A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
62960 visitas/dia
2,0 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Senac São Paulo abre as portas para atividades voltadas ao protagonismo juvenil
>>> Ribeirão Preto recebe o Teatro Portátil no Dia das Crianças
>>> SHOPPING GRANJA VIANNA INCENTIVA A ARTE NA REGIÃO COM O GRANJA CULTURAL
>>> Turnê Babi Jaques e Lasserre (PE)
>>> Samantha Dalsoglio e Dan Rosseto protagonizam comédia Relação a Dois dirigida por Hudson Glauber
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rodolfo Felipe Neder (1935-2022)
>>> A pior crônica do mundo
>>> O que lembro, tenho (Grande sertão: veredas)
>>> Neste Momento, poesia de André Dick
>>> Jô Soares (1938-2022)
>>> Casos de vestidos
>>> Elvis, o genial filme de Baz Luhrmann
>>> As fezes da esperança
>>> Quem vem lá?
>>> 80 anos do Paul McCartney
Colunistas
Últimos Posts
>>> Agnaldo Farias sobre Millôr Fernandes
>>> Marcelo Tripoli no TalksbyLeo
>>> Ivan Sant'Anna, o irmão de Sérgio Sant'Anna
>>> A Pathétique de Beethoven por Daniel Barenboim
>>> A história de Roberto Lee e da Avenue
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
>>> Oye Como Va com Carlos e Cindy Blackman Santana
>>> Villa candidato a deputado federal (2022)
>>> A história do Meli, por Stelleo Tolda (2022)
Últimos Posts
>>> Universos paralelos
>>> Deseduquei
>>> Cuidado com a mentira!
>>> E agora? Vai ter pesquisa novamente?
>>> Cabelos brancos
>>> Liberdade
>>> Idênticos
>>> Bizarro ou sem noção
>>> Sete Belo
>>> Baby, a chuva deve cair. Blade Runner, 40 anos
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Dentro da Baleia
>>> 2006, o ano que não aconteceu
>>> Víkingur Ólafsson toca Rameau
>>> E-lovelados
>>> Quanto custa rechear seu Currículo Lattes
>>> Vamos pensar: duas coisas sobre home office
>>> Real tédio
>>> Revolução dos sexos
>>> Entrevista com o poeta Augusto de Campos
>>> Querem proibir as palavras
Mais Recentes
>>> Os Enamoramentos de Javier Marías pela Companhia das Letras (2015)
>>> Tex Almanaque do Faroeste Nº 1 de Bonelli pela Globo (1996)
>>> Persépolis - Completo de Marjane Satrapi pela Quadrinhos Na Cia (2018)
>>> Até Que a Morte os Separe de Nero Blanc pela Ediouro (2005)
>>> Getúlio 1882-1930: Dos Anos de Formação à Conquista do Poder de Lira Neto pela Companhia das Letras (2012)
>>> A Rainha Ginga de José Eduardo Agualusa pela Quetzal (2014)
>>> Escritos - Campo Freudiano no Brasil de Jacques Lacan pela Jorge Zahar (1998)
>>> Star Wars: A Trilogia - Special Edition de George Lucas pela DarkSide (2014)
>>> Squid: The Definitive Guide de Duane Wessels pela O"Reilly (2004)
>>> Tex e os Aventureiros Nº 3 de Bonelli pela Mythos (2005)
>>> O Ritual de Bordeaux de Jean Pierre Alaux e Noel Balen pela Rocco (2008)
>>> Genetic Algorithms in Search, Optimization and Machine Learning de David E. Goldberg pela Addison Wesley (1997)
>>> 1822 - Edição Juvenil Ilustrada de Laurentino Gomes pela Nova Fronteira (2011)
>>> Nem Sempre é Assim de Shunryu Suzuki pela Religare (2003)
>>> O Mundo Emocionante do Romance Policial de Paulo M. E Albuquerque pela Francisco Alves (1979)
>>> Corpo Humano: Fundamentos de Anatomia e Fisiologia de Gerard J. Tortora, Bryan Derrickson pela Artmed (2017)
>>> Os Segredos da Mente Milionária de T. Harv Eker pela Sextante (2020)
>>> Public-Key Cryptography de Arto Salomaa pela Springer-Verlag (1996)
>>> Rainha do Inverno de Boris Akunin pela Objetiva (2003)
>>> A Travessia de William P. Young pela Arqueiro (2012)
>>> Coleção 70º Aniversário da 2ª Guerra Mundial - 30 Volumes de Abril Coleções pela Abril Coleções (2009)
>>> Desvendando Margaux de Jean Pierre Alaux e Noel Balen pela Rocco (2007)
>>> Bio-Inspired Credit Risk Analysis: Computational Intelligence with Support Vector Machines de Lean Yu; Shouyang Wang; Kin Keung Lai; Ligang Zhou pela Springer-Verlag (2010)
>>> A VIda é Cheia de Curvas de Eugenio Mussak pela Abril (2014)
>>> Action Coaching de David L. Dotlich pela Jossey Bass (1999)
COLUNAS

