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Terça-feira, 18/5/2021
Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 3100 Acessos

Hoc visibile imaginatum figurat illud invisibile verum cujus splendor penetrat mundum ("Esta imagem visível representa a verdade invisível cujo esplendor penetra o mundo", Codex Hitda, ano 1000)



"Devemos reconhecer o indefinido como fenômeno positivo", conclama, Merleau-Ponty. O que se segue é um comentário sobre a obra Sem título, do artista Claudio Garcia:

Reunidas dentro de uma moldura azul, que é parte importante na obra, apresentam-se ao centro do quadro três camadas concentradas de cores palpáveis em sua individualidade, mas não menos ricas em texturas sobrepostas e/ou acasaladas. Uma espécie de pulmão pictórico respirando numa expansão e retração, onde podemos adivinhar como esta formação se coloca para a captura do observador: a camada mais clara cria a imagem semioval ao centro, sustentada por outra camada mais escura que a emoldura num fundo virtual.

O azul (cósmico?) é que mantém essa “porta para a eternidade” em suspensão. Atravessá-la, como se abríssemos uma janela imaginária, é o que propõe o artista para, como resultado, termos a possibilidade do mergulho no azul infinito e total que se advinha como chamamento da obra. Como se, no final, saíssemos do âmago da noite ao transpor o portal da arte e fôssemos conduzidos ao encontro da inextinguível vida do infinito.

A obra produz um estado de flutuação no espectador, como fruto de uma correspondência entre forças visíveis e invisíveis. Isso se dá, inicialmente, através da sutileza da fusão quase imperceptível de tom dentro de tom, de plano dentro de plano.

A superfície tem a delicadeza das cortinas de seda, sendo a sobreposição de texturas um caminhar da luz para a sombra e seu inverso, da sombra para a luz. Há miragens nessa bruma de cores sobrepostas e que se fundem numa complexa vida interior projetada dentro de uma moldura azul – um enquadramento cósmico - que a sustenta. Colocamo-nos, na verdade, diante de uma paisagem misteriosa, onde a superfície tem a delicadeza de um universo em nascimento.

Ao se misturar, as cores produzem matizes que infundem uma calma e serenidade por todo o quadro. O véu fino que daí resulta anula qualquer tensão ou apelo para pensamentos tortuosos, desvencilhando-nos, na qualidade de espectadores, progressivamente, da busca por uma definição do que se vê. Na medida em que nossa introvisão aumenta, nossa percepção muda e aquilo que é indefinido torna-se também nossa forma de “compreensão” ou experiência perceptual.

A relação entre transparência e opacidade captura nosso olhar, nos fazendo afundar numa atemporalidade que apaga toda a possibilidade de pensamento. As camadas sobrepostas pressupõem um caminho. Uma espécie de entrada no útero do universo. Como se ali estivesse colocado um vasto problema, de natureza metafísica, que se agita no íntimo da pintura. Uma experiência inelutável se impõe: quanto mais entramos pelas camadas vibratórias do quadro e seus matizes de cor, mais o pensamento morre de inanição. O quadro parece sussurrar: “Com paciência você sairá do seu Eu”. O que antes sentíamos na zona do pensamento, agora o sentimos no coração e no espírito.

Embora a pintura pareça bastar-se a si própria, sentimos sua necessidade de comunicar e exprimir-se em direção ao observador. Acaba-se lançado para dentro do seu universo que nos rodeia, envolve e controla nossas reações. Não há a possibilidade de indiferença após atravessarmos suas cortinas. Somos endereçados ao seu centro vívido, com a unidade de nossos sentidos abalada, apreendidos por uma realidade estranha, no entanto, insuperável, que é o fato de estarmos sendo esmagados por esse “outro” que é a arte.

Os contrastes de cores sendo evitados, a unidade da imagem é produzida por matizes delicados e tonalidades em degradé. Nesse resultado formal se instala o silêncio. O silêncio com que atravessamos a cortina de cores – já que entre elas não há ruído, pois o ar é de tranquilidade - nos faz voltar para dentro de nós como se tivéssemos, enfim, depois de capturados, compreendido com imperturbável clareza o significo do êxtase da união do Ser com o objeto – que é, afinal, o que a arte deve produzir.

Um sentimento de leve melancolia nos captura, como se a obra de Dürer tivesse tomado a forma abstrata. Aquilo que perdemos ao adentrar esses tecidos de cores talismânicas é que produz a melancolia. Já não somos homens de pensamento, pois os choques sensoriais conduzem-nos e dominam-nos em sua veemência silenciosa. É seu contraveneno ao discurso e o fermento necessário para a captura da consciência que, por isso, se põe em meditação.

Mas a melancolia não dura, pois a sensualidade da matéria pictórica em sua cálida existência corporifica uma sensação de que o espírito – abandonado do pensamento - é pura matéria em estado animado... que o espírito é uma parte do universo vibrante.

Adentrar o quadro é avançar numa caminhada na qual a consciência será lançada em um espaço onde se perderá. Nesse perder-se encontra os subterrâneos que escapam à luz da inteligência, mas que são depositários de uma experiência que, na falta de outro nome, chamaremos de transcendente. Aqui o sono da razão não produz monstros, ao contrário, abre a fenda para o sublime.

Há um comentário de René Huyge, no seu livro O poder da imagem, que sintetiza bem nossa abordagem da obra de Claudio Garcia:

"Mas, no extremo do visível, não haveria ainda um além, outra coisa que já não pertence ao seu domínio e onde o espírito pode encontrar novos campos abertos aos seus pensamentos, aos seus sonhos, às suas aspirações obscuras que nunca serão capazes de os esgotar? Há o infinito do espaço, do mundo físico, e esta noção já é esmagadora, mas há o infinito do que é outra coisa, do que não pertence nem ao espaço, nem à medida dos nossos sentidos. Nessa altura, não correrão o homem e os seus meios de apreensão o risco de se abolir?

Para ir além
Sem título. 80 x 71 cm; têmpera à base d’água. 2019. Claudio Garcia é gravurista, pintor, doutor em artes pela Unicamp e professor de gravura na Universidade Estadual de Londrina.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 18/5/2021


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