Poética e política no Pântano de Dolhnikoff | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
111 mil/dia
2,6 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Dos palcos para as leituras radiofônicas
>>> Youtuber apresenta A Jornada do Herói Favelado
>>> Sesc 24 de Maio apresenta o último episódio do Música Fora da Curva
>>> Historiador Russell-Wood mergulha no mundo Atlântico português da Idade Moderna
>>> Livro ensina a lidar com os obstáculos do Transtorno do Déficit de Atenção
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Lisboa obscura
>>> Cem encontros ilustrados de Dirce Waltrick
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
Colunistas
Últimos Posts
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> Cultura ou culturas brasileiras?
>>> DevOps e o método ágil, por Pedro Doria
>>> Spectreman
>>> Contardo Calligaris e Pedro Herz
>>> Keith Haring em São Paulo
>>> Kevin Rose by Jason Calacanis
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
Últimos Posts
>>> Geração# terá estreia no feriado de 21 de abril
>>> Patrulheiros Campinas recebem a Geração#
>>> Curtíssimas: mostra virtual estreia sexta, 16.
>>> Estreia: Geração# terá sessões virtuais gratuitas
>>> Gota d'agua
>>> Forças idênticas para sentidos opostos
>>> Entristecer
>>> Na pele: relação Brasil e Portugal é tema de obra
>>> Single de Natasha Sahar retrata vida de jovem gay
>>> A melancolia dos dias (uma vida sem cinema)
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Cultura do remix
>>> Cabelo, cabeleira
>>> A Linguagem das Coisas, de Deyan Sudjic
>>> Aberta a temporada de caça
>>> 12 de Abril #digestivo10anos
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Marco Stefanini e as lições da pandemia
>>> O Outro, um conto de Jorge Luis Borges
>>> Wikipedia: fama e anonimato
>>> John Lennon NYC 1972
Mais Recentes
>>> Proami - Programa de Atualização Em Medicina Interna Ciclo 14 Vol 3 de Nazah Cherif Mohamad Youssef e Outro ( Org.) pela Secad (2017)
>>> The Darkness vol2: Demônio Interior de Paul Jenkis pela Panini Comics (2007)
>>> Treasures of Russian Art of the 11th - 16th Centuries de M. V. Alpatov pela Aurora Art Publishers Leningrado (2021)
>>> Tratado Popular de Moxabustão a Medicina Natural Chinesa de Prof. Bartolomeu Alberto Neves pela Portinho Cavalcanti (1987)
>>> The Darkness - vol1: Ressurreição Sombria de Paul Jenkins e Jae Lee pela Panini Comics (2007)
>>> A cabana de William P. Young pela Arqueiro (2008)
>>> Witchblade - Série clássica - Origens vol. 1 de David Wohl, Christina Z., Michael Turner pela Panini Comics (2007)
>>> Legislação Administrativa e Correlata - Constituição Federal de Andreia Mendes Gonçalves Vitagliano pela Lumen Juris (2007)
>>> A menina que Roubava Livros de Markus Zusak pela Intrínseca (2007)
>>> Sussurro - Hush, Hush de Becca Fitzpatrck pela Intrínseca (2010)
>>> Idea: A Evolução do Conceito de Belo de Erwin Panofsky pela Martin Fontes (1994)
>>> Super-homem Eternamente (Com Pôster!) de Diversos pela Abril (1999)
>>> The Sword of Imagination Memoirs of a half-century of literary conflict de Russel Kirk pela Wm. B. Eerdmans Publishing Co. (2002)
>>> De Praga a Paris O Surgimento, a mudança e a dissolução da idéia estruturalista de José Guilherme Merquior pela Nova Fronteira (1991)
>>> Point Ligne Plan Pour une Grammaire des Formes de Wassily Kandinsky pela Denoel Gonthier (1972)
>>> Pele negra, máscaras brancas de Frantz Fanon pela Ubu (2021)
>>> Esperando Foucault, ainda de Marshall Sahlins pela Ubu (2021)
>>> Escritos de Jacques Lacan pela Perspectiva (2021)
>>> Cours du Bauhaus de Wassily Kandinsky pela Denoel (1975)
>>> Los Buenos Suicidas de Toni Hill pela Debolsillo (2015)
>>> Deixe a Neve Cair de John Green pela Rocco (2021)
>>> Espaço e Lugar (ano 1983 ) de Yi-Fu Tuan pela Difel (1983)
>>> Tudo o Que Você Precisa Saber Sobre Alimentação Vegetariana de Dr Eric Slywitch pela Svb
>>> Tudo o Que Você Precisa Saber Sobre Alimentação Vegetariana de Dr Eric Slywitch pela Svb
>>> Tudo o Que Você Precisa Saber Sobre Alimentação Vegetariana de Dr Eric Slywitch pela Svb
COLUNAS

