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Terça-feira, 3/8/2021
Poesia como Flânerie, Trilogia de Jovino Machado
Jardel Dias Cavalcanti

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Quando a poesia atual produzida no Brasil não é extremamente intelectualizada, ela parece escrita para freiras. Não é o caso do poeta Jovino Machado. Seu novo livro A Trilogia do Álcool, muito bem editado pela Impressões de Minas (2021), traz um universo para a poesia onde se pode perceber o cheiro do álcool, a luxúria do sexo, os delírios da paixão, o universo das leituras da literatura que o autor consome, as andanças pela vida e pelas cidades e os amores que ele vive.

Um livro tesudo, diria Cazuza, se o pudesse ter lido. Veja-se, por exemplo, o poema “Libriana”: “seu pé lindo/ desfila sob a saia/ não sabe se vai/ se fica/ ou se desespera// dentro da saia rubra/ você rebola/ intensa e trágica// o amor não anda de uber.” Como não se deliciar com as imagens que esse flanêur/voyer/poeta captura e nos devolve em sua poesia?

O único, o verdadeiro soberano das cidades é o flâneur. Jovino faz sua poesia passear por lugares inspiradores como a cidade de Paris e suas personagens. Não deixa de situá-los, no entanto, num cenário “poético” de cinema. É o caso do poema “A bonequinha de luxo”: “a bonequinha de luxo/ bebe vinho na place de clichy/ em montmartre/ não vê as nuvens manchadas de frio/ movendo-se devagar/ como se empurrassem pelo céu acima/ um bando de corvos/ que não podem ser vistos/ no crepúsculo do quartier latin”.

Visitando o universo da literatura, cria poemas ligados a um de seus escritores preferidos, tanto literariamente como biograficamente: James Joyce. (Re)compõe as aventuras do autor com a esposa – a partir das cartas devassas entre ambos – entrando na história como devasso admirador. Daí que surge o seu poema “minha Nora”, do qual reproduzo aqui alguns versos: “eu sujei os lençóis/ com meu rubro sangue/ você vampiro sedento/ molhou as mãos/ na minha vulva encharcada/ e coloriu avermelhando/ as cartas eróticas do irlandês”.

Há uma galera que interessa Jovino Machado. Personagens desviantes, como Henry Miller e Vinicius de Moraes: boêmio libertino amante do álcool o primeiro; um eterno apaixonado pelas mulheres e pelo uísque o segundo. E porque não, as putas Phyryne (cortesã na Grécia antiga) e Verônica (cortesã na Veneza renascentista). Também os mitológicos Dionísio, Baco, Sísifo e Zeus que completam a coleção de referências aos quais o poeta admira e com os quais cria sua poesia.

Beijos, mágoas, perambular pelas ruas, notar as saias das mulheres, entristecer-se e afogar as dores no álcool, beijar e se apaixonar, comungar com os solitários dos botecos, observar as divas durante sua flânerie pela urbe – tudo o que cai na sua vista vira poesia. Como dizia Balzac, a flânerie é "a gastronomia do olho".

Amante da beleza, aliás, das belezas, as define em lírica, tétrica, tristonha, fabulosa, tediosa, cinematográfica, tropical, gelada, iluminada, escaldante, esplendorosa: sejam gaivotas de penhasco, corujas de cemitério, andorinhas de telhado, morcegos da montanha, monstros da floresta, canários de gaiola, dinossauros de cinema, jacarés de pântano, baleias congeladas, vaga-lumes do brejo, ilhas desertas, tórridos desertos, dentre outras enumeradas pelo poeta.

É captando essas imagens, por vezes descuidada dos olhos dos homens normais, que o poeta, esse observador do mundo par excellence, nos reacende o interesse pelo mundo e suas belezas, sejam elas de natureza esplendorosa ou grotesca.



Na sua memória (imaginária ou não) Paris continua “a capital do prazer”, com seus escritores (Henry Miller), pintores (Lautrec), poetas (Rimbaud/Verlaine) e a quantidade maravilhosa de bordéis e putas. E a poesia de Jovino Machado não se furta às estatísticas da permanência secular da admirada devassidão parisiense: “em 1841 havia 2335 bordéis catalogados na cidade luz”, “na segunda metade do século XIX/ paris registrava uma média de uma prostituta para cada duzentos homens”, “paris/ era a capital da devassidão/ no início do século XX”.

Os jograis eróticos, divertidos e sensuais, povoam seus versos. Um ar fresco na poesia – coitada, tão intelectualizada e ascética ultimamente, quando não, pior ainda, ideologizada. Que delicioso poema o que vem a seguir: “amar é/ tirar a calcinha da mulher/ amada// amar é/ não tirar a calcinha da mulher/ armada”. A pausa entre o verso “a calcinha da mulher” e a palavra “amada” que se segue em novo verso é como o tempo lento e prazeroso de descer a calcinha da amada. E o contrapeso no poema com a mulher “armada” na outra estrofe cria o jogral do prazer e sua interdição, também parte do jogo de sedução.

O belo livro de Jovino Machado, A trilogia do álcool, tem também um projeto gráfico excelente, que já é uma fonte de prazer, noturno em sua cor preta na capa, com a foto distorcida do autor (foto embriagada, podemos dizer) e suas divisões com fotos e motivos em arabesco. E, claro, um livro como esse teve que necessariamente ser dedicado à musa do autor, Janaína, e a indicação para ser lido ouvindo Miles Davis. Que assim seja!

Parafraseando Wilhelm Reich, que a poesia de Jovino Machado nos inspire: “a força da criação é a mesma que te habita entre as pernas”.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 3/8/2021


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