Cavaleiros e o Inexplicável | Duanne Ribeiro | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 7/10/2014
Cavaleiros e o Inexplicável
Duanne Ribeiro

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Com a armadura despedaçada, o herói avança cambaleante pela longa escadaria. Flores entorpecentes ao redor lhe nublam os sentidos, os ferimentos acumulados em uma sequência de batalhas torturam seu corpo, os olhos nem se abrem mais, no entanto ele não esquece o custo pago por seus companheiros para que ele e só ele conseguisse chegar ali. Não esquece sobretudo o objetivo: salvar a vida de sua protegida e protetora, a reencarnação da deusa Atena, a quem resta não mais do que uma hora de vida. A cena tem o gosto do épico e tons de tragédia (ou mesmo do melodrama) e é extraída de um desenho animado: Cavaleiros do Zodíaco.

Criada na década de 1980 no Japão por Masami Kurumada e trazida ao Brasil em 1994, Cavaleiros é uma história do bem contra o mal, do conflito entre escolhidos para a defesa de Atena e as ameaças que surjam. Cada um destes é representante de uma constelação - são cavaleiros de Pégaso, Andrômeda, etc. Outros animes são melhores (como Evangelion), mas tenho apego por este. Assisti a ele há cerca de 20 anos; eu era uma criança e ainda me lembro da cena que abre esta coluna e outras. Existe na série uma ética peculiar, dor e conquista, sacrifício e superação, que permaneceu em mim. Foi por ter sido marcado que fui ao cinema assistir à anêmica nova versão Cavaleiros do Zodíaco - A Lenda do Santuário.

O filme desseca o original. Aquela ética deixa de existir; há apenas uma sucessão de lutas mal ajambradas em que o esforço por resistir e por se tornar mais capaz desaparece, sendo substituído por derrotas e vitórias igualmente simplistas. Não há evolução; só a passagem mágica do estado de fraqueza ao de força. A violência é também toda extirpada - até mesmo um personagem que incrustra as paredes de seu templo com os rostos de adversários mortos, que abre caminho ao inferno e que se chama "Máscara da Morte" se transmuta na adaptação em uma figura de produção da Disney, com cantoria e personalidade caricatural. Ninguém, daqui a 20 anos, vai escrever sobre ele no Digestivo. É uma obra para ser esquecida.

Fui por nostalgia ao cinema, é por nostalgia que escrevo este texto: algo que teve sentido, que foi forte e bonito nos limites do seu gênero, foi traído. Quero trazer à tona a força, beleza e significado que havia na série. Se vocês me permitem tratar com seriedade do que não se espera ser tratado assim, tentarei reaver tudo isso.

Conquista, Aprendizado, Persistência
Diferente dos super-heróis americanos, os heróis japoneses (em Cavaleiros, e de mesma forma em Yu Yu Hakusho e Dragon Ball) não recebem, de forma completa e inescapável, seus poderes. Principalmente, não "recebem": é quase sempre pelo treino que se tornam capazes do que são. Acaso e destino, palavras fundamentais para kriptonianos e mutantes, são menos importantes que a vontade contínua de conquista. Os quadrinhos americanos com frequência apreendem o poder como um fardo (nesse sentido, o lema do Homem-Aranha, "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades", é sintomático). Os japoneses veem nele sempre um degrau; são sempre longas viagens de desenvolvimento pessoal.

Em Cavaleiros, tornar-se dono de cada uma das armaduras exige o cumprimento de um desafio particular. Um precisa chegar ao ponto de poder inverter, com um soco, o fluxo de água de uma cachoeira. Outro, assassinar o próprio mestre. Além disso, o desenvolvimento cobra na carne. Por exemplo, após a primeira saga (a fase que é resumida pelo novo filme), as armaduras estão destruídas, e só podem ser regeneradas fruindo a vida dos portadores: eles cortam os pulsos e deixam o sangue escorrer sobre os pedaços de metal, que fluorescem e se recuperam.

Isso está ausente de A Lenda do Santuário. Não há esforço - o crescimento ou é instantâneo (o único caso é o do cavaleiro de Pégaso, Seiya, e ainda assim só pela transmissão do poder da divindade) ou inexistente. Pelo contrário, a série dá aos personagens oportunidades de transbordar limites. Primeiro, pelo aprendizado. Um dos lemas é "um cavaleiro nunca é atingido pelo mesmo golpe duas vezes" - o que implica num nietzscheano "o que não me mata me fortalece", um superar-se a partir do golpe tomado, do ferimento, do inimigo. Segundo, pela persistência, no tom do verso "não aprendi a me render, que caía o inimigo, então". O cavaleiro de Cisne, Hyoga, ainda tentando avançar, rastejando, após ter o corpo varado 15 vezes por ataques do cavaleiro de Escorpião, é um exemplar maior disto.

Também se torna insosso o grande significado da entrega que existe na produção original. Nesta primeira saga, os protagonistas precisam passar por doze "casas" - templos guardados por outros cavaleiros - em cerca de doze horas, sob risco de morte da deusa que protegem. A entrega se repete a cada vez que um fica para que os outros sigam (na nova versão, esse percurso é demasiado fácil e confuso). É sempre um sacrifício pelo outro, pelo "bem maior" do grupo. Mas nesse campo a cena icônica é a que segue. Hyoga é encerrado em um cubo de gelo. É libertado, todavia debilitado, e quase não apresenta sinais vitais. Um companheiro o abraça no chão e queima sua energia, exaura-se, põe-se em risco para aquecê-lo.

A Luta é Tudo Isso
A Lenda do Santuário tem qualidades. É bem humorado e as batalhas convencem até certo ponto. A personalidade dos cavaleiros principais é razoavelmente fiel e a animação em computação gráfica, por bem feita, deve ajudar a seduzir gerações mais novas. O melhor é o design das armaduras, modernoso, até mais verossímil em alguns aspectos (sobre fantasia e verossimilhança, leia esta coluna). Além do mais, um menino na fileira à frente pareceu se divertir, e ele deve saber mais de alguma coisa do que eu, que sou um velho.

Porém, insisto, a série a que eu e todas as crianças da minha idade assistimos acumulava todos aqueles significados ao longo das lutas. Sua narrativa era muita vez arrastada e de poucos recursos, mas compunha uma releitura mais poderosa da mitologia grega. Uma última imagem: no filme, os golpes são só energia sendo descarregada. Na série, mesmo que o "meteoro de Pégaso" apareça como vários pequenos globos de força, são de fato as mãos do cavaleiro usadas com tremenda rapidez. Isto é: o poder se enraíza no humano, na habilidade humana. Não existe nada de inexplicável, melhor, o inexplicável é alcançável - e só pelo empenho.


Duanne Ribeiro
São Paulo, 7/10/2014


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