Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
56914 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> EcoPonte apresenta exposição Conexões a partir de 16 de julho em Niterói
>>> Centro em Concerto - Palestras
>>> Crônicas do Não Tempo – lançamento de livro sobre jovem que vê o passado ao tocar nos objetos
>>> 10º FRAPA divulga primeiras atrações
>>> Concerto cênico Realejo de vida e morte, de Jocy de Oliveira, estreia no teatro do Sesc Pompeia
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> As fezes da esperança
>>> Quem vem lá?
>>> 80 anos do Paul McCartney
>>> Gramática da reprodução sexual: uma crônica
>>> Sexo, cinema-verdade e Pasolini
>>> O canteiro de poesia de Adriano Menezes
>>> As maravilhas do modo avião
>>> A suíte melancólica de Joan Brossa
>>> Lá onde brotam grandes autores da literatura
>>> Ser e fenecer: poesia de Maurício Arruda Mendonça
Colunistas
Últimos Posts
>>> Oye Como Va com Carlos e Cindy Blackman Santana
>>> Villa candidato a deputado federal (2022)
>>> A história do Meli, por Stelleo Tolda (2022)
>>> Fabio Massari sobre Um Álbum Italiano
>>> The Number of the Beast by Sophie Burrell
>>> Terra... Luna... E o Bitcoin?
>>> 500 Maiores Álbuns Brasileiros
>>> Albert King e Stevie Ray Vaughan (1983)
>>> Rush (1984)
>>> Luiz Maurício da Silva, autor de Mercado de Opções
Últimos Posts
>>> PANFLETO AMAZÔNICO
>>> Coruja de papel
>>> Sou feliz, sou Samuel
>>> Andarilhos
>>> Melhores filme da semana em Cartaz no Cinema
>>> Casa ou Hotel: Entenda qual a melhor opção
>>> A lantejoula
>>> Armas da Primeira Guerra Mundial.
>>> Você está em um loop e não pode escapar
>>> O Apocalipse segundo Seu Tião
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O problema do escritor
>>> Cadáveres
>>> A teoria do caos
>>> Ainda o mesmo assunto...
>>> Contradições da 30ª Mostra
>>> Chinese Democracy: grande disco
>>> 50 Anos de Preguiça e Insubmissão
>>> Dos Passos: duplamente grande
>>> 1992 e hoje
>>> 26 de Outubro #digestivo10anos
Mais Recentes
>>> Fragmentos de Flávio Freitas pela Contemporâneo
>>> Crime Improvavel de Luiz Carlos Cardoso pela Ficcoes (2010)
>>> Direito, Relações de Gênero e Orientação Sexual de Elida Séguin pela Letra da Lei (2009)
>>> Axé de Cremilda Medina - org. pela Usp Ed. (1996)
>>> Fome de liberdade de Gilney Amorim Viana pela Edufeb
>>> O Remanescente - no Limiar do Armagedom de Tim Lahayne; Jerry B. Jenkins pela United Press (2003)
>>> O Sabor do Mel - Trilogia Amores Possíveis - Vol 2 de Eileen Goudge pela Bertrand Brasil (2010)
>>> A Verdadeira História do Século 20 de Claudio Willer pela Córrego (2016)
>>> Benção Incondicional - a Felicidade é Possível de Howard Raphael Cushnir pela Nova Era (2003)
>>> A Garota Que Eu Quero de Markus Zusak pela Intrínseca (2013)
>>> História da Vida Privada no Brasil - Volume 1 de Fernando Novais; Laura de Mello e Souza (org.) pela Companhia das Letras (2002)
>>> Enciclopédia Filosófica de Roland Corbisier pela Civilização Brasileira (1987)
>>> Diário de um Yuppie de Louis Auchincloss pela Best Seller (1987)
>>> Contos Clássicos de Fantasma de Alexander M. da Silva; Bruno Costa (orgs) pela Sebo Clepsidra / Ex Machina (2020)
>>> Só o Amor Consegue de Zibia Gasparetto pela Vida e Consciência (2017)
>>> Paris de Patrick Jouin de Valerie Guillaume pela Instituto Tomie Ohta (2009)
>>> A Consciencia de Zeno de Italo Svevo pela Biblioteca Folha (2003)
>>> O Urubu e o Sapo/ O Velho e o Tesouro de Silvio Romero pela Paulus (2008)
>>> Novum Organum / Nova Atlântida (coleção os Pensadores) de Francis Bacon pela Abril Cultural (1979)
>>> O Que é Jazz, Rock e Música Sertaneja de Roberto Muggiati; Paulo Chacon; Waldenyr Caldas pela Circulo do Livro (1991)
>>> Medéia de Eurípedes pela Ateliê (2013)
>>> The Principles of the Internacional Phonetic Association de Varios Autores pela Phonetic Association (1979)
>>> O Cavaleiro Inexistente de Italo Calvino; Nilson Moulin pela Companhia de Bolso (2009)
>>> O Grande Cophta de Johann Wolfgang Von Goethe pela Aetia (2017)
>>> M. Teixeira Gomes: o Discurso do Desejo de Urbano Tavares Rodrigues pela Edições 70 (1982)
COLUNAS