Terça-feira, 23/3/2021
Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 1100 Acessos



O livro de poemas Impressões do Pântano, de Luis Dolhnikoff, lançado pela editora paulista Quatro Cantos, em 2020, merece um debate. No centro do livro está estabelecido um problema que envolve as artes, talvez, desde sempre, que é a questão de sua relação com o mundo real e as questões urgentes da política. Nesse campo, o que parece virtude, pode tornar-se defeito, podendo comprometer a poética do autor, que se salva em alguns momentos. Construído nessa tensão entre bons poemas e poemas “viscerais”, o livro está numa corda bamba. Há dois abismos para o poeta escolher cair, no da linguagem ou no do mundo real.

No filme Terra em transe, de Glauber Rocha, há uma cena em que o ator Jardel Filho diz algo mais ou menos assim: “Não é possível caber dentro de um mesmo homem o poeta e o político”. Essa era uma tensão muito comum nos anos 60-70: a necessidade de engajamento político podia surrupiar do poeta a sua necessidade de nadar contra a corrente da realidade, de se ausentar das questões urgentes (naqueles anos a ditadura militar) em prol da criação artística livre de responsabilidades sociais. No quadro atual do mundo, com o retorno visível de frentes reacionárias a problemática voltou à cena. Vamos introduzir a tese.

Introdução de um velho debate
“A política é uma pedra amarrada no pescoço da literatura, e que em menos de seis meses a submerge. A política no meio dos interesses da imaginação é como que um tiro no meio de um concerto. É um ruído que é cruel sem ser enérgico. Não harmoniza com o som de nenhum instrumento. Essa política irá ofender mortalmente metade dos leitores, e aborrecer a outra, que a viu de uma forma muito mais interessante e enérgica nos jornais da manhã.” Esta frase aparece no romance O vermelho e o negro, de Stendhal, e encontra eco no livro de Sartre, O que é literatura, onde o filósofo exime o poeta de engajamento, reservando o uso da linguagem explicativa para o romancista. Questão resolvida por Maiakovski, na sua famosa frase: “Não existe arte revolucionária sem uma forma revolucionária”.

Segundo o escritor Milan Kundera, os porta-vozes do óbvio, do auto-evidente e daquilo em que todos acreditamos são falsos poetas. Os estreitos horizontes da mentalidade paroquial não servem à criação do poeta, já que o principal fato de uma obra de arte literária não é o que ela significa, mas o que ela faz – como ela funciona, com que eficácia ela funciona, enquanto arte.

Em nome de uma percepção contemporânea de que o mundo é um amontoado de ruínas e de que o ser humano não passa de uma besta-fera (percepção que qualquer historiador sabe - desde sempre), os poetas têm sido por demais solicitados pelos fatos e pelos acontecimentos. A consequência direta da adesão a essa solicitação é que a poesia se “politizou” perdendo muitas vezes a sua preocupação primeira, que é realizar-se enquanto fato da linguagem.

A questão perigosa da poesia política é seu necessário caráter didático, que degrada seus próprios meios para falar das coisas de uma forma imediata e segundo uma linha de menor resistência para o espectador. Voltando a Sartre: “Ninguém é verdadeiramente poeta por haver decidido dizer certas coisas, mas por haver decidido dizê-las de determinado modo. E se o artista apenas narra, explica ou ensina, a poesia torna-se prosaica; ele perdeu a partida.”

