pesquisas e anotar informações pela Formato (1995)
>>> Livro Seu Zezinho - A Estrela Eterna de Sumaré de Claúdia Sabadini pela Cult (2016)
>>> Livro Alma Gêmea - Você está pronta para ser encontrada? de Rosana Braga pela Escala (2001)
>>> O Mistério da Fábrica de Livros 23 edição. de Pedro Bandeira pela Hamburg (2024)
>>> Panelinha: Receitas Que Funcionam de Rita Lobo pela Senac São Paulo (2012)
>>> A Crítica Da Razão Indolente. Contra O Desperdício Da Experiência de Boaventura De Sousa Santos pela Cortez (2011)
>>> Educação E Crise Do Trabalho: Perspectivas De Final De Século (coleção Estudos Culturais Em Educação) de Gaudêncio Frigotto (org) pela Vozes (2002)
>>> Era Dos Extremos - The Age Of Extremes de Eric Hobsbawm pela Companhia Das Letras (2003)
>>> A Volta dos Pardais do Sobradinho 3 edição. de Herberto Sales pela Melhoramentos (1990)
>>> O Mistério do Esqueleto - coleção veredas 13 edição. de Renata Pallottini pela Moderna (1992)
>>> Livro Na Vida Dez, Na Escola Zero de Terezinha. Carraher pela Cortez (1994)
>>> Livro Voce Verdadeiramente Nasceu De Novo Da Agua E Do Espirito? de Paul C. Jong pela Hephzibá (2002)
>>> Livro Luz no lar de Francisco Cândido Xavier por Diverso Espíritos pela Feb (1968)
>>> Livro As Perspectivas Construtivista e Histórico-cultural na Educação Escola de Tania Stoltz pela Ibpex (2008)
>>> Livro El Desarrollo Del Capitalismo En America Latina. Ensayo De Interpretacion Historica (spanish Edition) de Agustin Cueva pela Siglo Xxi (2002)
>>> O Fantástico Homem do Metrô 8 edição. - coleção veredas de Stella Carr pela Moderna (1993)
>>> Missão Ninok: se tem medo do futuro não abra o livro de Bernardino Monteiro pela Artenova (1980)
COLUNAS

Terça-feira, 24/3/2020
A Casa das Aranhas, de Márcia Barbieri
Jardel Dias Cavalcanti
+ de 2100 Acessos



Nós conhecemos a questão da regressão musical de Stravinski através do famoso ensaio de T. W. Adorno. Não que Stravinski tenha decaído enquanto artista. Sua obra continuava primorosa, mas regredia à uma forma clássica ultrapassada se pensarmos na sua radical criação musical que foi A Sagração da Primavera.

Com o novo livro de Márcia Barbieri passa-se mais ou menos o mesmo. A Casa das Aranhas, publicado pela Editora Refomatório, é o último livro de uma trilogia que teve anteriormente os excelentes livros Enterro do Lobo Branco e A Puta. Agora Márcia Barbieri cede à tentação de contar uma história dentro de uma narrativa que exige de sua escrita uma observação mais detalhada do real, do prosaico, do elementar, juntando ainda algumas pontadas - absolutamente desnecessárias - de crítica social.

Nesse sentido, ela se aproxima de Stravinski na questão da regressão da forma. Enquanto nos outros “romances” a escrita derivava da experiência, do enfrentamento erótico da linguagem, do roçar-se na sua saliva úmida, do enfrentar a folha branca como lugar da experiência imediata e libidinosa, pulsante e perigosa, desajustada e poética, nesse novo romance ela tenta manter o controle sobre a linguagem para que a prosa funcione dentro de propósitos mais ajustáveis à sua necessidade.

Vai aqui uma definição de texto, dada por Roland Barthes, que se aproxima do que são os romances anteriores de Marcia Barbieri: “texto quer dizer tecido; mas, enquanto até aqui esse tecido foi sempre tomado por um produto, por um véu todo acabado, por trás do qual se mantém, mais ou menos oculto, o sentido (a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a ideia gerativa de que o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido — nessa textura — o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolve ela mesma nas secreções construtivas de sua teia.” (Barthes. O prazer do Texto).