Terça-feira, 18/5/2021
Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 4300 Acessos

Hoc visibile imaginatum figurat illud invisibile verum cujus splendor penetrat mundum ("Esta imagem visível representa a verdade invisível cujo esplendor penetra o mundo", Codex Hitda, ano 1000)



"Devemos reconhecer o indefinido como fenômeno positivo", conclama, Merleau-Ponty. O que se segue é um comentário sobre a obra Sem título, do artista Claudio Garcia:

Reunidas dentro de uma moldura azul, que é parte importante na obra, apresentam-se ao centro do quadro três camadas concentradas de cores palpáveis em sua individualidade, mas não menos ricas em texturas sobrepostas e/ou acasaladas. Uma espécie de pulmão pictórico respirando numa expansão e retração, onde podemos adivinhar como esta formação se coloca para a captura do observador: a camada mais clara cria a imagem semioval ao centro, sustentada por outra camada mais escura que a emoldura num fundo virtual.

O azul (cósmico?) é que mantém essa “porta para a eternidade” em suspensão. Atravessá-la, como se abríssemos uma janela imaginária, é o que propõe o artista para, como resultado, termos a possibilidade do mergulho no azul infinito e total que se advinha como chamamento da obra. Como se, no final, saíssemos do âmago da noite ao transpor o portal da arte e fôssemos conduzidos ao encontro da inextinguível vida do infinito.

A obra produz um estado de flutuação no espectador, como fruto de uma correspondência entre forças visíveis e invisíveis. Isso se dá, inicialmente, através da sutileza da fusão quase imperceptível de tom dentro de tom, de plano dentro de plano.

A superfície tem a delicadeza das cortinas de seda, sendo a sobreposição de texturas um caminhar da luz para a sombra e seu inverso, da sombra para a luz. Há miragens nessa bruma de cores sobrepostas e que se fundem numa complexa vida interior projetada dentro de uma moldura azul – um enquadramento cósmico - que a sustenta. Colocamo-nos, na verdade, diante de uma paisagem misteriosa, onde a superfície tem a delicadeza de um universo em nascimento.

Ao se misturar, as cores produzem matizes que infundem uma calma e serenidade por todo o quadro. O véu fino que daí resulta anula qualquer tensão ou apelo para pensamentos tortuosos, desvencilhando-nos, na qualidade de espectadores, progressivamente, da busca por uma definição do que se vê. Na medida em que nossa introvisão aumenta, nossa percepção muda e aquilo que é indefinido torna-se também nossa forma de “compreensão” ou experiência perceptual.

A relação entre transparência e opacidade captura nosso olhar, nos fazendo afundar numa atemporalidade que apaga toda a possibilidade de pensamento. As camadas sobrepostas pressupõem um caminho. Uma espécie de entrada no útero do universo. Como se ali estivesse colocado um vasto problema, de natureza metafísica, que se agita no íntimo da pintura. Uma experiência inelutável se impõe: quanto mais entramos pelas camadas vibratórias do quadro e seus matizes de cor, mais o pensamento morre de inanição. O quadro parece sussurrar: “Com paciência você sairá do seu Eu”. O que antes sentíamos na zona do pensamento, agora o sentimos no coração e no espírito.