Já que estamos num mundo esfacelado (pessoalmente não acredito nisso, o mundo sempre foi assim, basta estudar história), recusar proposições fechadas deveria ser o primeiro mandamento do poeta, tornando a forma aberta de sua linguagem, a priori, o próprio conteúdo do poema: saber que a poesia não é um comentário, mas a coisa em si; não uma reflexão, mas uma compreensão; não uma interpretação, mas a coisa a ser interpretada. Como disse T. W. Adorno, a sociedade aparece de modo tão mais manifesto na arte quão menos representada nela estiver (para bom entendedor, uma página de Beckett basta).

Portanto, a problemática de ordenar as tragédias do mundo, os desatinos humanos e da politicagem numa sequência de versos irritados com a desumanidade (houve algum dia humanidade?) não basta para concretizar o fato poético. Citando Afons Hug: “Não se deve confundir reportagem com arte. É óbvio que a arte se alimenta do mundo real, mas não o analisa com métodos científicos, como o documental, mas cria um mundo paralelo, ou até antagônico, ao mundo real. Neste momento utópico reside, portanto, a função política da arte”. Ou como disse Albert Camus, no seu livro O homem revoltado: “Em arte, a revolta se completa e se perpetua na verdadeira criação, não apenas na crítica ou no comentário”.

A poesia não pode simplesmente servir aos desígnios da ideologia. Obras de arte devem ser o que não gostaríamos que fossem e deveriam desmentir a cada instante o que elas gostariam de ser: fugir da linguagem comum – e o discurso político é comum - como o arco-íris que desaparece para aquele que caminha em sua direção.

As inovações formais dentro da própria linguagem que um artista realiza no seu trabalho acarretam novas formas de sentir e de perceber a realidade, como também a modifica. Sujeitar o discurso poético aos ditames da “realidade político-social” é sujeitar-se à linguagem do discurso dominante, que usa justamente a linguagem ordinária - como a do discurso político - para manter sua dominação. A arte, dizia Maiakovski, não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo.

Vale finalizar essa introdução com o argumento de Silviano Santiago: “Eu acho que o compromisso do escritor, pelo menos do grande escritor, é com a liberdade absoluta. É isso que torna um livro uma obra de arte. Os textos que nós escrevemos nos últimos trinta anos são textos por demais solicitados pelos fatos e pelos acontecimentos e isso de certa maneira que é ao mesmo tempo bom, ao mesmo tempo positivo, porque você está respondendo, você está de certa maneira combatendo, você está tornando a literatura útil, socialmente, politicamente, etc., por outro lado, retira da literatura esta capacidade que ela tem de transcender o seu próprio tempo”.

E, como disse Affonso Ávila, ao comentar a relação entre poesia e participação, “a contribuição do poeta para a transformação da realidade tem de basear-se no modo de ser específico da poesia como ato criador”.

Em arte, nem sempre quem cala, consente.

Poesias do Pântano
Ao lado de excelentes poemas como, por exemplo, “Cortázar com insônia”, há vários poemas de natureza crítica em Impressões do pântano que podem apenas confirmar o que pensa qualquer cidadão médio bem informado sobre as mazelas políticas do mundo, sobre as torpezas da “mentalidade” das classe-médias ou as crises por que passa um poeta que não vê sentido na poesia no mundo atual (deveria ter um?), mas que acredita que ainda tem que poetar, nem que seja comentando as desgraças desse mundo. Esses poemas se enfraquecem quando apenas confirmam aos leitores os desarranjos do mundo que ele já conhece através das notícias de jornal ou através da convivência com seus vizinhos. Jorram intempestivos palavreados chulos (às vezes com o mesmo palavreado que ele questiona nas classes médias “liberadas” de sua repressões), desqualificando o comportamento das classe sociais, o que nos deixa um riso amargo na boca, sem dúvida, mas que abre mão de procedimentos da linguagem necessários ao fazer poético.

Contra esses “poemas sociais”, o livro tem a virtude de produzir poemas como “uma víscera”, esse sim, que trata de um drama profundo da alma humana, chegando às suas vísceras, sem ser um poema raivoso que corre o risco de ser uma narrativa de um faits-divers. Os faits divers contribuem como uma forma de estruturar o mundo, pois apelam para o imaginário da sociedade, que busca um sentido maior nestes, como se dá nos romances, em que as conexões carregam um sentido mais amplo, gradualmente revelado na narrativa. A poesia, ao contrário, deve buscar a desestruturação da mente “narrativa”, vivendo numa espécie de entrelugar entre o reconhecível e o irreconhecível, sentimento produzido pela vertigem da linguagem.