Terça-feira, 31/8/2021
A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 7100 Acessos



Ana está toda prosa. Acaba de lançar pela Companhia das Letras o seu novo livro de poemas: Risque esta palavra. É seu terceiro livro de poesia. O primeiro A vida submarina, de 2009, foi lançado pela editora Scriptum, depois, em 2011, publicou Da arte das armadilhas pela Companhia das Letras e, em 2015, saiu pela mesma editora O livro das semelhanças. Um conjunto de poemas, somados todos os livros, bastante significativo. Tendo, além de tudo, boa recepção crítica. E isso não tem nada a ver com o fato de que está havendo uma valorização da literatura produzida por mulheres. Ana Martins Marques é valorizada como a boa poeta que é, como escritora consistente que é. E isso é bom. Para ela e para quem quer ler boa poesia.

A poeta decidiu dividir seu livro em quatro seções, “A porta de saída”, “Postais de alguma parte”, “Noções de linguística” e “Parar de fumar”. Entre as quatro partes do livro há um elemento em comum, que perpassa boa parte dos poemas, que é seu aspecto prosaico. Parece intencional. Como se a poeta, ao mergulhar na essência prosaica da vida cotidiana, quisesse, pela via da prosa, dar à vida o que ela merece. Não que não haja um tom cerebral, que transforma em poesia o cotidiano. Ao contrário, cada fato é pensado como vislumbre do poético e passado na máquina de moer de uma avaliação crítica constante. No entanto há um poema-exemplo dentro do livro que revela a metamorfose para a poesia prosaica desse livro, que é o poema “Prosa (II)”, onde ela comenta o processo de escrita do escritor Roberto Bolaño, nos seguintes termos: “Há quem acredite/ que o autor trocou/ a miséria da poesia/ pela mercadoria da prosa// Ou quem sabe a poesia/ é impossível/ e ele faz o luto do verso/ na linha da prosa (...)”.

O que eu disse acima, o “dar à vida o que ela merece”, talvez seja a cicatriz exposta da poeta e, nesse sentido, por derivação, o fato da poesia mais prosaica fazer bem seu dever, revelando o desajuste que existe entre a palavra e o mundo. No poema “Relâmpagos” isso fica claro como o próprio raio do relâmpago: “Já tive palavras rápidas/ como relâmpagos/ atravessando a pele// o que foi feito das palavras/ que trocamos?// o que foi feito desse ser/ desajustado para o mundo?// o que foi além da cicatriz/ dos relâmpagos?”

Um elemento importante do novo livro de Ana Marques é a conversa dentro dos poemas sobre a questão da linguagem, e isso fica latente no grupo de poemas “Noções de linguística”. Mas não só lá, a problemática da linguagem (metalinguagem) se dá aqui e ali ao longo dos poemas. E o poema de abertura do livro – no qual aparece o verso que dá título ao livro - é já uma conversa franca e dolorosa sobre a eficiência ou não da palavra em dar significado ao mundo: “O que eu encontrei/ um dia após o outro/ não foi uma palavra/ mas uma canoa em chamas// (...) um poema não é mais/ do que uma pedra que grita// risque por favor/ esta palavra”.