Embora a pintura pareça bastar-se a si própria, sentimos sua necessidade de comunicar e exprimir-se em direção ao observador. Acaba-se lançado para dentro do seu universo que nos rodeia, envolve e controla nossas reações. Não há a possibilidade de indiferença após atravessarmos suas cortinas. Somos endereçados ao seu centro vívido, com a unidade de nossos sentidos abalada, apreendidos por uma realidade estranha, no entanto, insuperável, que é o fato de estarmos sendo esmagados por esse “outro” que é a arte.

Os contrastes de cores sendo evitados, a unidade da imagem é produzida por matizes delicados e tonalidades em degradé. Nesse resultado formal se instala o silêncio. O silêncio com que atravessamos a cortina de cores – já que entre elas não há ruído, pois o ar é de tranquilidade - nos faz voltar para dentro de nós como se tivéssemos, enfim, depois de capturados, compreendido com imperturbável clareza o significo do êxtase da união do Ser com o objeto – que é, afinal, o que a arte deve produzir.

Um sentimento de leve melancolia nos captura, como se a obra de Dürer tivesse tomado a forma abstrata. Aquilo que perdemos ao adentrar esses tecidos de cores talismânicas é que produz a melancolia. Já não somos homens de pensamento, pois os choques sensoriais conduzem-nos e dominam-nos em sua veemência silenciosa. É seu contraveneno ao discurso e o fermento necessário para a captura da consciência que, por isso, se põe em meditação.

Mas a melancolia não dura, pois a sensualidade da matéria pictórica em sua cálida existência corporifica uma sensação de que o espírito – abandonado do pensamento - é pura matéria em estado animado... que o espírito é uma parte do universo vibrante.

Adentrar o quadro é avançar numa caminhada na qual a consciência será lançada em um espaço onde se perderá. Nesse perder-se encontra os subterrâneos que escapam à luz da inteligência, mas que são depositários de uma experiência que, na falta de outro nome, chamaremos de transcendente. Aqui o sono da razão não produz monstros, ao contrário, abre a fenda para o sublime.

Há um comentário de René Huyge, no seu livro O poder da imagem, que sintetiza bem nossa abordagem da obra de Claudio Garcia:

"Mas, no extremo do visível, não haveria ainda um além, outra coisa que já não pertence ao seu domínio e onde o espírito pode encontrar novos campos abertos aos seus pensamentos, aos seus sonhos, às suas aspirações obscuras que nunca serão capazes de os esgotar? Há o infinito do espaço, do mundo físico, e esta noção já é esmagadora, mas há o infinito do que é outra coisa, do que não pertence nem ao espaço, nem à medida dos nossos sentidos. Nessa altura, não correrão o homem e os seus meios de apreensão o risco de se abolir?

Para ir além
Sem título. 80 x 71 cm; têmpera à base d’água. 2019. Claudio Garcia é gravurista, pintor, doutor em artes pela Unicamp e professor de gravura na Universidade Estadual de Londrina.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 18/5/2021


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O Guia Prático do Português Correto da L&PM de Marcelo Spalding
02. A literatura feminina de Adélia Prado de Marcelo Spalding


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2021
01. A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques - 31/8/2021
02. O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis - 17/8/2021
03. Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia - 18/5/2021
04. Cem encontros ilustrados de Dirce Waltrick - 20/4/2021
05. Poética e política no Pântano de Dolhnikoff - 23/3/2021


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O Poder Nu - Confira!
Albert Einstein
Rotterdan
(1994)



Viagens de Gulliver
Jonathan Swift
Atica
(2008)



Agaguk - Grandes Clássicos da Literatura Em Quadrinhos
Yves Theriault
Del Prado
(2015)



Carmem de Sevilha
Caroline de Ávila
Correio Fraterno
(2016)



Logística Transporte e Desenvolvimento Econômico Vol I
Josef Barat
Cla
(2007)



Life Styles Students Book 3
Francisco Lozano, Jane Sturtevant
Longman
(1989)



Iracema
José de Alencar
Solidez



Saint Andrew For Beginners
Saint Andrew For Beginners - Rennie Mc Owan
Rennie Mcowan
(1996)



A Inserção da Saúde Mental no Hospital
Leila Damasio Lopes
Ciência Moderna
(2000)



Queremos Natal Com Papai Noel
Ana Maria Bohrer
Atica
(2002)





busca | avançada
56914 visitas/dia
1,8 milhão/mês