O que o leitor tem que fazer em relação a Impressões do pântano é aproveitar, numa primeira leitura, esses poemas “raivosos” e, depois, numa escolha mais refinada, deter-se na releitura dos bons poemas, aqueles que escapam do imediatismo da interpretação do real, aqueles que nos fazem devanear pelos incógnitos da linguagem poética mais madura.

Belos poemas não faltam, como “A gralha”, “A mesma”, “Ode áspera à nicotina”, dentre outros. Mas gostaria de chamar a atenção para o poema “O martelo”, que se propõe uma poética do autor. Aqui está muito de uma reflexão sobre o fazer poético de que os poemas sociais do livro abrem mão: “a secura/ pontiaguda/ da frase quebrada/ pelo martelo/ da sintaxe dura/ imaleável(...)”, essa sintaxe é o forte no livro, ela salva o livro. O poema de nosso mundo, como a sintaxe visual de Guernica, de Picasso, que estilhaça a pintura para falar dos estilhaços de uma cidade/vidas humanas picotadas por bombas fascistas. Não há realismo ali, há a destruição da própria noção de representação ou da possibilidade de se representar tamanho horror.

Não fossem estes poemas que mencionei, dentre outros ótimos poemas, sem dúvida, não sobraria “Quase nada”, título de um poema do livro:

Quase nada
um vislumbre apenas
talvez
da beleza

A mesma crítica reservada ao poeta Ferreira Gullar, no poema “a morte da morte de ferreira gullar”, funciona para o livro de Luis Dolhnikoff:

“no fim, o que conta/ é a parte boa/ como numa fruta/ da qual se corta/ um pedaço apodrecido// se o que resta tem matéria densa/ seja doce ou seca/ e mesmo amarga/ o estrago do estragado é anulado// só o que resta é a matéria densa(...)”.

Nota do Autor
A foto no início do texto, "Ave sarjeta", é da artista londrinense Ana "bacana" Lucca.

Para ir além


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 23/3/2021


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Saia curta, liberdade longa. de Adriane Pasa
02. De Cuba, com carinho de Alexandre Inagaki
03. O ódio on-line de Gian Danton
04. A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón de Ricardo de Mattos
05. Palmeiras Selvagens e os Sabichões de Alessandro Silva


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti
01. Parangolé: anti-obra de Hélio Oiticica - 17/12/2002
02. Davi, de Michelangelo: o corpo como Ideia - 3/11/2009
03. Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I) - 20/12/2011
04. Felicidade: reflexões de Eduardo Giannetti - 3/2/2003
05. Vanguarda e Ditadura Militar - 14/4/2004


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O Centro do Paraíso - Autografado
Roberto de Andrade
Leo Boechat
(2005)



A Magia dos Sons - os Musicais
L. Danniballe Braga
Cepa
(1970)



Bibliografia Paraibana de Folclore e Literatura Popular
Altimar de Alencar Pimentel, Francisca Neuma
Fund Casa José Américo
(2003)



Terminologia de Mercado
Roberto Lobo
Fauna (rj)
(1969)



Direito Processual Civil Esquematizado
Marcus Vinícius Rios Gonçalves e Outro
Saraiva
(2012)



Tratado de Pediatria 2 Volumes Sociedade Brasileira de Pediatria
Fabio Ancona Lopez e Outro
Manole
(2010)



Condicionamento do Corpo
Kenneth Florence
Gaia
(1990)



Noções Básicas para Assistência Em Cc, Sr e Cme- Série Melhores P
Nery José de Oliveira Junior
Moriá
(2012)



Cavaleiros do Zodíaco - Saintia Shô - Vol. 7
Masami Kurumada
Jbc



Biplanos , Triplanos e Hidroaviões 1914-1945 - Volume 2
Gisele C Bastita Rego
Abril
(2010)





busca | avançada
111 mil/dia
2,6 milhões/mês