Nas outras resenhas que fiz sobre a autora, publicada aqui no Digestivocultural, eu chamava a atenção para o fato de que, mais do que produzir prazer no leitor, Márcia Barbieri obrigava a linguagem a romper com o discurso tradicional, levando-a a lugares inesperados. Literatura de cortes na linguagem, que traduzem na sua forma os pedaços quebrados da suposta "verdade da vida", sem construções seguras ou de fácil assimilação. Não resta dúvida que ela tinha em mente o que todo bom escritor sabe: uma obra de arte não é primariamente uma representação de algo, mas um conjunto de relações formais.

Ao ceder aos imperativos do real — seja com crítica social ou com um encadeamento mais racional da prosa — Márcia Barbieri pode estar perdendo aquele espaço onde o que estalava em sua obra era o som da fricção dos elementos antagônicos que seu trabalho buscava unificar em literatura. Não a aprisionava a ideia de uma unidade do todo, mas as variáveis não estáticas, tornando a sua obra uma espécie de trabalho em andamento, como é o trabalho da vida e do desejo, insaciáveis em suas novas buscas por terrenos dissonantes e inalcançáveis...

Como no caso de Stravinski, a força da literatura de Márcia Barbieri não se perdeu nesse último romance, pois ai se encontra ainda o entrelaçamento de questões que podem ser de origem metafísica ligadas aos menores detalhes da vida; seja na participação efetiva do corpo nas ações, ou do desejo, que confunde essas ações por seu poder devorador de sentidos tradicionais, seja na irrupção de uma escrita que revela uma autoconsciência do contexto objetivo da ilusão. Esse contexto que é moído pela perversão da linguagem, tal como praticada pela autora nos outros romances com mais furor- e que aqui é atenuado.

Resta ao crítico, mesmo ao dissabor de seus comentários, atentar a escritora para que não perca de vista o que de melhor sua literatura produziu. Que não se renda ao comentário sociológico da vida, pois a vida errada não pode ser descrita corretamente. Que se livre da pretensão de que o escritor tem um ponto de vista privilegiado como observador da sociedade, para que sua literatura não seja um tratado sobre essa mesma sociedade. O viver incorreto dos artistas já lhes propiciam uma abertura para que possam fazer uma literatura incorreta.

Como profundo admirador da literatura de Márcia Barbieri, repito meu desejo, já expresso em outra resenha: que faça uma literatura corajosa, um jorro de vida, amor e êxtase, e que, como morte anunciada, espinafre a infértil fraqueza da razão, distante e fria com a vida, que só lhe presta louvor quando, falsa, é "enquadrada nas fotos" que jorram por aí.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 24/3/2020

Quem leu este, também leu esse(s):
01. The Nothingness Club e a mente noir de um poeta de Elisa Andrade Buzzo
02. As turbulentas memórias de Mark Lanegan de Luís Fernando Amâncio
03. As concubinas do sultão de Diego Viana


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2020
01. A pintura do caos, de Kate Manhães - 8/9/2020
02. Um nu “escandaloso” de Eduardo Sívori - 21/7/2020
03. Entrevista com o tradutor Oleg Andréev Almeida - 7/4/2020
04. Casa, poemas de Mário Alex Rosa - 8/12/2020
05. Entrevista com Gerald Thomas - 7/1/2020


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Livros em uma Box Didáticos Moderna Plus Física Os Fundamentos da Física 1, 2 e 3
Ramalho, Nicolau e Toledo
Moderna



As Crianças Como Consumidoras
Barrie Gunter
Instituto Piaget
(1998)



Psicoterapia Individual e a Ciência da Psicodinâmica
David Malan
Artes médicas
(1983)



Livro Literatura Brasileira Clara dos Anjos Série Bom Livro
Lima Barreto
Ática
(1999)



Stress e Trabalho: uma Abordagem Psicossomática
Ana Cristina Limongi França
Atlas
(1999)



Manual Bilingue de Verbos Regulares e Irregulares Verbi Italiani
Pauola Budini
Martin Fontes
(1995)



Juventude, Religião e Ética
Lúcia Pedrosa-pádua e Zeca e Mello (orgs.)
Puc
(2010)



O espírito da revolução
Saint Just
Unesp
(1989)



People of Shiva: Encounters in India
Frances Letters
Angus and Robertson
(1971)



Garota Quase 15 Anos Paquerando pela Inglaterra
Sue Limb
Galera Record
(2010)





busca | avançada
63898 visitas/dia
2,0 milhão/mês