Muitos dos poemas podem ser lidos, inclusive, como alegorias da própria poesia, esse ser indecifrável em sua amplitude inesgotável de significados (a arte é a morte de seus pretendentes, eu diria): “É uma alegria haver línguas/ que não entendo/ delas foram varridas/ as lembranças todas// nelas o sentido passa entre as palavras/ como a luz entre as plantas// nelas é sempre a infância: mar, mãe, manhã/ (...)”. O labor do poeta também pode aparecer aqui e ali, em versos que traduzem as cicatrizes do seu ofício: “minhas palavras arruinaram meu corpo”, “alguns poemas/ nos tiram as palavras/ que nos dão”.

Mas, que fique claro, este livro é sobre a vida, a vida sobre o filtro e as cinzas do cigarro-poesia, que se queima na insatisfação do seu fim e no prazer do seu renascimento num novo trago: “ela - a poesia - parece estar de volta// quando menos se espera/ e sem que se tenha a certeza/ de que é mesmo ela”.

O poema que se alimenta da prosa, que veste a pele da prosa, se disfarça ali, mas que continua poesia, um lobo mal à espreita dos ingênuos que serão, a cada insight, comidos nas suas certezas, este poema que parece prosa, e que é prosa sendo também poesia, é a essência do livro Risque esta palavra.

Em “Poema com o som de sua própria fabricação”, Ana Marques nos fala dos vários sons que geram o poema, o som além do “som do caderno se abrindo-se/ o som da caneta seguindo a linha pautada”, também o som dos passos pela cidade, dos carros, do café fervendo na cafeteria, o som das palavras não sendo retiradas das coisas... Aqui fica demarcada a opção por navegar em águas próximas, aquela que o cotidiano fornece, mesmo que haja um veneno no final, uma poluição, "um brilho sujo enquanto o poema vai se fazendo/ tarde demais".

Uma resenha não consegue dar conta de uma grande quantidade de poemas, dos problemas que cada poema produz, ou mesmo que um único verso possa trazer. Como sugere Susan Sontag, no seu ensaio “Contra a interpretação”, nos resta uma relação de pele, erótica, com a poesia, com a arte, uma relação menos cartesiana, que seja mais sensorial, tocada naquele lugar onde a razão não penetra.

O livro de Ana Martins Marques, portanto – “é mais ou menos isso/ mas com outras palavras” - como diz um verso de um poema que se inicia com “você se dá conta”.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 31/8/2021


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2021
01. A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques - 31/8/2021
02. O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis - 17/8/2021
03. Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia - 18/5/2021
04. Cem encontros ilustrados de Dirce Waltrick - 20/4/2021
05. Poética e política no Pântano de Dolhnikoff - 23/3/2021


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Cristianismo - Fraude Ou Fato Histórico?
Josh Mcdowell
Candela
(1999)



Abelhas e Mel - Criação - Extração
Nelson Mello da Lima
Ediouro



No Verão, a Primavera
Lucília J de Almeida Prado
Melhoramentos
(1980)



O Mundo Mágico de Harry Potter
David Colbert
sextante
(2001)



Bandeirismo: Dominacão e Violência
Julio Jose? Chiavenato
Moderna
(1991)



Aristóteles para Todos
Mortimer J. Adler
Realizações
(2010)



Livro - Sequestrado
Robert L. Stevenson
Nova Alexandria
(1996)



Meu Nome não é Johnny
Guilherme Fiuza
record
(2004)



Alma Paulista
Arnaldo Antunes
Abooks



O Livro Vermelho do Sexo sem Vergonha
Rose Villela
Novo Século
(2019)





busca | avançada
62960 visitas/dia
2,0 milhão/mês